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O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro intervém na conferência de imprensa para balanço da iniciativa Rota pela Coesão e pelas Pessoas nos distritos de Lisboa e de Setúbal, esta noite na Sede do PS em Lisboa, 19 de novembro de 2025. MIGUEL A. LOPES/LUSA
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▲José Luís Carneiro voltou a ir a votos em eleições diretas esta sexta e sábado. È a terceira vez que é candidato, a segunda como candidato único e a segunda que venceu.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

▲José Luís Carneiro voltou a ir a votos em eleições diretas esta sexta e sábado. È a terceira vez que é candidato, a segunda como candidato único e a segunda que venceu.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

De gestor da derrota a líder com ambição: Carneiro testa se nove meses chegam para fundar um ciclo socialista

Aproveitou autárquicas e vitória presidencial de Seguro para relançar PS. No primeiro congresso como líder, Carneiro enfrenta a pergunta que a unidade ainda não responde: que projeto alternativo tem?

Quando José Luís Carneiro assumiu, em junho de 2025, a liderança intercalar do PS, poucos acreditavam que estes nove meses pudessem contar para mais do que gerir a derrota e adiar a discussão sobre o futuro. Passado o tempo de uma gestação, nestas novas diretas do PS já não está apenas em causa a sobrevivência do partido, mas também se está ou não a nascer um ciclo carneirista com verdadeira ambição e capacidade de chegar ao poder.

Carneiro chegou num dos tempos mais conturbados da história recente do partido e avançou rapidamente para a liderança — sem dar tempo ao surgimento de candidaturas adversárias –, com a narrativa de uma missão de emergência para unir um partido em declínio e recompor os seus alicerces. Com o tempo da oposição a prever-se longo, a promessa de unidade foi-se concretizando aos poucos. O socialista começou por compor uma direção própria com nomes das várias alas do partido, tentando não romper com nenhum dos passados: nem o mais distante costismo, nem com o mais recente pedronunismo. E essa parece continuar a ser uma preocupação: para os futuros órgãos do partido, já integralmente da sua lavra, Carneiro conta com socialistas que sabe terem voz pública própria e tantas vezes desalinhada da sua.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Também tentou integrar o ex-líder Pedro Nuno Santos que, no entanto, tem preferido manter-se afastado da política partidária: não vai ao congresso de 27, 28 e 29 deste mês, em Viseu, e mantém-se fora do Parlamento, onde tem o lugar de deputado suspenso (até ao final de abril, nessa altura terá de decidir se renuncia ou regressa). Na última semana esteve na Assembleia da República, para a tomada de posse do novo Presidente António José Seguro, o qual o acarinhou de forma visível na altura dos cumprimentos depois de formalmente assumidas as funções. Pedro Nuno esteve presente como membro do Conselho de Estado — o capítulo de substituição tem sido adiado por dificuldade em alcançar um acordo político — mas à margem da visita, Carneiro voltou a conversar em privado com o seu antecessor.

Unidade: mérito ou inevitabilidade?

No partido, as iniciativas de Carneiro em manter esse contacto próximo com os socialistas que dele discordam são reconhecidas como importante para conseguir a tal unidade. Mas há outro fator apontado como decisivo: o momento político não está para disputas internas num partido que continua a precisar de tempo para se reerguer como alternativa ao poder. Afinal, não foi só o posto de Governo que perdeu, já que nas legislativas de 2025 se somou a isso a perda do lugar de líder da oposição e enquanto o clima político for pouco convidativo, dificilmente aparecerão desafiadores.

“Está nas mãos do José Luís Carneiro o sucesso ou insucesso” da sua liderança. Quem o diz é um dos rostos que é visto como uma possibilidade para o futuro do partido, Duarte Cordeiro. Não vai estar no congresso de Viseu, mas no fim de fevereiro, numa entrevista à Antena 1, o socialista disse que deve ser Carneiro a disputar as próximas legislativas, não excluindo, no entanto, que no período até lá, “surjam alternativas”. Foi mais ou menos no mesmo registo que Mariana Vieira da Silva, outra socialista que ponderou desafiar Carneiro em junho. Numa entrevista na SIC-Notícias também no final de fevereiro, a socialista admitiu que é Carneiro que deve disputar as próximas legislativas: “À partida sim”. Mas também acrescentou a ressalva: “A menos que o PS decida que precisa de mudar de líder”.

