Da Afurada às canções do novo disco: passámos um dia com Pedro Abrunhosa /premium

04 Dezembro 2018491

"Espiritual" marca o regresso do músico aos álbuns, feito a partir do espaço que lhe serve sempre de inspiração: as duas margens do Douro. Foi por aí que acompanhámos Pedro Abrunhosa.

Sentado sozinho ao piano, Pedro Abrunhosa parece imerso numa transcendência completamente alheia à nossa chegada. “Estava a tocar, a fazer horas” diz ao despertar do enredo das teclas, “a acústica aqui é muito agradável, ouve-se o silêncio e os harmónicos”. Ouve-se o som a percorrer cada aresta do Boom Studio, um estúdio “milimetricamente desenhado pelo Mário Barreiros” e adquirido em 2007 por Abrunhosa. “É dos poucos estúdios deste tamanho no mundo”, enfatiza enquanto tenta arranjar um equivalente próximo, “talvez o Guillaume Tell em França” e pouco mais”.

Dos músicos que mais prazer teve em receber nesta sua fortaleza de Vila Nova de Gaia, com janelas que comunicam para um exterior ajardinado e com uma escultura afunilada de Paulo Teixeira Pinto – “é um coletor de ideias”, uma espécie de para-raios de ideias – recorda a passagem do compositor e pianista japonês Ryuichi Sakamoto, em 2011, “tive muito orgulho em recebê-lo aqui”. Mas o Boom Studio é sobretudo para Pedro Abrunhosa se fechar na sua reclusão criativa e, tal como o efeito cascata, dar corpo à ideia primeira que lhe assoma o espírito até ela se tornar numa canção, pronta a sair para o mercado e para os palcos de norte a sul do país.

O primeiro álbum gravado entre a sala catedral, a maior de todas com 120 metros quadrados, a sala de pedra, pequeno casulo revestido a pedra irregular que faz o ar propagar-se em várias direções, e a sala muda, também ela pequena e comunicante com as restantes, foi o Momento. “Antigamente ia para Londres”, volta atrás para uma correção, “Londres não, Sussex”, porque Londres era um polo de distrações e a principal preocupação do músico era refugiar-se no silêncio para dar eco ao pensamento. “Cheguei a ficar quatro meses lá”, tempo em que vagueava na escuridão da noite entre planícies e florestas: “Era o meu processo de reflexão”.

A capa de “Espiritual”, de Pedro Abrunhosa (Universal)

A partir do momento em que se fixou no Boom Studio — “isto é a minha casa”, deixa escapar entre o tom sério e de brincadeira — o processo artístico começou a ser construído na intimidade daquelas paredes. Enquanto a música ganha corpo, o espaço vai-se deixando marcar por elementos perenes: ora a “centena de microfones” que foram espalhados para captar o som do Comité Caviar neste Espiritual, oitavo disco de Pedro Abrunhosa produzido pelo artesão João Bessa, ou o tapete de 8 por 6 metros que, sem dar conta, pisávamos com os olhos postos nos instrumentos deixados em roda, à espera da chegada dos músicos. “Fizemos um croqui com a posição que cada um ocupou nas gravações”, croqui esse que seguiu para a Fábrica Artesanal Tapetes Beiriz e deu origem a um exemplar em tons de vermelho aveludado com teclados, voz, bateria, guitarras, baixo, sopros e back vocals desenhados na lã, “para eternizar as nossas posições através de uma arte de excelência no nosso país”.

O motivo não era para menos. Afinal, Espiritual viveu de uma comunhão muito especial e nunca antes experienciada pelo músico. “Foi muito complicado técnica e musicalmente” refere. “Quase todos os dias, durante dois anos, os músicos chegavam aqui ao final da manhã para gravar até bem tarde”, num processo o mais fiel às origens da composição musical. “Foi a gravação mais natural e orgânica que já fizemos”, completa João Bessa. Em vez de isolar cada instrumento, Pedro Abrunhosa optou por juntar todos em círculo, ele no meio agarrado ao microfone, e daí orquestrar cada um dos 15 temas do disco: “Se um se enganava, entrava no micro do outro e tínhamos que recomeçar tudo de novo”, a exigência e a concentração tinham que estar afinadíssimas.

