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MIGUEL A. LOPES/LUSA

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Duarte Marques: "Gouveia e Melo e Ventura disputam eleitorado antissistema, anti-partidos e radical"

Duarte Marques, diretor de campanha de Luís Marques Mendes, considera que Gouveia e Melo e Ventura disputam o mesmo eleitorado e que líder do Chega não rouba votos a candidato apoiado pelo PSD.

Duarte Marques, ex-deputado do PSD e diretor da campanha presidencial de Luís Marques Mendes, cola Henrique Gouveia e Melo e André Ventura, argumentando que ambos disputam “o voto das pessoas mais anti-sistema ou que estão fartas do sistema”. E, além de assegurar que Mendes e Ventura não disputam eleitorado, também considera que “não é líquido que Gouveia e Melo vá à segunda volta”.

Em entrevista no programa Vichyssoise, do Observador, Duarte Marques acusa ainda a campanha de Gouveia e Melo de ter tentado “denegrir” a de Marques Mendes na comunicação social “com factos que não são verdadeiros”.

Relativamente a André Ventura, o diretor de campanha de Mendes refere que vai citando Sá Carneiro em discursos, mas se o fundador do PSD “fosse vivo fugia a sete pés” do líder do Chega. Chama também “bully e abusador” ao adversário de Mendes nas presidenciais para defender que Ventura usa quem quer “estar fora da vida política, para tentar dar a ideia que teria o apoio dessas pessoas”. Ainda que não tenha a certeza sobre se Pedro Passos Coelho  apoiará Marques Mendes, acha naturalmente que poderá votar no candidato apoiado pelo PSD.

“Ventura e Gouveia e Melo são antissistema, são anti-partidos, são radicalismo”

A semana acaba por ficar marcada pelo anúncio da candidatura de André Ventura. Há, entre alguns apoiantes de Luís Marques Mendes, quem considere que isto é uma belíssima notícia. Também acredita que André Ventura vai roubar votos a Gouveia e Melo?
Somos coerentes com a forma como falamos das outras candidaturas: todas fazem falta, concordemos ou não com elas. Todas são bem-vindas, todas são importantes, todas devem ter sido sentidas em conta na nossa análise. Parece-me óbvio que André Ventura e Gouveia e Melo são ambos candidatos que disputam o voto das pessoas mais antissistema, ou que estão contra o sistema, ou que estão fartas do sistema. Não é por acaso que aquele almoço aconteceu, não é? Gouveia e Melo, que se diz suprapartidário, procurou condicionar ou fazer o que quer que fosse com André Ventura. Mas é um candidato que não disputa, diria, votos com Marques Mendes.

Apesar das sondagens.
Acho que não há pessoas indecisas entre votar Marques Mendes ou André Ventura. Pode haver pessoas indecisas entre votar Marques Mendes e talvez Gouveia e Melo, ou até António José Seguro. Mas não disputamos eleitorado com Ventura. Até porque, por exemplo, Gouveia e Melo tem um eleitorado mais espartilhado, mas tem muitos anti-sistema. E obviamente disputa esse eleitorado com André Ventura. Depois da grande queda do almirante [nas sondagens], é este o facto que faz dizer, pela primeira vez, que não se discute quem é que é o segundo que vai à segunda volta. Neste momento também não é líquido que Gouveia e Melo vá à segunda volta. E esse cenário não pode ser ignorado. Porque obviamente André Ventura é um forte candidato também a ir à segunda volta. André Ventura e Gouveia e Melo estão do mesmo lado do eleitorado, que não é o nosso. São antissistema, são anti-partidos, são radicalismo face àquilo que é a nossa proposta do papel do Presidente. Acreditamos no sistema político português com os seus defeitos e com as suas virtudes.