Carneiro reorganiza PS à sua medida no Congresso de Viseu e integra vozes críticas na Comissão Política

“Não há emoção, mas há confiança na capacidade de trabalho dele”, descreve um socialista sobre o que o líder tem mostrado nestes nove meses. “É muito trabalhador”, repetiu ao Observador outro alto dirigente. “É uma formiguinha, corre, planeia, prepara, estuda”, descreve ainda outro dirigente que diz que este líder “trabalha como um louco, liga a toda a gente e não tem taxa de rejeição”. “A volta de José Luís Carneiro [ao país, sobretudo nas autárquicas] colheu a legitimidade anímica. Estava reservado a ser um Constâncio e está a fugir a essa sombra de chefe de turno e com sucesso”, descreve um outro dirigente do partido que prefere não ser identificado e que usa a ideia do antigo secretário‑geral que foi visto como um líder de passagem (enfrentou o cavaquismo, sem sucesso eleitoral, entre 1986 e 1989). “Com o trabalho conseguiu a legitimidade emotiva dos dirigentes e militantes, com um registo tranquilo e sereno”, descreve ainda em relação a Carneiro.

Ao fim de nove meses, a unidade interna é mais obra de circunstância do que de entusiasmo: resulta tanto do esforço de integrar críticos e manter abertas as linhas para o pedronunismo, como da falta de condições políticas para abrir já uma nova guerra pela liderança. Mas, num partido de poder como o PS, a verdadeira prova de fogo não se esgota nos equilíbrios internos. Foi nas urnas — primeiro nas autárquicas de 2025 e, depois, nas presidenciais — que Carneiro procurou transformar essa legitimidade numa ideia simples: “O PS voltou.”

O candidato às eleições presidenciais António José Seguro (D) e o secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro (2E) durante um almoço com apoiantes na Póvoa de Lanhoso, Braga, 10 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. JOSÉ  COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Eleições disputadas serviram para montar uma narrativa de viragem

Na noite eleitoral autárquica, mesmo com o PS a perder a maioria das câmaras e a ficar de fora da gestão das mais populosas, o líder do partido preferiu beber o copo meio cheio de um resultado que evitara as previsões mais apocalípticas. Carneiro empenhara-se de forma total nessa campanha, com uma volta intensa pelo país e ao lado de candidatos socialistas que tinham sido escolhidos ainda pelo seu antecessor.

A leitura dos resultados não foi, no entanto, unânime. Outros, como Duarte Cordeiro, pegaram no copo meio vazio. Nessa altura, Cordeiro disse mesmo que “o PS não teve um bom resultado. O resultado final é um poder muito significativo do PSD e isso não pode significar em circunstância alguma um cenário em que o PS diga que tem um bom resultado porque não tem.” Mariana Vieira da Silva também se mostrou menos entusiástica do que Carneiro na análise dos mesmos resultados e ainda recentemente, na entrevista já citada, disse que essas eleições “não foram boas para o PS, foi uma derrota” e até que foram “particularmente difíceis nas áreas metropolitanas” — recorde-se que Vieira da Silva chegou a ser apontada como possível candidata a Lisboa, sendo preterida por Alexandra Leitão. Mesmo assim, a deputada do partido reconhece que as autárquicas “não foram tão más como alguns previam” no PS.

Duarte Cordeiro contraria líder socialista: “O PS não tem bom resultado”. Tempo é de “poder absoluto do PSD”

Um PS sedento por mostrar qualquer sinal de contenção da derrocada das legislativas agarrou‑se, sobretudo, à tese da expectativa contrariada. Conseguiu manter 127 câmaras, ficou a menos de um ponto do PSD e ganhou capitais de distrito como Coimbra, Viseu, Bragança ou Faro, o que lhe permitiu reivindicar o papel de alternativa à AD. “Inverteu a perceção de decadência eleitoral” e já iniciou a “recuperação” do “amplo espaço político do centro‑esquerda”, descreve o próprio José Luís Carneiro na moção que leva ao Congresso.

