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Francisco Fidalgo

Francisco Fidalgo

Do Montijo para todo o lado: com os Hetta, o punk vai continuar “em conflito e em contraste com tudo que é expectativa”

Entre o enérgico movimento hardcore, este é um dos nomes que mais ondas tem provocado no nosso país. Como mandam as regras do punk, não cumprem nenhuma e o álbum de estreia, "Acetate", prova-o.

A bateria ataca-nos os ouvidos em arrombos punitivos enquanto as guitarras torcem-se e contorcem-se como um chicote, testando os limites da melodia. Por cima, duas vozes lançam invectivas, furiosas entre si, e ouve-se gritar “this is how it feels to chew on power cables” (“é esta a sensação de mastigar cabos elétricos”). Este verso, presente em Fire the Choir, podia definir a experiência de ouvir os Hetta: é como levar com um par de desfibrilhadores nos ouvidos.

Alexandre Domingos (voz), João Pires (guitarra), Simão Simões (baixo e vozes de apoio) e João Portalegre (bateria) têm vindo a oferecer esta experiência desde 2018 para quem quiser (ou ousar) senti-la. E têm sido cada vez mais os candidatos desde 2022, ano em que o quarteto decidiu recuperar o tempo perdido da pandemia, lançando o seu EP, Headlights, gravado ainda antes dos confinamentos, e adotando uma velha máxima do-it-yourself do punk rock: tocar no maior número de sítios possível, o que os levou não só de norte a sul do país, mas também a Espanha, Itália e Reino Unido.

Neste curto espaço de tempo, os Hetta tornaram-se num dos projetos que mais burburinho tem vindo a causar numa cena underground em si mesma a fervilhar de novas bandas apostadas a fazer barulho, no sentido literal e figurativo. No caso deste quarteto, tem valido como cartão de visita a igualmente antiga tradição do passa-a-palavra no que toca à intensidade e à envolvência dos seus concertos — qualidades de resto já comprovadas em mais do que uma ocasião por quem escreve estas linhas —, granjeando-lhes interesse e popularidade.

Não é, todavia, que gostem de admiti-lo. Em entrevista ao Observador, reconhecem que há um renovado interesse no que toca ao punk e à música alternativa mais barulhenta — notável especialmente pela afluência de um público cada vez mais jovem —, mas não querem colocar-se no centro dessa narrativa. “Evitamos pensar nessas coisas e viramo-nos um bocadinho para dentro. É como se estivéssemos a guiar um carro e a confiar uns nos outros de olhos fechados”, afirma Pires. Ao seu lado, Alex comenta: “Uma banda nunca vai poder responder a isso, porque as histórias são construídas por outros, não são por nós. O nosso papel não é esse, é fazer um disco e dar concertos. E depois fazer outro e dar concertos outra vez”.

[ouça o álbum “Acetate” na íntegra através do Spotify:]

Ora, foi precisamente isso o que nos trouxe a esta conversa, feita num bar lisboeta que lhes serve de pouso habitual e onde demonstraram uma descontração contrastante com a precisão laser apontada à jugular com que abordam a sua música. O seu percurso atingiu agora um novo patamar com Acetate, álbum que abre com a faixa acima retratada e que representa a estreia do grupo no formato longa-duração, numa edição a cargo da Lovers and Lollypops. O lançamento celebra-se com concertos a 4 de dezembro na Casa Capitão, em Lisboa, com Cave Story, Reia Cibele e Prado a abrir, e a 18 de dezembro no espaço da editora, no Porto, contando com os préstimos de Idle Hand.

Foi neste contexto que falaram com o Observador sobre o percurso até à data, o que os move como banda e o que queriam trazer de diferente para este disco — tudo isto enquanto depenicavam uma travessa de queijo com afã.

“Desde que sejamos nós os quatro a fazê-la, eis uma música dos Hetta”

A imagem que João Pires evoca de um automóvel conduzido pelos quatro ao sabor do instinto é apta em mais do que um sentido para descrever o rumo dos Hetta. Como assumem todos, não havia nenhum plano de raiz ou ambição particular para a banda: simplesmente juntaram-se os quatro numa sala de ensaios e deu-se o clique, não só no tipo de som que queriam, como na vontade partilhada de ter um projeto a levar a sério e que implicasse dar concertos.

