Numa discreta sala de reuniões num dos palácios do Vaticano que ladeiam a Via della Conciliazione, a ampla avenida romana que liga as margens do rio Tibre à Praça de São Pedro, a freira francesa Nathalie Becquart senta-se num pequeno sofá numa das raras pausas que tem tido nos últimos dias. Chega apressada, vinda da Basílica de São Pedro, onde os cardeais da Igreja Católica acabaram de celebrar em conjunto a missa Pro Eligendo Romano Pontifice, e conversa com o Observador enquanto os homens que vão escolher o próximo Papa almoçam juntos na Casa de Santa Marta, no Vaticano. Depois, os 133 cardeais eleitores hão-de dirigir-se em procissão para a Capela Sistina, onde, sob o majestoso tecto de Miguel Ângelo, vão ficar fechados em conclave, isolados do mundo, até chegarem a acordo sobre quem será o próximo Papa, líder espiritual de mais de mil milhões de fiéis em todo o mundo.
À partida, a desproporção entre estes dois números levanta uma pergunta: porque é que a escolha do líder espiritual de mais de mil milhões de católicos está reservada a apenas 133 homens, que tomarão esta decisão de forma secreta e sem prestar publicamente contas aos fiéis, esquivando-se a perguntas dos jornalistas sobre os critérios usados na votação e até sobre o número de rondas necessárias para eleger o Papa, o número de votos obtidos por cada candidato ou as discussões tidas pelos cardeais antes e durante o conclave?
Nathalie Becquart é cautelosa na resposta a esta questão. “A maioria dos cardeais dizem-me que não estão sozinhos no conclave. Sentem que estão vinculados às pessoas, ao povo de Deus. A maioria dos cardeais vem de dioceses por todo o mundo, estão com o povo e trazem-no. Não é só a sua própria voz, trazem a voz do povo”, responde ao Observador a religiosa francesa, subsecretária do Sínodo dos Bispos e uma das mulheres mais poderosas do Vaticano. A sua nomeação inédita para aquele cargo, pelo Papa Francisco em 2021, fez arregalar muitos olhos dentro e fora da Igreja: não só foi a primeira vez que uma mulher chegou àquele lugar, historicamente ocupado por clérigos, e no topo da hierarquia vaticana, como abriu as portas a mais nomeações de mulheres para altos cargos eclesiásticos nos anos seguintes.
Papa nomeia freira como subsecretária do Sínodo dos Bispos, a primeira mulher
Apesar de cautelosa, a mulher que Francisco escolheu para ajudar a conduzir a Igreja global no seu esforço para ser mais aberta, mais participada e mais horizontal reconhece que o modelo atual de conclave “vem de uma longa tradição” em que só os cardeais, homens por definição, podem votar. Preferindo pensar “passo a passo”, especialmente no contexto de uma Igreja em que as coisas evoluem a um ritmo lento, Nathalie Becquart diz que há margem para transformações, não necessariamente no conclave em si, mas naquilo que considera ser ainda mais importante: os dias que o antecedem, ocupados com as congregações gerais, as discussões dos cardeais à porta fechada sobre o estado do mundo e da Igreja e sobre o perfil do futuro Papa. Por exemplo, abrindo essas congregações gerais a outras vozes (incluindo de leigos, homens e mulheres) ou implementando métodos de escuta mais alargados do povo católico, que possam substituir o esquema atual, em que os cardeais “estão num anfiteatro, numa sucessão de discursos de cinco minutos”.
Conclave. Entre a continuidade e a ruptura, maioria dos cardeais quer seguir o legado de Francisco
De facto, nos últimos anos, o Papa Francisco mudou muita coisa na estrutura institucional da Igreja Católica, colocando mulheres como Nathalie Becquart em posições de topo da Cúria Romana, ombreando em quase tudo com os bispos e cardeais. Ainda assim, a antiga tradição de escolher o Papa através do conclave permanece — e a religiosa francesa, como várias outras mulheres e homens leigos colocados por Francisco em altos cargos da Igreja Católica global, vão ficar fora da Capela Sistina enquanto esperam pelo fumo branco que assinalará uma votação bem sucedida cujos detalhes, a não ser que algum cardeal quebre o seu dever de sigilo, ficarão ocultos para sempre.