Ainda a viajar por outros tempos, somos levados pelo corredor estreito de capas numeradas, cheias de recortes de jornal e de cartas de fãs: “Cheguei a receber algumas propostas indecentes”. Deixa a dúvida no ar e prossegue para a sala de recordações, “esta precisa de ser arrumada”.

Agora com o disco montado – e a primeira cópia entrou a meio do ensaio, centrando em si todas as atenções, “está brutal” diziam uns, “o booklet é pesado”, comentavam outros, “larguem o CD”, sentenciou Abrunhosa rindo-se e levando o álbum consigo para impor ordem na sala – o tempo é de preparar os espectáculos da digressão. Para isso, João Bessa conta com uma mesa de estúdio SSL – solid state logic – marca adquirida por Peter Gabriel e uma das grandes referências no desenvolvimento de mesas para concertos ao vivo. “Esta acabou de chegar a Portugal”, anuncia com um indisfarçável encanto, já Pedro Abrunhosa confidencia que de botões pouco percebe, “a minha relação com a música é mais orgânica”.

[“Amor em Tempos de Muros”:]

“Um bocado de atenção”, pede a certa altura. “Vamos lá ver os Aliados”, aponta aludindo ao tema número 4, “Vem Ter Comigo Aos Aliados”. “Porque é que estão aí escondidas?” pergunta às back vocals Patrícia e Valéria, discretas atrás do piano, ao mesmo tempo que pede uma estante com a letra e se move no chilrear da afinação dos instrumentos. A aparente desordem dá lugar, quase de imediato, aos primeiros acordes da música e a partir desse momento a comunicação flui sem barreiras. Todos os movimentos são lançados como se já estivessem em palco, Pedro roda como um girassol olhando de frente cada um dos seus músicos, varia nas dinâmicas às quais todos obedecem, “mais uma vez mas mais baixo” atira-se para o refrão, “agora ainda mais baixo”, repetição num sussurro que pede o murmúrio do público, agita os braços com vigor para cima e explode para o grande final, enlevado os últimos versos numa aura gospel mística:

“Ohohoh
Havemos de nos salvar!”

O fim apoteótico encheu de repente o Boom de gente, pelo menos no imaginário de cada um. “Temos os processos de espectáculo enraizados”, agora é levá-los a concerto. Os próximos são já dia 13 e 14 de Dezembro em Leiria, 18 no Capitólio em Lisboa e 31 na passagem de ano do Porto.

O artista e o burocrata

Mas nem só de processos criativos se faz o Boom e a rotina de Pedro Abrunhosa, passada também no piso de cima onde estão os escritórios. “A organização do backoffice é muito importante”, diz, lembrando os tempos em que tinha o quarteto de jazz Banda de Bolso e redigia os próprios press releases: “Eram super profissionais”. Na ausência de expediente para despachar e com a secretária vazia, foi outro detalhe que nos chamou a atenção – “aqueles vinis”, apontamos para a estante embutida na parede do fundo: “São trabalhos antigos ou fazem parte da sua coleção pessoal?”

Nisto Pedro vira-se num ápice para trás e, como que surpreendido pela presença de tantos discos arrumados num alinhamento perfeito, lança-se a eles para tirar uns quantos à sorte. “Isto são os meus vinis de infância e de adolescência!” comenta num assombro excitado “foi nestes discos que eu cresci”. Ali estavam Carlos do Carmo e Ary dos Santos, Mais do que Amor é Amar, de 1986, “foram os primeiros homens a levar a urbanidade para a canção”, o free jazz de Albert Ayler, “os guinchos que estão aqui neste disco sei-os de cor”, Bill Evans e ainda o Breakfast in America de 1979 dos Supertramp roído pelos cães, “mas o disco salvou-se!”. A certa altura salta o single “Não Posso Mais”, gravado no início dos anos 90 e que fez parte do álbum Viagens, “este tinha uma mensagem subliminar” e, segundo Abrunhosa, nunca antes revelada. Alinhámos o olhar com o vinil e bem lá no meio, a contra luz, surgiram as palavras obrigatório usar preservativo – promo 082, gargalhada geral que repesca na memória os versos:

Tu és o meu sonho mais atrevido,
olho e tiro-te o vestido
dizes: “És doido varrido
faz de mim a tua puta”
“Como é, vamos p’ra casa experimentar o Kama Sutra?”