Todos eles já se conheciam e, como descreve o guitarrista, já tinham “molhado os pezinhos no que era ter bandas”: ele, por exemplo, tivera grupos como os Violent Pup e os Nagasaki Skateboarding, os últimos em conjunto com João Portalegre (por todos tratado como Porti). Este, por sua vez, tinha também feito caminho no indie lisboeta a tocar na banda ao vivo de Maria Reis ao lado de Simão Simões, que além de ter um projeto próprio de eletrónica experimental, já fazia parte dos circuitos do jazz e da música vanguardista na capital, integrando uma iniciativa como os Má Estrela. Essa aparente disparidade de sensibilidades musicais, todavia, não se sentiu de todo. “Acho verdadeiramente que qualquer coisa que façamos, desde que sejamos nós os quatro a fazê-la com o intuito de fazer uma música de Hetta, é exemplo perfeito daquilo que significa uma música de Hetta”, reflete Simão em retrospetiva.

E o que é “uma música de Hetta”? Para compreendê-lo, é necessário fazer um curto resumo da história do hardcore, em si mesmo uma digressão mais intensa e agressiva do punk original dos Ramones ou dos Sex Pistols. Após a vaga inaugural do final dos anos 70 e início dos anos 80, encabeçada por bandas como Black Flag, Minor Threat e Bad Brains, floresceram ao longo dessa década e da subsequente uma série de bandas determinadas a expandir os seus limites estéticos e temáticos desta música, quer indo beber a outros géneros — noise, rock alternativo, metal, entre outros —, quer apostando em composições instrumentais mais aventureiras. Se o punk teve direito ao pós-punk, o hardcore também.

▲ "O que é teu são os teus amigos, a tua banda e a arte que fazes. Por isso é que bandas como a nossa e como mil e uma outras aparecem nestas alturas, porque não temos muito mais”

Francisco Fidalgo

Foi desse sincretismo do pós-hardcore que surgiram os subgéneros musicais a que o quarteto se sente mais devedor, como o screamo — uma derivação mais inflamada e sonicamente abrasiva do emo (ou “emotional hardcore”) — ou o mathcore — que, como o nome indica, adicionou à violência uma noção matemática de mudanças de ritmo e síncopes. É por isso que, quando começam a discutir inspirações, vêm à baila nomes como The Jesus Lizard, Orchid, The Blood Brothers, Jerome’s Dream, The Locust e At the Drive in, Converge ou os malogrados Daughters.

Tocar este tipo de música em Portugal não é inédito: a primeira década deste século deu-nos a conhecer bandas altamente reverenciadas como os If Lucy Fell, Adorno, I Had Plans ou Suchi Rukara — e os Hetta prestam-lhes igual culto. No entanto, há muito que todas elas ou acabaram ou entraram em dormência, deixando a cena screamo/post-hardcore portuguesa efetivamente desaparecer. Tal fez com que o quarteto, pegando neste testemunho, surgisse como uma espécie de corpo estranho no panorama hardcore nacional e até fosse olhado com alguma desconfiança por parte de alguns dos seus setores.

Como fazem questão de destacar, a chegada a este som veio do tal “clique” intuitivo, alimentado pelas paixões comuns por algumas das bandas acima referidas, não de uma vontade a priori de querer ser diferente porque sim ou de antagonizar. “Não fazemos por estar fora”, sintetiza Pires. “Gostamos do que gostamos e isto é como ter uma relação amorosa, não dá para mentir nesse sentido. E nós os quatro juntos é isto que sai. No futuro não sabemos muito bem o que é que vai sair”, completa.

[Os Hetta ao vivo em Lisboa:]

No entanto, admitem estar confortáveis com essa posição, até porque carregam no seu cerne o espírito de que a arte e a música vivem da dialética, devem representar alguma dose de confronto e de tensão. “Esse conflito todo é o que traz interesse não só a uma banda como a um tipo de música, a ir a concertos, a ir a exposições, a fazer BD. Sinto que não consegues fazer nada enquanto és novo se não tiveres um conflito constante com toda a gente à tua volta”, adianta Alex.