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Algumas explicações habituais para o Papa ser escolhido por um grupo tão limitado de homens incluem o facto de a Igreja Católica não ser uma democracia — nem nunca ter tentado apresentar-se como tal. Além disso, resumir a escolha do Papa a uma mera eleição democrática reduziria a dimensão espiritual da eleição, relativizando, por um lado, a dinâmica da escolha dos cardeais pelo Papa e, por outro lado, aquilo que os católicos descrevem como a intervenção do Espírito Santo num processo que é tão humano como espiritual.
▲ A irmã Nathalie Becquart recebeu o Observador nas instalações da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, a poucos metros da Basílica de São Pedro
João Francisco Gomes/Observador
Conclave é só “o final do processo”
Mas, mesmo dentro da Igreja, estas explicações não chegarão para convencer toda a gente — sobretudo depois de um pontificado de doze anos que, entre outras reformas, procurou transformar a Igreja numa instituição mais sinodal. A palavra sinodalidade foi um dos grandes lemas do pontificado de Francisco, embora ainda hoje seja difícil defini-la integralmente. Com origem nos termos gregos “syn” (em conjunto) e “hodos” (caminho), a palavra “sínodo” traduz, na essência, esta ideia de que a Igreja é um conjunto de pessoas que caminham em conjunto, onde as questões que dizem respeito a todos são decididas por todos. A ideia está longe de ser nova: no Cristianismo primitivo, os sínodos eram as reuniões em que os líderes das comunidades se juntavam para tomar as principais decisões de uma fé que ainda procurava afirmar-se no mundo.
Com o passar do tempo, à medida que a Igreja se transformou numa instituição crescentemente piramidal, este processo tornou-se mais institucional, com os principais concílios a serem convocados apenas nos momentos de grande transformação. Depois do Concílio Vaticano II, na década de 60, o Papa Paulo VI procurou ressuscitar a ideia da sinodalidade, criando o “Sínodo dos Bispos”, um órgão de aconselhamento do Papa no qual têm assento bispos de todo o mundo, e que se reúne periodicamente, com composições variáveis para se debruçar sobre diferentes matérias. Durante o pontificado de Francisco, os sínodos foram um importante instrumento do Papa argentino para abrir debates em temas fraturantes como o divórcio ou o celibato dos padres. Mas Francisco não ficou satisfeito apenas com o modelo tradicional do sínodo e, em 2020, convocou um sínodo sobre a sinodalidade, um fórum de discussão para a Igreja debater o seu próprio modo de tomar decisões.
Nesse processo, Francisco quebrou quase todas as regras. Em vez de uma simples assembleia de três semanas no Vaticano, o Papa quis abrir o sínodo a todos os católicos do mundo, promovendo um longo processo de escuta em várias fases, a começar nas paróquias e movimentos e a culminar em duas assembleias gerais em Roma (2023 e 2024), que tem sido descrito como o mais amplo processo de debate e auscultação alguma vez levado a cabo na história da humanidade. Com a morte de Francisco, o processo não acabou: há grupos de trabalho ainda em curso sobre alguns dos temas mais quentes (incluindo a ordenação de mulheres, a reformulação dos seminários ou a questão da autoridade do clero) e há um processo de implementação em várias fases previsto até, pelo menos, 2028.
Mas a principal regra que Francisco quebrou — e que muitos dos mais conservadores não perdoam — foi outra: nas assembleias do Sínodo dos Bispos, deixaram de ter voto apenas os bispos. Dezenas de leigos, tanto homens como mulheres, foram chamados a participar de igual para igual nas duas assembleias de Roma, tendo direito de voto a par com bispos e cardeais. Mais do que o conteúdo deste último sínodo, a grande novidade foi a forma: dificilmente o próximo Papa voltará atrás, tornando a restringir o direito de voto aos bispos e cardeais. A pioneira de tudo isto foi Nathalie Becquart, religiosa francesa que pertence à congregação La Xavière e que, em fevereiro de 2021, para surpresa de todo o mundo, foi nomeada pelo Papa Francisco para o cargo de subsecretária do Sínodo dos Bispos.
