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O Presidente Donald Trump falava há apenas três minutos no Congresso quando foi interrompido. De pé e de bengala em punho, Al Green, congressista de 77 anos, gritava que o Presidente “não tem mandato”. As acusações foram rapidamente abafadas por uma extensa bancada republicana que se levantou a aplaudir e a gritar “USA! USA!”.
Green, um dos representantes democratas do Texas, acabou por ser escoltado para fora da sala. Antes de sair, apontou a bengala uma última vez aos seus pares republicanos: “Que vergonha!”, exclamou. A expulsão de um congressista durante o tradicional discurso presidencial perante as duas câmaras do Congresso é um momento inédito na História moderna norte-americana.
Porém, o protesto de Green na passada terça-feira não foi um momento isolado — ao longo dos 100 minutos que durou o discurso de Trump ao Congresso, a bancada democrata desdobrou-se em protestos. Os congressistas ergueram cartazes, viraram costas ao Presidente, recusaram aplaudir e cinco representantes chegaram mesmo a abandonar a sessão. Outros dez — incluindo Alexandria Ocasio-Cortez — nem sequer compareceram.
Last night I stood up for those who need Medicaid, Medicare, and Social Security. Democrats will never abandon the fight to make sure every American has a safe, healthy, and financially secure life. #ISaidWhatISaid pic.twitter.com/xbKArzeLp1
— Congressman Al Green (@RepAlGreen) March 6, 2025
Os protestos não foram coordenados dentro do Partido Democrata. Pelo contrário, o líder da Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, terá apresentado aos congressistas democratas um guião de comportamento: deviam abster-se de aplaudir Trump, mas não deviam empunhar cartazes ou protagonizar momentos mediáticos, que o Partido Republicano pudesse utilizar para os criticar.
O falhanço em cumprir as supostas regras de conduta mostra uma tendência de divisão entre os democratas que se tem vindo a acentuar nos últimos tempos. “O Partido Democrata ainda está a vasculhar os escombros da derrota para Trump”, avalia Matt Bennett ao Observador. O antigo assistente do Presidente Bill Clinton para os Assuntos Intergovernamentais e co-fundador da Third Way, uma organização de democratas moderados, destaca outra característica que contribui para esta divisão: a ausência de uma liderança clara.
Quatro meses depois das eleições, qual é o estado do Partido Democrata e como se está a organizar para fazer frente à presidência de Donald Trump?
“Rebola e faz de morto”. Como os moderados estão a reagir à pesada derrota eleitoral
O atual cenário político dos Estados Unidos desenhou-se no dia 5 de novembro de 2024, quando os eleitores norte-americanos foram às urnas para escolher o Presidente, o Senado, a Câmara dos Representantes e ainda os governadores de onze estados. O Partido Republicano conseguiu manter a maioria na Câmara e a maioria dos governadores, bem como ganhar o Senado e a presidência. Estas vitórias completam assim o domínio republicano: para além destes quatro órgãos, a maioria de juízes no Supremo Tribunal é tendencialmente conservadora.
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É preciso recuar duas décadas para encontrar um cenário semelhante. Em 2005, durante a presidência de George W. Bush, as eleições para o Congresso confirmaram maiorias republicanas no Senado e na Câmara dos Representantes e também nos estados. Dos nove juízes do Supremo Tribunal, sete tinham sido nomeados por republicanos. Tal como hoje, todos os ramos do governo norte-americano estavam pintados de vermelho.
Confrontados com a derrota mais pesada dos últimos 20 anos, os democratas procuraram explicações. “Otimistas podem argumentar que a derrota de Kamala Harris derivou de uma série de acontecimentos infelizes”, escrevem William Galston e Elaine Kamarck, membros do Partido e analistas na Brookings. E elencam esses acontecimentos: o Presidente Joe Biden não se devia ter recandidato, devia ter desistido mais cedo, os Democratas deviam ter escolhido o seu sucessor, Harris devia ter-se distanciado mais de Biden.