E acha que é essa semelhança que ajuda a explicar o porquê de os dois terem tentado dizer que são muito diferentes?
Claro, porque são parecidos, isso é normal. As pessoas tentam mostrar-se diferentes para justificar a sua própria candidatura e para evitarem o mal ou os danos que daí podem advir. Depois destes almoços, destas reuniões, do papel de Mário Ferreira em tudo isto, percebe-se claramente que há ali uma preocupação de parte a parte, se não se sentavam à mesa. Sendo duas candidaturas claramente antissistema e antipartidos, são candidaturas que têm os seus pontos fracos, as suas próprias contradições. Os apoiantes de André Ventura com os problemas que têm, ele próprio contra a nossa Constituição… Gouveia e Melo também a dizer que quer mudar tudo, quer pôr o país na ordem, à mínima coisa que vai dissolver o Parlamento. São candidatos que são, na verdade, antissistema. e o sistema é ter estabilidade, previsibilidade na função, garantir o futuro aos portugueses com ambição e respeito pelas instituições, pela sua independência e bom funcionamento, então Marques Mendes é obviamente um candidato do sistema, sem problema nenhum.

Já referiu a questão do almoço entre Gouveia Melo e André Ventura. Reagiu nas redes sociais dizendo que, afinal, o tal suprapartidarismo de Gouveia Melo era uma farsa. Mas em rigor os dois acabaram por não se entender. Em que medida é que este almoço prova que Gouveia Melo não é independente dos partidos?
A partir do momento em que Gouveia Melo se faz rodear de muitas pessoas dos partidos – dirigentes do PSD, que eram do PS e já saíram entretanto, Isaltinos Morais, Ângelos Correias, pessoas verdadeiramente do sistema, ou da parte má do sistema, Gouveia Melo mostrou que, afinal, precisa dos partidos para alguma coisa. Por isso é que tem tantos militantes, por isso é que tem tantos truques, que são vistos como a parte má dos partidos e dos caciques partidários. O almoço é apenas uma confissão do que já sabemos: uma coisa é o que se diz cá para fora, outra coisa é o que se faz nos bastidores. Gouveia Melo é mais uma daquelas pessoas que aproveitam a má imagem que os portugueses têm dos políticos, para, em vez de credibilizar o sistema, aproveitar-se do descrédito do sistema. Muito parecido com o Rio, que parecia que não gostava do PSD, apesar de ser seu presidente. É um bocadinho essa escola que se aproveita da fragilidade ou acaba por provocar ainda mais desgaste num sistema que tem que ser preservado e melhorado para tirar partido dele. E isso não é bom. Basta ver o exemplo da condenação dos marinheiros com Gouveia Melo. Colocou um púlpito em cima da proa de um navio para humilhar publicamente e com a imprensa os seus militares. O que se deve fazer é o contrário: elogias em público e punes em privado. E isso revela muito que uma coisa é o que diz e outra é o que faz.

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Também escreveu o seguinte, nessa reação ao tal almoço: “Esta iniciativa de um grande apoiante do Gouveia Melo e dono da TVI explica muito bem o que se passa na média capital à margem dos jornalistas”. Só para percebermos bem, em que medida é que o Gouveia Melo está a ser promovido pela TVI?
Isso foi um desabafo que fizemos. Foi uma mensagem que decidi colocar até para servir de alerta, para as pessoas estarem atentas, e também para evitar que abusem. Há um conjunto de notícias que vêm sempre do mesmo sítio, com os mesmos titulares, do mesmo grupo de imprensa, e achámos que era melhor chamar a atenção para isso, para os próprios terem um bocadinho mais de bom senso e distanciamento. E para já é só isso.

Mas no sentido da promoção da candidatura de Gouveia e Melo?
Isso eu não discuto. Cada um pode promover e os critérios editoriais são os que quiserem. Outra coisa é que quando temos assuntos que vocês questionam, nós explicamos e dizem: ok, já percebi, é legal, faz sentido; todos os jornais perceberam que não era assunto e que só os três ligados ao mesmo investidor, ao mesmo tipo de investidores, é que acharam que era necessário…

Está a falar das notícias recentes e negativas para Luís Marques Mendes que saíram no Sol…
Sim, numa reportagem da TVI e no Tal e Qual. É só para perceberem que não somos parvos.

