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Quem não se convida é tão importante como quem se convida. Vale a pena lembrar o ano em que permitiram o acesso de Paris Hilton e Pamela Anderson à festa dos Óscares da Vanity Fair — um evento que acabou com a primeira a autografar a mama da segunda. “No dia a seguir, só se falava disso”. Anos mais tarde, Graydon Carter cruzou-se com Paris num concerto de Sheryl Crow e a socialite perguntou-lhe porque raio ela e a irmã haviam sido chamadas na sua revista de “eixo do mal”. Graydon refletiu um minuto e foi incapaz de situar o texto. Rebateu simplesmente: “Deves ter tirado isso do contexto”. “Bem me parecia”, disse Hilton.
Há muitas outras lições contidas na sua Magna Carter. É favor tomar nota: evite o wall of fame a todo o custo, ou seja, encher a secretária com selfies ao lado de famosos, a não ser que tenha a certeza de que a pessoa do outro lado terá feito o mesmo. Rejeite fórmulas como “a qualquer coisa de qualquer coisa”, ou “Beirute, a Paris do oriente”, ou “Aveiro, a Veneza portuguesa”, para uma aplicação doméstica. Se gosta muito de algo, compre sempre a dobrar, porque pode ser descontinuado, como o polo branco Lacoste que o autor em questão adora. Se organizar um jantar, crie cartões com os nomes dos convidados escritos de ambos os lados. Dispense monogramas: “É idiota”. Faça o que fizer, tem que ter um propósito. Não aprendemos com o sucesso, apenas com o fracasso. Nunca saia de casa sem um lenço de pano. Porque há hábitos que podemos e devemos manter, mesmo que os tempos não sejam tão reluzentes como antes.
Com ilustrações de Eric Hansen, a obra com selo da Grove Press, chegou ao mercado a 27 de março e está disponível na Amazon.
Carter co-fundou a universitária Canadian Review em 1973. Quando esta faliu, em 78, trocou Ottawa por Nova Iorque e agarrou com unhas e dentes um lugar na Time. Em 1986 lançou a Spy, para desassossego da elite norte-americana e de um “homenzinho vulgar com os seus dedos pequenos”, aka Donald Trump. Pensou que ia assumir as rédeas da cobiçada The New Yorker mas o magnata dos media Si Newhouse reservou-lhe outro plano em 1992: comandar as hostes de um porta-aviões chamado Vanity Fair, a quem estivera a fazer tiro ao alvo nos últimos anos. Em 2017, 25 anos depois, anunciou a sua saída. Dois anos depois, quando o digital já ganhara o devido avanço sobre o papel, lançou com Alessandra Stanley a Air Mail , que mantém ainda hoje, aos 75 anos.
▲ Jerry Della Femina, Graydon Carter, e Anthony Haden-Guest em novembro de 1988
Patrick McMullan via Getty Image
A era da abundância implica um regresso aos áureos anos 80 e 90, quando acumulava exclusivos como a revelação da garganta funda do Watergate, assistentes, escribas de topo, milhas no Concorde, check in nos melhores hotéis, e dólares na conta bancária. Nem tudo eram rosas: no começo em funções teve que informar o Pulitzer Norman Mailer que a sua reportagem sobre a Convenção Democrata de 1992 estava demasiado preguiçosa para ser publicada. Dramas do primeiro mundo das publicações, claro. Ao longo de mais de 400 páginas de When The Going was Good, uma edição Grove Press, o editor e diretor vai da infância aos cenários para a retirada de cena. “Às vezes penso que me devia ter reformado em grande, mudado para a Florida, tornado republicano e jogar golfe. Mas depois passa-me e continuo com a vida que adoro.” Partilhamos algumas das melhores histórias.
Há um objeto que o acompanha desde os primeiros tempos e publicações, até agora: um velho calendário do Royal Bank of Canada. “Tenho-o há mais e 50 anos e é um estimado talismã que me liga àquela revista falhada que mudou a minha vida para sempre.”. Graydon refere-se à revista literária Canadian Review, onde deu os primeiros passos. Quando deixou a universidade pendurada e rumou a Nova Iorque para tentar a sorte, bateu-se por uma oportunidade no seu último dia na cidade. “Preciso de trabalho agora!”, admitiu no encontro com o editor da prestigiada Time. O desespero deu os seus frutos. Foi contratado. Voltou a Ottawa para buscar as suas coisas e regressar de vez a Nova Iorque.
Se num dia estava a contar trocos, no outro estava já perfeitamente integrado nas décadas mágicas das publicações e na movida nova-iorquina. Quando trabalhou na Time não ligou o forno de casa durante cinco anos. Nos dias de fecho, funcionários vestidos a rigor circulavam pela redação com carrinhos de chá onde serviam o jantar e bebidas alcoólicas. De resto, havia um bar ao fundo de cada corredor.