Esta tem sido a justificação da derrota utilizada por algumas das figuras mais mediáticas ao centro do Partido, como Nancy Pelosi. O mesmo grupo de democratas adotou uma estratégia mais discreta para fazer frente à presidência de Donald Trump. “Sem controlo sobre nenhum ramo do governo, é altura de os democratas embarcarem na manobra política mais arriscada da História do Partido: rebolar e fingir de morto”, resumiu James Carville, responsável por várias campanhas políticas do Partido, incluindo a campanha presidencial de Clinton em 1992.
A tática procura esperar que o Partido Republicano se desmorone a partir de dentro, em vez de fazer um braço de ferro com Donald Trump ao, por exemplo, tentar bloquear as suas ordens executivas com processos judiciais. “Muitos no Partido estão apenas à espera que Trump faça asneira e que os democratas possam beneficiar com isso”, explica ao Observador Matthew Duss, vice-presidente do Center for International Policy e antigo conselheiro de Bernie Sanders, candidato presidencial democrata e senador independente, mais à esquerda no Partido.
Foi essa estratégia que Hakeem Jeffries procurou impor durante o discurso da passada terça-feira. Em vez de atacar de frente o Presidente e dar-lhe argumentos para criticar os democratas, deviam mostrar-se calmos e respeitadores, mesmo que não se levantassem ou aplaudissem as suas palavras.
Os protestos deste grupo contra as medidas de Trump fizeram-se sentir de outra forma: nas roupas que utilizaram. Numa semana em que os trajes dos políticos foram tema de conversa na Sala Oval, quando Donald Trump comentou o uniforme militar utilizado pelo Presidente Volodymyr Zelensky, vários congressistas democratas apareceram na sessão com gravatas e lenços amarelos e azuis — as cores da bandeira ucraniana.
▲ Na bancada mais à direita do plenário, dominaram os fatos cor-de-rosa e as gravatas azuis e amarelas
JIM LO SCALZO/EPA
Outros congressistas trajaram de cor-de-rosa, que classificaram “como cor do protesto e do poder”. “Estamos a enviar uma mensagem: as políticas de Trump está a arrasar as mulheres”, escreveram nas redes sociais. Algumas congressistas optaram por vestir roupas brancas, uma cor habitual das mulheres na política que representa o movimento sufragista. Um terceiro grupo, de democratas negros, vestiu de preto.
“Alarme e urgência”. A reação dos progressistas, que recusam a apatia
Indiferentes ao guião de comportamento de Jeffries, foram vários os congressistas que, na terça-feira, ergueram pequenas placas redondas durante o discurso de Trump. “Musk rouba“, “Salvem o Medicaid“, “Protejam os veteranos“, podia ler-se nos cartazes. O Politico avançou que as placas foram entregues pelo Caucus Progressista — o grupo composto pelos membros da ala mais à esquerda do Partido Democrata. Uma das suas congressistas, Rashida Tlaib, levou um quadro branco, onde foi escrevendo várias mensagens. Uma delas dizia: “Aqui não há Rei“.
Um grupo de representantes desta fação protagonizou ainda um segundo momento de protesto durante o discurso, quando se levantaram, viraram costas ao Presidente para mostrar as camisolas onde estava escrito “Resistam” e abandonaram a sessão. Na entrada de Trump na câmara, uma destas representantes, Melanie Stansbury, já tinha erguido um papel com as palavras “Isto não é normal” — o papel acabou por lhe ser arrancado das mãos e rasgado por um representante republicano do Texas.
Some Members of Congress just took their jackets off and walked out. The t-shirts they had on read "RESIST" pic.twitter.com/kc7liC9u0e
— Scott Dworkin (@funder) March 5, 2025
A maior parte dos membros do Caucus Progressista recusa alinhar com a retirada estratégica que a zona mais ao centro do Partido defende. Em vez disso, procuram aproximar-se dos eleitores e, por conseguinte, afastá-los de Trump. Exemplo disso foi a ordem que Jasmine Crockett — uma das congressistas que abandonou a sessão — deu à sua equipa logo após a tomada de posse do Presidente: deviam assinalar todas as ordens executivas publicamente, para que os cidadãos tivessem acesso facilitado. “[Trump] cria imenso caos e por isso é difícil acompanhá-lo”, justificou à data.
