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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Discussões, gritos e irmãos a passear de mão dada. O que aconteceu antes de um jovem de 15 anos dizer à polícia que tinha matado a mãe

Jovem de 15 anos é suspeito de ter matado a mãe no Dafundo. Irmã de quatro anos encontrava-se em casa quando se deu o crime. Foi o próprio suspeito quem alertou, várias horas depois, as autoridades.

Na noite de quarta-feira, quase à meia-noite, Fátima Messias notou que a casa mesmo à sua frente, também no quarto andar, ainda tinha as luzes ligadas. Pelas janelas do prédio no Dafundo, onde vive há mais de dez anos, costumava ver dois irmãos de 15 e 4 anos “correndo para lá, correndo para cá”. Ao contrário de Fátima, os vizinhos da frente tinham chegado há pouco mais de “um mês” ao bairro Clemente Vicente, mesmo à frente do rio e da Avenida Marginal.

“No último jogo do Brasil [no Mundial de 2026], eles tinham camisolas” da seleção brasileira, relata ao Observador. “De vez em quando, via-a a fumar à janela e fazia assim para mim”, diz, enquanto imita um aceno.

As luzes não foram o único sobressalto na noite de quarta-feira: a vizinha também ouviu um grito “muito alto” que, horas depois, ainda recorda, incrédula e assustada. Na casa onde antes via os irmãos a correr estão agora agentes da PSP e da Polícia Judiciária, a investigar um crime de homicídio: o jovem de 15 anos é suspeito de matar a própria mãe, de 33, depois de uma discussão. A denúncia foi feita pelo próprio suspeito às autoridades. A irmã de quatro anos estaria em casa no momento do crime.

Contudo, os vizinhos relatam que aquela não foi a primeira vez que se escutaram gritos entre mãe e filho. “Ele comportava-se mal com a mãe”, relata outro morador ao Observador. O homem, que não quis ser identificado, garante que quando voltava do turno da noite no trabalho, na semana passada, viu o jovem a ser agressivo e a gritar com a mãe na rua. “Era discussões o dia todo”, diz outro vizinho.

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Jovem passou de mão dada com a irmã. Depois, chamou a polícia

Os prédios do bairro Clemente Vicente, uma antiga vila operária com mais de 100 anos, estão em “risco de derrocada” e vão ser recuperados, de acordo com uma nota da Câmara Municipal de Oeiras divulgada no passado mês de maio. As paredes estão descascadas, manchadas de humidade e faltam-lhes pedaços e, por cima das portas, acumulam-se os fios. Uma moradora ressalva que não se trata de um bairro municipal: a casa é sua. À porta, mantém-se a PSP. Às janelas, assomam alguns vizinhos, mas nenhum sai para a rua. Outros espreitam só pelas persianas e, no primeiro andar, vê-se um gato cinzento.

Ao lado da tabuleta que determina a área como de risco em caso de tsunami, estende-se uma fita da Polícia para limitar os acessos ao beco. Os moradores surpreendem-se com o sucedido, mas não conheciam a família. Poucos metros ao lado da porta do prédio, no café “O Cuca”, Nuno, o proprietário, conta que costumava ver a mulher que morreu chegar a casa todas as tardes. Mas há pelo menos dois dias que ela não passava pela porta que Nuno tem sempre aberta, virada para o rio Tejo e para os silos da Silopor, na Trafaria. Esta quinta-feira, porém, eram cerca das 15h30 quando viu o jovem de 15 anos a caminhar com a irmã, de mão dada. Iam em direção a casa.

▲ A polícia permaneceu no apartamento desta família durante várias horas

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A polícia chegou depois do alerta dado às 17h35 pelo próprio jovem: contou que tinha feito um golpe “mata-leão” à mãe provocando-lhe a morte, por asfixia, na noite anterior. Várias horas depois do homicídio, por baixo da fita das autoridades que isola o acesso ao prédio onde aconteceu o crime passam vizinhos dos outros prédios do beco e um estafeta de entrega de comida. Ao lado do edifício, os carros do INEM, da PJ e da PSP obrigam os carros que cruzam a Avenida Marginal a desviar-se da faixa junto ao passeio.

Quando as autoridades chegaram, a irmã ficou à guarda de uma vizinha. A menina de quatro anos só saiu do local mais de duas horas depois da denúncia, com dois totós no cabelo e de t-shirt cor-de-rosa, ao colo de um psicólogo do INEM. Os peritos da Polícia Judiciária abandonariam o local cerca de meia hora depois.

Lei Tutelar Educativa será aplicada a suspeito de 15 anos

Tanto os carros como os vizinhos passam pelo local e, à medida que a tarde avança, vão sendo cada vez menos. São quase 21 horas quando o jovem de 15 anos abandona o prédio. De mochila cinzenta às costas, sai devagar pela porta com o capuz da sweatshirt a tapar-lhe a cara, enquanto passa um comboio mesmo ao lado. Acompanhado por dois inspetores, senta-se no banco de trás direito do carro da Polícia Judiciária.

▲ O menor terá que ser identificado pela Polícia Judiciária

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O menor terá que ser identificado pela PJ e caso o pai, representantes legais ou quem tiver a sua guarda não assegurarem que o jovem comparece perante a autoridade judiciária, pode ser detido fora de flagrante delito, estabelece a Lei Tutelar Educativa que se aplica aos jovens até aos 16 anos. Até esta idade, o menor não comete crimes, mas é-lhe aplicado um processo tutelar educativo.

Há quatro meses, foram estas as regras que culminaram na condenação do jovem que matou a mãe, vereadora da Câmara de Vagos, em casa. O adolescente de 14 anos foi condenado pelo Tribunal de Família e Menores de Aveiro a três anos de internamento em regime fechado num centro educativo, a pena máxima de acordo com a lei.

“Está tudo bem. Tem calma.” Vereadora de Vagos ainda reagiu ao primeiro disparo, mas morreu depois de o filho atirar pela segunda vez

No Dafundo, cerca de uma hora depois da saída do filho, o corpo da mãe foi levado do local. Agora, a investigação cabe à Polícia Judiciária.

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