Quando entrarem na Capela Sistina esta quarta-feira para, num dos processos de votação mais secretos do mundo, escolherem o próximo Papa, os cardeais da Igreja Católica vão, essencialmente, ter de optar entre duas propostas: a continuidade ou a ruptura. Se é verdade que, em tese, os cardeais têm a missão de escolher o 267.º sucessor de São Pedro — e não o sucessor de Francisco — é igualmente verdade que o próximo pontificado será sempre lido à luz dos seus antecessores imediatos, e muito concretamente em comparação com o pontificado de Francisco, que morreu no final de abril aos 88 anos após doze anos de liderança marcados por um forte ímpeto reformista.
Este será um dos conclaves mais imprevisíveis de sempre. Os mais de 130 eleitores foram maioritariamente (80%) escolhidos pelo próprio Francisco; muitos deles vêm das periferias da Igreja, de pequenas dioceses e comunidades em zonas que nunca tinham tido um cardeal, e não frequentam habitualmente os corredores do Vaticano, como acontecia antigamente com o domínio absoluto dos cardeais italianos; uma grande parte deles não se conheciam pessoalmente até esta semana. Agora, estes 133 homens vão ter de ficar fechados na Capela Sistina até se colocarem de acordo sobre quem é a figura mais adequada para liderar a Igreja Católica de hoje, perante os desafios concretos do mundo contemporâneo, crescentemente secularizado, menos eurocêntrico, mais desconfiado de religiões organizadas.
Por isso, os dias que antecedem o conclave são fundamentais — mais importantes até do que o conclave propriamente dito. Desde que o Papa Francisco morreu, a 21 de abril, que o governo da Igreja global está temporariamente entregue, de forma coletiva, ao colégio cardinalício. Ao longo dos últimos dias, viajaram para Roma para participarem nas reuniões diárias a que se dá o nome de “congregações gerais”. Se, nos primeiros dias depois da morte de Francisco, estas congregações serviram essencialmente para preparar o funeral do anterior pontífice, agora elas são o principal fórum de debate entre os cardeais que se preparam para o conclave.
Nas congregações gerais, todos os cardeais — incluindo os que têm mais de 80 anos e já não podem votar, mas podem ser decisivos para influenciar a escolha dos colegas mais novos — são convidados a discursar perante os seus pares para lhes apresentar as suas perspetivas sobre a Igreja e o mundo. Todos são convocados para contribuir para uma reflexão fundamental: diante da realidade concreta do mundo e das pessoas de hoje, como deve agir a Igreja para apresentar de modo eficaz a sua proposta, como pode a Igreja contribuir de forma positiva para essa realidade e qual o perfil mais adequado para liderar a Igreja nesse contexto.
▲ A morte do Papa Francisco, aos 88 anos, deixa uma grande incógnita sobre a sucessão
JOÃO PORFIRIO/OBSERVADOR
Se o conclave é verdadeiramente secreto e impenetrável (ao ponto de continuar a alimentar livros e filmes em que é praticamente impossível perceber as fronteiras entre ficção e realidade), o processo que o antecede é ligeiramente menos opaco. Há várias formas de tentar ter um vislumbre do que está a marcar as discussões entre os cardeais: por um lado, o serviço de imprensa da Santa Sé divulga diariamente pequenas sínteses das congregações gerais, que decorrem à porta fechada; por outro lado, os jornalistas de plantão nas várias entradas do Vaticano conseguem, ocasionalmente, captar uma ou outra declaração de um cardeal a entrar ou a sair; além disso, alguns cardeais vão mais longe e dão mesmo entrevistas mais longas; por fim, as homilias dos cardeais nas missas dos nove dias de luto pelo Papa Francisco permitem ter uma ideia das prioridades que estão na cabeça de algumas das vozes mais influentes dentro do conclave.
Olhando para todos estes sinais, os cardeais parecem estar inclinados, para já, no sentido da continuidade em relação ao Papa Francisco e ao seu pontificado reformista. Nos últimos doze anos, Francisco — o primeiro Papa filho do Concílio Vaticano II (considerando que tanto João Paulo II como Bento XVI tiveram papéis ativos no concílio que se deu entre 1962-65) — procurou implementar um conjunto de reformas e transformações cuja origem pode ser justamente encontrada nessa reunião magna dos bispos da década de 60: a ideia de uma Igreja mais horizontal, onde todos participam nos processos de decisão, e menos assente numa hierarquia absoluta onde o clero surge como uma casta ou uma elite, acima dos fiéis comuns, ganhou corpo especialmente nos últimos anos do Papa Francisco, com o sínodo sobre a sinodalidade, cujos trabalhos devem continuar nos próximos três anos.
