Uma das principais variáveis que influencia a forma como um disco é recebido é a idade. Correção: não será tanto a idade, mas a fase da vida em que o dito disco nos apanha na contracurva. Automatic for The People é de 1992. Foi o álbum que marcou a viragem definitiva dos R.E.M., que os fez passar de quase punk rockers com estudos académicos para heróis pop de todo o mundo. Metade da viragem definitiva, talvez — a outra metade tinha acontecido um ano antes, com Out of Time e o inevitável “Losing My Religion”.

Automatic… foi editado quando este que vos escreve ia a meio da viagem inglória e até hoje vagamente incompreendida que foi a escola preparatória (era aquela que ia até ao nono ano, certo?). Mas quis o destino, e a minha falta de atenção nessa altura para as coisas que realmente interessavam, que estas canções só me chegassem aos ouvidos alguns anos depois. Ainda em tempo de escola, mas com mais barba do que apenas só o ridículo do bigode mal semeado. E digo-vos agora, décadas depois, que foi uma das melhores coisas (e um dos melhores atrasos) que me aconteceu na vida. Não é exagero, é contabilidade certa.

A edição mais que especial dos 25 anos de “Automatic for the People” (Universal)

Não me lembro do nome da colega que um dia apareceu na escola com uma série de CDs a dizer que os queria vender porque o pai não os ouvia e ela muito menos. Do alto da mania que começava a construir naquela altura — a mania que os chamados tótós precisam alimentar para sobreviver num ambiente hostil e cruel como é o escolar — meti na cabeça que a música era a minha cena. Assim sendo, saber que o Automatic for The People era importante, tal como eram os R.E.M., fazia parte dessa cagança de principiante. Ofereci mil paus. Não os tinha, claro que não, mas esse problema eu haveria de resolver de alguma maneira. Ela confiou na minha garantia — como assim? — e eu levei o disco para casa (e já não me lembro como é que resolvi o problema).

[os próprios a apresentar a edição especial do álbum:]

Automatic for the People é um exercício de psicoterapia feito em grupo mas que pode ser apreciado a solo. É um conjunto de canções sobre a capacidade de cada um se ultrapassar e ultrapassar problemas, dificuldades, dores de cabeça, dúvidas, inconstâncias, medos e todas essas coisas que nos distinguem da macacada nas árvores.

E é feito com um bom gosto tremendo. É sobretudo acústico mas não é só. É sobretudo feito de guitarras mas também tem piano (tem muito piano) e outras coisas igualmente gentis e sensíveis (incluindo arranjos compostos pelo Led Zeppelin John Paul Jones). É uma das melhores aulas que a Humanidade já criou sobre como fazer canções pop, como brincar com a estrofe e o refrão, como fazer com que a sequência entre ambas as estruturas soe tão simples e complexa ao mesmo tempo como qualquer outra coisa que exista na Natureza.

[“Drive”:]

“Drive”, “Nightswimming”, “Find The River”, “Man on the Moon”, “The Sidewinder Sleeps Tonite”, “Try Not to Breathe”, “Monty Got a Raw Deal”, todas bem melhores que “Everybody Hurts”, mesmo que “Everybody Hurts” tenha aquele ré dedelhado com o qual também aprendemos a desenhar acordes nas piores guitarras onde conseguimos pôr as mãos.

É um tratado sobre a amizade e sobre a idade adulta, feito por quatro amigos mas claramente sentido de maneira diferente por cada um deles. É o grito definitivo de Michael Stipe enquanto melancólico eufórico, enquanto deprimido festivo, a estrela pop mais improvável mas, ao mesmo tempo, inevitável, um Elvis das bibliotecas, um Johnny Rotten educado, emocional e sonhador, uma espécie de Ian Curtis que gostava de dançar ao sol, uma Patti Smith no masculino mas não muito.

[“Man on the Moon”:]

Agora imaginem descobrir isto em pleno momento “para onde vou, quem sou, de onde venho, o que quero, e se começasse agora a fumar, isso ia fazer o quê por mim?”. Automatic for The People transforma qualquer um no sonhador que não está interessado em acordar. Num sofredor que não quer encontrar a cura, porque a alegria é distração demasiado grande face às grandes questões humanas e filosóficas. Mas é também o disco que permite bailar ao som de tudo isto. Ou bailar, ou chorar, ou conduzir ou adormecer ou tomar banho no mar à noite — quando a noite e o mar o permitem, calma, nunca fui inconsciente, para meu grande desgosto, em algumas situações.

[“The Sidewinder Sleeps Tonite”:]

Automatic for the People transforma-se facilmente numa espécie de melhor amigo para quem não os tem à mão de semear. Mas, ao contrário de umas quantas amizades que se formam nesses anos de “oh, que bonita é a juventude” — quando todos sabemos que não é bem assim — esta é uma relação que dura e dura e continua por aí. Faz 25 anos que o álbum foi editado e surgiu agora uma reedição com extras ao vivo e demos e versões não incluídas e gravações que nunca escutámos. Como se esse velho companheiro regressasse de uma viagem longa. Ele foi dando notícias, fomos falando por skype e assim, mas vê-lo de novo em carne e osso é outra categoria.

E pelo meio, o disco não envelhece. Percebe-se bem que vem dos anos 90 longínquos mas a data não lhe tira mérito nem nos faz mudar de faixa. Outra das graças do álbum: aquela dose certa de filosofia punk, que mesmo com composições tão densas (sobretudo nas letras), apostava numa expressão musical imediata, simples, limpa, sem obstáculos nem confusões, como se todos as pudéssemos tocar (um engano, claro, mas só à mão de verdadeiros habilidosos como os R.E.M.).

[“Find the River”:]

Na edição original, Automatic for the People parecia gerado por mão divina, coisa perfeita, chegou à Terra assim, ninguém o inventou, veio de um Big Bang criativo qualquer. Agradecemos agora esta reedição, que revela etapas diferentes das canções, soluções que não foram as escolhidas, erros (sim, erros, estes gajos também erravam), correções, hipóteses que ficaram na gaveta, melodias sem voz, voz sem letra. Temos até a sorte de ouvir coisas com o título “Pete’s Acoustic Idea”. É impossível não sentir isto como um privilégio.

Uma maravilha em particular para quem gosta destas coisas dos arquivos; uma maravilha no geral para os fãs dos R.E.M., uma daquelas bandas que nunca devia ter acabado. Ou então tudo bem, não há problema nisso. Fizeram o que tinham a fazer, está mais que evidente. E sabiam disso. Não lhes fica nada mal a altivez. Na verdade, se eu tivesse feito um disco como o Automatic for The People também andava por aí feito campeão. Mas não fiz.