“Ninguém consegue compreender esta greve.” Na primeira vez que se referiu ao que era então apenas uma ameaça de greve geral, Luís Montenegro definiu o tom com que o Governo tem vindo a encarar a paralisação prevista para 11 de dezembro: usar a força da opinião pública contra uma greve que os sociais-democratas (naturalmente) consideram injustificada. Ou seja, transformar uma crise em oportunidade e, pelo caminho, apontar a um alvo principal: através da UGT, sugerir que o PS e José Luís Carneiro estão a tentar conseguir nas ruas aquilo que não conseguiram nas urnas.
Entre as pessoas que rodeiam Luís Montenegro concede-se que uma greve geral “nunca é boa” e trará um desgaste que seria perfeitamente dispensável. Apesar de tudo, os sociais-democratas acreditam convictamente que “não há uma única pessoa que perceba esta greve”. Estando ainda a reforma laboral num plano muito abstrato, intangível para a maioria das pessoas, o Governo tem respondido às centrais sindicais com a sua própria narrativa: foi este Executivo que garantiu a redução de impostos sobre o rendimento, a “revisão de 19 carreiras da Administração Pública”, que voltou a aumentar o salário mínimo nacional, fez dois aumentos extraordinários de pensões e aumentou o Complemento Solidário para Idosos (CSI).
Empurrado pelo contexto relativamente favorável — crescimento económico, uma taxa de desemprego com valores muito próximos dos mínimos históricos, a ideia várias vezes repetida por Montenegro de que Portugal é o país da OCDE “onde os rendimentos das pessoas mais subiram” —, o Governo esforçar-se-á por convencer a opinião pública de que a esquerda (em particular o PS), através dos sindicatos, está a tentar bloquear as reformas de que o país precisa.
“Francamente, não consigo vislumbrar outra razão para esta posição das centrais sindicais que não seja olhar para interesses que, do meu ponto de vista, não deviam ser os prevalecentes, que é o interesse dos partidos que estão, sobretudo, ligados à gestão das duas centrais sindicais”, disse há dias Luís Montenegro, para logo a seguir concretizar: “Estou a falar do PCP, que quer mostrar a sua existência através da sua rede sindical na CGTP, e estou a falar do PS, que também quererá mostrar a sua existência política de oposição, aproveitando alguma preponderância que tem na UGT”.
Ou, como esta quinta-feira tentou sintetizar o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, a greve vai prejudicar, não o Governo, mas sim os ‘portugueses comuns‘, aqueles que “vão ficar apeados na estação de comboio, que vão ficar apeados à porta de serviços públicos, que querem trabalhar e não conseguem, se calhar, querem deixar os filhos e não conseguem”.
A fórmula — já usada contra os médicos tarefeiros — é um regresso à mensagem com que fez a última campanha legislativa e que produziu os resultados conhecidos: há quem não o queira deixar “trabalhar”. Uma imagem que já era uma colagem evidente à simbologia cavaquista, que imortalizou o “Deixem-nos trabalhar” — nessa altura, porém, o recado de Aníbal Cavaco Silva era para Mário Soares e as famosas “forças de bloqueio”.
Em cima de tudo isto, Montenegro ainda acrescentou um argumento que apela diretamente ao eleitorado: o risco da “instabilidade” política e, sobretudo, financeira. “Assim como se exige ao Governo a responsabilidade para contribuir para que os trabalhadores tenham menos impostos na sua folha de vencimento no final do mês, para que não haja défice nas contas públicas, da mesma maneira é exigível que os sindicatos também tenham esse sentido de responsabilidade. E que não colaborem para criar uma instabilidade que, neste momento, é muito mais penalizador para os trabalhadores do que favorável ao que quer que seja”, assinalou o primeiro-ministro.
Baterias apontadas à UGT e a ameaça do Chega
Sendo uma central sindical onde o PS tem forte penetração — Mário Mourão, secretário-geral, foi deputado e dirigente partidário, tendo feito, tal como José Luís Carneiro, a sua ascensão no aparelho socialista do distrito do Porto —, os sociais-democratas, com Luís Montenegro à cabeça, têm-se esforçado por relacionar esta decisão da central sindical à posição de fragilidade política em que se encontra o partido neste momento. “José Luís Carneiro está a tentar segurar a esquerda e a tentar provar que não é António José Seguro, sem dar muito a cara por isso”, assinala-se no núcleo duro do Governo.
