Warren Allmand tinha preparada “uma pergunta muito importante sobre um tema muito importante”. Mas naquele dia de outubro de 1979, no parlamento canadiano, nada foi mais importante que a roupa do deputado liberal. Numa evidente quebra do dress code apresentou-se de gola alta – o speaker recusou-se a dar-lhe a palavra e o visado teve que pedir uma gravata emprestada para poder continuar. “Se as pessoas se vestem assim nesta assembleia onde é que vamos acabar? O presidente do Supremo Tribunal a tomar decisões em calções e camisa aberta?”, atirou Dan Sterling.
Em bom rigor, a falha de etiqueta naquele fórum até tinha pouco de inédito. Durante a crise de outubro de 1970, Pierre Trudeau, então primeiro-ministro, foi o alvo de uma repreensão feroz quando decidiu aparecer de mangas de camisa e gravata solta às bolinhas, um nível de casualidade que era bastante comum no estilo do pai de Justin Trudeau. A “Trudeaumania” foi, aliás, alimentada em boa parte devido ao guarda-roupa menos convencional de Pierre, que foi grande entusiasta dos lenços ao pescoço e ainda da gola alta. Mas uma coisa é a Commonwealth, outra são as rigorosas convenções de Westminster, à espreita do outro lado do oceano.
A Câmara dos Comuns resiste até hoje como um bastião no que aos códigos de vestuário diz respeito, tendo no entanto evoluído lentamente para acomodar e refletir as tendências sociais. O fato de dia ou fraque, que prevaleceu durante a segunda metade do período vitoriano, para políticos e outras elites, tais como banqueiros, juízes, advogados e médicos, podem já não fazer parte do cenário (tal como as cartolas. Para não falar das armaduras, proibidas desde 1313). Mas 2025 não é, de todo, sinónimo de smart casual, apesar de todas as reformas passageiras nesta matéria. E das pontuais ousadias e subversões na casa.
Um dos primeiros a desafiar o protocolo foi Keir Hardie, membro fundador do Partido Trabalhista, que, em 1892, usou um blazer de tweed e boné no Parlamento, num sinal de rebelião contra a elite política, ao mesmo tempo em que destacava a sua formação operária. Em 2017, Tom Brake, um deputado liberal-democrata, causou um tumulto quando fez uma pergunta na Câmara dos Comuns sem gravata, e motivou aceso debate sobre em que consiste um “business attire”.O speaker John Bercow introduziu várias alterações na sua indumentária quando assumiu o cargo em 2010. E não faltam outros momentos insólitos. Caso lhe interesse, a loja do Parlamento britânico até vende camisolas de malha inspiradas no palácio neogótico, da A.W.N. Pugin, cercadas por emblemas heráldicos e feitas em Leicester com fios reciclados — nenhuma de gola alta. E nenhuma apropriada para uma sessão parlamentar.
▲ Pierre Trudeau (1919 - 2000) no hotel Claridge's, em Londres, a 4 de janeiro de 1969
Getty Images
Mesmo que esteja fora dos Comuns, pense duas vezes antes de trocar a formalidade do nó pelo aconchego da malha. De forma inesperada, William, príncipe herdeiro e futuro chefe de Estado, deu nas vistas no primeiro prémio Earthshot em 2021, quando apareceu com uma gola alta preta com um blazer de veludo verde. À primeira vista, pode parecer não só merecido, como necessário, aplicando a recomendação de consumo de champanhe que Napoleão impunha nas derrotas, mas há quem falhe com estrondo.
Que o diga Matt Hancock, quando o antigo secretário da Saúde britânico se viu envolvido num folhetim em tempo de Covid-19, para somar à extensa e desastrosa cronologia. Em junho de 2021, veio a lume que o responsável teria violado as restrições de distanciamento social. Não por prescindir da máscara ou ignorar o uso de álcool gel, mas por ter beijado e abraçado no seu escritório Gina Coladangelo, a diretora do Departamento de Saúde e Assistência Social, com quem mantinha um caso extraconjugal. Apenas mais um dia na longa cronologia de polémicas geradas pelo secretário, que terá encontrado uma solução, mais uma, no fundo da gaveta.
