As celebrações continuam. No passado dia 2 de dezembro, no MAAT Central, em Lisboa, teve lugar a quarta e penúltima conversa do ciclo de conversas que celebra os 20 anos da Fundação EDP. Depois do papel das fundações, ao impacto da comunidade e da transição energética, chegou altura de se falar sobre algo fundamental e que nos molda a todos, sem exceção: o pensamento.

Numa conversa moderada pela host do Observador, Carla Jorge de Carvalho, o tema contou com as contribuições de José Manuel dos Santos, Administrador da Fundação EDP e Diretor da revista ELECTRA, António Guerreiro, Ensaísta e Jornalista, e Graça Castanheira, realizadora de cinema e colunista na imprensa. E, como não podia deixar de ser, dedicou-se tempo do debate ao trabalho desenvolvido, desde 2018, pela revista do pensamento – a ELECTRA, uma revista internacional, editada pela Fundação EDP, que privilegia a crítica e a reflexão cultural, social e política da atualidade. Assim sendo, como é que se pode pensar para este tipo de conteúdo?

José Manuel dos Santos, Diretor da revista ELECTRA, tomou as rédeas do início da conversa: “Eu diria que pensar é ter ideias e fazer uma revista é ter ideias, mas a especificidade da ELECTRA é que nós temos ideias para tentar captar o pensamento que seja o pensamento mais interessante sobre o tempo que estamos a viver e sobre o nosso mundo. Portanto, pensar para nós é, em primeiro lugar, escolher. Escolher os temas, escolher os autores. Escolher da maneira mais criativa e, ao mesmo tempo, que constitua uma exceção em relação a um certo movimento de repetição a que talvez a rapidez do nosso tempo tenha levado”.

E nesse aspeto, essas escolhas são sempre decisivas”, junta-se à conversa António Guerreiro, editor da ELECTRA, acrescentando: “Se queremos uma revista de pensamento, somos obrigados a escolher temas que são pertinentes enquanto objeto de pensamento. É função exatamente desse programa, que é o de nos situarmos no interior de uma determinada época, cujas características vamos procurando definir como se fôssemos uma espécie de sismógrafos”.

Para o editor, a ELECTRA distingue-se, assim, de dois tipos de discurso. Por um lado, “o discurso jornalístico, os media. Cumprem a sua função, mas é uma função que não é aquela que nós cumprimos, o espaço que nós ocupamos. E, por outro lado, no polo oposto, o discurso universitário, que pensa de outra maneira, que tem os seus procedimentos, os seus métodos, o seu tempo próprio, que também não é o tempo próprio da nossa revista”.

Se é verdade que cada um destes discursos ocupa o seu tempo, também no que ao pensamento diz respeito, que espaço ocupará o corpo no meio de tudo isto? É possível pensar, utilizando-o? Graça Castanheira afirma, sem hesitar que sim. “Nós pensamos com todas as informações que vêm do corpo. Os intestinos têm milhões de neurónios, o coração tem milhares de neurónios e, depois, toda esta circulação circula no corpo e informa o pensamento. E isso é muito interessante. Nós não pensamos separados do corpo, mas através do corpo. Mas, para mim, não é só o corpo poder pensar, tem de agir”.

Ao longo da conversa ficou claro que as mudanças a que assistimos no mundo também modificam a forma como pensamos sobre ele. Como pensamos, no geral. Se tudo se quer “para ontem”, se o espaço para conteúdos que requerem tempo para ser absorvidos é cada vez mais escasso, ainda sobra tempo para pensar?

“Eu acho que estamos a viver este mundo um bocadinho simplista e superficial. Evidentemente, nós podemos começar pela pergunta básica aqui para a nossa conversa – o que é pensar? Toda a gente pensa. Pensar é aquilo que nós não podemos deixar de fazer a todo o momento. Nem nos conseguimos imaginar numa interrupção do pensamento. É evidente, aqui, quando falamos do pensamento no sentido em que nós estamos aqui a falar, provavelmente para o definir temos de pensar naquilo que é o seu contrário. E o contrário do pensamento é, por exemplo, o lugar-comum. Isto é, a repetição de ideias que se difundem, que circulam, sem jamais serem interrogadas e que correspondem, muitas vezes, a algo fraudulento, a uma mentira. Mas a uma mentira que se naturaliza”, partilhou António Guerreiro.

Para a realizadora de cinema e colunista na imprensa, Graça Castanheira, o otimismo pode ser a chave para se perspetivar um futuro onde não deixará de haver espaço para pensar. “Eu acho que há sempre espaço para a complexidade desde que se abram trincheiras. Há um dever de otimismo. E enquanto houver corpo e houver vida, não há escapatória, temos que estar cá. Há um dever de não ter medo da pedagogia, de partilhar aquilo que se sabe, de traduzir por miúdos. Eu acho que aquilo que aconteceu foi: destruiu-se a casa. Em vez de abrir portas, destruiu-se a casa e as pessoas ficaram genericamente ao relento, a lidar com a complexidade criptografada do pós-modernismo”, reforçou.

Quando chegou a altura de falar no futuro, não seria possível prosseguir a conversa sem trazer para o diálogo um tema crucial nos dias que correm: a inteligência artificial. Como é que o pensamento se poderá interessar pela inteligência artificial? José Manuel dos Santos propõe o contrário: “Como é que inteligência artificial se vai interessar pelo pensamento? Porque eu acho que isso é que vai ser o grande desafio. Provavelmente vamos ter grandes surpresas nessa matéria”. Ainda que esta nova ferramenta surja com a ideia associada de substituição de várias tarefas e ações, pensar por nós ainda não será uma delas. Mas Graça Castanheira deixa um aviso. Para ela, é necessário que não se menospreze a Inteligência Artificial, da mesma forma que acredita ter-se feito com a televisão. “É preciso estar dentro. É preciso conhecer, é preciso participar, é preciso ajudar a legislar, é preciso lutar por isso, mas por dentro”, remata.

A conversa terminou com um desejo: o de que nunca falte tempo para se pensar e para se falar sobre isso. Mesmo numa altura em que a velocidade nos exige respostas diferentes e desafiantes, o Pensamento terá de continuar a fazer parte da nossa história, obrigando-nos a olhar para o mundo de uma forma crítica e informada. Para que “pensar fora da caixa” continue a ser possível.