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Gamma-Rapho via Getty Images

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O confinamento, as votações secretas e o fumo branco da Capela Sistina. O que ocorre durante um conclave?

Em caso de morte ou renúncia de um Papa, todos os cardeais viajam para Roma. Durante o conclave, ficam confinados e sem contacto com o exterior até, por votação secreta, elegerem um novo pontífice.

Um homem percorre solitariamente a Piazza Navona, em Roma. Trocou as vestes vermelhas de cardeal por uma simples batina preta e passa despercebido entre os que, como ele, caminham pela praça, até que se cruza com um velho amigo. Agarra-lhe as mãos com familiaridade e faz-lhe um pedido: “Reza por mim.” Assume que está “um pouco” nervoso com o que aí vem. É domingo, 10 de março de 2013, e o cardeal Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, está a meros dois dias de entrar no seu segundo conclave, desta vez para escolher o sucessor do Papa Bento XVI.

Muito se há de passar entre o momento em que, juntamente com outros 114 cardeais, se recolhe na Casa de Santa Marta, sem qualquer contacto com o mundo exterior, e o seu aparecimento à varanda da Basílica de São Pedro, já nas tradicionais vestes brancas, para se dirigir a uma multidão expectante e encharcada pela chuva. “Sabem que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram quase ao fim do mundo buscá-lo”, brincou o primeiro Papa não europeu em 1.272 anos sobre o processo de eleição, que decorre à porta fechada, com juramentos de segredo absoluto, sob os frescos de Miguel Ângelo na Capela Sistina.

Nem sempre foi ali que os cardeais se reuniram para decidir quem devia ser o novo pontífice, nem de forma tão estruturada. Em 1269, congregaram-se na cidade italiana de Viterbo, onde o Papa Clemente IV tinha morrido. Demoraram dois anos e nove meses para nomear Gregório X — a mais longa eleição papal —, num processo muito diferente do que levou à escolha de Francisco ao fim de pouco mais de 24 horas e cinco votações.

Assim que é conhecida a notícia de que a Igreja está em “Sede Vacante” — por morte de um Papa ou renúncia — os cardeais de todo mundo viajam para Roma para eleger o novo pontífice.

Sob as regras atuais, apenas cardeais com menos de 80 anos podem votar. De momento há 135 eleitores, de um total de 252 cardeais, espalhados por todo o mundo. A lista inclui o nome de quatro portugueses: Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; António Marto, bispo emérito da Diocese de Leiria-Fátima; José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação; e Américo Aguiar, bispo de Setúbal.

Ao contrário de uma eleição típica, não há candidatos oficiais — ainda que haja nomes que sejam apontados pelos vaticanistas como possíveis papabili — ou uma campanha, algo que é proibido. Qualquer cardeal pode sair do conclave como Papa (‘Aquele que entra como papa, sai como cardeal”, diz o ditado italiano). Aliás, em teoria, qualquer homem batizado pode ser eleito, ainda que na prática isso nunca aconteça. Mesmo a última vez que um pontífice foi escolhido fora do Colégio Cardinalício foi há quase 700 anos, com a nomeação do arcebispo de Bari, Bartolomeu Prignano (Papa Urbano VI).

Antes do fumo branco brotar da chaminé da Capela Sistina e dos sinos da Basílica de São Pedro tocarem para se confirmar a eleição é preciso que um dos cardeais atinja uma maioria de dois terços. Só depois disso é proclamado o “Habemus papam.”

Quem é quem num conclave

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Daquela vez, em março de 2013, William O’Connell estava determinado a chegar a Roma a tempo. Assim que soube da morte do Papa Bento XV, o cardeal norte-americano viajou de Boston para Nova Iorque. Aí estava atracado um navio reservado para o levar a França, onde embarcou noutro para chegar a Nápoles. De lá seguiu de comboio até à capital italiana, descreve o canal História. Ainda assim, e pela segunda vez, não chegou a tempo do conclave.