Portanto, mais do que focados na promoção de uma candidatura…
É denegrir a outra, com factos que não são verdadeiros.

Luís Marques Mendes foi durante anos comentador da SIC. Francisco Pinto Balsemão, é dono da Impresa e é presidente da Comissão Política do candidato. Essa crítica não se pode fazer à SIC também?
Pode e deve, se atuar de forma diferente com Luís Marques Mendes e com os outros. Será natural que até tenham algum escrúpulo maior ou até sejam mais incisivos nas entrevistas com ele. Isto não é um problema de jornalistas. É um problema de quem está, muitas vezes, acima. E no caso histórico de Pinto Balsemão, com todos os elogios que podemos fazer, toda a gente sabe que era uma pessoa que não mandava nos seus órgãos de comunicação social, que até o criticavam muitas vezes. Essa é a escola da casa.

Como é que ouviu a garantia do almirante de que ele é o único candidato verdadeiramente independente? Ou seja, compara-se com todos os outros candidatos, Marques Mendes incluído.
Mais do que dizer que somos ou não independentes, temos de o provar no nosso dia-a-dia. O doutor Bagão Félix dizia uma vez que o único sítio em que podia ser tendencioso sem prejudicar ninguém era no futebol, porque jamais um penálti seria bem assinalado contra o Benfica. Até podemos ser de um partido ou ser de um clube e conseguir manter o registo de independência, e até por vezes, somos mais escrupulosos assim, com quem temos uma maior ligação.

Acha que Marques Mendes costuma ser o árbitro crítico do PSD?
Basta perceber porque é que Isaltino Morais está na campanha de Gouveia e Melo: porque Marques Mendes quis cumprir eticamente os seus princípios e não o deixou ser candidato a Oeiras. Porque é que Rui Rio não o apoia? Porque ele sempre o criticou. Tal como criticou Luís Montenegro, Passos Coelho, António Costa. Em alguns estudos de opinião que já fizemos há uma característica muito engraçada: as pessoas reconhecem a independência de Marques Mendes no seu comentário. E, é claro, que isso é doloroso para muitos colegas de partido, que não gostam. Preferimos que não nos critiquem. Mas ele fê-lo porque era comentador. E essa sua independência é muito forte. É como a história dos independentes: conhecemos muitos governos cheios de independentes que não são independentes. Basta ver as listas do PCP dos independentes, que são os mesmos há 20 anos; dos ministros que são independentes e estão sempre nos mesmos governos, do PS ou do PSD. Independentes é na nossa ação. E a nossa maior independência é a nossa liberdade. Não é por bater no peito e dizer que se é independente que somos mais independentes.

"Há um conjunto de notícias que vêm sempre do mesmo sítio, com os mesmos titulares, do mesmo grupo de imprensa [Media Capital, de Mário Ferreira], e achámos que era melhor chamar a atenção para isso, para os próprios terem um bocadinho mais de bom senso e distanciamento. E para perceberem que não somos parvos"

“André Ventura pega na imagem de Passos como de Sá Carneiro. É um bully”

As sondagens mostram que Gouveia e Melo apela significativamente a eleitores do PSD. André Ventura poderá também ter esse efeito. Acha que foi isso que acabou por justificar a referência de André Ventura a Pedro Passos Coelho?
André Ventura não tem vergonha nenhuma, não é? E tanto num dia está a pegar na imagem de Sá Carneiro como no dia a seguir pega em Passos Coelho.