A nomeação de Becquart foi uma pedrada no charco: pela primeira vez, aquele alto cargo da Cúria Romana era ocupado por uma pessoa que não era padre nem bispo. Além disso, como o subsecretário do Sínodo dos Bispos tem, por inerência, direito de voto, Francisco abria um precedente que para muitos parecia estar a anos-luz: uma mulher teria direito a votar no sínodo. Foi a forma encontrada por Francisco para abrir a porta — nas sessões de 2023 e 2024, mais de cinquenta mulheres, entre religiosas e leigas de todo o mundo, puderam votar na assembleia sinodal. Como número dois da estrutura do sínodo (trabalhando em grande proximidade com o secretário-geral, o cardeal maltês Mario Grech), Becquart tem sido um dos principais rostos da reforma da Igreja levada a cabo pelo Papa Francisco — que, entretanto, nomeou outras mulheres para altos cargos na Cúria Romana, incluindo a prefeita do Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Simona Brambilla (a primeira mulher a chefiar um dicastério), e a governadora do Estado da Cidade do Vaticano, Raffaella Petrini, igualmente a primeira mulher a ocupar aquele cargo na história.
Toda esta explicação para nos conduzir à pergunta central: na era da sinodalidade, em que a Igreja faz um caminho de abertura à participação de todos os fiéis nas suas estruturas de decisão, procurando acabar com a ideia de uma Igreja liderada por uma casta clerical, ainda faz sentido um conclave?
“Percebo bem”, sublinha Nathalie Becquart ao Observador. “Quando vivemos em países democráticos, sabemos que o direito de voto é bastante simbólico. Mas, se percebermos bem o que é o sínodo, não é sobre a votação final. É sobre uma forma de rezar, de dialogar, de discernir e de chegar a um consenso.”
Para a religiosa francesa, o conclave é apenas “o final do processo”, já que “o mais importante é o que acontece antes”, nas congregações gerais dos cardeais. “Se o sínodo funcionar bem, no final temos um consenso e o voto é só uma formalidade. Se olhar para o Concílio Vaticano II ou para os sínodos, quando o documento final é votado parágrafo a parágrafo, é quase 99% [de votos a favor]. O voto é uma forma de reconhecer que houve um consenso. Não é o mais importante. E posso dizê-lo, também, como mulher: é bom votar no final. Mas se chegar só no final para votar, não é interessante. O que é importante é estar envolvido desde o início.”
É por isso, diz Nathalie Becquart, que pode haver alterações na maneira como se desenrolam os dias anteriores ao conclave. Um total de 68 cardeais participaram nas sessões do Sínodo sobre a Sinodalidade, que decorreram de maneira diferente das anteriores: em vez do tradicional anfiteatro, os participantes reuniram-se em pequenos grupos, em mesas redondas, para permitir a discussão aberta a vários níveis. “Muitos deles experienciaram o Sínodo, que é outra forma de estar, com mesas redondas e conversas em pequenos grupos”, lembra Becquart. “Aqueles que experienciaram outra forma de dialogar, de estar juntos, penso que muitos deles esperam que o modelo possa mudar. Sei que muitos gostariam de mudar. Há sempre uma possibilidade, não me cabe a mim dizer o que vai ser.”
Na opinião da subsecretária do Sínodo dos Bispos, “seria importante haver uma conversação no espírito e um estilo mais sinodal” nas congregações gerais de cardeais que antecedem o conclave. Questionada pelo Observador, admite que uma das possibilidades poderia ser a de abrir estas congregações a outras vozes, permitindo que os cardeais eleitores escutassem leigos de todo o mundo, com perspetivas e experiências de vida distintas das dos cardeais. “Talvez”, assume Becquart, sublinhando que não quer especular sobre o futuro. “Prefiro falar de onde estamos agora. Penso que, depois desta experiência, talvez os cardeais possam refletir nisto e propor algum tipo de evolução.”