Na ressaca do escândalo, e do pedido de demissão, Hancock desdobrou-se em aparições em público em gola alta, que foram lidas por muitos como uma manobra de relações públicas. Esforçou-se por parecer “cool” e gerar empatia mas os níveis de bizarria foram agravados pela participação em programas como “I’m a Celebrity”. Entre as aparições descritas como desnecessárias esteve a passagem pelo podcast de Stetven Bartlett “Diário de um CEO”. Hancock frisou que quebrou “diretrizes, não regras”. O pai de três elaborou um pouco mais: “E isso aconteceu porque me apaixonei por alguém.” Hancock só não foi fotografado de sweatshirt – ou melhor, até foi, e mais uma vez a furar as regras apertadas do confinamento (pelo menos não se encontrava no parlamento).
@steven It’s here… Matt Hancock x The Diary Of A CEO ???????????? Let me know your thoughts below???????? #stevenbartlett #uktiktok #ukpolitics
Neste particular, a taça de estilo vai para Emmanuel Macron. No continente, entre um inesperado hoodie e uma gola alta para receber o então presidente do Conselho Europeu, o belga Charles Michel, em dezembro de 2019, o chefe de Estado francês alinhava-se com os desafios impostos pela crise energética, apesar de nem todos ficaram convencidos. “Quando Macron usa uma gola alta com o blazer, o seu olhar lembra um vilão de Bond, um vilão corporativo que prova sangue, Steve Jobs, um vocalista de iate-rock, e um intelectual parisiense pediu para debater com Noam Chomsky sobre a natureza humana na década de 1970. Para um presidente de “nem à direita, nem à esquerda”, este olhar é adequadamente fungível”, lia-se na Vanity Fair.
Macron não é o único a fidelizar-se à tendência, também o seu ministro das finanças Bruno Le Maire aderiu ao visual para se manter quente e apelar à poupança de energia, sendo que há uma vasta tradição em solo gaulês quando falamos nesta peça. Com o renascimento cultural pós-ocupação de Paris, no final da II Guerra Mundial, a gola alta atingiu o seu pico de glória e tornou-se um aliado da fornada de existencialistas. Estilo e pensamento, charme e intelectualidade, deram as mãos e foram cultivados por escritores, artistas, músicos e estrelas de cinema associadas à cidade, como Juliette Greco, Yves Montand, Jacques Brel e Miles Davis, para citar alguns.
Mas tornar a poupança sexy é um desafio que precede os líderes gauleses. Precede também a missão da governadora de Tóquio, Yuriko Koike, primeira mulher eleita para o cargo, em 2016, que em 2022 pediu aos residentes que perfilhassem a moda da gola alta para encolher a conta da eletricidade, e ela própria deu o exemplo. Ou mesmo a gola alta da então primeira-ministra da Finlândia Sanna Marin, que também apontava à contenção no desperdício. No final dos anos 70, já o Presidente dos EUA Jimmy Carter fizera o famoso “Sweater Speech”. Sem gola alta, mas com um cardigan com ar aconchegante sentenciou, ou simulou, como preferir: “Está muito quente aqui em Washington”, e sugeriu baixar a temperatura do aquecimento e caprichar no número de camadas de forma estratégica.
