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A câmara de vigilância está apontada a uma escadaria na escola de Sapopemba, em São Paulo. Uma rapariga desce descontraidamente os degraus, sem se aperceber do rapaz que se aproxima por de trás. O adolescente aponta-lhe uma arma à cabeça e dispara. Há silêncio quando as imagens são transmitidas na sede da PJ, em Lisboa, perante inspetores no ativo e em formação, e um único e audível arquejo. “Ele matou-a”, sussurra. O ‘ele’ é um jovem brasileiro de 16 anos. ‘Ela’ é uma colega de 17, a única vítima mortal do que ficou conhecido como o massacre de Sapopemba, um de vários ataques no Brasil instigados por um menor a partir de Portugal.
O caso do adolescente português, que vai começar a ser julgado em fevereiro deste ano, foi apresentado esta terça-feira durante a conferência “Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens”, que serviu para alertar para o crescente número de menores expostos a conteúdos de violência e ódio no mundo online e aliciados e radicalizados por grupos extremistas. “Estamos a observar que cada vez mais há crianças e jovens que são radicalizados”, disse aos jornalistas Patrícia Silveira, diretora da Unidade Nacional Contraterrorismo (UNCT) da PJ, sem adiantar números. São alvos de grupos como a rede global neonazi 764. Alguns menores, como o português, que no mundo digital dava pelo nome Mikazz, criam os seus próprios grupos em plataformas onde se incentiva à violência.
Também aos jornalistas, no dia em que foi lançada a campanha “O ódio online mata offline”, o Diretor Nacional da PJ sublinhou que muitas pessoas não têm a noção da gravidade do fenómeno. “Do norte da Europa chegam indicadores do recrutamento de crianças e jovens como sicários para a prática de crimes violentos, incluindo homicídios ligados a tráfico de drogas (…). Tal como são radicalizadas e recrutadas crianças e jovens para a prática de crimes de ódio sobre migrantes, minorias, pessoas mais vulneráveis (como os desempregados e sem-abrigo) e também em ambiente escolar”, sublinharia já na sua intervenção na conferência.
A Polícia Judiciária garante que está atenta ao fenómeno e tem três grandes áreas no centro das suas preocupações, diz ao Observador Hugo Silva, inspetor-chefe da UNCT. Os extremismos violentos, quer de direita, quer de esquerda, e o extremismo de matriz islâmica. Há ainda um quarto vetor, que designam de novos trends ou tendências. São movimentos que muitas vezes surgem noutros países — principalmente nos Estados Unidos — e acabam por ser transportados para Portugal. “Estão a crescer”, destaca.
Exemplo disso é o movimento Incel. Os celibatários involuntários definem-se a si próprios como homens que têm dificuldades ou não conseguem estabelecer relações românticas com mulheres. Acreditam que 80% das mulheres se sentem atraídas apenas por 20% dos homens, sentindo-se rejeitados e injustiçados por elas e pela sociedade. “Até há relativamente pouco tempo quando conectávamos um português com a ideologia Incel normalmente pertencia a grupos dos EUA, agora temos comunidades portuguesas só de Incel”, nota Hugo Silva.
Da exposição a conteúdos violentos e de ódio nas redes sociais e plataformas de gaming à radicalização em plataformas encriptadas
“Se passássemos por ele na rua jamais imaginaríamos” que tinha uma vida dupla. Foi assim que a inspetora da UNCT Ana Rita Alves descreveu Mikazz, o rapaz de 16 anos que, a partir de Santa Maria da Feira, criou e liderou um grupo no qual incitava adolescentes à prática, com transmissão em direto, de atos violentos contra si próprios, outras pessoas e animais. O The Kiss funcionava por hierarquia, sendo o português o líder ou ‘gotter’, palavra alemã para ‘Deus’. “Tomava as decisões em nome do grupo, atribuía os cargos… e ai de quem o contrariasse”. O adolescente tinha planos para fazer em Portugal um massacre ainda maior do que aqueles que incentivou, mas acabou por ser detido em maio de 2024.
▲ As redes sociais, como as plataformas de gaming, são muitas vezes o primeiro contacto de menores com conteúdos violentos e de ódio
NurPhoto via Getty Images
O The Kiss estava presente em diversas plataformas e redes sociais — no Discord, Telegram, Tiktok, Instagram e Facebook — e era também um ponto de partilha e venda de pornografia infantil. Mikazz, concluíram perícias psiquiátricas e psicológicas, não sofria de nenhuma anomalia psíquica e, segundo a inspetora, começou o grupo porque estava cansado de jogos em que era um mero espectador. Mas como é que um adolescente passa do desejo de ter um papel mais ativo a incentivar os seus pares a cometer massacres?
“Os métodos de radicalização online exploram vulnerabilidades de crianças e jovens, mormente os mais desfavorecidos ou que padecem de problemas de saúde mental; mas não só”, afirmou o Diretor Nacional da PJ durante a sua intervenção na conferência. “Na verdade, este inimigo silencioso, desde a assunção cognitiva de uma personalidade radicalizada até à sua exteriorização no mundo físico, pode entrar no seio de qualquer família“, afirmou. Luís Neves acrescentou que “não está condicionado em função do nível de literacia, de educação ou social”, apesar destes serem elementos “fundamentais” na sua prevenção.