O cardeal O’Connell já só ouviu os sinos que, em 1922, tocaram após a eleição de Pio XI. Não terá sido coincidência que uma das primeiras mudanças implementadas pelo novo pontífice tenha sido alargar de dez para 15 dias o período mínimo entre a morte do Papa e o início da eleição. A medida mantém-se até hoje e permitiu que, em 1939, o cardeal O’Connell participasse no seu primeiro conclave.

Atualmente, assim que é conhecida a notícia de que a Igreja está em “Sede Vacante” — seja por morte de um Papa ou renúncia — os cardeais de todo mundo viajam para Roma, ficando alojados na Casa de Santa Marta, a atual residência de Francisco. Se por algum motivo não tiverem chegado todos até ao 15.º dia, pode esperar-se até ao 20.º, altura em que o conclave tem início, esteja quem estiver. No último, estiveram reunidos todos os 151 cardeais. Destes, 115 tinham menos de oitenta anos de idade e, por isso, direito a votar.

Há várias figuras centrais na eleição de um novo Papa, como o Camerlengo, que formalmente anuncia a morte do pontífice, e o Decano, que preside ao Colégio dos Cardeais.

Um conclave é sempre preparado ao detalhe. As regras pelas quais se rege estão descritas ponto por ponto na Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis (UGD, em português, Todo o Rebanho do Senhor), publicado pelo Papa S. João Paulo II e a que Bento XVI fez algumas alterações. A eleição, que tem servido de inspiração a uma série de filmes — de As Sandálias do Pescador (1963), a Habemus Papam (2011) ou Dois Papas (2019) — é conduzido por várias figuras centrais. Com destaque para o cardeal Camerlengo, que formalmente anuncia a morte do Papa e marca a primeira congregação geral de cardeais, e o cardeal Decano, que preside ao Colégio dos Cardeais.

É ao Camerlengo que cabe a responsabilidade de constatar oficialmente a morte do Papa. No filme Conclave (2024), talvez o que mostra com maior detalhe os passos da eleição — ao NYT um padre jesuíta especialista no funcionamento interno da igreja deu-lhe um B+ pela “precisão em termos de procedimentos” –, esse momento é protagonizado pelo ator John Lithgow na personagem de cardeal Tremblay. É também ele que sela o quarto e escritório do pontífice e que administra de forma temporária a cidade do Vaticano. Em 2019, o Papa Francisco nomeou para o cargo o irlandês e norte-americano Kevin Joseph Farrell, o cardeal que anunciou a Jornada Mundial da Juventude em Portugal e que é o prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

O Camerlengo é quem, habitualmente, informa o cardeal Decano da morte do Papa. Este, por sua vez, comunica a notícia a todos os cardeais, convocando-os para as chamadas Congregações Gerais. Nestes encontros que antecedem o conclave, à porta fechada, os cardeais tomam várias decisões urgentes, como determinar o que é necessário organizar para o funeral do Papa e estabelecer o dia e hora para início das votações. É também um tempo para os cardeais se conhecerem e há espaço para intervenções. Em 2013, ficou famosa a do cardeal Bergoglio sobre a necessidade de uma Igreja em saída — expressão que marcaria o seu pontificado.

O cardeal Kevin Joseph Farrell comunica a morte do Papa Francisco (21 de abril de 2025)

▲ O momento em que o cardeal camerlengo (o segundo a contar da esquerda) comunica a morte do Papa Francisco

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O Decano é também quem, por norma, confirma a escolha do Papa no final do conclave. “Aceitas a tua eleição canónica para Sumo Pontífice?”, questiona Ralph Fiennes, na pele de cardeal Lawrence, no filme de Edward Berger. O italiano Giovanni Battista Re ocupa o cargo desde 2020 e viu o seu mandato renovado este ano pelo Papa Francisco. Já aconteceu um Decano chegar a Papa, exemplo disso é Joseph Ratzinger, que, após presidir ao funeral de S. João Paulo II como decano, foi ele próprio eleito em 2005.

