David Leite. “E a bifana na Cervejaria Berlengas?”

21 Abril 2018

Autor de "Querido Banana", lançado esta semana, o escritor luso-americano fala do passado nos Açores e do futuro em Lisboa, daqui a um mês, entre bacalhaus, açordas e pastéis

Late. Quando ouço falar pela primeira vez do autor de Querido Banana (Casa das Letras), soa-me a “David Late”. Porque o David é dito com acento inglês, qualquer coisa parecida com Deivid, e a ideia de Late é tão-só o prolongamento dessa ação. Passa um tempo – vá, direi uns dias para evitar um embaraço grande, enorme, xxl. E apercebo-me do apelido bem português.

Leite, David Leite. O seu pai é um açoriano da Maia (São Miguel), os avós maternos naturais de Ponta Delgada. Homem dos sete ofícios, faz-se ator e publicitário antes de se tornar um dos escritores sobre comida mais carismáticos dos EUA. Na sua casa, uma catrefada de prémios literários alimentam-lhe a fome de bola para escrever, cozinhar, evoluir e viver em paz, tudo receitas para contrariar o transtorno bipolar detetado em 1992, aos 32 anos de idade.

A um mês da visita a Lisboa, David Leite atende-nos o telemóvel ao segundo toque à hora combinada: 1600 em Lisboa, 1100 em Nova Iorque, onde vive com Alan, “The One”, seu namorado de longa data.

“Querido Banana”, de David Leite (Casa das Letras)

Heyyyyy, David. Tudo bem? [em português nos entendemos]
Tudo bem, tudo bem, obrigado.

I already know [em inglês nos entendemos daqui para a frente]. Já sei que vem a Lisboa daqui a um mês.
E estou ansioso, nem imaginas. Quero voltar a experimentar uma série de sensações.

Voltar?
Já vivi aí por um ano.

Boa boa, e que tal?
Ohhhhhh, fantastic. Morava perto da Sé, num apartamento, e aproveitei todos os momentos. Só falta um mês, já estou a fazer a contagem decrescente.

Do you like milk? [desculpem lá, a pergunta impõem-se]
Lots. Faz parte de mim desde sempre.

O meu pai nasceu em Maia, uma freguesia em São Miguel, e foi trabalhar para os EUA. A minha mãe nasceu aqui e foi de viagem para os Açores com os seus pais, em 1957. Na única visita, puuuuuum, conheceu o meu pai. Casaram-se três meses depois, na igreja-matriz de Ponta Delgada, e instalaram-se nos EUA em 1958

Qual a história dos teus pais?
O meu pai nasceu em Maia, uma freguesia em São Miguel, e foi trabalhar para os EUA. A minha mãe nasceu aqui e foi de viagem para os Açores com os seus pais, em 1957. Na única visita, puuuuuum, conheceu o meu pai. Casaram-se três meses depois, na igreja-matriz de Ponta Delgada, e instalaram-se nos EUA em 1958 [na cidade costeira Fall River, Massachussets].

Aprendeste o gosto pela culinária desde cedo ou…?
Nada cedo, ahahahahah. Nunca queria comer bacalhau à Gomes de Sá nem sopa de couves [em bom português nos entendemos]. Era mais de ir ao MacDonalds ou comer pudding fruits e velveeta, umas terríveis bolachas de queijo. Como qualquer criança da minha idade, estava em constante guerra com a minha mãe sobre o que comer.

E agora?
Bem, o meu pai já tem 80-e-muitos e a minha mãe 80. Já não têm aquele apetite e, verdade seja dita, nunca foram de comer com prazer. Comiam porque sim, pronto. Quando lhes faço alguma coisa, sirvo ham, simples roasts e batatas. Eles gostam, eu também.

Então de onde vem esse gosto pela cozinha?
Posso dizer que a morte da minha avó, tinha eu 32 anos, foi o clique. Ela fazia coisas tão deliciosas e únicas.

A minha avó tinha um encanto na cozinha. Ele fazia sopa de galinha, not canja. Sopa de galinha. Também fazia carne assada com vinha de alhos, migas e ainda uma torta com ovos, cebola e chouriço. Tudo incrível, infinitamente delicioso. Quando ela morreu, a sua cozinha como que foi desaparecendo. Então, lembrei-me de pedir à minha mãe para começar a filmá-la enquanto cozinhava os seus pratos e outros da minha avó. Comecei a filmar tudo, desde os gestos até ao palavreado. A minha mãe falava e fazia, eu filmava. Comecei aí a interessar-me pela cozinha e aqui estamos, ahahahah.

Avó é assim mesmo.
Ahahahah, é mesmo. A minha avó tinha um encanto na cozinha. Ele fazia sopa de galinha, not canja. Sopa de galinha. Também fazia carne assada com vinha de alhos, migas e ainda uma torta com ovos, cebola e chouriço. Tudo incrível, infinitamente delicioso. Quando ela morreu, a sua cozinha como que foi desaparecendo. Então, lembrei-me de pedir à minha mãe para começar a filmá-la enquanto cozinhava os seus pratos e outros da minha avó. Comecei a filmar tudo, desde os gestos até ao palavreado. A minha mãe falava e fazia, eu filmava. Comecei aí a interessar-me pela cozinha e aqui estamos, ahahahah.