Em última análise, aquilo que defendem é que o foco seja menos sobre testes de pureza estética e mais sobre o espírito DIY de entreajuda que caracteriza o punk desde a sua génese, de bandas que puxam umas pelas outras para tocar mais e mais e chegar a mais público. “‘Hardcore’ não significa nada em termos estéticos. É só uma forma de existir, de ter uma banda. Não interessa que riffs é que estás a fazer ou que tipo de música estás a fazer, só depende da energia que tens e da forma como vês as coisas”, defende o vocalista. Pelo contrário, se estas cenas artísticas de menor dimensão fecharem-se sobre si mesmas, acabam inevitavelmente por estagnar e morrer. “A cena devia ser alguma coisa saudável no que toca à sua expressão criativa, cada um deve poder sentir e fazer alguma coisa dentro do âmbito das suas influências — neste caso hardcore, punk, noise music, o que quer que seja — e não estar constantemente preocupado com o que é expectável, porque isso acaba por matá-la, como já aconteceu aqui em Portugal imensas vezes e no resto do mundo”, alerta.

Essa política anti-exclusivista, de resto, tem-lhes trazido mais e mais frutos: é assim que têm conseguido tocar cada vez mais fora do país, fruto das relações de amizade fomentadas com outras bandas, e foi assim também que não só conseguiram tocar num split lançado pela afamada editora canadiana Zegema Beach, como trabalhar com alguém com a craveira de Jack Shirley. Foi através dos seus amigos espanhóis dos Crossed que conseguiram chegar ao produtor e engenheiro de som — que tem trabalhado com nomes como Deafheaven, Jeff Rosenstock, Joyce Manor e Loma Prieta — para misturar e masterizar Acetate. Já a captação ficou a cargo de André Isidro, nos estúdios Ducktape Melodies.

▲ A capa de "Acetate", o álbum dos Hetta, editado pela Lovers & Lollypops

Hetta/António Júlio Duarte

Encontrar a canção entre o caos

Se a música que os Hetta tocam é tão apta a metáforas hiperbólicas, aproveite-se o facto e faça-se outra: soam ao que um acelerador de partículas produziria se fosse calibrado a transformar neutrões e protões em música, tal é a força cinética das suas canções. Apesar do resultado final ser caótico e imprevisível, esta comparação não decorre apenas da intensidade da música que produzem, como também da forma controlada como produzem o caos.

Se a forma como chegaram a este tipo som se baseou na intuição, o processo de composição é bastante mais deliberado. Como conta ao Observador, a banda não costuma entrar em sessões de improviso nem levar esboços de temas para trabalhar em casa — o grosso do trabalho faz-se no laboratório que é a sala de ensaios, pegando numa ideia, labutando e experimentando até chegar a algo que agrade a todos. “Às vezes até é um bocado pensado de mais, porque são músicas de um minuto e meio, dois minutos que demorámos semanas a fazer”, admite Porti. Faz sentido, porque nesse curto espaço de tempo em que dura cada canção, cada nota tem de contar.

Para chegar a Acetate, a banda esteve dois anos em constante processo de trabalho, ainda que sucessivamente interrompido pela agenda de concertos a que se auto-impôs. Mau grado o tempo demorado, teve o condão de oferecer ao quarteto alguma perspetiva crítica, com Simão a revelar que muito material ora foi para o lixo ora foi recuperado para partes de canções. “Houve um ponto de fricção super relevante enquanto estávamos a escrever, por ao mesmo tempo estarmos a querer consolidar mais o som da banda e a experimentar mais. Fazer os dois ao mesmo tempo pode ser complicado e frustrante, porque não sabes bem para que lado é que estás a remar”, afirma.

Desse processo saiu a vontade de, curiosamente, arriscar estruturas mais pop; isto é, delinear versões e refrões bem definidos. “Lembro-me de falar com eles no sentido de querer evoluir a minha voz, conseguir adicionar melodia, porque ouço imensa música nesse sentido, que pode ser weird, mas tem ganchos, refrões, melodias memoráveis, o que quer que seja nesse sentido. Não tínhamos isso antes e estava super interessado em explorar como era possível fazer isso neste tipo de música”, revela Alex, que refere a abordagem dos Pixies ao rock como um ponto de referência — mais de inspiração que execução — neste departamento.