epa08912716 Cardinal Giovanni Battista Re celebrates the First Vespers and Te Deum, the rites of thanksgiving at the end of the year, at the Saint Peter's Basilica, Vatican City, 31 December 2020. Pope Francis was unable to preside over the end of year Vespers and Te Deum on 31 December and will not hold the Holy Mass for the Solemnity of Mary the Mother of God on 01 January 2021 due to a 'painful sciatica', it was reported.  EPA/FABIO FRUSTACI / POOL

▲ É o Decano - o atual é Giovanni Battista Re - que comunica à morte do Papa a todos os cardeais

FABIO FRUSTACI / POOL/EPA

Com 91 anos, Giovanni Battista Re já não entra em conclave, assim como o atual vice-decano, o argentino Leonardo Sandri, de 81. Pela ordem de precedências será o cardeal italiano Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé de 70 anos, a presidir ao próximo conclave. Será, porém, o cardeal francês de origem marroquina Dominique Mamberti, enquanto Proto Diácono, o responsável por anunciar o nome de um novo Papa.

epa09796888 Vatican Secretary of State Cardinal Pietro Parolin leads the Ash Wednesday mass opening Lent, the forty-day period of abstinence and deprivation for Christians, before Holy Week and Easter at Santa Sabina church in Rome, Italy, 02 March 2022.  EPA/RICCARDO ANTIMIANI

▲ Será o cardeal italiano Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, a presidir ao próximo conclave

RICCARDO ANTIMIANI/EPA

Regras, proibições e juramentos de segredo

“Quando os Cardeais entram na Capela Sistina, o coro está a entoar a litania dos santos. O Cardeal Decano, Ratzinger, ocupa o último lugar. Como já esperava, o cenário é impressionante, com o Juízo Final de Miguel Ângelo a dominar o ambiente.” A descrição é de Joaquín Navarro Valls, histórico porta-voz do Vaticano e um dos mais próximos colaboradores do Papa S. João Paulo II. No livro Os meus anos com João Paulo II, referia-se ao início do conclave de 2005, que elegeu Bento XVI, como uma cerimónia “muito ordenada.” Mas nem sempre foi assim.

▲ As votações do conclave decorrem na Capela Sistina, sob os frescos de Miguel Ângelo

AFP/Getty Images

As primeiras eleições papais não tinham uma estrutura formal e variaram ao longa da história. Alguns Papas foram nomeados pelos seus predecessores, outros por governantes políticos, que chegaram a ter inclusivamente o direito de vetar candidatos. O Conclave de 1903 foi o último em que um imperador — neste caso Francisco José, do império Austro-húngaro — usou este poder, bloqueando aquele que era considerado o principal candidato, o cardeal Mariano Rampolla.

Nos dias de hoje, o processo é estruturado e não deixa margem para dúvidas. Os cardeais começam por ser instalados na Casa de Santa Marta. A residência atual do Papa Francisco foi usada pela primeira vez para o conclave de 2005, substituindo as acomodações improvisadas no Palácio Apostólico. À chegada, os cardeais entregam os telemóveis e computadores e as suas pastas são analisadas com máquinas de raios X. Não pode haver qualquer equipamento de captação de vídeo ou som. Correm-se também as persianas das janelas e bloqueiam-se todas as comunicações móveis. Não se pode ouvir rádio ou ver televisão. Os cardeais estão proibidos de todas as formas de contacto e comunicação com o exterior para não serem sujeitos a qualquer influência externa.

"A razão pela qual desejamos proteger aqueles [que votam] é porque este não é apenas um processo democrático (...) Isto não é apenas quem obtém mais votos ou politiquice."

Mesmo terminado o conclave, o secretismo mantém-se. Os cardeais estão proibidos de revelar, quer direta ou indiretamente, informações sobre o que se passou, nomeadamente sobre as votações. A proibição estende-se a qualquer pessoa que intervenha no processo, que faz um juramento de segredo absoluto, sob pena de excomunhão. “A razão pela qual desejamos proteger aqueles [que votam] é porque este não é apenas um processo democrático. Este é um processo que é humano, mas cada um deles é chamado também a apresentar os seus pensamentos diante de Deus. … Isto não é apenas quem obtém mais votos ou politiquice“, sublinhou ao Washington Post o reverendo Mark Morozowich depois das fugas de informação sobre o conclave de 2013.