“A visão da sinodalidade é que, no fim de contas, um bispo é a voz do seu povo”, resume a religiosa.
Legado do Papa Francisco é para continuar
Eventuais transformações, sublinha Nathalie Becquart, vão depender do futuro Papa. E, embora todos os sinais apontem para uma maioria de cardeais inclinada para continuar o legado de Francisco, isso não é uma certeza absoluta. Até porque, de acordo com alguns relatos vindos a público nos últimos dias, a aposta de Francisco num modelo de sinodalidade alargado à totalidade dos católicos não é unânime entre os cardeais — e não é criticada apenas por uma franja ultra-conservadora. Segundo a revista America, dos jesuítas, o cardeal Beniamino Stella, antigo prefeito da Congregação para o Clero, usou a sua intervenção nas congregações gerais para deixar duras críticas à atuação do Papa Francisco nesta matéria, acusando o pontífice argentino de ter “contornado a longa tradição da Igreja” de associar o poder às ordens sacras e de ter “imposto as suas próprias ideias”, por exemplo ao ter permitido, na reforma da Cúria Romana, que os leigos (incluindo as mulheres) pudessem ocupar os cargos de topo da hierarquia eclesiástica. Stella não pode votar no conclave, por ter 83 anos, mas tem sido considerado como um dos principais kingmakers, um artífice da campanha interna para fazer eleger como Papa o atual secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Pietro Parolin.
Nathalie Becquart prefere não comentar diretamente as notícias que chegam do interior das congregações gerais, através de cardeais que falam sob anonimato à imprensa, mas diz acreditar ser improvável que o próximo Papa recue em algumas das principais bandeiras do Papa Francisco, a começar pela sinodalidade e pelo alargamento à participação dos leigos nas estruturas de decisão da Igreja Católica. “O povo fala”, destaca a responsável do Sínodo dos Bispos. “Posso sublinhar o que vimos nos dias do Papa Francisco, o que vimos até à sua morte, tantas pessoas. Tantas pessoas vieram à basílica prestar homenagem ao Papa Francisco, e agora vão a Santa Maria Maior, ao túmulo. Todos os dias lá vão milhares de pessoas, todo o tipo de pessoas, pessoas pobres e simples, líderes políticos, homens e mulheres, pessoas de todos os caminhos da vida. O que vimos no funeral foi uma imagem desta forma de ser Igreja, através da diversidade, com toda a gente. Todas as pessoas que encontro aqui, não apenas bispos ou cardeais, todas dizem que temos de continuar em frente. É o que ouço. Acredito que o Espírito Santo está a falar através delas.”
Isso não significa, contudo, que não haja diferentes opiniões dentro da Igreja. “Há diversidade na Igreja e isso é normal desde o início”, destaca a religiosa. “Temos quatro evangelhos que contam a mesma história de formas diferentes.”
Desde a morte do Papa Francisco, os dias de Nathalie Becquart têm sido intensos. Por um lado, uma grande parte dos trabalhos do Sínodo dos Bispos está em stand-by, enquanto não é eleito um novo Papa. Por outro lado, um mês antes da sua morte, o Papa Francisco deixou um roteiro para um período de implementação de três anos — e há muito trabalho quotidiano a fazer, enquanto que a equipa do Sínodo dos Bispos em Roma vai acompanhando paróquias, dioceses, congregações e conferências episcopais de todo o mundo à medida que a todos os níveis se vai procurando adotar métodos sinodais.
Apesar da confiança, a responsável do Sínodo dos Bispos não esconde, contudo, que este é um momento de expectativa. “Estamos à espera do novo Papa, para saber se continua a promover isto ou não. Mas acho que será difícil andar para trás. A sinodalidade é um dos tópicos importantes, têm falado muito disso [nas congregações gerais]. Temos feito o trabalho diário e esperamos pelo novo Papa para continuar”, sublinha Becquart.