[“Plainclothes Man”:]

O resultado está bem patente em Acetate — em Community Gun, Wire Lashes, Twin Scissors e especialmente no single Plainclothes Man, os Hetta arranjam forma de, pasme-se, soar orelhudos entre a dissonância, como momentos de suspensão em pleno acidente automobilístico (como aquele que vemos na capa) em que o veículo sobrevoa sem bater no chão. Mesmo que para entender as palavras de Alex continue a ser necessário recorrer às letras disponíveis na sua página de Bandcamp, encadeiam-se, mesclam de forma mais orgânica com a tela instrumental.

Não é só aí, porém, onde este novo trabalho do quarteto demonstra diferenças face ao passado. Os Hetta já tinham experimentado ritmos mais compassados com Mystery Meat, do EP anteriormente editado, mas aqui tomam a decisão de explorar ainda mais esse território. Caught Again explode nos refrães, mas acalma-se nos versos tingidos de uma melancolia identificável no emo mais ligado ao rock alternativo. Já Triple Tracy, que encerra o álbum, começa no mesmo balanço espasmódico e nervoso antes entrar num outro simultaneamente ameaçador e atmosférico na onda do pós-rock. Mas é Buckteeth a canção que representa um afastamento maior daquela que é suposta matriz da banda: com menos de dois minutos e um único riff sujeito a pequenas variações, é um casamento entre uma malha grunge e o slacker rock dos Silver Jews. “São os momentos em que o álbum pára para beber água”, brinca Pires. “O ponto nunca foi que a banda fosse só de música rápida”, acrescenta Simão.

“A maneira como fizemos o disco foi meio em tranches, tirámos semanas fora do trabalho para as músicas e foi por vezes um processo de estar a bater demasiado em fazer certas coisas. Acho que houve alturas em que quisemos fazer uma coisa um bocadinho mais calma, nem que fosse para desmoer”, revela Porti. Não era sequer suposto que alguns desses exercícios de estilo resultassem em produtos finais. “A Buckteeth, por exemplo, só tem basicamente um riff porque funcionou assim. Tentámos construir por cima da estrutura, e não necessariamente sempre no mesmo registo, mas acabou por ficar assim porque foi o que acabou por soar bem”, completa.

Mas se a maneira como o som dos Hetta tem progredido funciona um pouco à base do instinto, o mesmo não se pode dizer da voz de Alex que, de lançamento para lançamento, foi-se alterando de forma consciente de um grito-padrão para uma versão mais aguda e peculiar. Mais do que criativa, foi uma decisão pragmática. “Reparei que, da forma como estava a fazer antes, ficava ultra cansado, tinha dores na garganta, não conseguia aguentar gritos durante muito tempo, não me parecia natural”, esclarece.

Essa opção, portanto, foi tomada naturalmente de braço dado com a vontade acima mencionada de explorar mais a melodia na sua voz, inspirando-se em desde um dos gigantes do pós-hardcore contemporâneo, Touché Amoré, até a grandes referências do passado como Fugazi, Nirvana e até R.E.M. “A forma como cheguei à melodia no meio deste tipo de canção foi esta que apresentei agora [em Acetate] e foi a forma que arranjei de conseguir gritar ao mesmo tempo que carregava notas e conseguia cantar, chegando a algo muito mais agudo do que alguma vez cheguei. Foi interessante e entusiasmante nesse sentido”, afirma.

“Tanto na voz como em qualquer instrumento, não conheço nenhuma pessoa que respeite que pense ao contrário — se tens o interesse e se calhar não tens capacidade naquele momento, vais sempre explorar a forma mais honesta e mais interessante para ti de te expressares. Isso às vezes implica mudar de tarola ou de pedais de guitarra, outra vezes implica mudar a forma como cantas. No final das contas, estamos todos à procura de uma coisa que seja real”, continua.

▲ “Não vais ter uma banda punk e depois dizer que não és político. E, ao mesmo tempo, também não vais dizer que o que escreves, sendo pessoal, não é político"

Francisco Fidalgo

É também no decurso desta discussão que perguntamos aos Hetta se toda a experiência de estrada que têm acumulado influenciou de alguma forma Acetate, porque é sabido como várias bandas servem-se dessa tarimba de concertos para compreender o que resulta junto do público. A resposta é não. O efeito mais próximo desse, confessa Pires, foi abertamente tentar ter algumas partes de guitarra num refrão ou num verso mais simples para “não passar um concerto sem respirar”. “Não é que não me divirta, mas é fixe conseguir experienciar outras coisas”, aponta, antes de admitir que, noutros aspetos, toda a banda até complexificou mais a sua entrega, pelo que “cavou um bocado a própria cova”.

