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Gerard O'Connell acompanha a atualidade do Vaticano e dos Papas desde a década de 1980
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▲Gerard O'Connell acompanha a atualidade do Vaticano e dos Papas desde a década de 1980

João Francisco Gomes/Observador

▲Gerard O'Connell acompanha a atualidade do Vaticano e dos Papas desde a década de 1980

João Francisco Gomes/Observador

Das campanhas internas às primeiras votações. Jornalista que revelou os segredos de 2013 conta como se decide quem é o Papa no conclave

Em conversa com o Observador no Vaticano, o veterano jornalista Gerard O'Connell, que revelou os detalhes do conclave de 2013, explica os meandros de uma eleição papal.

À exceção dos cardeais que lá estiveram, talvez ninguém saiba tão bem o que aconteceu dentro da Capela Sistina nos dias 12 e 13 de março de 2013 como o jornalista irlandês Gerard O’Connell. Desde 1985 a cobrir a atualidade do Vaticano para meios como o semanário britânico The Tablet, a agência asiática UCAN, a televisão canadiana CTV, o jornal italiano La Stampa e, atualmente, a revista jesuíta America, O’Connell acompanhou três papas em múltiplas viagens pelo mundo, vários sínodos e dois conclaves.

Em 2019, publicou o livro The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History (não editado em português), em que, com a ajuda de dados que obteve de pelo menos um dos cardeais presentes no interior do conclave, descreveu ao detalhe aqueles dias decisivos que resultaram na eleição do Papa Francisco, revelando de forma inédita muito do que foi dito nas discussões à porta fechada que antecederam o conclave e os resultados de cada uma das votações que conduziram à escolha do argentino (incluindo os erros de contagem que obrigaram à repetição de um dos escrutínios).

Quando Francisco foi eleito Papa, O’Connell e a mulher, a também jornalista Elisabetta Piqué, já conheciam Bergoglio há mais de uma década. Em Roma e em Buenos Aires, o cardeal e o casal de jornalistas eram visita de casa um do outro — e, em fevereiro de 2013, quando o Papa Bento XVI surpreendeu o mundo com a sua renúncia, foi O’Connell quem deu a notícia a Bergoglio, com um telefonema de madrugada. No Domingo de Páscoa, menos de 24 horas da morte de Francisco, O’Connell ainda viu o amigo uma última vez na Praça de São Pedro — mas, como lembra o vaticanista ao Observador, percebeu no olhar vazio do Papa que aquela era uma despedida.

Conclave. Entre a continuidade e a ruptura, maioria dos cardeais quer seguir o legado de Francisco

Para o veterano jornalista, estes têm sido dias agitados em Roma. Durante as congregações gerais da semana passada, foi ele quem deu algumas das notícias que permitiram perceber um pouco do que se passou nos bastidores das discussões dos cardeais. Agora, enquanto espera pelo fumo branco, tem grande parte do tempo ocupado com comentários e análise na televisão. A ampla rede de contactos, a longa experiência profissional e o muito que aprendeu na investigação sobre o conclave de 2013, contudo, dão-lhe uma perspetiva sobre os trabalhos na Capela Sistina que vai muito além da mera observação da chaminé.

Poucos minutos depois de o mundo ter sabido através do fumo negro (que saiu da Capela Sistina às 11h50) que as votações da manhã de quinta-feira não tinham sido suficientes para eleger um Papa, O’Connell conversa com o Observador no sossegado primeiro piso de um agitado café da Via della Conciliazione, a enorme avenida que desemboca na Praça de São Pedro, e ajuda a decifrar o que se passa no segredo do conclave: o que vai na cabeça dos cardeais no momento das primeiras votações, que semelhanças se podem detetar entre este e outros conclaves, o perfil de que os eleitores estão à procura e como funcionam as dinâmicas de poder e campanha entre os cardeais. Além disso, o jornalista irlandês, que duvida da eleição de Pietro Parolin como Papa, antecipa que este conclave poderá ser mais longo do que o que elegeu Francisco — e que terminou no segundo dia de votações.