▲ O Presidente francês Emmanuel Macron, o Presidente russo Vladimir Putin, e o Presidente do governo espanhol Pedro Sánchez
AFP via Getty Images
Uma coisa é certa: a gola alta é conhecida por alongar a silhueta, dando a ilusão de que os 1.73 metros de altura do presidente francês conhecem uma miraculosa expansão – o mesmo se aplica a outras nacionalidades, presidências e aspirantes, bem entendido. A subida do decote cria uma linha vertical contínua do peito ao queixo, que permitir alçar a atenção para a área do rosto e pescoço, em vez de quebrar a linha corporal, contribuindo também para uma proporção equilibrada. Já agora, para potenciar o efeito, prefira tons escuros, um tom único e tecidos mais finos. Um blazer bem ajustado reforça os ombros e vem reforçar essa ilusão de verticalidade. Ah, e não se esqueça de manter uma boa postura.
Está tudo nos detalhes, como de costume, das boas intenções ao inferno. Já este ano, em março, o momento de destaque numa relevante foto de família foi liderado por um português, quando o presidente do Conselho Europeu trocou a camisa e a gravata por uma camisola preta de gola alta. António Costa surgiu atrás de Volodymyr Zelenksy, num sinal de solidariedade ao líder ucraniano depois do incidente diplomático que ocorrera na Sala Oval, na visita a Donald Trump.
▲ O presidente do Conselho Europeu, António Costa, com o PM britânico Keir Starmer, e a foto de família com os líderes europeus em Lancaster House, em Londres
Bloomberg via Getty Images
Ironicamente, Vladmir Putin não desdenharia o look, muito menos em tempo de guerra. Em março de 2022, enquanto os rockets russos atingiam a Ucrânia, o presidente Putin dirigia-se à audiência de 200 mil pessoas, justificando a defesa dos “valores universais da Rússia” – e exibindo o seu guarda roupa luxuoso. No estádio Luzhiniki, em Moscovo, não foi só o seu blusão Loro Piana de mais de 11 mil euros que chamou a atenção, mas também a camisola de gola alta branca da marca italiana Kiton de 3.400 euros. O ar enchouriçado do presidente levou alguns comentadores a especular se teria um colete à prova de balas por baixo.
A preferência pela peça de roupa vem de trás. Num editorial fotografado na Sibéria, onde costuma aparecer de forma mais descontraída, apresentando-se em contacto com a natureza, a gravata é trocada pela gola alta, tal como aconteceu em 2019. A NBC News, entre outros analistas, entendeu que a mensagem era suavizar a imagem de ditador e inflexível.
Há mais semiótica num tricotado do que pode imaginar. Em 1998, o The New York Times traçava o perfil de um protagonista europeu dos anos que viriam. “A vontade de Schroder para o poder é certamente impressionante”, escreveu nas suas memórias o ex-presidente do partido, Hans-Jochen Vogel. “Mas a questão é, cada vez mais, o que é que ele quer fazer com esse poder?” Na verdade, interessa-nos mais o “como”. Segundo Ludolf von Wertenberg, chefe da Federação das Indústrias Alemãs, que serviu como membro democrático-cristão do parlamento quando Gerhard Schröder também estava em Bona, o líder que abria caminho para a chancelaria esteve sempre atento aos grupos mais jovens, e ainda às classes proletárias. Vigilante dos mais discretos pormenores, era também “incrivelmente bom de pé, nunca usa mensagens ou notas se puder evitá-lo, e se ele sentisse que o que estava a dizer não estava a correr bem, mudaria de marcha em segundos. Um tipo simpático, provacateur, não importava, desde que não fosse ignorado.”.
E que fazia o trabalho de casa: perguntava sempre de antemão quem estaria na audiência quando era convidado para fazer um discurso. Se fossem empreendedores? Aparecia “com a camisa mais branca que podem imaginar”. E se fossem estudantes? “Aparecia de gola alta”. Foi de resto assim que aparecera na convenção dos jovens socialistas em Hofheim, perto de Frankfurt, após ter sido eleito presidente da organização de juventude do SPD, em 12 de fevereiro de 1978.