Quais são os teus pratos preferidos?
[em bom português nos entendemos] Carne de porco à alentejana, com clams, ahhhh delicious, açorda de mariscos, peixinhos da horta, pastéis de bacalhau, pastel de nata, estou ansioso para ir à confeitaria de Belém e comer uns pastéis.

Excelente.
I love carne assada. E vocês aí têm a melhor batata, sempre com aquele amarelo que não vejo em mais lado nenhum e a saber a terra. Depois há os queijos. O meu preferido é o da Serra. A seguir o de São Jorge. Derreto-me todo.

Quando chegares a Lisboa, já sabes onde vais?
Antes de mais, queria voltar a cruzar-me com os meus amigos chefs Henrique Sá Pessoa, Jose Avillez e Vítor Sobral. Tenho de ir conhecer o Alma, do Sá Pessoa. Tenho de ir conhecer os nove restaurantes do Avillez. São nove?

Nem sei, são muitos.
Nove, acho que são nove. Tenho de voltar a ir ao Eleven e provar aquela fancy food. Tenho de ir ao Bota Alta comer o melhor bacalhau à braz da minha vida. Todas as experiências da visita anterior têm de ser repetidas. Como a Cervejaria Berlenga.

Como?
Cervejaria Berlenga, ali na baixa. Não sei onde é exactamente, mas sei ir lá dar. Ia umas duas vezes por semana para comer a bifana acompanhada por uma Coca-Cola.

Cozinhas muito em casa? Comida portuguesa, digo.
Uma vez por semana, para amigos. Convido-os e eles saem daqui a rebolar de satisfação.

Fazes o quê?
Bacalhau à Gomes de Sá. Toda a gente adora. Toda, mesmo. Para sobremesa, bolo de laranja.

Adoro bolo de laranja e o do Mr Papas, ali no Largo de São Martinho, foi o melhor da minha vida. Quando lhe pedi a receita, deram-me uma falsa. Então, o Fausto [Airoldi, do Bica do Sapato] deu-me a receita e o toque de magia era o azeite. Comecei a fazer e tornou-se tão popular que até a faço para um restaurante em Paris.

A sério?
Adoro bolo de laranja e o do Mr Papas, ali no Largo de São Martinho, foi o melhor da minha vida. Quando lhe pedi a receita, deram-me uma falsa. Então, o Fausto [Airoldi, do Bica do Sapato] deu-me a receita e o toque de magia era o azeite. Comecei a fazer e tornou-se tão popular que até a faço para um restaurante em Paris.

Paris, França? Ou Paris, Texas?
Ahahahahah, Paris, vive la France.

Uauuuu, que categoria.
Vai ao meu site e descobre essa receita (leitesculinaria.com).

Pois é, o teu site. Fala-me dele.
Tem sido uma aventura infinita, só com coisas boas. Dou ideias, recebo ideias, dou tips, recebo tips. A interacção é total e constante. A minha ideia do site é ajudar outras pessoas e lembro-me de ter feito um post sobre a minha doença, a minha sexualidade e a minha descoberta de nacionalidade [ah é verdade, David Leite tem passaporte português desde 2004]. Um amigo meu leu o rascunho e avisou-me que ia perder leitores. Não acredito e avancei com a publicação do texto. Nem imaginas a resposta, foi huuuuuuuuuuuuge. De repente, estava a falar com muita, muita gente. E recebia respostas do tipo ‘quem me dera que o meu filho tivesse lido isto antes de se suicidar’. O site é um jornada de aceitação para ajudar pessoas, é terapêutico.

E o Alan também cozinha?
Mais do que eu. Quando nos conhecemos, eu tinha perdido muitos quilos, estava skinny, e o Alan simplesmente adorava sentar-se à mesa para comer durante horas. Ao contrário da minha família, em que toda a gente se sentava à mesa e, de repente, já tínhamos comido. Com o Alan, a aventura começou porque senti prazer em estar à mesa. Já para não falar da mestria do Alan na cozinha. Ele faz pratos deliciosos e, um dia, fez um bolo. Meti o dedo, como é óbvio, para ver se estava bom e aquele sabor específico levou-me ao passado de uma forma nunca vista. Telefonei à minha mãe e perguntei-lhe se era costume fazer bolos lá em casa. Ela disse-me que não e falou, isso sim, da sua mãe, a minha avó. Essa conexão foi fantástica e fez-me avançar na aprendizagem da culinária.

Dizes que o Alan é o “The One” [O Tal].
E é.

E conheces o Special One, José Mourinho?
Quem?

É um treinador muito conhecido, é português, de Setúbal.
O único português do futebol que conheço é aquele. Ai, está a falhar-me o nome.

Cristiano Ronaldo?
Esse, Ronaldo.

Ahahahah, maravilha. Acreditas que uma pessoa é aquilo que come?
Filosoficamente, sim. É um reflexo existencial, há traços de personalidade evidentes. Se fores certinho e, um dia, comeres junk food, estás a dizer qualquer coisa sobre ti. Acredito nisso.

E o que pensas dos maníacos vegan?
Compreendo a história da protecção dos animais, mas não vou seguir essa doutrina. Simplesmente it’s not for me.

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