Aliás, nesse anúncio falou dos dois.
É claramente um abuso. É de alguém que não tem noção. Que sabe perfeitamente que Sá Carneiro fosse vivo fugia a sete pés da André Ventura, porque é tudo ao contrário. É não conhecer Pedro Passos Coelho. Acho que é uma coisa de que as pessoas não têm noção: não há relação. É um abuso claro de André Ventura, como faz da própria Igreja, que é uma coisa que é quase um sacrilégio. É um bully e um abusador que usa a imagem de pessoas que são credíveis, porque não tem mais para usar; usa pessoas que já não se podem defender ou que querem estar fora da vida política, para tentar dar a ideia que teria o apoio dessas pessoas quando não é claramente verdade. É só conhecer essas pessoas para perceber.

Mas não se sente, quanto a Pedro Passos Coelho, desconfortável por não ter existido ainda um sinal de apoio a Luís Marques Mendes?
Ainda é cedo e, portanto, não é para já. E acho que não será já. Pedro Passos Coelho é uma pessoa que respeito imenso, tem as suas convicções muito próprias. Não faço ideia se vai apoiar ou não. Acho que naturalmente poderá votar em Luís Marques Mendes. Tem uma relação de há muitos anos. Seria estranho que assim não fosse. Mas é uma pessoa pela qual tenho o maior respeito que possa existir. O país deve-lhe muito e será sempre alguém que o país vai ter em conta. E ouve-o com atenção.

Acredita convictamente que o eleitorado do PSD não se vai dividir pelas outras duas candidaturas? Francisco Pinto Balsemão escreveu esta semana aos militantes do PSD a pedir que cerrem fileiras à volta de Marques Mendes. Existe aqui alguma preocupação em mobilizar as bases do partido?
Essa carta não é para os militantes. É uma carta enviada aos membros da Comissão Política. Qual a leitura que faço disso? É que todos somos poucos para trabalhar. Marques Mendes se não se quer impor a ninguém. Claro que quer ir à segunda volta, quer ganhar. Mas os portugueses é que sabem que presidente é que querem: que tenha muita experiência política, e numa altura em que as pessoas não gostam dos políticos ser um candidato que assume que a sua experiência é a sua grande mais-valia é assumir um risco. Podia ser tipo Miss Portugal ou Miss Mundo, querer agradar aos partidos todos. Gouveia e Melo diz que sim a tudo, é tudo fantástico e a melhor das maravilhas. Mas queremos um presidente que decida e tenha a sua própria convicção.

As bases estão suficientemente mobilizadas? Desde aquele episódio do Congresso, com alguma frieza com que foi recebido Marques Mendes?
Não, frieza alguma. Para já as bases neste momento estão muito mobilizadas para as autárquicas. E isso é o fundamental. Normalmente, Marques Mendes faria a apresentação de metade dos candidatos do PSD. E a seguir o partido vai-se focar nestas eleições também. Temos tido muita tração, surpreendentemente até de camadas mais jovens, particularmente nas universidades. E é importante é perceber que uma candidatura presidencial é mais comparável a uma candidatura autárquica. Porque se vota muito na pessoa. Marques Mendes é um candidato de centro, que não esconde a sua família social-democrata mas consegue angariar votos em muitas franjas da sociedade que não estávamos à espera. É um moderado, por alternativa a candidatos mais fraturantes e radicais, e cujo objetivo é também ter alguma previsibilidade. Tem uma característica curiosa na forma como fala do Presidente, não é por acaso que era tão amigo de Jorge Sampaio. Marques Mendes olha para o papel como um Presidente quem, mais do que comenta, antecipa. Quando era líder parlamentar e líder do PSD teve o privilégio de fazer negociações com outros partidos promovidas pelo Presidente. E que nunca foram notícia até se fecharem: Pacto da Justiça, revisões constitucionais… O papel do Presidente é antecipar estes problemas e conseguir, antes de serem públicos, garantir acordos. Depois de serem públicos já ninguém reage da mesma forma.