O diretor da PJ apontou para fatores como a busca de identidade e sentimento de pertença. Basta olhar para o caso do autor do massacre de Sapopemba, que descreveu à PJ que se sentia isolado e encontrou no The Kiss e em Mikazz uma comunidade e amigos. Pesam também o algoritmo das redes sociais; a falta de educação digital e pensamento crítico; as frustrações sociais e económicas; a influência de figuras públicas; o anonimato e a desresponsabilização. “O ambiente digital reduz o medo de punição e a empatia com o outro. Falamos sempre do outro, dos outros que são vistos muitas vezes, demasiadas vezes como o ‘inimigo ou alvo a abater'”, sublinhou Luís Neves.
Já o inspetor-chefe da UNCT Hugo Silva acrescentou que as redes sociais podem trazer um primeiro contacto com conteúdos que promovem a violência ou o ódio. “Os conteúdos são importantes para captar a atenção, mas se estiverem na franja não são excluídos pelas plataformas. A criança interage com isso e depois os algoritmos fazem o resto”, afirmou. Tudo isso “gera câmaras de eco” e a partir daí cria-se uma rede da qual pode ser “difícil” sair.
As plataformas de gaming podem ser também um catalisador, alertou o inspetor. Destacou a esse propósito o Roblox, um jogo que já tem sido descrito como um “terreno fértil para predadores”. A plataforma permite criar mundos virtuais do zero e avatares personalizados que atraem a atenção das crianças, que se tornaram o público-alvo. Apesar de tentativas de moderação e controlo, nestes universos online é possível construir cenários como o exibido no auditório da sede da PJ: uma sala de aula onde personagens interagiam e era visível um quadro a giz com as frases “kill all the bitches” e “kill babies with a knife” ao lado de uma bandeira nazi. “O Roblox é para crianças e as crianças estão expostas a estes conteúdos (…). O facto de estar exposto a isso não me radicaliza, mas é um primeiro passo”, sublinhou Hugo Silva.
O problema é, muitas vezes, o passo seguinte: a entrada nas plataformas de comunicação encriptadas. “Lá pode falar-se à vontade. Há um arrastar de membros mais vulneráveis e é aí que o processo de radicalização se inicia”, enquadrou. O The Kiss, por exemplo, operava numa dessas plataformas, o Discord, onde Mikazz era descrito como um “deus”. “Eu sou o cara mais perigoso do Discord”, gabava-se. É também nestas plataformas que os inspetores da PJ procuram infiltrar-se.
Como é que se detetam menores radicalizados? E os grupos que os radicalizam?
O meme do gato infiltrado numa fila de suricatas, com a legenda “eles não suspeitam de nada”, provoca algumas gargalhadas no auditório da PJ. Mas é uma boa imagem para traduzir a invisibilidade que se espera dos agentes quando se infiltram em movimentos extremistas. A PJ tem diferentes níveis de avatares atribuídos aos utilizadores da força policial. Os “mais queridos”, que apelidam de ‘Legends’ (em português, ‘lendários’), estão “completamente consolidados e têm anos e anos de utilização”, diz Hugo Silva. Estes têm valido aos inspetores convites restritos para aceder a certos grupos e são especialmente úteis quando há purgas.
“Eles às vezes fazem purgas dos canais. Tem 300 utilizadores e dizem vamos emigrar para outro canal para o qual só as pessoas de confiança são convidadas e os nossos avatares são convidados”, sublinha o inspetor. Claro que, acrescenta, não podem entrar em grupos demasiado pequenos por receio de os expor. “Um avatar tem uma vida como se fosse uma pessoa numa rede social. As pessoas não têm noção do trabalho, há publicações fora de horas, likes ao fim de semana, tem de parecer real. E isso dá muito trabalho. Não podemos arriscar queimar um ativo que vai demorar anos a reconstruir”.
▲ Como outros grupos, o The Kiss usava o Discord para a partilha de conteúdos violentos
SOPA Images/LightRocket via Gett
A interação dos inspetores é “sempre” mínima e na ótica da recolha de informação. Só interagem com outros utilizadores se forem “encostados à parede”. “Às vezes fazem perguntas como: ‘Quem é que tu conheces aqui?'”, refere Hugo Silva. Saber como e o que responder a este tipo de questões leva a um segundo passo importante nas investigações: o conhecimento profundo dos meios em que estão inseridos.
“Temos de perceber tudo o que é inerente a estes grupos. Que indivíduos são comuns? Quais os mais dinâmicos? Quem são os administradores dos grupos? São também administradores ou membros de grupos semelhantes ou diferentes?”, exemplifica. Importa olhar também para a sua evolução. “Este grupo há três meses tinha 500 membros, agora tem 200, os 300 saíram para onde? Há sempre uma migração ou entre grupos ou entre plataformas e isso é o que nos preocupa mais, porque nós queremos ter as pessoas controladas e não nos podemos dar ao luxo de os ver desaparecer para outros sítios”, admite.
