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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Corina Machado: "Não encontrei um único venezuelano ofendido" com a entrega do Nobel a Trump

Em entrevista, María Corina Machado defendeu Trump: "A justiça internacional não agiu, mas Trump agiu." Líder da oposição venezuelana veio discutir com Montenegro presos políticos e transição.

María Corina Machado garante que nunca ouviu de nenhum venezuelano que ficou “ofendido” com a entrega da medalha do Prémio Nobel da Paz ao Presidente norte-americano, Donald Trump. De visita a Lisboa, a líder da oposição ao regime de Caracas diz que os venezuelanos sabem que “o Presidente Trump é o único chefe de Estado que arriscou a vida de alguns dos seus cidadãos para promover a liberdade na Venezuela”.

Numa entrevista conjunta ao Observador, à TVI e à RTP, ao final da manhã desta quarta-feira, antes de se encontrar com o primeiro-ministro Luís Montenegro, María Corina Machado manteve sempre o tom elogioso em relação a Donald Trump. E justificou os motivos: “Devo dizer que a justiça internacional não agiu. Milhares de venezuelanos foram assassinados e as suas vidas foram destruídas. E o atual Presidente dos Estados Unidos agiu.”

Sobre a Europa, María Corina Machado garantiu que, no seu périplo por várias capitais europeias, recebeu vários apoios. “Acredito que haja um pleno entendimento de que o que está a acontecer na Venezuela tem um enorme impacto em toda a América Latina, mas diria ainda mais: também tem impacto em todo o Ocidente”, declarou a líder da oposição venezuelana, que, antes da entrevista, se encontrou durante 50 minutos com apoiantes da oposição venezuelana em Portugal.

▲ María Corina Machado no encontro com os apoiantes esta quarta-feira

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Corina vai falar com Montenegro sobre presos políticos e transição venezuelana: “Claro que falaremos isso”

Vai ter uma reunião com o primeiro-ministro, Luís Montenegro. Gostaria de saber o que espera dessa reunião e também como, na sua opinião, deveriam ser as relações entre o Governo português e Delcy Rodríguez.
Antes de mais nada, estou feliz por estar em Portugal. Não sei se sabe, mas tenho raízes neste país. Os meus antepassados ​​vieram de Portugal, e já há muito tempo que não vinha cá. Mas, acima de tudo, porque a comunidade portuguesa luso-venezuelana é extraordinária. E tem contribuído de forma espectacular para o tecido social, para o empreendedorismo e para o desenvolvimento da Venezuela há gerações. Muitos tiveram de partir, foram perseguidos, tiveram os seus bens confiscados, mas aqueles que partiram querem voltar. E a mensagem fundamental que transmito aos venezuelanos que estão aqui é que comecem a arrumar as malas, porque vamos precisar deles de volta.

Durante a transição?
Num contexto de transição. Obviamente, aqueles venezuelanos que tiveram de partir, que abandonaram tudo, não vão voltar enquanto o mesmo sistema criminoso que os perseguiu continuar em vigor. É por isso que todos estão à espera para ver se uma transição realmente acontece.

E vai discutir isso com Luís Montenegro?
Claro, falaremos sobre esse assunto, entre outros. Ainda há três presos políticos portugueses na Venezuela. E dois deles trouxeram os seus filhos aqui hoje.

▲ María Corina Machado vai falar com Montenegro sobre os três presos políticos portugueses que estão na Venezuela

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O que lhes disse?
Que não estão sozinhos. Não vamos parar de lutar, a nossa prioridade é a libertação de todos os presos políticos, tanto civis quanto militares. Mas isso não basta. Queremos ir além disso. Porque, afinal de contas, trata-se da libertação de toda a Venezuela, e isso inclui um calendário eleitoral com uma data definida para as eleições.

Em quanto tempo, mais ou menos?
Assim que as condições estiverem reunidas, o mais rápido possível.

E como é que as pessoas vão entrar no país, pelo aeroporto ou por algum outro esconderijo?
Nós, venezuelanos, sabemos muito bem como é que os direitos devem ser exercidos. E a Venezuela já é um lugar diferente desde 3 de janeiro. Construiu-se uma barragem enorme que foi se enchendo aos poucos, de energia, amor, sonhos e também de muitas humilhações e perdas. E abriu-se. E o que estamos a ver é um país a começar a voltar às ruas. E o regime está a ser forçado a desmantelar gradualmente um sistema repressivo.