▲ Gerhard Schröder a 12 de fevereiro de 1978
picture alliance via Getty Image
Menos encarnado do que o SPD, mais cor de laranja. Conhecida como turtleneck nos EUA e Canadá, polo neck ou roll neck no Reino Unido, a gola alta é ainda designada “skivvy” na Austrália. E foi precisamente nos antípodas que passou à história uma campanha de sucesso envolvendo um destes exemplares.
Em 1972, o líder trabalhista australiano Gough Whitlam fez campanha para primeiro-ministro sob o slogan “It’s Time”, um eco do bem sucedido slogan do liberal Robert Menzies de 1949, “It’s Time for a Change”. Pesquisas mostraram que até os eleitores liberais aprovaram o slogan do Labour. “A campanha tornou-se uma das tentativas mais bem sucedidas de persuasão pública na história australiana, com a frase “É hora” permanecendo sinónimo com o partido e Whitlam por décadas. A visão de Whitlam para mudança e igualdade era ampla: igualdade de raça, género, riqueza e oportunidades. Uma vez no governo, Whitlam implementou uma ampla gama de reformas para lidar com a discriminação na educação, direitos das mulheres, saúde e direitos dos povos indígenas.”, lê-se na página do Museu da Democracia Australiana. Em 1975, Whitlam fez história tornando-se o único primeiro-ministro australiano demitido do cargo.
A skivvy que fez parte do merchandising da campanha trabalhista em 1972, na Austrália
É pouco provável que o arrojo de um presidente chegue ao ponto de optar pelo amarelo com que Melania Trump caminhou ao lado do marido, Donald Trump, mas os EUA não escapam ao curriculum político da gola alta. E o caso mais recente de buzz nas redes sociais até envolve o líder atual. Em novembro, Trump usou um cachecol bordeaux colocado de uma forma que desatou comparações imediatas com a gola alta no mesmo tom usada anteriormente pelo recém eleito mayor de Nova-Iorque, Zohran Mamdani.
Se em 2006 a revista McSweeney dedicava um artigo à dimensão do pescoço de Barack Obama, em 13 de setembro de 1980, apenas seis anos depois de ter renunciado como presidente na sequência do escândalo Watergate, Richard Nixon, com uma gola alta sob um blazer, fazia uma competente demonstração de como um ex-presidente desonrado dirige uma campanha de reabilitação de imagem. “Muitos políticos de alto nível vieram a Nantucket desde então, em grande parte para esvaziar os bolsos de doadores ricos em angariações de fundos privados ou para posar para fotos de si mesmos a fazer windsurf em Brant Point (estou a falar de si, John Kerry), mas poucos têm colocado ênfase sobre o desempenho de Nixon”, recordou um então jovem repórter do Nantucket Inquirer, Gary Holmes, que pensava que o republicano se iria esgueirar da população mal pusesse o pé no destino. “O que eu não percebi então, mas aprendi ali, é que as pessoas estão sempre animadas para ver celebridades – mesmo as que caíram em desgraça. Nixon manejou a multidão como um político experiente, apertando as mãos e oferecendo boas conversas. A certa altura passou por um turista num telefone público que gritou que Nixon tinha que dizer ‘olá’ à sua esposa, porque ela não acreditava que ele estava ali. Depois de perguntar o nome da senhora, Nixon pegou no telefone e disse: “Olá, Betty! Quem é esta mulher que está aqui com o seu marido”?” Parecia uma punchline de Bob Hope em pessoa.”
Warren Almand não foi o único a ter um dia de cão em funções. Em outubro de 2025, nem um passo atrás no código de vestuário, no senado do Quénia. O senador Boni Khalwale foi convidado a sair pelo speaker depois de ter aparecido com uma camisola de gola alta grená sob o seu fato, sem gravata à vista. E melhor que uma gola alta só duas golas altas num momento pandam na cúpula de um estado. Em dezembro de 2021, num pequeno insólito na Sérvia, o Presidente Aleksandar Vučić e a então primeira-ministra Ana Brnabić surgiram em looks quase idênticos, ambos com golas altas escuras, um “fashion faux pas” que viralizou.