De resto, os Hetta assumem que tentam não levar em conta o que os ouvintes querem, porque isso é antitético à própria natureza criativa, dependente do compromisso entre todos os elementos naquilo que Alex define como “trabalho muito empático e de confiança”. “Isso é muito mais interessante de pensar e agir como banda do que de estar propriamente a pensar o que é que o público pode achar do que estás a fazer. Isso não é irrelevante — tens uma banda e esta só existe porque existem pessoas aí a vê-la —, mas, ao mesmo tempo, o público não sabe o que é que quer. E cabe-nos a nós como banda ser ultra teimosos e dizer ‘não, vocês querem o que nós estamos a fazer’”, conclui o vocalista, que jocosamente oferece uma citação que poderia servir de título para esta peça: “A nossa forma de estar em banda é sempre em confronto com qualquer tipo de expectativa”.

Pires oferece uma alternativa análoga, entre o humor e a constatação: “É fazer músicas como se estivesses a tocar para duas pessoas de braços cruzados em pontas opostas do bar e pensar ‘se estas duas pessoas não vão fazer nada, mais vale estar aqui a curtir’. Nós temos de estar a gostar disto, não é?”.

O Montijo e a política, de mãos dadas contra o estado de coisas

Ainda não foi referido nesta peça, propositadamente, mas apesar de apenas dois dos seus integrantes serem naturais desta cidade — Alex e Pires —, os Hetta têm vindo a ser conhecidos, quer de forma carinhosa, quer com intuito mais trocista, como “os Hetta do Montijo”. A razão para tal destaque é que o tema merece ser discutido à parte, quer pela ambivalência que a banda sente com o epíteto, quer pelas implicações que isso tem a nível cultural.

“Sinto que temos sempre alguma coisa a provar”, desabafa o vocalista, que toma a dianteira da discussão para explicar que tipo de conotações a expressão tem. A primeira é que, implicitamente, acaba por ocultar que há outros projetos a despontar no Montijo também, como os Clericbeast, banda de metalcore que também tem levantado ondas e que os Hetta não se cansam de elogiar ao longo de toda esta conversa.

A mais danosa, porém, é que cria um rótulo estigmatizante, mesmo que involuntário, para um certo tipo de banda oriundo de fora da bicefalia crónica de Lisboa e Porto. Porti — que viveu no Montijo vários anos, apesar de não ser um nativo — recorda que há 10 anos surgiu uma safra de bandas do município com talento suficiente para, pelo menos, destacarem-se no panorama nacional, como os Ocelote Kid, os Like Swallows e os Moe’s Implosion, que acabaram por interromper atividade sem concretizá-lo a esse ponto.

[“Ritalin Kid”:]

“Para as bandas do Montijo, ir a Lisboa ou ir ao Porto era mesmo uma grande cena. E era mesmo relevante para nós como miúdos de 13, 14, 15 anos. Isso era bonito, mas revela também essa falta de horizonte, de oportunidade”, ressalva Alex. Essa incapacidade, acreditam, deve-se sobretudo à limitação de expectativas que estas bandas nutriam por força da falta de condições para imporem-se — não só pela falta de infraestrutura na cidade (em particular, transportes e salas de concertos) — mas como pela distância cultural que o Montijo parece ter de Lisboa apesar da sua proximidade geográfica.

“A única razão pela qual o Montijo está longe de Lisboa — porque não está, fica a 7 km de distância em linha reta e 16 km pela ponte Vasco da Gama — é porque temos um país pobre que não permite nem investe nessas ligações. Essa parte toda de infraestrutura, de investimentos nesta zona do nosso país acaba por influenciar muito a cultura que existe em cada uma destas cidades. Nós, sendo do Montijo, também nos sentimos muito longe de Almada e de Lisboa e de tudo isso, porque essa ligação não existe nesse sentido”, critica.

Os Hetta não só surgiram num panorama ligeiramente diferente dessas bandas, como admitem que, ao contrário de outros grupos, nunca tiveram a porta fechada em Lisboa, também fruto do tipo de relações que foram cultivando. Ainda assim, isso não os demoveu em ir tocando em todo o tipo de salas, associações e coletividades que os convidassem de norte a sul do país, em parte porque percebem precisamente o que está em causa em matéria de oferta cultural em localidades mais pequenas.

