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Dolly Parton. A vida e obra da mulher que nos quer salvar /premium

É filantropa, empresária e um ícone da música country. Em 2020, Dolly leu livros para ajudar a adormecer crianças, criou um meme viral e financiou parte de uma vacina contra a Covid.

“Eu sei que pareço bizarra e artificial, mas sou real por dentro”, diz Dolly Parton na abertura do documentário da Netflix “Here I Am”. A silhueta vincada e as perucas fartas quase lhe emprestam um ar de desenho animado, mas da aparência que escolheu ter ao longo de mais de 50 anos de carreira defende-se bem: “Sei exatamente o que estou a fazer e posso mudar a qualquer momento”, chegou a dizer em entrevista. Afinal, estar na moda “é a coisa mais fácil que se pode fazer”.

Dolly Parton é há muito uma estrela incontornável da música country. Não precisa de introduções mas, por estes dias, o seu nome voltou às manchetes dos jornais por um motivo à partida difícil de adivinhar: a cantora ajudou a financiar a investigação que veio culminar na vacina da Moderna contra a Covid-19, que está na frente da corrida ao apresentar 94,5% de eficácia. Mas ainda antes da disseminação da doença dominar conversas já Dolly deixava a sua pegada em 2020 ao criar o primeiro meme viral do ano. 

A mulher que até hoje continua a trabalhar sem reforma à vista é, além de artista, filantropa e dona de um parque temático, um ícone da cultura pop. Desde pequena que queria ser uma estrela, tanto que quase a chegar aos 75 anos continua a promover a longa carreira. De origens humildes, Dolly nasceu em 1946 numa família de 12 crianças; o pai plantava tabaco e fazia criação de gado e a mãe era doméstica. Eletricidade e água corrente eram luxos que não tinham e também um motivo de anedotas tantas vezes contadas pela artista.

A cantora lançou a sua carreira com a chegada a Nashville e participou durante anos no programa televisivo de Porter Wagoner(© David Redfern/Redferns)

A família vivia toda junta numa casa de duas assoalhadas e a foto da cabana onde cresceu fez capa de álbum em 1973. Foi o tio, que tocava guitarra, que percebeu a ambição da jovem sobrinha que, com apenas 10 anos, tocava pela primeira vez em frente de uma multidão. Aos 13 conseguiu uma vaga no palco do conceituado Grand Ole Opry, que Dolly chegou a comparar com a Broadway — em 2019, a cantora celebrou 50 anos enquanto membro oficial da sala de espetáculos que “tornou a música country famosa”.

Dolly cresceu no estado norte-americano de Tennessee, mas foi em Nashville que ascendeu à fama e que conheceu o marido Carl Dean numa lavandaria. Até hoje permanecem casados, bem como os opostos um do outro: ela continua vistosa e ele raramente aparece em público. Se aos 19 anos Dolly tinha um contrato com uma discográfica, aos 20 estava casada contrariando, assim, a vontade dos produtores.

Importante para a emblemática carreira foram os anos que dedicou ao programa de televisão semanal “Porter Wagoner Show”, transmitido em todo o país e que levou a música country ao colo pelos EUA fora. Duas décadas mais velho, Wagoner, um músico conhecido pelos looks vistosos, e Dolly cantaram inúmeros duetos e tiveram uma relação por vezes problemática — nunca nenhum dos dois confirmou os rumores de uma dimensão romântica, mas a verdade é que quando Dolly quis deixar o projeto, depois de muitas músicas e muitos anos, fê-lo com um presente de despedida: certo dia, no escritório de Wagoner, cantou-lhe uma música escrita no dia anterior, “I Will Always Love You”.

Primeiro compositora e só depois atriz. Filantropa sempre

Mais do que cantora e mulher do espetáculo, Dolly Parton é, em primeiro lugar, compositora: desenhar canções é uma espécie de terapia e em tudo o que escreve deixa um pouco de si. Durante a carreira, escreveu mais de 300 canções, sendo que é através das músicas que conta histórias e passa mensagens.

“Dumb Blonde”, neste caso escrita especificamente para ela, viu a luz do dia em 1966 e a letra ajudou a marcar uma posição desde o dia zero: “Só porque sou loira, não penses que sou burra, porque esta loira burra não é a tola de ninguém”. Outro exemplo semelhante é “Just Because I’m a Woman”, onde Parton defende, através dos versos, a igualdade de género: “Os meus erros não são piores do que os teus só porque sou uma mulher”. Dolly é conhecida por não fazer comentários políticos, optando sempre que pode pela piada mordaz, mas numa recente entrevista à revista Time lá admitiu: “Suponho que sou uma feminista se acredito que as mulheres devem ser capazes de fazer o que quiserem”. O ano de 2020 também assistiu à tomada de posição de Parton quando esta apoiou o movimento “Black lives matter”.

As perucas loiras de Dolly Parton fazem parte da sua imagem de marca

O tema “Jolene”, que facilmente se cola aos ouvidos, conta uma outra história, desta feita bem mais pessoal: a de uma mulher de cabelos ruivos e pele de marfim que trabalhava num banco local e que se apaixonou pelo marido da cantora, o misterioso Carl Dean. A letra da música — em que uma mulher pede a outra que não lhe leve o marido — inspira-se no enredo que Dolly foi partilhando em palco e em entrevistas ao longo da carreira. No entanto, o nome “Jolene” pertence a uma fã de oito anos com que a cantora se cruzou na década de 1960. Lançada em 1973, este foi o seu segundo êxito a solo, o qual chegou a ter pelo menos 30 covers, de Miley Cyrus, que por sinal é a afilhada de Dolly, aos White Stripes.

