O cliente, um homem de idade já avançada, tinha acabado de atestar o depósito do carro quando, ao dirigir-se à loja para fazer o pagamento, a luz foi abaixo. Passavam poucos minutos das 11h30 e estava a começar o apagão que, na última segunda-feira, deixou o país às escuras. Nesta gasolineira da Galp, em frente ao Estádio Municipal Mário Wilson (Oeiras), existe um sistema de reserva de energia (UPS) mas está com avaria há alguns dias, à espera de ser substituído. O cliente não tinha dinheiro físico mas, mesmo que tivesse, não havia acesso ao sistema, para saber o valor exato que era devido.
“Por sorte, era o único cliente que estava a abastecer naquele momento e, pensando que seria algo momentâneo, sentou-se no interior da loja, a ler um jornal, durante quase meia hora à espera que a eletricidade voltasse. Mas acabei por dizer-lhe para se ir embora e pedir que, se não se importasse, deixasse a matrícula do carro”, diz ao Observador um funcionário que gere a bomba. No dia seguinte, logo de manhã, o cliente voltou para acertar contas.
Nesta gasolineira, foi a fé do funcionário na seriedade de um cliente (que não conhecia) que desbloqueou o problema da impossibilidade de fazer pagamentos em várias lojas e serviços. Mas no Cacho Dourado, um restaurante na zona do Marquês de Pombal, centro de Lisboa, só se serviu os “clientes habituais, fiado, ou aqueles que tivessem dinheiro” físico.
Neste restaurante, um dos poucos naquela zona que abriram as portas à hora de almoço, serviu-se aos clientes “o que já tinha sido feito e que estava quente, como a sopa – e pão, também”. Mas, diz um dos gerentes, “foi um dia para esquecer, muito prejuízo, muita comida que teve de ser mandada para o lixo” porque não se podia confecionar.
Mesmo restaurantes que têm fogões e fornos a gás não puderam, na generalidade dos casos, servir refeições, já que o sistema de segurança anti-fugas bloqueia a saída de gás quando não há eletricidade. Além disso, os sistemas de extração de fumos também funcionam a eletricidade.
Porém, num outro restaurante mais pequeno na zona das Olaias, em Lisboa, foi possível servir algumas refeições cozinhadas a gás mas, no final, foi o papel e a caneta – e, mais uma vez, a confiança – que valeram. Foram anotados os gastos de cada cliente que não conseguiu pagar, para que as contas pudessem ser acertadas mais tarde.
▲ Restaurantes dizem ter deitado muita comida fora, por não ter sido possível confecionar.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“Almocei com três colegas de trabalho e, no final, quando fomos pagar, o primeiro ainda conseguiu usar o cartão mas o segundo já não conseguiu, mesmo tentando várias vezes com diversos cartões“, conta um cliente desse restaurante à reportagem do Observador. O terminal de pagamento ligado à rede Multibanco tinha energia, porque é alimentado por uma bateria interna, mas deixou de ser possível fazer a comunicação, através dos dados móveis, com o servidor da SIBS.
“Acabei por ser eu, que por acaso tinha levantado no fim de semana e tinha notas na carteira, a pagar o almoço aos outros dois colegas – já outros clientes ficaram de pagar noutro dia, quando isto passasse”, afirma este cliente.
Notas e moedas não entram aqui. As lojas que já só aceitam pagamentos com cartão
Na altura, perto das 13h00, fonte oficial da SIBS disse ao Observador que os sistemas estavam “operacionais e a funcionar dentro dos constrangimentos atuais”. Os servidores da SIBS nunca deixaram de funcionar, graças a geradores e outros mecanismos de reserva que dariam para vários dias sem luz – mas o problema é que, por essa altura, começaram a falhar as comunicações móveis que são essenciais para que os pagamentos sejam feitos.
A partir da hora de almoço, as comunicações passaram a funcionar de forma intermitente e, ao longo da tarde, perderam-se por completo – em diferentes horas, conforme as operadoras e as zonas do País.
Também os meios de transferências digitais, como o MBWay da SIBS, mantiveram-se ativos – mas só ao alcance de quem mantinha acesso a uma rede wifi ou dados móveis funcional (cada vez menos pessoas à medida que o dia avançava).
Como na Covid, bancos fecharam a porta aos clientes, salvo situações pontuais
As sucursais dos bancos, de uma forma geral, tiveram de fechar a porta aos clientes. “Os que estavam no interior, quando a luz foi abaixo, continuámos a atendê-los, fazendo o que era possível fazer, mas a porta foi logo fechada à chave assim que percebemos que não era uma coisa momentânea”, diz ao Observador o funcionário de uma sucursal do banco Santander na Grande Lisboa.
A partir daí, a porta esteve sempre fechada, exceto para casos muito pontuais de “clientes que já tinham marcação para, por exemplo, vir trazer documentação ao banco, como em processos de crédito à habitação – só abrimos a porta nesses casos”.
Oficialmente, fonte do banco Santander disse, pelas 15h00 de segunda-feira, que “a maioria” dos balcões se tinha mantido “operacional durante o horário habitual, com eventuais ajustamentos locais”. Mas além desse funcionário da Grande Lisboa, outro do Alentejo confirmou que, também na sucursal onde trabalha, “poucos minutos após o [início do] apagão, houve ordem para encerrar as agências“, passando para um atendimento só à porta fechada e em situações pontuais, “por razões de segurança e para salvaguarda da capacidade dos geradores”.