A apresentação pode ser uma carta decisiva para sacar a meio de um jogo como estes. Instituição de Savile Row desde 1901, a Anderson & Sheppard é um bastião inglês da alfaiataria cuja fama corre mundo — e também conquistou Graydon (cujos fatos ali fabricados mantém até hoje). Aliás, foi graças a uma “cunha” do editor e amigo que Fran Lebowitz conseguiu que a célebre casa confecionasse fatos também para ela, numa rara exceção.
▲ Com a amiga Fran Lebowitz, autora e comentadora sardónica do habitat nova-iorquino
Getty Images
Curiosamente, um dos seus trabalhos mais evocados até hoje foi concretizado em registo de freelancer para a GQ e ronda o ano de 1984. Como precisava de dinheiro, Carter aceitou escrever um perfil de Donald Trump, então ainda a anos luz da presidência. Depois de ter passado três semanas a acompanhar o perfilado, o texto final incluía uma descrição física que incomodou Trump ao ponto de a repescar com regularidade. Graydon sublinhava as “mãos pequenas” de Donald, que se deu ao trabalho de lhe enviar fotos das suas mãos com a frase “veja, não são pequenas!”. Carter respondeu com renovada convicção: “Na verdade são pequenas”. Claro que a acrimónia só aumentou ao longo dos anos seguintes. Em 1986, para a o número de lançamento da Spy, dedicou-se à lista dos “1o nova-iorquinos mais aborrecidos”. E lá aparecia o “vulgar Donald Trump com os seus dedos pequenos”. Pelo caminho, e depois daquela GQ ter esgotado em banca, o proprietário da Condé Nast, Si Newhouse, convenceu-se a publicar The Art of the Deal, o livro que por sua vez motivou O Aprendiz, que de certa forma lançou a segunda metade da carreira de Trump como personalidade da media e depois presidente dos EUA. Porque isto anda tudo ligado.
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Em 1985, Graydon estava em Nova Iorque há sete anos, cinco na Time e dois na Life, quando conjeturou um plano aparentemente tão suicida como capaz de dar certo: lançar uma revista satírica sobre a fauna e a vida da cidade. E foi no seu próprio escritório ainda na Life que a ideia começou a ser gizada. Quando trocou a segurança (e aborrecimento) do lugar pela criação da Spy talvez não esperasse começar a receber imensos telefonemas de colaboradores dos principais grupos de media, da Condé Nast à Hearst, que se queriam mudar para a revista. A Spy celebrizou-se pelos conteúdos e registo mas a ousadia podia ter os seus limites. Carter admite que era perigoso escrever sobre restaurantes frequentados pela máfia. De resto, as instalações da revista ficavam paredes meias com o quartel general do clã Gambino e era hábito cruzar-se com o próprio John Gotti nas imediações.
A discrição era um trunfo e a invisibilidade ainda mais. Para a história da Spy passaram textos assinados por dois pseudónimos frequentes, Celia Brady e JJ Hunsecker, que semana após semana massacravam com a sua pena satírica e mordaz os editores do histórico The New York Times. A verve era extensível à Creative Artists Agency, a mais poderosa agência de talentos de Hollywood, que chegou mesmo a contratar um detetive para tentar descobrir a identidade dos dois autores, que, nota Graydon, se mantém hoje hoje um segredo bem guardado. No final do primeiro ano da Spy, Graydon e os sócios Kurt e Tom ganharam cada um deles 37,500 dólares.
Em 1991, antes de rumar à Vanity Fair, Graydon Carter trabalhou no semanário The New York Observer. Entrava às cinco e meia da manhã e colava post its nos computadores de todos os jornalistas com as tarefas que queria que desempenhassem. Ironias da vida, e voltando a Donald Trump, tanto o Observer como o Puck Building, a antiga morada da Spy, foram comprados por Jared Kushner, genro do atual presidente.
Os números são decisivos no episódio da sua transição para a VF, em 1992. Começam por oferecer-lhe 300 mil dólares/ano. Carter mente dizendo que já ganhava esse valor. “Quanto queres?” Respondeu “o dobro”. E assim foi. Só que o editor achava que ir rumar à sua cadeira de sonho, a The New Yorker, um segredo que deveria guardar nos próximos tempos, até ser formalmente revelado. Recorda que em casa usavam até o nome de código The Pencil para falar da revista. Mas em cima da hora do anúncio, Anna Wintour, um dos nomes mais salientes do império Condé Nast, avisou-o que o desfecho seria diferente. “Afinal é a outra. Faz de conta que ficas surpreendido”. A outra era a Vanity Fair, que Carter herdaria agora depois de Tina Brown seguir para a The New Yorker. Não havia como recusar — em casa já se vivia com base no novo e chorudo salário. O diretor ia agora encarar de frente o seu antigo alvo. À chegada, encontrou um ambiente “fúnebre”. “Era como ir da gestão da boys band One Direction para a orquestra Metropolitana”.