Apesar de poder haver surpresas, Becquart diz-se confiante de que o legado do Papa Francisco, incluindo o importante legado da sinodalidade, é para continuar. “Não sou só eu, é o que muitos dizem. Uma forma de entender a sinodalidade, podemos dizer, é um Concílio Vaticano II resumido. É uma forma de entender como implementar o Concílio Vaticano II agora”, diz a religiosa. “Claro que o Papa Francisco usou o Sínodo dos Bispos como um instrumento muito importante da reforma da Igreja. Mas o Papa Francisco sublinhou aquilo que tem sido o discernimento da Igreja. A sinodalidade, e cito o Papa Francisco, é um apelo de Deus à Igreja do século XXI. Portanto, todos aqueles que têm participado no Sínodo, experimentado o método sinodal, participado nas consultas sinodais, quando as pessoas o experimentam, adotam-no. Cada vez mais pessoas, não apenas o Papa Francisco, estão convencidas de que a sinodalidade é uma forma de ser Igreja no mundo de hoje, de continuar a missão da Igreja.”
▲ Como subsecretária do Sínodo dos Bispos, Nathalie Becquart é uma das mulheres mais influentes do Vaticano
Mondadori Portfolio via Getty Im
Para Nathalie Becquart, a sinodalidade é “um legado muito importante do Papa Francisco”, que foi “audaz em convocar um sínodo para toda a Igreja”, envolvendo “toda a gente” no processo. A religiosa explica que Francisco fez isso porque percebeu que só com o “estilo sinodal” é que é possível “pôr em prática a visão do Concílio Vaticano II”. Isso, aliás, tem sido comum a todos os Papas desde a década de 1960, diz Becquart: “Todos os papas desde o concílio disseram que o Concílio Vaticano II é o nosso mapa. Se acreditamos que esta é a forma de ser Igreja hoje, que é um chamamento de Deus, estou muito confiante de que vai continuar. É a forma como o Espírito Santo está a guiar a Igreja.”
“Não acredito que o novo Papa se possa livrar de tudo isso”, acrescenta a religiosa, que se tornou num dos principais rostos da reforma da Igreja Católica operada por Francisco — e que foi apanhada totalmente de surpresa pela morte do pontífice argentino. “Estava em Roma para a Páscoa. Na noite de sábado, fui à Basílica de São Pedro, para a Vigília Pascal, presidida pelo cardeal Re, o mesmo que presidiu hoje. Sabíamos que o Papa estava lá, mas não pôde vir à missa. Depois, no domingo de manhã, estava na Praça de São Pedro, quando o Papa veio dar a sua bênção e passou pela multidão. Portanto, estive lá nos últimos momentos do Papa.”
Na manhã seguinte, dia de folga no Vaticano, Nathalie Becquart foi com dois amigos fazer uma caminhada pela natureza nos arredores de Roma, e não prestou atenção ao telemóvel. “Estávamos a fazer uma caminhada, numa zona muito agradável, quando parámos para fazer uma pausa e beber água, olhámos para o telemóvel e foi assim que soubemos”, conta. “Voltei imediatamente.”
A religiosa tinha estado pessoalmente com o Papa Francisco pela última vez numa reunião no final de janeiro, poucos dias antes da hospitalização de Francisco. Nathalie Becquart já sabia que ele estava muito debilitado, mas nada a preparara para o desfecho tão rápido: “No domingo, já podíamos ver que ele estava muito frágil, a voz dele não estava muito bem, mas nunca imaginei que fosse tão rápido. Foi uma surpresa.” Logo no dia da morte, por trabalhar no Vaticano, Nathalie pôde estar na Casa de Santa Marta para se despedir de Francisco. “Depois, estive na procissão quando houve a trasladação de Santa Marta para a Basílica. Por isso, experienciei tudo isso estando aqui. Fiquei muito comovida com a quantidade de pessoas que vieram. A notícia da morte do Papa Francisco não nos afetou apenas a nós no Vaticano, afetou todo o mundo. Fiquei surpreendida. Comecei a receber tantas mensagens de condolências, incluindo de não crentes, de muçulmanos…”
Se nada mudar, o Sínodo dos Bispos no modelo mais alargado proposto por Francisco é para continuar — e há contributos concretos que podem começar a traduzir-se já nesta eleição. “Por exemplo, durante o Sínodo, um tópico importante foi sobre como reimaginar as primazias, ou seja, o papel do Papa e o seu ministério, numa forma sinodal. Portanto, temos feito parte disso. Não foi um pré-conclave, mas muitos dos que lá estiveram refletiram connosco sobre como bem exercer o ministério do Papa. Todo o caminho que tem sido feito, todo o processo que tem sido feito, já lá está, na Capela Sistina. Porque os cardeais, mesmo que não tenham estado no Sínodo, viram o que aconteceu e trazem isso.”