Ao mesmo tempo, o núcleo mais próximo de Luís Montenegro desconfia que esta reação da UGT é motivada pelo medo da ascensão do Chega e à capacidade que o partido de André Ventura tem demonstrado em captar os eleitores que estão descontentes ou desiludidos com o estado do país. “Os sindicatos estão cheios de medo do Chega. Mas ainda não perceberam que não é pela gritaria que vão recuperar. É um erro estratégico“, lamenta um destacado dirigente social-democrata.
Ao Observador, um elemento do Governo corrobora esta tese e vai mais longe: “A UGT está em vias de apagamento e é por isso que fazem esta aproximação à CGTP. Mas vai sair furado. Vai abrir muito espaço ao Chega, que nunca escondeu o desejo de garantir representação entre os sindicatos”, cenariza a mesma fonte. De facto, Ventura sempre quis tomar conta da luta nas ruas e tentou mesmo criar um movimento sindical para substituir a esquerda, mas os esforços do líder do Chega nunca foram bem sucedidos. Até hoje, pelo menos.
Esta quinta-feira, Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho e da Segurança Social, atirou à central sindical. “A ameaça de uma greve geral é reveladora da intenção de romper as negociações por parte da UGT. Esta greve foi aprovada pela UGT quando já está marcada uma nova reunião bilateral para a próxima quarta-feira. Os portugueses não querem uma greve geral. Da parte do Governo, a negociação prosseguirá até que a UGT concretize a sua intenção de rutura”, afirmou a governante, citada pelo Jornal de Negócios.
Apesar de tudo, o projeto de reforma laboral proposto pelo Governo está a causar alguma incómodo também dentro do próprio PSD. Em declarações à Antena 1, entre apelos ao diálogo, Pedro Roque, secretário-geral dos Trabalhadores Social Democratas (TSD), estrutura do partido e que é afeta à UGT, não deixou de reconhecer que há divergências com o Governo nesta matéria.
“Não escondo que há uma forma especial de sentir o partido e a sociedade por parte daqueles que são dirigentes dos TSD, nomeadamente aqueles que são dirigentes sindicais e que, em primeira instância, representam os interesses da UGT, dos seus sindicatos e dos trabalhadores. Portanto, por vezes — e este é, provavelmente, um desses momentos — há aqui alguma divergência de pontos de vista”, sublinhou Pedro Roque, que é também deputado do PSD.
Nada que faça a direção nacional do partido e o Governo desviarem-se da narrativa principal. A ideia de que estas greves gerais só acontecem quando a direita está no poder, que foi sendo defendida por figuras como Hugo Soares, secretário-geral do PSD e braço direito de Luís Montenegro, também está a ser usada para reforçar a posição do Governo junto da opinião pública. “Não deixa de ser curioso que as greves gerais acontecem sempre que os governos não são de esquerda ou de extrema-esquerda. Durante os governos de António Costa, apoiados pelo PCP, nunca houve uma greve geral”, sugeriu esta semana Hugo Soares.
Ainda que, em rigor, não corresponda a verdade — houve duas greves gerais quando José Sócrates era primeiro-ministro —, esta mensagem transmitida por vários elementos sociais-democratas ajuda a construir a narrativa de que o Governo está a ser travado nas reformas que pretende fazer e que há interesses instalados que estão a tentar bloquear o país. “Não fica bem ao movimento sindical. Acho que os sindicatos têm tudo para cumprir a sua tarefa e o seu papel — eu não quero condicionar —, mas quando a realidade do país não é a realidade dos sindicatos, alguma coisa está mal e não é o país”, alegou o mesmo Luís Montenegro.
Desta vez, aliás, até Marcelo Rebelo de Sousa deu uma ajuda ao Governo, quando veio considerar que a convocação da greve foi “precipitada”, uma vez que a “procissão ainda vai no adro” — em rigor, existe apenas um anteprojeto de reforma, que terá ainda de ser discutida em sede de concertação social e levada ao Parlamento, onde o Governo não tem maioria, pelo que terá ainda de negociar em várias frentes se quiser de facto aprovar uma nova legislação laboral. Esta quinta-feira, de resto, António Leitão Amaro, ministro da Presidência, usou precisamente a mesma expressão de Marcelo: “A procissão ainda vai no adro”. Resta saber se o Governo conseguirá ou não segurar a opinião pública e que cedências terá de fazer para fazer passar a reforma laboral.