Em 2024, o primeiro descendente de albaneses a ser eleito para o parlamento suíço, portador de paralisia cerebral, celebrou com uma publicação em gola alta. “Making History”, escreveu o social democrata fixado em Zurique Islam Alijaj.
Mas quantos candidatos se poderão gabar de aparecer num cartaz de campanha com o pescoço devidamente tapado? Eamon Gilmore é um deles. O diplomata irlandês foi muitas vezes fotografado e conhecido por usar golas altas pretas ou escuras, especialmente durante seu tempo como Tánaiste (vice-chefia do governo) e Ministro dos Negócios Estrangeiros, tornando-o uma assinatura que fazia pontaria a uma imagem séria, intelectual, e às vezes focada na austeridade. Do ponto de vista visual, é um traço memorável da sua liderança no Partido Trabalhista Irlandês e no governo, simbolizando a sua abordagem para questões complexas como a crise financeira. Em 1992, usou-a mesmo numa imagem num poster de campanha.
Cavaleiros, pescadores e remar contra a maré
Com uma história de séculos, a gola alta já protegeu, foi sinónimo de classe, confrontou o status quo e a moral e continua a chamar atenção sempre que um político deixa a gravata em pausa, já que continua a ter um caráter excecional.
Como boa parte das peças de roupa que usamos até hoje, tem antes de mais uma origem utilitária. Muito antes de fatores statement, a sua presença na Europa medieval manifestava-se nas indumentárias usadas pelos cavaleiros, que assim protegiam o pescoço dos ferimentos provocados pelo uso da armadura. A estratificação social consolidou-se em referências como os rufos, esses folhos em altura (por vezes altíssimos) que cumpriam a hierarquização de reis e nobres, posteriormente rendidos, já no século XVII pelos colares isabelinos — qualquer um deles impróprio para trabalhar, claro.
Retrato de D. Sebastião atribuído a Cristóvão de Morais, que trabalhou na corte em Lisboa entre 1551 e 1573. A pintura faz parte da coleção real britânica e encontra-se em exposição na residência oficial da rainha na Escócia
É já no século XIX que a gola subida se manifesta através da camisola, um peça que começa por ter um uso popular e prático, adotada por marinheiros, mineiros, pescadores, e outras profissões, oferecendo proteção do físico perante condições adversas. Por volta de 1860, ganham espaço no desporto com o conhecido “polo neck”, na versão britânica, que mais uma vez protegia o pescoço, também do sol, uma referência que vai do ciclismo aos courts de ténis. Na arte, uma das primeiras manifestações fixadas através da pintura remonta a 1898, quando o artista alemão Bernhard Pankok surge num autorretrato mostrando-se devoto da gola alta preta, quando tinha 26 anos.
Na II Guerra Mundial entra oficialmente no guarda roupa da marinha norte-americana mas bem antes disso já vários destinos piscatórios, incluindo Portugal, iam escrevendo a história de camisolas que inscreveram o seu nome na posteridade. Se os pescadores das ilhas Aran, na Irlanda, protagonizaram um momento cultural há mais de 150 anos, enquanto se protegiam do vento gélido no mar, por essa altura também a camisola poveira mostrava o que valia. Muitas vezes de gola subida, começou por ser feita na Azurara e em Vila do Conde e bordada na Póvoa pelos velhos pescadores, um testemunho passado por diante a mães, esposas e noivas de quem deixava a terra. Na verdade, as primeiras referências do uso de camisolas de malha em lã natural, proveniente da Serra da Estrela, remontam ainda ao século XVIII. No pós-II Guerra, o interesse pelas criações étnicas garantiu a sobrevivência da poveira enquanto objeto de moda mas foi preciso rebentar uma polémica, em 2021, para voltar às bocas do mundo, e sobretudo do país. A procura disparou quando a designer norte-americana Tory Burch foi acusada de plágio ao pôr à venda, na loja online da sua marca, uma camisola poveira por 695 euros, sem referir a sua origem.