Com Anna Wintour, a mítica editora da Vogue (numa das raras fotos sem óculos escuros) numa festa da Burberry em Nova Iorque
Estava apenas há poucas semanas no cargo quando teve (pelo menos) duas missões espinhosas. Despedir elementos desnecessários e dizer não a um veterano. Marina Schiano, a stylist da revista, ganhava 350 mil dólares ano por oito capas– e por ajudar Tina Brown, a antiga editora chefe, a escolher a roupa de manhã. Graydon não precisava de um serviço como este. Na primeira semana, Schiano e outras duas pessoas foram afastadas. Ato contínuo, levou o seu livro de cheques até Christopher Hitchens. Mas teve que gerir outra questão e ego. Figura da casa, Normal Mailer trouxe um péssimo texto da convenção democrata de 1992 no Madison Square Garden — “podia ter feito aquele texto pela TV”. “Só estava há umas semanas no lugar e ia criticar um duas vezes vencedor do Pulitzer dizendo-lhe que não ia publicar o artigo.” No verão desse ano, Mailer fora também destacado para acompanhar a convenção republicana em Houston. Carter preferiu cortar o mal pela raiz, pagou os trabalhos e eles nunca saíram.
Nem tudo era mau. Fair Vanity era como “viver num hotel de cinco estrelas”. Duas assistentes (“toda a gente tinha assistente”), facilidades para comprar casa, flores enviadas regularmente aos colaboradores (pelo simples facto de cumprirem prazos) , voos no concorde, três voltas ao mundo por ano. Check in no Connaught em Londres, Ritz e Paris, Hotel du Cap no sul de França. Beverly Hills ou Bel-Air em Los Angeles, suites, room service, motorista. Ah, e uma vez por mês, desde há vinte anos, uma esteticista chamada Maribeth Madrow vinha fazer as sobrancelhas a toda a gente.
Sempre achou que havia editores porque o público não sabe exatamente o que quer, temos que ser consistentes mas não previsíveis, e confiar nos nossos instintos. Começou a trabalhar isto ainda no liceu, quando se estreou na revista literária Canadian Review. Nos bons velhos tempos, uma página de publicidade na Vanity Fair facilmente custava 100 mil dólares. Todos os meses, Graydon escrevia uma carta de agradecimento a cada anunciante.
Um dos furos mais virais foi a história da filha de Tom Cruise e Katie Holmes. Jane Sarkin e Annie Leibovitz satisfizeram a obsessão nacional ao mostrar a primeira filha do casal – já se especulava que podia ter sido raptada pelos cientologistas, ou não ser filha de Tom, ou não ser filha de Katie sequer. Carter ainda congratula-se pelo impacto que uma revista mensal conseguiu provocar quando avançaram com a história sobre mudança de género de Bruce Jenner para Caitlyn Jenner. “Call me Caitlyn” foi a deixa vencedora que Carter escolheu para título. No dia seguinte, Obama dava os parabéns, Caitlyn juntou-se ao Twitter e num ápice angariou um milhão de seguidores, recorde de rapidez até então mantido pelo próprio Obama.
▲ Com o então casal Tom Cruise e Katie Holmes
WireImage for Vanity Fair Magazi
As reportagens que não chegavam a ser publicadas ao fim de um ano acabavam por sair de circulação, excetuando um caso, como a “Nazi Canoe Trip”, escrita por William Prochnau e Laura Parker, que Carter publicou por fim antes de se reformar, em 2017, depois de vários adiamentos do planeamento. Narrava a saga de Oskar Speck, o alemão que fugiu do seu país em 1932 e empreendeu uma viagem de caiaque ao longo de anos, e que morreu pouco depois da publicação do artigo. Por outro lado, a maior batalha judicial na Vanity Fair envolveu Al-Fayed, depois de Maureen Orth ter escrito um artigo de 1995 intitulado “Holy War at Harrods”, sobre as acusações de assédio sexual. Mohamed Al-Fayed acusou a revista até de racismo mas acabaria por deixar cair a acusação. Trinta anos depois, coube à BBC retomar o assunto, com centenas de mulheres o acusarem o antigo dono do Harrods de conduta imprópria.