▲ O jornalista irlandês falou ao Observador depois de ter saído fumo negro pela segunda vez neste conclave

João Francisco Gomes/Observador

O Gerard escreveu um importante livro sobre o que aconteceu dentro do conclave que elegeu o Papa Francisco, que tem uma abordagem muito interessante sobre o que se passa lá dentro, as dinâmicas de poder, o que acontece nas primeiras votações, como é que os cardeais chegam a um nome, etc. O que é que percebeu sobre a dinâmica desse processo ao escrever o livro?
Na última vez, eram 115 cardeais de 45 países. Desta vez, temos 133 cardeais de 70 países. Muitos deles nem sequer se reconhecem na rua — e seguramente não sabem o que os outros pensam. Portanto, quando fizeram a primeira votação, ontem à noite, foi a primeira vez que puseram as cartas na mesa. Imagino que, nessa primeira votação, muitos cardeais tenham tido alguns votos. No conclave de 2013, um em cada cinco cardeais eleitores tiveram pelo menos um voto. Mas o que acontece é que, habitualmente, há três ou quatro nomes que têm um número maior de votos. A grande questão é: esses três, quatro ou cinco nomes, têm muitos votos ou estão mais ou menos no mesmo nível? Não acredito inteiramente na imprensa italiana neste aspeto. Da última vez, em 2013, diziam que [Angelo] Scola tinha tido 40 ou 50 votos. Eu tinha feito a minha própria contabilização e sabia que Scola não conseguiria obter mais do que 40 — e duvidava muito que chegasse sequer aos 40 na primeira votação. E, na verdade, teve 30. Agora, a imprensa italiana diz que [Pietro] Parolin tem 40 ou 45 votos. Estou cético. Penso que pode ter tido 30.

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Porque é que isso acontece? Porque os italianos querem muito voltar a ter um Papa italiano?
A ideia por trás disto é a de que ter visibilidade nos jornais influencia os eleitores. Não é verdade. Pode influenciar alguns eleitores, mas a maioria dos eleitores, na verdade, não lê italiano e, além disso, não lê qualquer jornal ou vai às redes sociais. Por exemplo, o cardeal [Frank] Leo, de Toronto, disse-me: “Não estou a ler qualquer jornal, não estou a olhar para as redes sociais, quero rezar e refletir.”

O confinamento, as votações secretas e o fumo branco da Capela Sistina. O que ocorre durante um conclave?

Não quer ser influenciado de forma nenhuma.
Não quer ser influenciado dessa forma. Mas outras pessoas, como o cardeal [Michael] Czerny, que também é canadiano, diz: “Eu gosto de falar com os jornalistas, porque isso faz parte da minha preparação. Quando eles fazem perguntas, fazem-me pensar e refletir sobre aspetos que posso não ter visto.” Há perspetivas diferentes. Mas a realidade é que muitos cardeais não falam italiano. Ontem, quando entraram na Capela Sistina, ouviram uma meditação do cardeal [Raniero] Cantalamessa, o franciscano de 91 anos, que é um grande pregador. Penso que ele falou durante 20 ou 30 minutos. A maioria não percebeu o que ele disse. Portanto, a primeira votação revela quem podem ser, possivelmente, os “papabili”, quem pode estar na frente da corrida. Ontem à noite, eles voltaram invulgarmente tarde, jantaram e vários deles terão conversado à noite e durante o pequeno-almoço. Depois, voltaram a votar esta manhã. Não sabemos o que aconteceu esta manhã, obviamente, mas digamos que há quatro cardeais na frente da corrida, com um conjunto de votos. Esta manhã, os cardeais que não votaram em nenhum desses quatro vão ter de decidir: votam num deles ou votam noutro nome? Isso também é possível.

"Os cardeais dizem que Deus já fez a sua escolha e que eles têm de descobrir quem é a escolha. E descobrem-na através do processo de votação. Por isso, quando eles vêem, na primeira votação, três ou quatro candidatos, as votações seguintes vão revelar se alguns destes primeiros estão a andar em frente, se estão no caminho para chegar a Papa ou não. No último conclave, foi justamente isto que aconteceu. Bergoglio estava em segundo."

Um outsider?
Ou talvez um cardeal que esteve na primeira votação, mas que só teve três ou quatro votos. Eles podem pensar: “O nome dele está na corrida? Então votamos nele.”

Foi algo assim que aconteceu com Bergoglio em 2013?
Não, porque Bergoglio era o segundo. Mas foi o que aconteceu com João Paulo II em 1978. Ele era o sexto ou o sétimo. Os primeiros candidatos tiveram mais de 20 votos e ele teve seis ou sete votos, estava muito abaixo. Além disso, nas primeiras três votações ele continuava bastante abaixo.