[Veja a entrevista completa:]

“Não encontrei um único venezuelano que se sinta ofendido” com a entrega do medalha do Nobel da Paz

Muitos venezuelanos sentiram-se quase que ofendidos com a entrega do seu Prémio Nobel a Donald Trump. Que tipo de apoio tem de Trump neste momento?
Não encontrei um único venezuelano que se sinta ofendido, e que tenha me dito isso. Pelo contrário, nós, venezuelanos, sabemos que o Presidente Donald Trump é o único chefe de Estado que arriscou a vida de alguns dos seus cidadãos para promover a liberdade na Venezuela.

▲ María Corina Machado garante que ainda não encontrou nenhum venezuelano "ofendido" com a entrega da medalha do Prémio Nobel da Paz a Donald Trump

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Visitou muitos países europeus. Sentiu o apoio da Europa à sua causa?
Absolutamente. Principalmente por parte das pessoas, foi muito emocionante. Desde o momento em que cheguei ao aeroporto de Lisboa, notei como as pessoas se aproximam de nós. E claro, se são venezuelanos, isso já se espera. Mas quando são portugueses, espanhóis ou franceses, dizem-nos que a liberdade da Venezuela também é uma causa deles. Os chefes de Estado, claro, nos parlamentos, também estão cientes. Acredito que haja um pleno entendimento de que o que está a acontecer na Venezuela tem um enorme impacto em toda a América Latina, mas eu diria ainda mais: também tem impacto em todo o Ocidente.

Existe uma comunidade venezuelana enorme em Madrid. Mas esteve em Espanha e não se encontrou com o presidente Pedro Sánchez. Porque é que ele fez isso?
Em Espanha, vimos dezenas de milhares de cidadãos nas ruas. Sabe o que a polícia me disse naquele dia, no sábado passado? Parece que foi há um mês, mas foi apenas há alguns dias. Disseram: “Não víamos nada assim desde que ganhámos o Campeonato do Mundo.” Não só pela quantidade de pessoas que encheram a Porta do Sol, mas principalmente pela energia. Porque eram milhares e milhares, havia tantos espanhóis, também, e era lindo. Afinal de contas, é uma luta existencial, uma luta pela verdade, uma luta pela justiça. Tenho a certeza absoluta de que temos todo esse apoio e energia para avançar. Esperamos que Portugal se posicione ao lado do povo, dos cidadãos, da verdade e do exercício da soberania popular.

Mas isso pressupõe apoiar Trump.
Ele está do lado do povo. O Presidente Trump está do lado do povo, da democracia na Venezuela e da sua liberdade. Não tenho dúvida disso. E estamos a progredir. Queremos ir mais rápido? Claro! Aguentámos muitos anos de dor e perseguição, foram 27 anos a construir uma estrutura criminosa que está a ser gradualmente desmantelada.

"O Presidente Trump está do lado do povo, da democracia na Venezuela e da sua liberdade. Não tenho dúvida disso. E estamos a progredir. Queremos ir mais rápido? Claro."
María Corina Machado, líder da oposição venezuelana

Diz que não se arrepende de ter concedido o Prémio Nobel da Paz a Donald Trump — um homem que começou uma guerra que está a provocar muitos problemas para o mundo inteiro e que, com Israel, está prestes a exterminar uma civilização. Esse tipo de política é compatível com alguém como a María Corina Machado, que defendeu a democracia e os direitos humanos e quer ser a próxima presidente da Venezuela?
Eu tenho um mandato de milhões de venezuelanos que foram às urnas a 22 de outubro de 2023 [eleições primárias da plataforma da oposição venezuelana] e que depositaram a sua confiança em mim. Tenho um mandato. Tenho de cumprir esse mandato. E nós, venezuelanos, precisamos de desmantelar uma estrutura criminosa que se vem construindo há anos. Fizemos um esforço enorme, porque foram cometidos crimes contra a Humanidade, documentados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos — e devo dizer que a justiça internacional não agiu. Não agiu. Milhares de venezuelanos foram assassinados e as suas vidas foram destruídas. Um terço do nosso país foi forçado a sair. E neste momento, nós, venezuelanos, finalmente vimos o chefe dessa organização criminosa [Nicolás Maduro] ser preso. Enquanto outros se esconderam. Enquanto outros chegaram ao ponto de justificar os abusos, escondendo-se atrás da retórica da autodeterminação dos povos. Outros lucraram com esquemas de corrupção desenfreada e brutal, com o saque do país, enquanto as nossas crianças passavam fome. E o atual Presidente dos Estados Unidos agiu. Portanto, em cumprimento desse mandato, fiz o que era certo e o que os venezuelanos esperam de mim.