© Facebook Camisola Poveira
Navegando por águas presidenciais, na campanha às eleições de 18 de janeiro há (pelo menos) dois votos que vão para o uso de gola alta. Fiel ao trajeto submarinista, Henrique Gouveia e Melo costuma combinar os seus blazers assertoados de inspiração militar com uma camisola desta natureza — em 1995, o livro “Revelações” mostrava outro militar, e outrora Presidente da República, fotografado em gola alta a manusear relógios da sua coleção, António Ramalho Eanes.
Para uma entrevista ao Observador, ou para dialogar com jovens no Dia da Democracia, Luís Marques Mendes também lhe tomou o gosto. E já neste mês de dezembro, foi de gola alta escura e blazer cinza que o presidente do grupo parlamentar do PSD, Hugo Soares, desejou que o desfecho das presidenciais permita cumprir o sonho de Francisco Sá Carneiro, que foi ele próprio utilizador da gola alta, dentro de um barco a pescar, ao lado de Snu Abecassis, ou em outras ocasiões.
Em demais palcos, mas igualmente a nível doméstico, podemos sempre recuperar outros looks. Em janeiro de 2024, o então secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, usou uma gola alta no congresso do partido, acentuando a desconstrução da imagem, encetando um novo ciclo, e gerando comparações com outra (agora ex-) líder partidária, Mariana Mortágua.
▲ Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
“Terra Firme” foi o título do livro que Pedro Sánchez lançou em dezembro de 2023, acompanhado por ministros, acólitos, jornalistas e familiares. A gola alta eleita não foi o centro do mundo, não só por ser já um traço comum no guarda-roupa do presidente do governo espanhol mas porque o autor da obra quis deixar bem claro quem era a figura de proa naquele dia. Surgiu com um blazer slim fit num tom azul que, perante os flashes dos fotógrafos, teve direito a designações para todos os gostos e ângulos: tanto parecia petróleo como indigo, cyan ou denim, Klein ou quase violeta, segundo a perspetiva de visão. A questão cromática voltou a dominar as notícias quando Sánchez se colocou frente a frente com o líder da oposição em novembro de 2022, porque nada melhor que garantir a distração de pepinos políticos com um fato beringela. Por falar em oposição, e de volta à gola alta, foi com um destes exemplares que o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo surgiu de forma descontraída na revista Esquire, numa longa entrevista e produção fotográfica de outubro daquele ano onde revela o seu lado mais pessoal e se aborda “O Enigma Feijóo”.
Apesar dos exemplos vindos de outro quadrante, ainda hoje a gola alta aquece mais o território à esquerda. Até Silvio Berlusconi pode ter incendiado as manchetes quando no começo dos anos 90 se antecipou ao uniforme do antigo CEO da Fiat Chrysler, Sergio Marchionne, e usou os pullovers para projetar a visão de um self made man. Mas nada bate a relação umbilical que se estabeleceu na Grécia, entre a gola alta e o PASOK.
Depois de sete anos de governo militar, quando Andreas Papandreou voltou a Atenas em agosto de 1974, o novo líder socialista trazia uma mensagem de renovação — a começar pelo guarda-roupa. Livre dos fatos que usara nos anos 60 enquanto ministro da Coordenação Económica do governo centrista do seu pai, George Papandreou, saiu do avião de casaco de couro preto, cabelos compridos e um relógio moderno no pulso. Para anunciar a fundação do seu novo Partido Socialista poucos dias depois, em 3 de setembro de 1974, num hotel no centro da capital grega, voltou a remar contra a maré preferindo roupa casual e uma camisa aberta. O estilo que quebrou os tabus do político clássico teve como símbolo máximo a gola alta, ou zhivago, seguida e imitada pelos seus ministros, membros do partido ou simples eleitores, uma peça que se tornou sinónimo da política do PASOK. Mas o futuro da peça não foi simples. Ganhou má fama quando vários ministros se viram envolvidos em casos de corrupção, ficou associada ao declínio do partido e foi sinónimo de blasfémia quando o líder da oposição à esquerda, Alexis Tsipras, escolheu usar uma gola alta em 2014, tendo sido acusado de querer ser “o novo Andreas”. Tsipras enterrou a gola alta mas impôs um novo dress code, cumprido pela maioria dos membros do Syriza: políticos sem gravata e de camisa branca.