[Já saiu o sexto e último episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto episódio]

É também proibido o ato de simonia (venda de favores, bênçãos, cargos em troca de dinheiro), sob pena de excomunhão. Os cardeais estão também impedidos de todas as negociações enquanto o Papa estiver vivo e sem o ter consultado, acerca da eleição do seu Sucessor, de prometer votos, ou tomar decisões sobre isso em encontros privados.

▲ O conclave tem início com a missa Missa Pro Eligendo Papa, celebrada na Basílica de São Pedro e aberta a todos os fiéis

GREGORIO BORGIA/POOL/EPA

A missa Missa Pro Eligendo Papa, celebrada durante a manhã na Basílica de São Pedro e aberta a todos os fiéis que desejem assistir, marca o arranque de um conclave. Da parte da tarde os cardeais reúnem-se na Capela Paulina, no Palácio Apostólico, envergando vestes corais. De lá, partem em procissão para a Capela Sistina entoando o hino Veni Creator — uma súplica ao auxílio do Espírito Santo. Chegados à capela, é o momento do juramento, feito pelo Decano — que se tiver mais de 80 anos é substituído pelo vice-decano ou pelo cardeal bispo mais acima nas precedências.

Quem quer de nós, que, por divina disposição, for eleito Romano Pontífice, comprometer-se-á a desempenhar fielmente o munus Petrinum de Pastor da Igreja universal e não cessará de afirmar e defender estrenuamente os direitos espirituais e temporais, assim como a liberdade da Santa Sé. Sobretudo prometemos e juramos observar, com a máxima fidelidade e com todos, tanto clérigos como leigos, o segredo acerca de tudo aquilo que, de algum modo, disser respeito à eleição do Romano Pontífice e sobre aquilo que suceder no lugar da eleição, concernente direta ou indiretamente ao escrutínio; não violar, de modo nenhum, este segredo, quer durante quer depois da eleição do novo Pontífice, a não ser que para tal seja concedida explícita autorização do próprio Pontífice; não dar nunca apoio ou favor a qualquer interferência, oposição ou outra forma qualquer de intervenção, pelas quais autoridades seculares de qualquer ordem e grau, ou qualquer género de pessoas, em grupo ou individualmente, quisessem imiscuir-se na eleição do Romano Pontífice.”

Os cardeais prestam então adesão a este juramento, numa formulação mais simples. Fazem-no, um a um, aproximando-se do livro dos Evangelhos, no centro da Capela Sistina, sob o qual pousam a mão.

Das votações secretas ao fumo branco

“Extra Omnes.” As palavras, em latim, são proferidas em tom solene por monsignor Guido Marini. Com o tradicional “Todos Fora”, o discreto Mestre de Cerimónias, em 2013, convidava a sair todos da Capela Sistina até ficarem apenas os cardeais eleitores, ele próprio e o padre que ficou encarregado de dirigir aos Cardeais a primeira meditação — ambos saem antes das votações. “Um dos momentos mais especiais que vivi nestes anos foi o período do conclave”, assumiria Marini anos mais tarde em entrevista ao Vatican News.

▲ O fumo branco é libertado pela chaminé da Capela Sistina para confirmar a eleição do novo Papa

AFP/Getty Images

A última visão antes das imensas portas se fecharem, guardadas por elementos da Guarda Suíça, mostra os cardeais sentados em fila diante longas mesas. Há quatro, duas de cada lado da capela, sob um chão falso debaixo do qual se colocam dispositivos de interferência para bloquear telemóveis ou dispositivos de escuta. O que se segue é apenas conhecido, em teoria, pelo documento que rege o conclave, e pelos testemunhos que, apesar do juramento de segredo, por vezes se tornam públicos.

Depois de um padre dirigir aos cardeais uma meditação — deve versar sobre “a gravíssima tarefa que sobre eles incumbe” — e sair, os cardeais preenchem o nome do homem que acreditam que deve ser o próximo Papa. A frase “Eligo in Summum Pontificem” (“Escolho para Sumo Pontífice”) repete-se em cada boletim de voto, seguida de um espaço em branco para preencher com um nome.