E ali, sem se fazerem anunciar, os anos 90 impuseram-se ao Espiritual lembrando aquele funk lascivo esbanjado pelo saxofone de Maceo Parker e por um Pedro Abrunhosa que já foi Bandemónio.

Ainda a viajar por outros tempos, somos levados pelo corredor estreito de capas numeradas, cheias de recortes de jornal e de cartas de fãs: “Cheguei a receber algumas propostas indecentes”. Deixa a dúvida no ar e prossegue para a sala de recordações, “esta precisa de ser arrumada”. Havia alguns cartazes de fãs colados nas paredes, troca de óculos comigo dizia um ao canto, sinaléticas antigas de comboio a dar conta de chegadas à gare de Austerlitz nas primeiras viagens de comboio do músico, e um armário com casacos tão exuberantes como icónicos. “Este” — tira um de riscas horizontais — “foi o que usei no videoclip da ‘Não Posso Mais'”, pousa e tira outro de padrão de zebra, “este usei quando fui ao Parabéns do Herman”. Contempla-o de cima a baixo, “será que ainda me serve?”, e veste-o para comprovar que 20 anos depois a zebra, ainda que desapertada, assenta-lhe bem, “se calhar vou usá-lo no Espiritual”, graceja antes de voltar ao outfit inicial. Revisitado o baú de recordações, estava na hora de mudar de ares.

Dois lados do mesmo Porto: lado A — Afurada

A caminho da Afurada, pegámos no tema Gisberta e na peça que Luis Lobianco acabara de estrear em Portugal, no Teatro Sá da Bandeira. Pedro Abrunhosa subiu a palco nessa noite de terça-feira, dia 27, no final do espectáculo, para cantar a Balada de Gisberta — por acaso “estávamos lá”, esclarecemos para surpresa do músico que se recompôs no assento de trás do carro para soltar um “fiquei fascinado com a peça”. “No dia em que o Luis veio eu por acaso estava no Porto” prossegue, contando que nada foi combinado previamente, “só falámos no próprio dia. Foi talvez a segunda vez que cantei a Balada de Gisberta ao vivo.” Ao fim de mais de 20 anos de carreira, as canções já são muitas e essa balada nunca esteve nos alinhamentos principais.

“Muita da minha adolescência foi passada aqui [na Afurada], isto era uma aldeia de pescadores genuína, as pessoas saltavam da margem para o barco, não havia um cais. O [tema] 'Barco para a Afurada' conta a história destas pessoas”.

Já com os pés pousados na Afurada, com uma neblina nostálgica do lado do mar e um sol alaranjado do lado do rio, Pedro Abrunhosa recorda os tempos em que saía do campus universitário, – “a Escola de Música do Porto era ali”, aponta para umas árvores que agora escondem a Faculdade de Arquitetura – atravessava a Ponte da Arrábida e pagava 5 tostões para descer nos elevadores, então a uso, em direção ao cais. “Muita da minha adolescência foi passada aqui, isto era uma aldeia de pescadores genuína” e, apesar de agora ser mais popular entre os turistas de cá e de fora, continua a conservar o carácter de antigamente. Antes, recorda, não havia estradas, era tudo areia “as pessoas saltavam da margem para o barco, não havia um cais”, refere aludindo ao Flor de Gás, o barco que faz a travessia entre as duas margens e que em 1999 entrou para o cancioneiro de Pedro Abrunhosa, no álbum Silêncio. “O Barco para a Afurada” assim se chama a música, “conta a história destas pessoas”.