Quando é que ele passou a ser visto como uma opção?
Ele estava a receber votos, mas não subia. Foram precisas oito votações. É possível que algo assim aconteça desta vez. Se não tivermos um Papa esta noite, então é possível que tenhamos um conclave mais longo. O conclave mais longo desde 1939 aconteceu em 1958, com a eleição de João XXIII, quando tivemos 11 votações.

Gostava de perceber um pouco melhor as dinâmicas de poder dentro do conclave e uma das afirmações habituais é a de que o mais importante não é o que acontece nas votações, mas nas congregações gerais, nas discussões dos cardeais antes do conclave. Pela sua experiência a cobrir vários conclaves e especialmente a escrever sobre o que aconteceu em 2013, como é que isso se desenrola? De que é que os cardeais estão à procura quando estão a tentar chegar a um nome?
Há duas coisas diferentes. Uma são as congregações gerais, quando eles tentam chegar a um identikit [retrato-robô]. Alguns dos cardeais acima dos 80 anos, que não podem votar, podem influenciar. Por exemplo, desta vez, [Beniamino] Stella e [Giovanni Battista] Re estão a promover Parolin. São todos diplomatas. Outros estavam a promover outros nomes, como [Robert Francis] Prevost ou [Jean-Marc] Aveline. Depois, aparecem nomes como [Pablo Virgilio] David, que é o presidente da Conferência Episcopal das Filipinas. É da mesma idade que Aveline, o que é muito interessante. Aveline parece muito mais velho, David parece mais novo. Mas são da mesma idade. Os cardeais dizem que Deus já fez a sua escolha e que eles têm de descobrir quem é a escolha. E descobrem-na através do processo de votação. Por isso, quando eles vêem, na primeira votação, três ou quatro candidatos, as votações seguintes vão revelar se alguns destes primeiros estão a andar em frente, se estão no caminho para chegar a Papa ou não. No último conclave, foi justamente isto que aconteceu. Bergoglio estava em segundo.

Scola ficou em primeiro.
Scola tinha 30 votos e Bergoglio tinha 26. Na verdade, tinha 27, porque alguém se enganou a escrever o nome. Na segunda votação, Bergoglio saltou para o primeiro lugar. Na terceira votação, subiu ainda mais. Quando foram almoçar, toda a gente via que ele se ia tornar Papa. Será que é isto que está a acontecer neste momento? Não sabemos. Vamos saber hoje à noite, se essa dinâmica aconteceu ou não.

Nome do Papa Francisco esquecido na missa pré-conclave poderá revelar campanha em torno do cardeal Pietro Parolin

O Gerard escreveu sobre esse discurso do cardeal Stella, que, aparentemente, foi muito surpreendente para muitos cardeais dentro das congregações gerais.
Sim. Irritou muitos cardeais — e foi por isso que consegui a notícia. Não há uma quebra do sigilo a não ser que as pessoas queiram mesmo que alguma coisa saia cá para fora. E saiu no dia 30 de abril, foi quando publiquei. Ainda havia muitos dias até ao conclave e a notícia tornou-se viral.

Isso é algo que acontece habitualmente nas congregações gerais? Os cardeais falam abertamente, de forma tão transparente, sobre aquilo de que gostavam ou não gostavam no Papa anterior?
Alguns não dizem nada. Alguns falam do legado do Papa Francisco, mas não falam do que aconteceu nas congregações gerais. Mas é possível, a partir do que eles dizem, fazer deduções sobre a direção em que estão a ir.

Daquilo que conhece do funcionamento destes processos, dentro das congregações gerais e dentro do conclave, de que é que os cardeais estão à procura num futuro Papa?
No meu artigo de ontem falo um pouco do identikit. Parece que a maioria quer um pastor. E um pastor não é um diplomata. Em segundo lugar, há algo a que chamo o teste do algodão, que é a questão do Sínodo. Queremos este estilo de Igreja ou queremos voltar ao estilo anterior? Para muitos cardeais, este é o ponto decisivo. Há estas duas questões. Eles querem um pastor, alguém que seja capaz de empatizar com a vida real das pessoas. Foi muito significativo ver, no domingo, dia 27 de abril, o Jubileu dos Adolescentes. O cardeal Parolin celebrou a missa. Escreveu o texto da homilia, mas não houve nada de muito pessoal com os jovens. Não empatizou com a juventude. Muitos cardeais repararam nisto, ele não tem aquele estilo. É um problema grande. Portanto, há estes fatores. Ele pode ser eleito Papa. Pessoalmente, duvido, mas nunca sabemos. Mas estes são fatores dos quais tenho a certeza.