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Outros temas, incluindo a abertura à possibilidade de as mulheres acederem aos ministérios ordenados ou uma renovada forma de olhar para os temas fraturantes da moral sexual, a possibilidade de os leigos — e já não apenas os clérigos — acederem a cargos de autoridade e poder na Igreja e o regresso às raízes evangélicas do Cristianismo foram sintetizados no grito deixado por Francisco em Lisboa: a Igreja é para “todos, todos, todos.” Ou seja, não apenas para alguns, poucos, escolhidos e doutrinariamente perfeitos.
Na prática, como tem defendido o teólogo checo Tomáš Halík, o pontificado de Francisco inaugurou uma nova forma de a Igreja se relacionar com o mundo: se, desde o século XIX, a Igreja, vendo-se a perder o seu poder terreno, procurou encastelar-se numa posição de condenação frontal do mundo moderno (com a moral sexual como principal bandeira), nesta nova era pós-moderna precisa de saber “encarnar os valores do evangelho no estilo de vida e de pensamento dos povos”. Ou, como resumia ao Observador o antigo provincial dos jesuítas em Portugal, José Frazão Correia: “O Papa Francisco interpreta essa necessidade de a Igreja se compreender num quadro cultural, social radicalmente diferente para cumprir bem a sua missão, que é de ser capaz de testemunhar e de concretizar o Evangelho para pessoas existencialmente concretas, culturalmente situadas.”
Se o pontificado de Francisco mostrou que uma Igreja Católica fechada dentro dos seus muros a dedicar-se a apontar os erros do mundo moderno já não funciona, o seu sucessor terá agora uma missão duplamente espinhosa: por um lado, suceder a uma figura profundamente carismática como Francisco será sempre uma tarefa difícil e sujeita às inevitáveis comparações; por outro lado, Francisco deixou muitos processos em aberto, muitos debates por continuar e muitas reformas por implementar. Ao mesmo tempo, procurou colocar a Igreja ao serviço da paz, enviando alguns dos seus colaboradores mais próximos à Ucrânia, à Rússia, a Israel e à Palestina e oferecendo o próprio Vaticano como terreno neutro para negociar a paz cara-a-cara. O encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky no funeral de Francisco foi apenas o último ato desta intensa atividade diplomática do Papa argentino.
À porta fechada, os cardeais têm vindo a discutir o que fazer não só com este legado, mas também com a forma como o pontificado de Francisco foi percebido em todo o mundo — o que condicionará, à partida, a escolha do seu sucessor. Depois de Bergoglio ter aberto algumas portas, dificilmente os cardeais poderão escolher um sucessor que as feche. O cardeal Walter Kasper, eminente teólogo alemão que era muito próximo de Francisco — conhecido pelas suas ideias profundamente progressistas em matérias como o ecumenismo ou a moral familiar, mesmo quando isso o colocou em rota de colisão com João Paulo II e Bento XVI —, resumiu esse sentimento numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica, dizendo que “o povo de Deus já votou” quando compareceu em massa no funeral do Papa argentino, pedindo “continuidade com Francisco”.
No mesmo sentido, o cardeal Pietro Parolin, atual secretário de Estado do Vaticano e amplamente considerado o mais provável sucessor de Francisco (em grande medida por ser o candidato mais bem posicionado para reunir o consenso entre dezenas de cardeais que não se conhecem bem), usou a sua homilia no primeiro dos nove dias de luto pelo Papa para discursar em defesa da continuidade. Sublinhando a “misericórdia” como grande legado de Francisco, Parolin destacou que “é importante acolher como um tesouro precioso este princípio no qual o Papa Francisco insistia tanto”.
“O nosso afeto por ele, que está a ser manifestado nesta altura, não pode ser uma simples emoção do momento; temos de acolher o seu legado e torná-lo parte da nossa vida, abrindo-nos à misericórdia de Deus e sendo misericordiosos uns com os outros”, afirmou Parolin, num discurso que deverá ser lido pelos seus pares como uma verdadeira declaração de campanha pró-continuidade.
▲ O funeral do Papa Francisco aconteceu em Roma na semana passada
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Dentro de portas, o frade beneditino Donato Ogliari, atual abade da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, falou aos cardeais para lhes pintar um retrato daquele que deve ser o próximo Papa. Numa reflexão carregada de referências ao pontificado de Francisco, Ogliari — convidado pelos cardeais para a primeira das duas meditações que os eleitores escutam antes de votarem — pediu que os cardeais escolhessem um Papa capaz de garantir uma Igreja “enraizada em Cristo”, que “evita a autorreferencialidade e sabe como transcender as suas próprias fronteiras para alcançar aqueles que estão no exterior, aqueles que experimentam a falta de sentido da vida ou que estão marcados pelo estigma da marginalização e da exclusão”.