Quando trabalhava na Time no começo dos anos 90 foi enviado a LA para cobrir os Óscares. Cabia então a Irving Lazar, ou “Swifty”, organizar a grande festa — Carter admite que chegou a ser barrado. Depois da sua morte, em 1993, com o glamour de Hollywood em queda, Graydon haveria de relançar o evento e tornar-se o anfitrão da festa da Vanity Fair. No restaurante Mortons acolheria assim um número discreto de pessoas, de Mick Jagger a Nancy Reagan. Ao fim de quatro edições, já dominava o jogo e o dilema era quem não convidar. Dias antes, o seu telefone não parava de tocar. “Se não tinhas sido convidado, o melhor era estares fora da cidade”. Por regra, a sua mesa inclui Barry, Diane, Mitch e Kelly, Mick, Fran, Ronald Perelman, Elle Barkin e dois convidados surpresa, “Larry David ou Colin Firth”. Fechar a lista era uma tormenta: começavam com 500 nomes e tinham que riscar aspirantes até aos 150. Um dia Courtney Love implorou-lhe para deixar entrar o seu agente. “Ele tem o meu dinheiro, as minhas chaves, e a minha droga”. Algumas estrelas desviavam os frascos XL de perfume Chanel na casa de banho e Adrien Brody foi mesmo apanhado a roubar um candeeiro de mesa. Harvey Weinstein chegava com mais convidados do que era suposto e arranjava sarilhos à porta. Haveria de ser banido das festas.
Graydon também produziu documentários como Gonzo, sobre o lendário jornalista Hunter Thompson, e tem créditos no IMDB. O seu escritório da Vanity Fair no edifício da Condé Nast, ao pé de Times Square, foi usado por Robert Redford no filme de 1998 O Encantador de Cavalos. E por Cameron Crowe no filme Vanilla Sky, com Tom Cruise e Penélope Cruz, em 2001. Nenhum dos títulos foi especialmente bem sucedido, lamenta Carter, mas quando se mudou para outro edifício o escritório entrou em Succession. “Finalmente um sucesso!”
De todas as figuras com quem se cruzou ao longo dos anos, há uma enigmática, e que provavelmente mais curiosidade gera no público. Carter conheceu Anna Wintour quando esteve na House and Garden, em 1987. Segundo o autor, a famosa editora da Vogue, anfitriã da não menos mítica Met Gala, chega sempre cedíssimo a todos os compromissos, e nunca sabemos que Anna vamos encontrar, se a acolhedora e leal amiga, se a fria e leal amiga. “Jantar com ela é uma experiência de eficiência que um especialista da McKinsey iria apreciar”. Não é preciso ver o menu. “Bife, mal passado”, é sempre a sua escolha. Outro astro da publicação era a fotojornalista Annie Leibovitz. A certa altura, ao renegociarem o vínculo, a diferença entre o que o agente de Annie pedia e o que a revista queria dar chegava aos 250 mil dólares “oh, dá-lhe isso, não vamos agora regatear ninharias”, disse Si, o chairman. Outro fun fact delicioso para contar em jantares: a foto do passaporte de Graydon Carter foi tirada por Leibovitz.
▲ Em 2004, em Los Angeles, com a fotojornalista Annie Leibovitz
Patrick McMullan via Getty Image
Ao contrário do que se pode pensar, Carter raramente saía à noite, exceção feita ao serão dos Óscares, e uma ou duas ocasiões por ano que obrigam a outfit formal. Gostava de ir jantar com a família e outro casal ao Da Silvano, Saint Ambroeus ou Il Cantonari. Saía cedo da redação, pelas cinco e meia, e não falava de trabalho em casa, “a não ser que a história fosse divertida”. Num encontro com Si e a mulher perguntaram-lhe certa vez se colecionava arte. “Não, sou um diretor de revistas com cinco filhos, coleciono as propinas que tenho que pagar.” Passava boa parte do seu tempo no sul de França, onde lançou a Air Mail, a etapa mais recente do seu curriculum. E adorava carros em segunda mão. Vendeu a enorme casa em Bank Street — tinha tantos andares, cinco, que quando se esquecia de algo lá em cima “preferia mandar vir outra da Amazon” — e comprou um duplex não muito longe, em Greenwich Village. Os escritórios da Air Mail ficam perto. É muito picunhas com os lápis, uma mania que vem da infância, quando o pai os afiava com uma faca. Graydon compra os seus vintage 5H online. Tem milhares espalhados por todo o lado.
Carter chegou a ser eleito um dos 10 canadianos mais sexy pela Macleans’magazine, a versão canadiana da Time. “A minha mãe ligou-me a dizer que estava muito orgulhosa.”