Curiosamente, talvez a música mais conhecida de Dolly Parton, escrita e interpretada por ela, não lhe esteja associada. Foi, sem dúvida, Whitney Houston quem a elevou para outros patamares comerciais, mas “I will always love you”, de 1974, é um original de Parton — cerca de 20 anos separam estes dois momentos. A canção na voz de Houston, a servir de banda sonora ao filme “O Guarda-Costas”, foi número um durante 14 semanas nos EUA. Sobre a cover, Parton admite: “Achei que era a coisa mais incrível que alguma vez tinha ouvido. Nem acreditei que a minha música pudesse ser assim”. E acrescenta: “Ela enriqueceu-me”.

A passagem para o mundo do cinema acontece no filme de 1980 “Das 9 às 5 “, interpretado por Jane Fonda, Lily Tomlin e… Dolly Parton. A cantora que nunca se quis limitar por apenas um talento, deu uma oportunidade à sétima arte quando interpretou a personagem de uma secretária desenhada à sua imagem e medida. A artista admitiu em várias entrevista que só concordou fazer parte do projeto caso pudesse escrever a música principal do filme, a qual viria a tornar-se uma espécie de “hino” da classe trabalhadora norte-americana. A música foi escrita no decorrer das filmagens da película e, na falta de uma viola, Dolly usou as próprias unhas de acrílico como um instrumento de percussão (som que, vai na volta, lhe fazia lembrar as máquinas de escrever), tanto que nas costas do álbum estão as devidas referências: “unhas por Dolly”.

Antes do arranque das gravações, as três mulheres protagonistas da trama fizeram festas do pijama no Hotel Beverly Hills. Da convivência ficou uma amizade que dura até aos dias de hoje e uma curiosidade: mesmo partilhando um quarto de hotel, Jane Fonda e Lily Tomlin nunca viram Dolly sem a respetiva peruca e maquilhagem. Quando o filme acabou, Jane juntou-se à tournée de Dolly. Sobre isso a atriz comentou no The Late Late Show with James Corden, em 2017, que “esteve alcoolizada durante 10 dias” e só deu conta quando regressou a casa.

Em 2020, a cantora doou 1 milhão de dólares para uma investigação que culminou com a criação da vacina da Moderna contra a Covid-19

Pouco depois do sucesso de “9 to 5”, conta a The New Yorker, Dolly ficou deprimida e com tendências suicidas, um período não muito fácil que coincidiu com experiências profissionais menos positivas. É o caso do filme “A Melhor Casa de Prazer do Texas”, de 1982, onde contracenou ao lado de Burt Reynolds, com quem formou uma relação de irmão e irmã — de acordo com a publicação citada, Dolly enfrentou problemas de imagem, ao sentir-se avantajada para o papel, ao mesmo tempo que enfrentava problemas familiares e de saúde (foi diagnosticada com endometriose).

Mas Dolly não ficou por aqui. O próximo passo seria a criação de um parque de diversões de dimensões semelhantes à Disneyland. Dollywood abriu em 1986 na terra natal da cantora, em Sevier County, no mesmo ano em que foi considerada para o Nashville Songwriters Hall (“uma das maiores conquistas musicais no país”). Em 2014, a artista atuava para uma das maiores audiências da carreira — uma multidão de 180 mil pessoas — no Glastonbury Festival. Dolly foi ainda coproprietária da Sandollar Productions durante duas décadas, produtora responsável pela série “Buffy – A Caçadora de Vampiros”, e mais tarde fundou a Dixie Pixie Productions, que recentemente aderiu a uma colaboração com a Warner Bros para produzir oito episódios da série “Dolly Parton’s Heartstrings” para a Netflix (o projeto visa contar as histórias por detrás das canções de Parton e conta com a participação de Julianne Hough e Kathleen Turner, por exemplo).

Há ainda o podcast de 2019 “Dolly Parton’s America”, inspirado na carreira e no legado da artista, a Dollywood Foundation (que partilha o mesmo código postal com o parque temático) e a doação no valor de um milhão de dólares para a Vanderbilt University Medical Center, investigação que culminou na criação da vacina da Moderna contra a Covid-19. Curiosamente, a decisão de doar dinheiro surgiu após um incentivo do amigo e investigador Naji Abumrad, que trabalha na respetiva universidade, e que é pai do jornalista Jad Abumrad, autor do mesmo podcast.

Desde que a pandemia começou, Dolly lançou ainda a série “Goodnight with Dolly” no Youtube, onde lê livros para ajudar os mais novos a adormecer — a iniciativa foi criada através da organização sem fins lucrativos Imagination Library — um programa que já doou cerca de 140 milhões de livros a crianças. A par do contributo para a humanidade (incluindo a recente música “When Life Is Good Again”), o ícone de entretenimento com múltiplos Grammy no currículo quer ainda salvar o Natal com o lançamento de um novo álbum: “Holly Dolly Christmas”.

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