Feita a escolha, os cardeais dirigem-se um a um ao altar, mantendo durante todo o tempo o voto, dobrado em dois, levantado. Invocando Cristo como testemunha e juiz e reconhecendo que o voto se destina ao homem que acreditam que deve ser eleito aos olhos de Deus, colocam-no num prato sobre o altar, inclinando-o para que caia dentro de uma urna de prata. No final, todos os votos são contados por três escrutinadores escolhidos à sorte para garantir que não há a mais ou a menos. Se o número de fichas não corresponder ao número de eleitores — como já aconteceu — são todas queimadas e procede-se imediatamente a outra votação.

Os boletins de votos são queimados para comunicar ao mundo os resultados. Há, para isso, dois fogões na Capela Sistina: um para destruir os papéis, o outro para gerar fumo branco ou negro.

No conclave de 2013, os gestos repetiram-se 115 vezes na primeira votação — há quatro por dia, à exceção do inicial, em que só há uma. À medida que os votos eram lidos por um dos escrutinadores, que os perfurava com uma agulha pela palavra Eligo e os inseria num fio para melhor se preservarem, quatro nomes estavam entre os mais repetidos e rabiscados pelos cardeais num papel próprio para as contagens. Eram eles Angelo Scola, arcebispo de Milão; Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo; Marc Ouellet, presidente da conferência episcopal do Canadá; e Jorge Bergoglio, o arcebispo de Buenos Aires conhecido pelo trabalho com os pobres e marginalizados. Se o primeiro dia acabar sem um eleito, como é comum acontecer e foi o caso nesse ano, os boletins de votos são queimados para comunicar ao mundo os resultados. Há, para isso, dois fogões na Capela Sistina: um para queimar os papéis, o outro para gerar fumo branco ou negro.

Só depois de queimados os votos é que os cardeais se retiram da Capela Sistina. Nos dias seguintes, e até chegarem a uma maioria de dois terços, repetem-se os mesmos procedimentos. Em 2013, à terceira votação ainda não se tinha alcançado a margem de 77 dois votos, pelo que os cardeais fizeram uma pausa para almoço. Sentado ao lado de Bergoglio, o cardeal Sean O’Malley, de Boston, notou o amigo melancólico. “Aquilo que estava a acontecer parecia deixá-lo muito abatido”, diria mais tarde à imprensa.

Durante as votações da tarde Bergoglio estava a acumular cada vez mais votos. “Naturalmente, todos nós espreitamos para ver a sua reação. Tentei não ser muito óbvio, mas acho que não consegui”, reconheceu o cardeal Timothy Dolan, notando uma transformação. “[Ele] revelava uma calma e serenidade notáveis … Sentia obviamente que aquela era a vontade de Deus”, considerou o arcebispo de Nova Iorque.

Quando o nome de Bergoglio foi pronunciado pela 77.ª vez, na quinta votação, “houve um suspiro coletivo — um aliviar de tensão (…) Os cardeais levantaram-se a aplaudiram”, descreveu Austen Ivereigh no capítulo “Conclave” da sua biografia de Francisco (“Francisco, o Grande Reformador: os caminhos de um papa”).

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▲ No final do conclave o Papa surge à varanda da Basílica de São Pedro para cumprimentar os fiéis

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Pouco depois, já com os votos todos contados, o Cardeal Re aproximava-se para lhe perguntar se aceitava a nomeação. Bergoglio respondeu com um “accetto”. “Embora eu seja um pecador”, sentiu a necessidade de acrescentar. É este o momento que marca o fim de qualquer conclave, com o novo Papa a assumir um novo nome, que é chamado a escolher naquele momento. Para Bergoglio, que saiu da Capela Sistina já como Francisco, de batina e cinta branca, mas com os mesmos sapatos e cruz de prata com que entrou, marcava apenas o início de um pontificado que se prolongaria por 12 anos.

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