[“O Barco para a Afurada”:]

Pelo nosso passeio de memórias, adornado de casas em azulejo com imagens de S. Pedro à porta e desenhos de embarcações nas laterias, cruzam-se a certa altura dois senhores. Um abraça Abrunhosa, confidencia-lhe que “depois do Zeca Afonso só você é que me enche a alma”. Diz-lhe que gosta muito da nova canção que ouviu noutro dia na televisão, “o meu problema é que ouço mal e tenho que pôr o som alto”, coisa que não agrada muito à mulher; o outro fala-lhe do amigo do filho, o “Nocas do acordeão”, nem a propósito, foi com ele que Pedro Abrunhosa gravou “O Barco para a Afurada” em Inglaterra, e atira com saudosismo: “Antigamente é que era. Às sextas-feiras fechávamos as ruas e aparelhávamos as redes, agora perdeu-se isso tudo”. Pedro puxa a moral da conversa para cima: “Perdeu alguma da rusticidade, mas ganhou muitas coisas”. É verdade, é verdade, anuem os outros dois. Despedem-se com vigor, “vamos ali à Casa Machado”, onde Carlos Tê pedia um café e um bagaço, já Abrunhosa gostava mais de ir ao Pirata, “mas esse agora chama-se O Vapor”. Sinais de mudança dos tempos.

De volta ao carro, ludibriámos o trânsito em direção a Serralves, “um dos pontos de contemporaneidade da cidade”, diz em relação ao Museu e aos Jardins onde gostava de ver mais gente da Afurada a frequentá-los. “E ao contrário” acrescenta, “é importante tirar os guetos dos guetos”, mas não cai na ilusão da realidade perfeita — afinal “são estes contrastes que fazem a cidade”.

Dois lados do mesmo Porto: lado B — Serralves

Pedro Abrunhosa entra em Serralves com o à vontade de um cliente assíduo, “venho cá frequentemente” diz enquanto desce as escadas em direção ao bar, “não sei quanto a vocês, mas eu tenho que lanchar primeiro”. Lá encontra-se com duas funcionárias do Museu, cumprimenta-as ao balcão com natural proximidade e começa a trocar ideias sobre alguns papéis dispostos à sua frente: “Estou a preparar uma iniciativa em Serralves”, revela sem adiantar pormenores, teremos que esperar por 2019. De estômago saciado, leva-nos a passear pelas fotos de Robert Mapplethorpe. “Achei um disparate”, disse horas antes sobre a demissão do ex-diretor João Ribas. “Há ali qualquer coisa que está mal contada naquela história” e sustenta a dúvida indo buscar a retórica do livro Contra a Comunicação, de Mário Perniola: “A arte não deve ser comunicação no sentido do anúncio, de transformar a arte num espectáculo, porque assim sendo vira entretenimento. A inauguração da exposição acontece com o antigo diretor às costas do Mapplethorpe transformando exatamente esta exposição naquilo que ela não devia ter sido, um espectáculo voyeurista. Acho que ele foi o primeiro responsável por isso.”

Polémicas à parte, o músico aproveita o espaço e a intimidade com Patti Smith para falar da sua paixão por fotografia, “o Momento, por exemplo, é a fotografia por excelência” relembra, recuando a um processo criativo onde cruzou as letras do disco com as fotos “do grande Jorge Henriques” presentes no booklet. “Eram todas a preto e branco, do Porto dos anos 40, 50, 60, e pertenciam a uma exposição chamada Domingo de Manhã, tiradas em passeios que ele fazia na hora da alvorada.”

Assim de repente, embalados pelos passeios solitários, regressámos ao Espiritual, o disco que motivou este dia com Pedro Abrunhosa. “Hoje em dia somos bombardeados por música, ruído, informação por todo o lado, no supermercado, no elevador, no táxi, no hall do hotel, no avião, no ginásio, no autocarro, numa loja de roupa, é doentio – e não é uma hipérbole, é mesmo doentio! É como se o ser humano não fosse capaz de se escutar a si próprio, não fosse capaz de lidar com o silêncio e com a reclusão.” Esta asfixia fez Abrunhosa voltar-se para si e para um oitavo álbum que prega amor em tempos de muros, que quer descer ao profundo, ascender aos céus para transcender as pessoas, gerar empatia. “Quando achamos que a única coisa que as pessoas precisam é de entretenimento, nesse preciso momento somos surpreendidos pela adesão que elas têm ao conceito de profundidade. O ser humano precisa da transcendência e não de estar permanentemente entretido.” Precisa, conclui, de combater a angústia pelo caminho do espiritual.

Fotografias de Ricardo Castelo

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