“Tocar em Fafe, em Famalicão ou seja onde for, é muito importante, é mais um espelho do país em que vivemos. Apesar das coisas obviamente terem melhorado ao longo dos anos, as pessoas de Fafe não são do Porto e, tendo de ir lá [para concertos], têm muito mais dificuldade do que se calhar deviam ter, da mesma forma que acontecia connosco no Montijo face à Lisboa. Quando era miúdo, ir a Lisboa era um trabalho de loucos para poder ver um concerto e depois voltar, especialmente. E esse não-acesso a cenas musicais, a pessoas, a concertos, a salas de ensaios, a coletivos e ao que quer que seja, forma muito, mesmo muito, a nossa cultura”, declara o vocalista.

▲ “‘Hardcore’ não significa nada em termos estéticos. É só uma forma de existir, de ter uma banda. Não interessa que riffs é que estás a fazer ou que tipo de música estás a fazer, depende da energia"

É por isso que, face à aceitação que têm tido, querem deixar como exemplo que é possível almejar mais. “Espero que consigamos mostrar a pessoas de terras como a nossa que a única coisa a fazer é tocar, tocar o máximo possível em todos os sítios, dar o melhor concerto. Porque, se não, também não tínhamos saído de lá”, continua Alex. No entanto, e não deixando de saudar o trabalho de muitas associações que trabalham com condições espartanas fruto do preço das rendas, entre outras dificuldades, a banda não quer com isto dizer que o ónus deva estar do lado das bandas, para que sejam mais ambiciosas, ou das coletividades, que já fazem muito com pouco. “Até podes sentir uma obrigação moral, mas essa obrigação só vai até certo ponto. Se não tens oportunidade, não é possível”, aponta Simão.

Pensar que, perante o que diz ser a falência do Estado em cumprir esse papel de agente cultural, ao menos o país pode continuar a ter cultura através de esforços como estes, compara Alex, “é um bocado o discurso na altura dos ano 80 na América do Reagan, em que começaram a aparecer mais bandas de punk hardcore”. “Pois, se vives no meio de merda, convém tentar fazer alguma coisa que seja real, porque não tens nada: não tens casa, não tens um trabalho que não seja precário, contas apenas com dinheiro suficiente para comer ou para pagar as contas. O que é teu são os teus amigos, a tua banda e a arte que fazes. Por isso é que bandas como a nossa e como mil e uma outras aparecem nestas alturas, porque não temos muito mais”, argumenta o vocalista.

Do “Companheiro Vasco” ao facho machista: os contrastes e as canções do verão mais quente

Se não tivesse ficado subentendido até agora no discurso, os Hetta apresentam-se aberta e orgulhosamente como “uma banda política de esquerda radical em praticamente todos os sentidos”. Um exemplo disso mesmo está escondido mesmo à vista de todos — Pontaria, canção de Acetate, chama-se assim em homenagem a A Cantiga é Uma Arma, do GAC — Grupo de Acção Cultural, canção que ouviram “incessantemente na digressão espanhola”, refere Simão. “Já que temos o espaço, o tempo e a vontade de fazê-lo, queremos prestar algum tipo de homenagem às coisas que são realmente importantes, especialmente em termos políticos”, revela Alex.

Vistos à superfície, os Hetta não pareceriam à partida uma banda particularmente engajada, mais não seja porque as suas letras, não obstante a sua imagética violenta e expressionista, não são explicitamente políticas. Seria um erro assumi-lo. “Não vais ter uma banda punk e depois dizer que não és político. E, ao mesmo tempo, também não vais dizer que o que escreves, sendo pessoal — como é o meu caso, escondido por trás de todos os artifícios e imagens — não é político, porque existes numa sociedade e num mundo que te molda a seres o que és”, aponta Alex. “Uma vez mais, vamos, para sempre, estar em conflito e em contraste com tudo que é a expectativa de como funcionar, especialmente como banda. As letras são isso, a banda é isso. Não quero dizer que sejamos crust punk, de todo, mas a banda é obviamente política, é obviamente de esquerda”, termina.

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