Os anos 20, a cultura pop e a era Steve Jobs
A fluidez dos anos 20 do século XX quase a enterrou no armário mas Noël Coward impediu que saísse de cena e garantiu a sua prosperidade. Foi com surpresa, no entanto, que naquela noite em Londres, em 1924, abriu o jornal e viu que tinha lançado uma moda entre a classe média. Ao longo desta década, o argumentista não deixou de usar a gola alta, promoveu a sua elevação no guarda-roupa masculina, desdobrou-se em cores ousadas e consagrou-as como “anti-gravatas”, numa alternativa de moda ao acessório clássico e formal, apesar de garantir que as usava sobretudo por razões de “conforto”, conforme partilhou nas suas memórias, “Present Indicative”.
O momento foi decisivo para que este modelo de camisola conquistasse o seu lugar no firmamento da moda, já que até então cumpria sobretudo uma função utilitária.
▲ Steve McQueen durante a rodagem de "Bullit"
Muito antes dos líderes políticos, vieram os palcos artísticos — com a política sempre de permeio. Da rive gauche parisiense para a contra cultura norte-americana, a geração beat dos anos 50 (William S. Burroughs usou-a em repetição até ao fim dos seus dias) e até os modelos usados pelos Back Panthers nos anos 60, simbolizando a rejeição dos padrões, a gola alta disseminou-se. Para não falar dos anos 70 e dos movimentos feministas, que importaram o uniforme para o seu ativismo, fomentado por nomes como Gloria Steinem e Dorothy Pitman-Hughes. Mas bem antes disso já a androgena Marlene Dietrich colocaria a gola alta no mapa, ainda durante os anos 30 do século passado, ajustada a dos seus icónicos fatos. Mais tarde, Jane Mansfield e Audrey Hepburn seguir-lhe-iam os passos, agora para uma versão ultra feminina. Em 1957, em Funny Face, com Fred Astaire, Hepburn brilhou num preto total com a gola subida, e com a assinatura do criador Hubert de Givenchy. Depois, outras estrelas se seguiriam.
A gola alta penetrou no guarda-roupa anti-establishement, simbolizou rebelião e apelou a uma rutura nas normas da moda mais convencionais, propondo um guião alternativo em termos de sofisticação. Académicos e filósofos adotaram-na com a mesma devoção que artistas da música e do cinema, subvertendo os códigos conservadores.
Dos anos 50 em diante, quase todos os grandes nomes foram fotografados a usar uma destas peças, de Lou Reed a Joan Didion, de Eldridge Cleaver a Gloria Steinem, dos The Beatles aos Rolling Stones. Durante o período elétrico de 1965-66, Bob Dylan dificilmente seria apanhado sem uma gola alta. Andy Warhol juntou-se à marcha na mesma década, e a camisola preta tornou-se emblemática.
Samuel Becket
Imagens icónicas como as de Richard Avedon, mostram Samuel Beckett com a sua conhecida gola alta, contemporânea da sua passagem por Paris, expressão de um estilo minimalista e até austero. A “Beckett Turtleneck” era mais uma no seio da “Crowd Roll Neck”, a pequena multidão de golas altas nos círculos intelectuais e boémios da capital francesa.