O ciclo presidencial serviu para reforçar essa narrativa. Depois de um processo interno arrastado e cheio de espinhos, o PS acabou por se alinhar em torno de António José Seguro, que chegou à Presidência da República com uma vitória robusta: foi eleito com o número recorde de votos, mais de 3,5 milhões na segunda volta. Carneiro não perdeu tempo a apanhar boleia da vitória e, logo no dia da primeira volta, lançou a sua recandidatura à liderança do partido marcando a Comissão Nacional que lançaria o processo do congresso. Na segunda volta foi às Caldas da Rainha dar um abraço a Seguro — que na campanha quis sempre manter o partido à distância — e declarou: “Os socialistas estão felizes. Esta é uma vitória de um amplo campo democrático, da esquerda até ao centro direita. Esta é uma vitória da democracia, dos valores constitucionais.”

A ideia que quis cristalizar foi simples: quando o centro‑esquerda se une em torno de um único candidato, consegue suplantar um centro‑direita dividido e derrotar a extrema‑direita. Na sua moção sinaliza isso mesmo ao escrever que “desponta um cenário de bipolarização entre uma direita cada vez mais radicalizada e o PS, que é hoje a casa comum dos democratas, progressistas e humanistas”.

A estratégia das cartas. E a pressão para refletir e mudar

Entre autárquicas e presidenciais, Carneiro procurou, portanto, mostrar que o PS ainda conta — como máquina eleitoral (que esteve envolvida nas Presidenciais de Seguro), como organizador do campo moderado e como alternativa credível a uma direita moderada que se vê cada vez mais dependente da extrema‑direita. Na sua leitura, os 1,8 milhões de votos autárquicos e a eleição de Seguro com mais de 3,5 milhões de votos confirmam o tal “cenário de bipolarização”. Mas fica a faltar responder a outra pergunta: que projeto concreto oferece o seu PS e que tipo de oposição se propõe fazer a um Governo que Carneiro diz não querer derrubar antes de 2029?

O líder do partido tem procurado condensar o seu PS em quatro palavras‑chave: habitação, saúde, economia e rendimentos. Na moção “Contamos Todos”, que leva a este congresso, e nas suas intervenções recentes, apresenta‑se como líder de um partido que quer “um Portugal que se levante”, capaz de garantir habitação condigna até 2035, aproximar o salário médio nacional do europeu no mesmo horizonte temporal e reforçar o Serviço Nacional de Saúde. Tudo isto sob a promessa de uma oposição “firme e responsável”, que rejeita “ruturas artificiais” e diz não procurar eleições antecipadas antes de 2029, desafiando a AD a afastar‑se do Chega e a negociar compromissos em áreas como a defesa, a justiça ou a política europeia.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, durante uma visita ao Conjunto Habitacional Flor do Infesta, no âmbito do projeto de alojamento estudantil do Politécnico do Porto,  São Mamede Infesta, Matosinhos, 11 de março de 2026. FERNANDO VELUDO/LUSA

FERNANDO VELUDO/LUSA

Mas essa disponibilidade para se encontrar com o Governo tem suscitado debate interno, sobretudo a estratégia das cartas que José Luís Carneiro instituiu como forma de pressionar Luís Montenegro a negociar com o PS estes grandes temas. E mais uma vez o aviso público vem dos dois socialistas que têm criticado algumas linhas de Carneiro. Mariana Vieira da Silva já disse que Carneiro “não deve continuar a mandar cartas” e deve focar-se na apresentação de propostas no Parlamento. E sobretudo em duas áreas concretas que a ex-ministra considera não terem tido ainda “reflexão” suficiente do partido: habitação e custo de vida. “Faltou reflexão” no partido nestas duas áreas concretas e isso “penalizou o PS a partir de 2024″ e também nas eleições autárquicas, disse na SIC-Notícias.