“Aprofundar o processo sinodal — que procura revitalizar a comunhão e a participação dentro da Igreja — pode tornar a missão da Igreja mais eficaz em vários setores da sociedade, graças ao círculo virtuoso criado entre comunhão, participação e missão”, afirmou Ogliari, referindo-se ao grande projeto do Papa Francisco para a Igreja de hoje, o sínodo sobre a sinodalidade.
Dentro das congregações gerais, a julgar pelas sínteses enviadas pelo departamento de imprensa do Vaticano, as discussões têm sido impregnadas de uma linguagem muito própria do pontificado de Francisco. Na décima congregação geral, que aconteceu na manhã de segunda-feira, 5 de maio, “o foco esteve na natureza missionária da Igreja: uma Igreja que não pode fechar-se em si mesma, mas sim acompanhar cada homem e cada mulher rumo à experiência viva do mistério de Deus”.
“O perfil do futuro Papa também foi discutido: uma figura que esteja presente, próxima, capaz de ser uma ponte e um guia, de favorecer o acesso à comunhão de uma humanidade desorientada, marcada por uma crise da ordem mundial, um pastor próximo da vida real das pessoas”, lê-se no resumo.
Noutra das sessões, foi chamada a atenção para “o risco de a Igreja se tornar auto-referencial e perder a sua relevância se não viver no mundo e com o mundo”. Num outro comunicado, o Vaticano disse que os cardeais discutiram como a “evangelização esteve no centro do pontificado do Papa Francisco” e se debruçaram sobre a capacidade da Igreja de falar “especialmente às gerações mais jovens”.
Cá fora, alguns cardeais vão revelando um pouco do que tem acontecido no interior das discussões. Foi o caso dos cardeais portugueses António Marto e Manuel Clemente, que no fim de semana falaram aos jornalistas portugueses em Roma e mencionaram a expectativa de “continuidade” e a possibilidade de “surpresas”.
“Não podemos excluir que haja surpresas”, afirmou Marto, que também sublinhou que existe a “perspetiva de uma continuidade da linha e do pontificado de Francisco”. Isso, disse o bispo emérito de Leiria-Fátima, que é um dos 133 cardeais eleitores, tem estado presente na “maioria das intervenções” dentro das congregações gerais, onde tem sido também mencionada a “necessidade de não voltar atrás”. No mesmo sentido, Manuel Clemente sublinhou que, dentro das congregações gerais, os cardeais têm vindo a convergir “numa silhueta, num perfil, que continue esta atitude pastoral, no sentido mais preenchido, do Papa Francisco”.
Isto não significa que não haja quem, dentro do conclave, esteja a fazer campanha no sentido contrário. O cardeal alemão Gerhard Müller, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e uma das vozes mais influentes da ala conservadora da Igreja, tem dado várias entrevistas nos últimos dias e não tem escondido as críticas ao Papa Francisco e à sinodalidade, reiterando apelos a que o próximo Papa seja um ortodoxo, defendendo que a discussão seja feita em termos de heresia vs. ortodoxia, pedindo que o sucessor de Francisco combata o “lóbi gay” e garanta “clarificação” em matérias como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a ordenação de mulheres, entre outros assuntos. Entre os mais conservadores, como escrevia recentemente o correspondente do The New York Times no Vaticano, a palavra de ordem é “unidade” — é preciso um Papa, defendem, que garanta a unidade e a unificação da Igreja, ou seja, que não provoque rupturas ao defender ideias menos ortodoxas. Os mais reformistas e mais alinhados com Francisco, por seu turno, defendem que a unidade a todo o custo não deve ser uma prioridade.
A verdade é que, mais do que no conclave propriamente dito, as grandes decisões sobre o próximo Papa foram tomadas nestes dias que antecederam a entrada dos cardeais na Capela Sistina. Seja em privado, nas congregações gerais, ou em público, nas homilias em Roma, os grandes temas estão a ser colocados em cima da mesa. No passado, foi assim. Em 2005, coube ao cardeal Joseph Ratzinger presidir ao funeral de João Paulo II e à missa de abertura do conclave — duas circunstâncias em que o futuro Papa Bento XVI assumiu o protagonismo. No conclave de 2013, o momento fulcral ocorreu nas congregações gerais, quando o cardeal Bergoglio fez uma curtíssima intervenção em que condensou a visão de futuro para a Igreja que acabaria por implementar durante o seu pontificado.
Resta saber se, nas congregações gerais que têm decorrido à porta fechada nos últimos dias, algum cardeal se destacou perante os seus colegas e se os cardeais vão entrar na Capela Sistina mais ou menos decididos sobre o nome que pretendem escrever no boletim.