O inspetor-chefe da UNCT nota que é também importante perceber a linguagem muito própria que é comum nestes grupos. A investigação ao The Kiss, por exemplo, permitiu perceber o significado de expressões como ‘based’, usada para algo que os membros consideravam muito bom. “Based do c******, tem o meu respeito”, reagiu Mikazz ao massacre de Sapopemba. Já o termo ‘lulz’ adquiria para eles uma conotação divertida, apesar de estar associado a eventos de conteúdos violentos, enquanto ‘panela’ ou ‘panelinha’ servia para designar estes grupos de partilha de conteúdo de violência explícita.
Além de compreender os grupos e a linguagem importa identificar os seus membros. Um “trabalho invisível” que pode ser demorado, mas ajuda a antever possíveis ataques e permite uma atuação rápida em cenários extremos. “Procuramos identificar todos os membros, principalmente os mais ativos. Se de hoje para manhã houver uma ação qualquer, nós já sabemos quem são. Não vamos andar a correr atrás do prejuízo”, nota. Essa abordagem permitiu que, na investigação ligada ao The Kiss, fossem impedidos vários massacres e homicídios, nomeadamente o que estava a ser planeado por um rapaz de 12 anos numa escola no estado brasileiro de Espírito Santo.
Do anonimato ao volume de informação. As “dores de cabeça” nas investigações da PJ
O anonimato nas plataformas é para as autoridades uma grande “dor de cabeça”. O problema é agravado pela quantidade de tutoriais que circulam em fóruns na dark web sobre como ser invisível. Mas há formas de o ultrapassar. Muitos dos utilizadores, explica Hugo Silva, vivem entre a necessidade de serem anónimos e o desejo de que os outros saibam o que eles têm para dizer. “Essa soberba, vaidade, o quererem que as pessoas saibam que foram eles muitas vezes leva-nos à identificação dos indivíduos“, refere. E há também os descuidos: “Temos um ditado que diz que eles têm de ter sorte todos os dias, nós só temos de ter sorte uma vez. E no dia em que eles não tiverem sorte, nós estamos lá”.
▲ A PJ apresentou o caso durante a conferência "Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens"
TIAGO HENRIQUE MARQUES/LUSA
Outra dificuldade é o volume de informação “absolutamente gigantesco” que se gera nas plataformas e grupos e, somado ao uso da Inteligência Artificial, atrasa as investigações. “A manipulação sempre existiu, mas ganha outra dimensão com a IA — mesmo a equipa dedicada a este fenómeno tem a dificuldade em distinguir o que é real ou não”, reconhece o inspetor-chefe da UNCT. Ao mesmo tempo, a IA é também uma oportunidade para detetar conteúdos falsos e lidar com a elevada quantidade de dados.
Enquanto navegam estas dificuldades as autoridades procuram fazer um balanço entre a necessidade de obter provas e a urgência de agir para impedir possíveis ações. Perante uma situação em que há indícios claros de que está a ser preparado um ato violento “não há dúvidas”, atua-se de imediato. No entanto, há casos em que as autoridades agem mesmo não tendo sido identificado uma motivação óbvia.
Hugo Silva lembra a operação, de junho do ano passado, em que foram detidos seis elementos do Movimento Armilar Lusitano. “O que é que o fez o MAL? Nada, não fizeram nada. A questão é que eles estavam a armar-se, a reunir equipamentos de sobrevivência, a fabricar armas com impressoras 3D e a escondê-las no fundo de baús”. A PJ não esperou para ver no que podia dar. “Se me perguntar o que é que eles iam fazer, não sei responder. Não nos podíamos dar ao luxo de tentar perceber o que iam fazer, poderia ser tarde demais”.
No caso da investigação sobre o The Kiss as autoridades brasileiras, que contaram com o apoio da PJ, foram antecipando vários dos ataques à medida que iam descobrindo os planos que se discutia no grupo. Os inspetores portugueses viriam mesmo a viajar para o Brasil para uma partilha de informações com a Polícia Federal e recolher o testemunho dos menores detidos. “Eles [membros do grupo] me tinham ameaçado… foi um dia muito ruim para mim, embrulhou o meu estômago, vomitei”, chegou a descrever o autor do ataque na escola de Sapopemba.
Para a PJ, além de uma atenção redobrada a este fenómeno, importa cada vez mais atuar na prevenção e sensibilização para estes temas. Foi o motivo para lançarem a campanha “Ódio online mata offline“, em que foram usadas imagens reais dos casos investigados pelos inspetores em Portugal. “Queríamos que as pessoas percebessem a gravidade do que acontece quando as crianças estão radicalizadas”, disse a diretora da UNCT. “É algo que se passa no quarto das crianças, é invisível”, afirmou Patrícia Silveira, sublinhando a importância de capacitar a sociedade para saber ler os sinais e prevenir que crianças e jovens sigam por um caminho sem retorno. “É uma realidade que nos choca muito, mesmo aos investigadores mais experientes”, admitiu.