Fez uma referência que pode caber como uma luva a Marcelo Rebelo de Sousa: disse que o papel do Presidente é antecipar, não comentar. A maior dificuldade de Marques Mendes é provar que não é igual a Marcelo Rebelo de Sousa?
Vou corrigir: é antecipar, não é agir depois de o problema estar criado. É mais difícil ao Presidente tentar juntar as partes depois de estarem chateadas ou depois de cada um dos argumentos serem públicos. Marcelo Rebelo de Sousa já apareceu várias vezes a tentar fazer acordos já depois de saber que havia um desacordo. Marques Mendes é nessa parte que é diferente: é fazer antes.

Mas pode ser um handicap a ideia que existe de que Luís Marques Mendes é muito parecido a Marcelo Rebelo de Sousa?
Nas coisas boas de Marcelo são parecidos. Marcelo foi um Presidente muito afável, que abriu as portas a toda a gente. É popular. Nessa parte da relação com as pessoas, de ter muita experiência política, se calhar é mais parecido. Por outro lado, é muito mais previsível do que Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse aspeto é mais Cavaco. É muito rigoroso na exigência dos fatos; com Luís Marques Mendes na Presidência, o primeiro-ministro vai ter de trabalhar muito nas reuniões semanais. E muitas vezes lembra os tempos do professor Cavaco como primeiro-ministro. Marques Mendes vai na rua e tanto vai cumprimentar um eleitor do PCP como vai cumprimentar outro que é do PSD, da mesma forma. E é surpreendido porque as pessoas são muito simpáticas, porque durante a sua vida política sempre foi muito desse ponto de vista imparcial. Sempre acedeu a convites de pessoas de vários aspetos políticos. Sempre que foi governante preocupou-se com todos e não só com o seu eleitorado. Uma coisa que nós não tínhamos noção, por exemplo, foi ele que criou a RTP Internacional. O voto dos emigrantes nas presidenciais é uma coisa do tempo dele. Ele pode ser um presidente que não vai surpreender ninguém. É um presidente que tem passado, tem presente e pode ter futuro. Tem experiência e isso é importante, mais do que nunca numa altura em que a fragmentação política é um problema do país, ao qual não estávamos habituados.

"Pedro Passos Coelho é uma pessoa que respeito imenso, tem as suas convicções muito próprias. Não faço ideia se vai apoiar ou não. Acho que naturalmente poderá votar em Luís Marques Mendes. Têm uma relação de há muitos anos. Seria estranho que assim não fosse"

“CDS ainda não se pronunciou porque espera por Paulo Portas”

É inegável a identificação que Luís Marques Mendes tem com o PSD. Também a proximidade que tem em relação a Luís Montenegro. Uma eventual queda do governo nos índices de popularidade pode contaminar a campanha de Luís Marques Mendes?
Sinceramente não sei responder. É como perguntar se as sondagens favoráveis ajudam mais ou desajudam, porque relaxam. No caso do governo, diria que na popularidade pode prejudicar, mas também as pessoas não gostam de pôr os ovos todos no mesmo cesto. Depende. Mas é uma faca de dois gumes, ou de dois legumes, como dizia o treinador do Boavista. Mas não podemos contar com isso. Marques Mendes tem de fazer uma boa campanha e continuar na rua, como já está há muitos meses.  Na altura acharam que era muito cedo, mas começou no tempo certo. Desde aí o almirante tem vindo a cair muito nas sondagens e Marques Mendes tem vindo a crescer – um bocadinho mais, um bocadinho menos, mas de uma base muito estável. Agora temos é de trabalhar bastante bem e pensar que é preciso passar à segunda volta.

Os 32% das eleições legislativas foram da coligação AD. Curiosamente, o outro parceiro da coligação, o CDS, ainda não disse nada. Consegue compreender esse silêncio?
Claro que sim. Há uma possibilidade em cima da mesa de Paulo Portas ser candidato. O seu partido ainda não se pronunciou precisamente porque, admito, queira esperar pela posição de Paulo Portas. Acredito que Paulo Portas não será candidato, temos alguns membros na campanha e na comissão política que são militantes do CDS, como Lobo Xavier e Diogo Feio, entre outros, estranho seria já terem tomado uma posição, mas contamos obviamente conseguir ter o apoio do CDS.