O processo sinodal atualmente em curso deve prolongar-se, pelo menos, até outubro de 2028, quando cardeais, bispos e leigos se vão reunir em Roma numa assembleia eclesial. Até lá, há um longo processo de acompanhamento e implementação do processo sinodal, explica Nathalie Becquart: “O que o nosso gabinete pediu é que cada diocese, cada conferência episcopal, tenha uma equipa sinodal, encarregue de ajudar neste processo de receção e implementação. Mas nem toda a gente está no mesmo nível. Para alguns demora mais tempo. O plano de três anos que o Papa Francisco publicou é uma forma de acompanhar e apoiar especialmente aqueles que precisam de mais ajuda para andar em frente.”
Assim que estiver eleito um novo Papa, Nathalie Becquart espera poder reunir-se com ele o mais rapidamente possível. “Ele terá muitas coisas para fazer. Mas o Sínodo é um instrumento para o Papa”, afirma. “Esperamos reunir com ele rapidamente. Estamos ao serviço da Igreja, do povo. Vamos dizer-lhe que estamos preparados para continuar.”
Nathalie Becquart também espera que o próximo Papa não recue no processo gradual lançado pelo papa Francisco de colocar homens e mulheres em pé de igualdade no acesso aos cargos de autoridade. “O Papa Francisco fez muito, porque estava convencido de que homens e mulheres somos iguais, somos iguais como batizados e de que o mundo e a Igreja precisam das mulheres também em cargos de liderança. Ele deu passos significativos com estas nomeações”, sublinha a religiosa francesa. “É um apelo urgente que veio do sínodo e que tem de ser feito a todos os níveis, não apenas no Vaticano. O Vaticano é importante, dá o exemplo e já está a inspirar outros bispos a fazer o mesmo.” É, por exemplo, o caso da diocese de Setúbal, onde em 2021 o bispo José Ornelas nomeou uma mulher para o cargo de chanceler da cúria — uma decisão inédita na Igreja em Portugal.
“É um sinal dos tempos. Não pensamos sobre os homens e as mulheres hoje da mesma forma que pensávamos há 100 anos”, destaca. “Sabemos que, quando temos homens e mulheres na liderança, habitualmente, tomamos melhores decisões, servimos melhor a nossa missão. Não é apenas para o Papa Francisco, é para o bem da missão da Igreja. Se a Igreja quer continuar a servir bem as pessoas e a humanidade, tem de ter mulheres na liderança. Vejo isto a ser pedido, não apenas por mulheres, mas por muitos homens, muitos bispos e cardeais. Têm sido dados passos importantes. Para muitos, há um sentimento de que isto tem de ser continuado. A sinodalidade é ajudar todos os leigos a compreender que, como batizados, temos de ser protagonistas da missão da Igreja.”
“Continuar a missão da Igreja neste mundo, se o fazemos apenas com algumas pessoas como os padres e os bispos, não faremos tanto como poderíamos fazer todos juntos, enfrentando todos os desafios que enfrentamos. Como o Papa Francisco sublinhava, toda a gente é necessária, a Igreja é para todos. É a visão do Concílio Vaticano II”, sintetiza Nathalie Becquart. “Mas demora tempo a ser colocado em prática. Não chega meter isto num documento, é preciso mudar as mentalidades.”