Há meses, na rádio Renascença, Mariana Vieira da Silva mostrava pouco entusiasmo em fazer pontes com a AD, sobretudo tendo em conta o facto de Montenegro ter estado virado, a dado momento, para acordos com o Chega ou a IL. “Se o Governo quer negociar a Constituição com a IL e o Chega, cabe ao PS aprovar o Orçamento?”, questionava na altura rejeitando uma disponibilidade permanente do PS que parece continuar a defender.

Na Antena 1, Duarte Cordeiro também disse que “o PS não se deve disponibilizar para qualquer coisa“, balizando essa abertura negocial nas “reformas que têm de ser feitas já”. “Tem de haver convergência para reformas de imediato”, disse o socialista que considera que o partido está a falhar na clareza: O PS tem de ser mais claro em dizer em que áreas deve haver convergência e onde rejeita haver entendimento por ter posições distintas e distantes”

Tal como Vieira da Silva, o socialista também considera que “o papel do PS não é pedir reuniões ao Governo à espera de as ter. O PS tem opinião e pensamento, pode construir soluções com a sociedade civil e apresentar propostas publicamente e convocar o Governo para esses debates”. E, desta forma, “colocar pressão sobre o Governo na Saúde, na Justiça, no Ambiente, nos investimentos públicos. Há um conjunto de matérias em que são possíveis entendimentos”, apontou. Ao mesmo tempo é contra a ideia de que “o PS ter de, por natureza, viabilizar todos os orçamentos do Governo” e também é contra que um Orçamento chumbado implique com a estabilidade política, apontando a governação em duodécimos como “curativa” para “no processo seguinte se dar mais importância a entendimentos”.

Os dois concordam com a necessidade de o PS aproveitar a oposição para se reorganizar, apresentar propostas e renovar. Até aqui, José Luís Carneiro instituiu um Conselho Estratégico, onde mistura nomes do partido mas também da sociedade civil, para debater temas tendo em vista um futuro programa político. A ideia era fazer reuniões ordinárias trimestrais, mas pouco se tem visto desse trabalho. De qualquer forma, no Congresso de Viseu, José Luís Carneiro tenciona ter painéis de debate paralelos dedicados à Saúde, educação, habitação, economia, mas também a cultura e a reforma da justiça. O objetivo é juntar à discussão socialista também elementos da sociedade civil e trabalhar em propostas políticas a partir dali.

Carneiro apresenta-se contra Governo “insensível”. E com um aviso para socialistas que querem pôr “rurais contra urbanos”

Carneiro tem garantido que não há falta de reflexão no PS e que não tentou fazer deste congresso um “congressozinho”, como lhe chamou Ascenso Simões numa entrevista ao Observador. Houve redução do número de delegados, mas a direção alega que, com o peso das inerências — que são muitas — o líder terá, obrigatoriamente, em Viseu, socialistas que ainda herdou da anterior direção e permanecem em órgãos que só mudam depois do congresso. Sobre propostas concretas, tem apontado à preocupação do partido com o aumento das rendas, o reforço da construção pública e a garantia de rendimentos médios mais altos, em particular para os jovens — temas que coloca sistematicamente no topo da agenda e que diz trabalhar com especialistas e autarcas. Já quanto à sua estratégia das cartas, acredita que dá um sinal de responsabilidade institucional, mas também avisa que “a paciência tem limites”. Os mais críticos consideram que é o momento de mudar de linha — mesmo sem ruturas dramáticas — evitando que uma disponibilidade permanente do PS dilua a identidade socialista e transforme o partido numa muleta do Governo, entregando o espaço da oposição à extrema‑direita.

Certo que, nestes nove meses, José Luís Carneiro conseguiu estabilizar o PS, travar a perceção de declínio irreversível, resistir nas autárquicas e ainda beber um copo da vitória presidencial de António José Seguro. Mas mesmo sem ter uma oposição interna formal, Carneiro sabe que tem um conjunto de reservas e avisos que lembram, a cada passo, que o tempo da gestação não basta para garantir um ciclo político próprio. Para vingar, o ciclo de Carneiro terá de equilibrar a ideia de oposição colaborante com a afirmação de um projeto político capaz de disputar o poder com a AD sem se confundir com ela — sob pena de ficar para a história apenas como um intervalo entre dois verdadeiros ciclos socialistas.

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