As caixas automáticas à entrada das sucursais, ligadas à rede elétrica, deixaram de funcionar, acrescentou a mesma fonte. Isso impediu não só o levantamento de dinheiro pelos clientes mas impossibilitou, também, o trabalho de reconciliação de valores que os funcionários fazem habitualmente nessas máquinas, ao final de cada dia.
O Observador questionou, nesta quarta-feira, fonte oficial do Santander sobre esta discrepância de relatos, e o banco manteve a descrição feita na segunda-feira: “Os nossos balcões continuaram a atender os clientes que se dirigiram aos mesmos. Naturalmente, foram feitos alguns ajustamentos, previstos no Plano de Continuidade de Negócio, sempre dando prioridade à segurança de todos. Em muitos casos, as equipas mantiveram-se em atendimento para além do horário de abertura ao público, garantindo o melhor serviço possível perante as circunstâncias”.
▲ Millennium BCP confirmou, logo após o início do apagão, que as sucursais estavam encerradas.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Outros bancos, da Caixa Geral de Depósitos ao Millennium BCP, passando pelo BPI, confirmaram poucas horas após o início do apagão, ao Observador, que o atendimento presencial tinha sido, basicamente, interrompido. “As agências da Caixa Geral de Depósitos estão a atender os clientes à porta fechada, por motivos de segurança”, indicou fonte oficial do banco público, salientando que os serviços de homebanking e a app estavam “a funcionar na normalidade”.
Na mesma linha, o Millennium BCP acrescentou, desde logo, que além dos serviços digitais, “a disponibilização dos demais serviços [como o atendimento presencial] será reposta na medida em que as falhas de energia deixem de se verificar nas localidades nas quais os clientes pretendam utilizá-los”. Por outras palavras, as portas das sucursais dos bancos foram fechadas e só reabertas no dia seguinte – até porque não havia ligação que me permitisse dar informações às pessoas ou avançar em processos de crédito ou outros.
Ao que o Observador apurou, no BPI nunca houve uma instrução para não atender as pessoas, como clientes que iam entregar papéis de crédito habitação, mas tudo foi feito à porta fechada – em moldes semelhantes aos que se viram nos piores momentos da pandemia de Covid-19, indicou uma fonte contactada pelo Observador. Por outro lado, o Novo Banco não respondeu ao pedido de informação feito na segunda-feira, mas o “cliente-mistério” do Observador confirmou nesta quarta-feira, numa agência na linha de Cascais, que o cenário foi semelhante: porta fechada, computadores com acesso apenas ao e-mail interno. Até que também os computadores acabaram por se desligar, por falta de energia.
“A única coisa eletrónica que trabalhou – e muito – foi a calculadora, a pilhas”
No A.M. Frutas, uma frutaria próxima do Parque dos Poetas, em Oeiras, a “única coisa eletrónica que trabalhou – e muito – foi a calculadora, a pilhas“, que serviu para fazer a conta das compras feitas pelos muitos clientes que ali se dirigiram para comprar alimentos – não só fruta mas também bolachas, garrafões de água e vários outros produtos. “Foi o caos“, recorda um funcionário, lembrando a enorme afluência de clientes ao longo da tarde e confirmando que todos os pagamentos foram feitos em dinheiro vivo, já que “as máquinas [TPA] deixaram logo de funcionar“.
Pela mesma altura, na farmácia que fica na estação de serviço da A5, no sentido Lisboa-Cascais, não foi a calculadora que salvou o dia mas, sim, um documento Excel que continha os preços atualizados dos milhares de medicamentos que ali se vendem. “As pessoas que aqui vieram naquela tarde, naturalmente, não vieram para comprar a medicação do mês – vieram com situações agudas, em que precisavam mesmo dos remédios com urgência”, diz ao Observador Catarina Oliveira, funcionária desta farmácia.
“Muitas farmácias fecharam a porta aos clientes, sob o pretexto de usarem o robô que vai buscar os medicamentos – e que sem luz não funciona. Nós também usamos um robô mas fomos, mesmo assim, capazes de localizar os medicamentos necessários para os clientes”, diz a farmacêutica, acrescentando que “o problema foi que os medicamentos [sujeitos a receita médica] deixaram, no início de 2024, de ter o preço impresso na embalagem e, por isso, o que nos valeu foi uma folha de Excel que eu tinha no meu computador portátil, cuja bateria costumo carregar todos os dias logo de manhã”.
Nos casos dos medicamentos sujeitos a receita médica, foi feita “venda suspensa”, explica Catarina Oliveira, um método em que o medicamento é dispensado ao doente mas este assume a responsabilidade de levar a receita à farmácia, assim que possível. O método habitual de validação das prescrições é o SMS no telemóvel, mas na impossibilidade de usar esse método alguns clientes traziam consigo receitas em papel, acrescenta a farmacêutica.
E como é que, depois, os clientes pagaram os medicamentos? A farmacêutica recorda que o terminal de pagamento deixou imediatamente de funcionar, logo que falhou a luz, pelo que só foi possível fazer vendas a dinheiro: “houve três clientes que não tinham dinheiro, só cartão, mas foram a casa buscar dinheiro e voltaram”.