A tática não tem grande efeito prático, já que o Partido está em minoria no Congresso, mas procura dar resposta a um problema de fundo, identificado de forma unânime pelos democratas: o afastamento da base eleitoral. Quem também partilha este lema é Alexandria Ocasio-Cortez que recusou aparecer no Congresso. Em vez disso, a congressista de Nova Iorque esteve a responder a questões dos eleitores na rede social Bluesky. Desde que Donald Trump tomou posse, Ocasio-Cortez tem utilizado este modelo de comunicação mais frequentemente, que visa em particular os eleitores mais jovens.
Contudo, a vontade de resistir mais ativamente à presidência Trump não chega só da fação mais à esquerda (e mais jovem) dos democratas. O senador Chris Murphy, do Connecticut, um veterano da política que não faz parte do Caucus Progressista, também não marcou presença para ouvir o Presidente e defende que esperar pela auto-destruição de Trump pode ter um preço demasiado pesado.
“Vai ser muito difícil mobilizar as pessoas na América se consistentemente votarmos a favor dos nomeados e da legislação [proposta pelos republicanos]. É preciso retratar um sentido de alarme e urgência ou as pessoas vão continuar a acreditar que o país está OK”, argumentou ao New York Times.
“Vale a pena mostrar às pessoas que alguns de nós vão fazer frente aos desejos deste Presidente de cortar Medicaid, Medicare e a Segurança Social”, declarou o congressista Al Green aos jornalistas, depois de ter sido obrigado a sair da sessão.
A oposição a Trump é, realmente, a abordagem mais popular entre os eleitores democratas, segundo uma sondagem da CBS. Em janeiro, 46% dos inquiridos respondeu que o Partido Democrata devia fazer frente a Trump. Em fevereiro, esse número subiu para 65%. De forma inversa, a confiança dos eleitores na capacidade de o Partido se opor realmente ao Presidente caiu: em janeiro, 40% dos eleitores tinha pouca ou nenhuma confiança, em fevereiro, eram 48%. A perceção dos eleitores independentes e republicanos ainda não foi medida em sondagens.
O objetivo comum de chegar à classe trabalhadora e as divisões sobre a estratégia
A análise dos padrões de voto nas eleições de 2024 comprova a inversão da popularidade histórica do Partido Democrata entre a classe trabalhadora. A perda do voto deste grupo é reconhecida pelas várias fações dos democratas. “Precisamos de perceber por que é que nos estamos a sair tão mal entre os eleitores da classe trabalhadora (eleitores sem cursos superiores). E não é só esta demografia — começámos a perder apoio entre eleitores negros e latinos”, salienta Matt Bennett ao Observador.
Porém, as respostas dos dois grupos divergem no “porquê” da derrota, nota Matthew Duss. “Uns sentem que Harris foi punida por ter tomado medidas demasiado liberais no passado” — o grupo mais moderado –, “outros sentem que ela foi simplesmente demasiado cautelosa e não conseguiu descrever uma visão convincente que ressoasse entre os eleitores da classe trabalhadora” — o grupo mais progressista.
A Third Way, a organização fundada por Bennett, integra o primeiro grupo e foi responsável por um encontro de um dia e meio em fevereiro, em que um grupo de democratas moderados analisaram as causas da derrota e propuseram 20 soluções para reabilitar o Partido Democrata. Entre elas, recomendam que o Partido “abrace o patriotismo, a comunidade”, “proíba interrogatórios de candidatos de extrema-esquerda” e “faça frente aos funcionários e grupos de extrema-esquerda que exercem uma influência desproporcionada na política e nas mensagens”.
▲ O partido discorda se Kamala Harris perdeu porque se aproximou demasiado da "extrema-esquerda" ou de menos da população
Anadolu via Getty Images
Este grupo acusa o grupo mais à esquerda de ter puxado as eleições para temas “ideológicos” em vez de se ter concentrado no tema que deu a vitória a Trump: a economia e o poder de compra.
É neste ponto que os dois grupos democratas chocam de frente e a cisão se torna muito clara, já que o grupo progressista também considera que a economia deve ser o centro do debate. Os moderados argumentam que o problema é o foco ter sido colocado nas “questões ideológicas” durante a campanha eleitoral; os progressistas não negam focar-se nesses temas, mas criticam os moderados por não serem capazes de apresentar um modelo económico alternativo à população. As acusações revelam duas fragilidades: por um lado, a falta de uma alternativa; por outro lado, a falta de uma comunicação eficaz.