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“Pretendo regressar o mais brevemente possível” à Venezuela

Quando pensa voltar à Venezuela?
Ainda não terminámos o nosso caminho. Estamos a progredir e a fazer a nossa parte. Pretendo regressar o mais brevemente possível para continuar a apoiar os venezuelanos que lutam dentro da Venezuela, agora com o apoio deles.

Quando Delcy Rodríguez assumiu o poder, Trump disse que a María Corina Machado não tinha o apoio popular e a confiança necessários para se manter no poder. Mas diz que tinha um mandato. Não ficou triste ao perceber que alguém que está a fazer o que a senhora diz ser o melhor para os venezuelanos não lhe confiou o poder — e, em vez disso, o entregou a Delcy Rodríguez, que, pelo contrário, só permite que os americanos lucrem com o seu petróleo?
Veja bem, o governo dos Estados Unidos delineou um plano de três fases. E a primeira fase envolve desmantelar a estrutura repressiva, corrupta e criminosa que o próprio regime criou, e da qual Delcy Rodríguez obviamente faz parte — todos sabem disso. Parte do trabalho sujo de desmantelar essa estrutura criminosa envolve as instruções que ela recebeu. E foram feitos progressos nesse sentido. Agora vem a segunda e a terceira fases, que o próprio secretário de Estado norte-americano afirmou não serem sequenciais, mas podem sobrepor-se. A terceira fase é, precisamente, uma transição para a democracia, com eleições limpas e livres. Porque o próprio Marco Rubio afirmou que não haverá grandes investimentos na Venezuela enquanto o país permanecer em último lugar no mundo em termos de Estado de Direito.

Já houve melhorias?
A 2 de janeiro, não imaginávamos que estaríamos aqui hoje. A maioria, provavelmente, teria respondido que não estaríamos. Hoje, vemos centenas e centenas de manifestações de solidariedade venezuelana nas ruas. Trabalhadores, sindicalistas, jornalistas e estudantes estão a sair às ruas. Insisto: este é um movimento que cresceu e é imparável. E acredito que é a pressão dos cidadãos que desejam a certeza de um calendário eleitoral que, em última análise, acelerará esse processo. Foi isso que me disseram, e também foi dito publicamente, e acredito que essa seja a posição do governo dos Estados Unidos, das instituições dos Estados Unidos e do povo dos Estados Unidos. Sei o que a Venezuela está a passar. Quando há um nível de pobreza de 86% no país, quando as crianças vão à escola apenas dois dias por semana porque os professores ganham um dólar por dia, é claro que cada dia que passa é muito tempo, mas estamos a sofrer com isso há 27 anos. E tivemos muitos momentos em que sentimos que estávamos muito perto. Agora sabemos que é diferente e que isto tem de ser feito da forma correta.

▲ María Corina Machado vê progressos na transição venezuelana

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Como vê o apoio português à transição da democracia?
Quero enviar uma mensagem a Portugal e pedir a vossa ajuda, porque ainda existe muito receio entre os vossos colegas, os jornalistas, na Venezuela. E, como eu estava a dizer, as notícias que o regime divulga são estritamente sobre os seus interesses económicos. Na Venezuela, fechámos o mês passado com uma inflação de 600%. Imagine o que isso significa. É um país que enfrenta a fome. Há presos políticos — três presos políticos portugueses permanecem detidos. É maravilhoso o que está a acontecer com os presos [políticos] que foram libertados. Todas as vezes que um é libertado, a primeira coisa que fazem é pegar no telefone e ligam-me, ou eu ligo-lhes, e dizem: “María Corina, dê-me instruções.” Eu digo-lhes: “Vão para casa, tomem um banho, abracem as vossas mães e descansem.” E eles respondem-me: “O quê? Descansar? Fiquei fechado todos estes meses, quero começar a trabalhar agora.” A Venezuela será livre e estabeleceremos relações extraordinárias de respeito.

O líder socialista português, José Luís Carneiro, esteve na Venezuela. Como viu essa viagem?
Espero que todos vão à Venezuela.

[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

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