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Em 2013, as congregações gerais foram muito importantes para a eleição do Papa Francisco, certo? O discurso que ele fez aos cardeais é muito famoso.
Ele fez esse discurso no sábado, o penúltimo dia das congregações gerais. Foi um discurso fresco, ele disse qualquer coisa que os outros não estavam a dizer. Eles repararam nisso. Esse foi um momento de gatilho. Eles estavam um pouco insatisfeitos com os principais candidatos: Scola, [Marc] Ouellet e [Odilo] Scherer. Eles diziam que estes três não iam trazer nada de fresco, nada de novo ao papado, caso fossem eleitos. Quando Bergoglio falou, eles sentiram que aquilo era algo de diferente. Depois, começaram a refletir sobre aquilo no fim-de-semana e, na noite em que entraram no conclave, já era claro para mim que tinha havido ali uma mudança.

Pela informação que tem tido, acredita que, quando os cardeais entraram na Capela Sistina na quarta-feira, já estavam a pensar num nome para tal perfil que emergiu nas congregações gerais?
Claro. Eles são todos influenciados, porque nas congregações gerais há tradução, as pessoas falam nas suas próprias línguas, toda a gente consegue entender. Isso é significativo. Aqui, muitos falam em inglês, espanhol, francês… O italiano está no final da lista. Há 17 italianos, além de dois outros — [Pierbattista] Pizzaballa é italiano e o da Mongólia, [Giorgio] Marengo, também, mas é de uma mentalidade mais asiática e não irá com os italianos; Pizzaballa é ainda bastante italiano no seu pensamento. Portanto, temos cerca de 18 italianos. Muitos deles falam inglês, o que é essencial, porque têm de comunicar com os cardeais.

"Queremos este estilo de Igreja ou queremos voltar ao estilo anterior? Para muitos cardeais, este é o ponto decisivo. Eles querem um pastor, alguém que seja capaz de empatizar com a vida real das pessoas."

O Gerard tinha uma relação pessoal com o Papa Francisco muito antes de ele ser eleito Papa.
Na noite anterior, estava convencido de que ele ia ser eleito Papa. A primeira vez que o conheci foi em fevereiro de 2001, quando ele foi criado cardeal. Há uma tradição aqui em que, no final, vamos cumprimentar os novos cardeais. Fui cumprimentá-lo e tive uma sensação de que aquele homem podia ser Papa. Nunca a percebi, mas mantive essa intuição, mesmo quando Bento XVI foi eleito Papa, pensei que ele ainda podia ser Papa. A minha mulher, Elisabetta [Piqué, jornalista argentina, correspondente do La Nación em Roma] já o conhecia antes. Quando íamos a Buenos Aires visitar a família dela, ele convidava-nos para almoçar. E sempre que ele vinha cá, convidávamo-lo para jantar. Por isso, ao longo de vários anos, pudemos conhecê-lo. Ele batizou os nossos filhos. Quando Bento XVI renunciou, a minha primeira reação foi telefonar-lhe. Era muito cedo na Argentina, 6h ou 7h, e ele atendeu o telefone. Eu disse-lhe: “Bento XVI renunciou.” Do outro lado, silêncio. Fui eu que lhe disse. Quando ele se tornou Papa, continuámos amigos. Ele nunca mudou. Fomos amigos dele durante anos antes de ele ser Papa e, depois de ele se tornar Papa, sempre que nos via, acenava, cumprimentava, falávamos com ele. Foi um período extraordinário das nossas vidas. Porque pensamos no Papa de uma certa forma, mas nós tínhamo-lo como um amigo.

Foi uma surpresa para si o dia da morte dele?
Estávamos cá no Domingo de Páscoa, quando ele deu a volta na praça, no jipe. Vi-o de uma forma muito próxima, ele olhou para mim, eu acenei-lhe, mas ele não reagia. Aconteceu o mesmo com a minha mulher uns metros depois. Viemos embora muito tristes no Domingo de Páscoa, porque percebemos que era uma despedida. A última coisa que ele fez ao povo foi abençoá-lo. As últimas palavras que o povo ouviu do Papa foram uma bênção. Viemos muito tristes naquele dia. Na manhã seguinte, ele tinha partido. Sabíamos que era uma questão de tempo. Quando o vi assim, percebi que era um adeus.

Francisco, o Papa que reformou a Igreja

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