Em “Bullit” (1968), é difícil esquecer a imagem de Steve McQueen de camisola preta e multiplicam-se os nomes de Hollywood que usaram o registo, de Michael Cain a Robert Redford, de Paul Newman a Tom Cruise. Entre as lendas pop, que dizer da imagem promocional do Justiceiro, Aka Knight Rider, com uma gola alta encarnada?
A capacidade de fratura estendeu-se até aos relvados. Em dezembro de 2019, o novo treinador do Arsenal, Mikel Arteta, arriscou a ira de Paul Scholes (lenda do United e então no papel de comentador), quando se apresentou para o seu primeiro jogo ao comando dos Gunners em gola alta, emulando um estilo celebrizado por Pep Guardiola. Scholes repreendera já Freddie Ljungberg, quando o sueco decidiu não usar um fato na sua estreia como treinador interno contra Norwich no início daquele mês.
Os anos 80 trouxeram camisolas de malha robustas, muitas delas com gola subida, que se popularizaram de novo no cinema, como com Billy Cristal e Meg Ryan em When Harry Met Sally. Mas o ressurgimento da peça, de forma icónica e de novo associada ao génio criativo, dá-se com a imagem de Steve Jobs e a historia de uma parceria que envolveu até processos judiciais. De básica e aborrecida, a camisola de gola alta preta voltou à ribalta nas míticas apresentações das novidades Apple, promessa de advento tecnológico e imagem minimalista. O propósito do utilizador podia ser diluir-se na paisagem e evitar distrações, além de contrariar a míriade de engravatados da indústria, mas o visual roll neck nunca passou despercebido. Tornou-se aliás um uniforme diário para Jobs, e claro que foi mencionada quando Steve morreu, em 5 de outubro de 2011.
Um fabricante de malhas, a marca St. Croix, não perdeu tempo após a notícia da morte, reclamando para si os créditos das camisolas. Jobs compraria duas dúzias das gola alta a cada ano, afirmou Bernhard Brenner, proprietário de St. Croix, dizendo que o CEO da Apple até ligou para a empresa para expressar o seu apreço pela camisola, recordou a Forbes. Mas o enredo mirabolante acabou desmascarado por uma passagem da pré-publicação da esperada biografia de Walter Isaacson, que revelou no fim de contas a amizade entre Jobs e o verdadeiro artista por trás da gola alta, o designer japonês Issey Miyake, que morreu a 5 de agosto de 2022, aos 84 anos.
▲ Steve Jobs e Elizabeth Holmes
Justin Sullivan/Getty Images
Jobs interessava-se pelo modus operandi de empresas como a Sony, que apostara em uniformes para os trabalhadores usarem no dia a dia, tentando ligá-los ao projeto. De acordo com a biografia autorizada do Isaacson, tencionava replicar esse vínculo na Apple. Ligou para Miyake e pediu-lhe para desenhar um colete para a empresa, mas o plano não correu como esperado, já que os funcionários não apreciaram esta osmose corporativa. Foi então que Steve Jobs pediu as golas altas negras a Issey, que haveria de criar um estilo-assinatura a título pessoal mas também geral definidor da visão para a empresa.
Previsível, segura, prática no inverno, a gola alta preta de Jobs haveria de fazer escola numa outra figura icónica da área. “É o meu uniforme. Isso facilita, porque todos os dias ponho a mesma coisa e não tenho que pensar sobre isso — é uma preocupação a menos. O meu foco é no trabalho. Levo isso tão a sério; tenho certeza que isso se traduz em como me visto”. As palavras são de Elizabeth Holmes, ditas à revista Glamour, em março de 2015, e envelheceram pior que uma gola alta. Pelo caminho, a fundadora da Theranos, à época descrita como “a mulher de 9 mil milhões de dólares”, e que distribuía conselhos de carreira, foi considerada culpada de quatro acusações de fraude e condenada a 11 anos de prisão. As camisolas escuras de decote subido continuavam entre as suas preferidas.