“Apenas alguns [democratas] estão a falar diretamente com os americanos em todo o país e a apresentar uma visão alternativa que liga as lutas económicas das pessoas à pilhagem a que estamos a assistir com Trump e Musk”, critica Matthew Duss.
O antigo conselheiro de Bernie Sanders destaca o trabalho que o senador independente tem feito nas últimas semanas, ao viajar para estados tradicionalmente vermelhos para contactar com a população como um exemplo da aposta que o Partido Democrata fazer. Apesar de Sanders ter uma popularidade inegável no seu estado — o seu lugar no Senado nunca foi desafiado quer por um republicano ou um democrata –, é preciso notar que o senador compete no Vermont, um conhecido reduto progressista.
Sem líder em Washington, o foco está no poder local
Os protestos diluídos por toda a bancada democrata na terça-feira deixaram a nu a cisão dentro do Partido. No braço de ferro entre progressistas e moderados e sem uma liderança clara, a ação coesa dos democratas estagnou. A solução fácil seria arranjar um novo líder, que ficasse com o lugar que Joe Biden ocupou quando era Presidente.
“Na política americana, quando o partido está fora do poder não tem líder até nomearem um candidato presidencial. Vimos isto com os republicanos antes de Trump ter assegurado a nomeação em 2024”, explica Matt Bennett ao Observador. Porém, as primárias do Partido para as eleições presidenciais de 2028 ainda estão longe. Até lá — para aqueles que não apoiam a solução da retirada estratégica — é preciso um líder.
Os democratas têm figuras de liderança nos vários órgãos, mas Benett exclui a possibilidade de Hakeem Jeffries ou Charles Schumer assumirem o cargo de topo. “Temos líderes na Câmara e no Senado, mas os seus trabalhos são muito específicos — precisam de manter os seus membros alinhados face aos ataques republicanos”, argumenta. Tendo em conta que o desalinhamento que se viu entre os democratas durante o discurso, nenhum parece reunir consenso.
Fora dos cargos federais, o Partido Democrata elegeu, no dia 1 de fevereiro de 2025, um novo presidente do Comité Nacional Democrata. O escolhido foi Ken Martin, um político do Minnesota, com pouca expressão nacional. O New York Times descreve a eleição como “uma corrida tépida que ilustrou a falta de uma mensagem alargada que vá além de atacar o senhor Trump”. Martin também não é solução.
Os especialistas questionados pelo Observador excluem nomes para a liderança, sem nunca pôr em cima da mesa um que reúna consenso nas duas margens do espectro político. “Temos alguns anos para resolver esta questão antes das próximas eleições”, atira Matt Bennett.
▲ Os democratas não olham para os líderes do Congresso como uma possibilidade para liderar o Partido
PETE MAROVICH/EPA
Mas um número bem maior de democratas apontou ao New York Times um caminho alternativo, a nível local. “Qualquer evolução não virá dos líderes em Washington, mas de uma forte bancada de governadores, procuradores-gerais e legisladores estaduais”, resume o jornal.
Progressistas e moderados encontram no poder local um ponto em comum. Se ambos identificam que a aproximação às pessoas é essencial, o caminho mais fácil para o fazer é apostando nos órgãos locais, regionais e estaduais. Se a população critica o elitismo dentro do Partido Democrata, a solução poderá estar no regresso às raízes e ao contacto direto com os eleitores.
Caso o Partido Democrata aposte mesmo numa renovação de cima para baixo, então o prazo para entrar em ação é bem mais apertado do que as eleições presidenciais de 2028. No final de 2025, a democrata Nova Jérsia e a republicana Virgínia vão a eleições para os governadores, naquele que será o primeiro teste do Partido nas urnas depois da derrota no ano passado.
Entre escombros eleitorais, divisões internas e falta de liderança, um pesado nome democrata parece estar otimista. Em privado, Barack Obama terá comparado o momento atual do Partido a 2005, segundo avançou uma fonte anónima ao New York Times. O otimismo surge da renovação que os democratas fizeram nos anos seguintes, que levou à eleição do próprio Obama e que querem repetir agora.