Mas Luís Marques Mendes já tentou demover Paulo Portas?
Confesso que não sei, mas mesmo que soubesse, também não iria dizer.

Falámos de almoços, houve aquele encontro noturno entre Gouveia e Melo e Nuno Melo. Acredita que há alguma possibilidade do CDS apoiar o almirante?
Não acredito que isso possa acontecer e também não quero saber dos encontros noturnos das pessoas, muitos anos do almirante e do ministro de Defesa.

No anúncio da candidatura, André Ventura procurou mostrar que esta é uma luta onde apenas quatro candidatos contam. Luís Marques Mendes não tem razão para temer a candidatura de João Cotrim Figueiredo?
Não, em primeiro lugar percebe-se que a candidatura de João Cotrim Figueiredo é para manter o eleitorado da Iniciativa Liberal. E terá uma função de projetar a imagem dele no período em que a IL estaria até de alguma forma a decrescer. E percebemos também que não era esse o objetivo inicial, a partir daí percebemos que João Cotrim Figueiredo é um candidato como todos os outros, que vamos tratar da mesma forma como todos os outros e acreditamos que lá mais para a frente na campanha as pessoas vão perceber que, de facto, não é um candidato a ganhar a Presidência da República. As pessoas vão perceber, e o eleitorado da IL é bastante inteligente, que ou tem um Presidente que pensa um bocadinho mais como eles em algumas coisas ou tem um que é completamente oposto.

Está a sugerir que o eleitorado da IL até pode votar em Luís Marques Mendes?
Estou a sugerir-lhes que vão votar, estou. Espero que o façam, com todo o respeito. Esta é uma campanha em que, inevitavelmente, o voto útil será uma matéria importante de decisão.

E não houve conversas com João Cotrim Figueiredo para que recuasse e a IL declarasse esse apoio a Luís Marques Mendes? Houve alguma tentativa ou não faz sentido? 
Não, porque a IL apresentou logo uma candidata [Mariana Leitão] muito cedo, depois desistiu. Não fazia sentido estar… era um bocadinho falta de respeito pela IL e temos muito respeito pelos partidos todos e pelo seu eleitorado. Qualquer eleitor da IL se revê num presidente como Luís Marques Mendes. Pode não concordar com tudo, mas não sai defraudado.

Há pouco falava da capacidade que Luís Marques Mendes está a ter num eleitorado mais jovem. Cotrim Figueiredo não tem uma grande probabilidade de ir roubar esse eleitorado?
Qualquer candidato tem. Nós temos o fundador da IL, o primeiro presidente da IL, estava na comissão de honra de Luís Marques Mendes. Uma antiga candidata a presidente da IL está na comissão de honra de Luís Marques Mendes. Temos várias pessoas que votam em IL que estão a apoiar Luís Marcos Mendes. Portanto, acreditamos que o seu eleitorado também possa de alguma forma votar no único do seu lado, porque que não acreditamos que queiram votar em Ventura, não acreditamos que queiram votar em António José Seguro, mas que percebam que Cotrim Figueiredo tem muitas dificuldades de chegar a uma segunda volta e, portanto, não é candidato a ganhar as presidenciais. André Ventura também não é candidato a ganhar as presidenciais, é candidato a chegar à segunda volta. Mas quem é que pode ganhar as presidenciais? Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e António José Seguro. São os três candidatos que podem ganhar.

Acredita que há o risco sério de haver uma segunda volta entre Henrique Gouveia Melo e André Ventura?
Acho que não há esse risco… Esse risco existe sempre, até há o risco de Cotrim Figueiredo ou Catarina Martins irem à segunda volta. Se isso é real ou não é outra questão.

A última sondagem punha Henrique Gouveia Melo, Luís Marques Mendes e logo a seguir André Ventura. Estamos a falar de três mais bem posicionados a passar à segunda volta.
Deus nos livre se houver uma segunda volta com Gouveia e Melo e André Ventura. É o único cargo em que, de facto, a experiência política é importante. Quando procuramos um médico para uma coisa muito especial, procuramos o mais experiente. Não é o que tem menos experiência e é o que é mais engraçado. Se estivéssemos à procura de um chefe de Estado Maior das Forças Armadas, o melhor era de Gouveia e Melo, de um ministro da Defesa, se calhar também Gouveia e Melo. Se calhar alguém para tratar da logística de alguma coisa, com muita experiência e que fez bem, mas também há mais gente que o faria, também pode ser. Outra coisa é para ser Presidente da República, que é o cargo politicamente mais exigente de todos. Se perguntarem qual é a característica mais importante de um Presidente da República, se calhar é bom senso. Capacidade de visão, experiência para podermos pedir conselho. O Presidente da República tem de ser previsível, muito consistente, conhecer bem os seus poderes e a forma de os usar, e ter experiência política para ser a lidar com um espectro político muito fragmentado. E neste caso em concreto devemos confiar naqueles que têm as melhores condições para numa altura de dificuldade liderarem a nação. E o sistema que criámos, pós-revolução, com a nossa criação da nossa democracia e com a grande sustentabilidade que tem hoje, com os seus defeitos, é esse sistema que queremos continuar a manter, a aperfeiçoar, a melhorar, mas não de repente mudar, não fazer mais uma revolução, porque fazer mais uma revolução era pôr em causa tudo aquilo que foi conquistado até aqui. Luís Marques Mendes faz parte dessa normalidade. Numa altura em que achamos que se avizinha uma crise económica na Europa e no mundo, é bom ter alguém que tenha bom senso, saiba fazer pontes e não seja mais um agitador.

"Deus nos livre se houver uma segunda volta com Gouveia e Melo e André Ventura"

“Ventura era um candidato mais fácil para Marques Mendes na segunda volta”

Vamos avançar para o segundo segmento do programa, o Carne ou Peixe, em que tem de escolher uma de duas opções. Numa segunda volta, quem é que preferia: João Noronha Lopes ou Rui Costa?
Rui Costa.

Agora mais a sério. Era obrigado a escolher um candidato na segunda volta. Gouveia e Melo ou André Ventura?
Acho que André Ventura era mais fácil para Marques Mendes, é o candidato que mais antagoniza.

Mas em quem votaria?
Se votava em Ventura ou Gouveia e Melo, Deus nos livre ter um Presidente como qualquer um deles. Entre os dois, Portugal não ficava a ganhar em nada.

Está afastado do lado mais visível da política há algum tempo. Em voltando, preferia: ser ministro de um Governo de Pedro Passos Coelho com o Chega como parceiro de coligação ou ser deputado do PSD na oposição?
Só seria deputado do PSD na oposição porque nunca aceitaria fazer parte de um governo com o Chega, mas também não acredito que Passos Coelho fizesse um governo com o Chega, pelo menos com o Chega que conhecemos hoje.

E como militante do PSD. Preferia, daqui a 8 ou 10 anos, como quiser, ter como líder do partido António Leitão Amaro ou Sebastião Bugalho?
António Leitão Amaro é um dos meus melhores amigos e se tivesse de optar por um era pelo António porque já provou muito e teve coragem em grandes momentos. O Sebastião Bugalho é super corajoso, tem uma capacidade extraordinária de ler política, está a fazer um grande papel no Parlamento Europeu e deve ser o campeão de apresentações de candidatos [autárquicos]. Diria que é o herdeiro de Marques Mendes na apresentação de candidatos.

Portanto, Leitão Amaro para o partido, Sebastião Bugalho para a Presidência.
Não, não. Como o PSD de cinco em cinco anos, em média, muda de líder, acho que qualquer um deles daria um bom líder do PSD no futuro, pela ordem que referi.

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