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E depois do Alive, Da Weasel? “Logo se verá, tudo pode acontecer” /premium

“Não fazem ideia quantas vezes fomos assediados” para voltar — durante 10 anos foi um “massacre”, brincam. Uma entrevista sobre o Alive, prazer do regresso e a dúvida: esta história acaba aqui?

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Houve um tempo em que os Da Weasel não foram só a maior banda portuguesa de hip-hop, foram a maior banda portuguesa de hip-hop e uma das maiores bandas portuguesas de rock ao mesmo tempo — não se lhes dá o lugar cimeiro no campeonato rockeiro porque existiam e existem os Xutos & Pontapés e o respeitinho é muito bonito.

Houve um tempo em que os Da Weasel, já com quatro álbuns então lançados — como os seminais Dou-lhe Com a Alma e 3º Capítulo, Podes Fugir Mas Não te Podes Esconder ou o espantoso, garantidamente uma das obras-primas do pop-rock dos anos 1990, Iniciação A Uma Vida Banal – O Manual (“Outro Nível”, “Agora e Para Sempre (A Paixão)”…) —, se tornaram a banda sonora de uma nova geração de portugueses.

Houve um tempo em que os Da Weasel, que não faziam apenas hip-hop, tornaram o hip-hop mainstream em Portugal. De repente, irmãos mais novos e irmãos mais velhos, tios e sobrinhos, pais e filhos, tinham as melodias e as letras todas na ponta da língua. E o fenómeno não era só de Lisboa, era português.

Os mais velhos cantavam “nunca me deixes, preciso de ti”, “adivinha quem voltou, comeu e não calou”, “no princípio era o verbo, a palavra vem depois”, “na hora da verdade toda a gente desaparece da área”. Os mais novos viciavam-se no que descobriam, cantavam “tás a sentir uma página de história”, “vou levar-te para casa, tomar conta de ti”, “não há regresso no carrossel”, “vem fazer de conta eu acredito em ti”. Partiam de Re-Definições para descobrir o passado, uns e outros encontravam-se a meio caminho e tornavam os Da Weasel a banda mais transversal dos anos 2000. Tinham fãs rockeiros, fãs de rap, fãs entre quem só ouvia música como banda sonora de viagens de carro e levava com singles açucarados e irresistíveis. Agora, adivinhem quem voltou, os Da Weasel estão de regresso e em julho voltam a subir a um palco juntos dez anos depois, no festival de música NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés.

Os Da Weasel ao vivo na Altice Arena (então Pavilhão Atlântico) a 10 de novembro de 2007

LUSA

Avancemos então para 2020. A manhã, para eles, tinha começado cedo. Às 8h00, hora em que parte da cidade de Lisboa e do país ainda esfregava os olhos de sono — e a que, suspeitamos, em tempos poderiam estar a regressar de um after-party pós-concerto —, já os seis elementos dos Da Weasel estavam bem despertos, a fazer uma entrevista na rádio.

O próprio Carlão, vocalista e um dos fundadores (nos anos 90) daquele que se veio a tornar um dos maiores grupos da música portuguesa, admitiria de seguida ao Observador que a vida é hoje outra, a maturidade também: “Estou a fruir muito mais a coisa agora do que na altura. Um gajo está mais focado [sorri], tem uma experiência diferente. Há menos baldas [riso]. Pessoalmente, acho que só ganhámos com a idade.”

Naquela manhã de janeiro, os Da Weasel tinham-se deslocado aos estúdios da Antena 3, para uma participação especial nas manhãs da estação pública. Logo de seguida, os seis “doninhas”, Carlão — que com o regresso dos Da Weasel para um concerto especial volta a assumir o nome artístico Pacman —, João Nobre (ou Jay-Jay), Miguel Negretti (mais conhecido como DJ Glue), Pedro Quaresma (ou Quakas), Bruno Silva (Virgul) e Guilherme Silva (Guillaz) sentar-se-iam à conversa com o Observador.

Durante a entrevista, falaram das saudades que tinham em tocar juntos — coisa que não faziam há dez anos —, do que o tempo passado trouxe à banda e da amizade que continua a uni-los (“estamos a sentir-nos bem, falamos uns com os outros, bebemos copos uns com os outros”). Também não poderiam faltar na conversa detalhes do concerto único do regresso anunciado para julho do próximo ano, no festival NOS Alive, o porquê do regresso para uma e só uma atuação e a identidade e história de uma banda que foi crescendo com “determinação, ingenuidade, teimosia e lutas — contra a editora, contra o mercado, contra nós próprios”.

Esta história dos Da Weasel, que começou em 1993, foi interrompida em 2010, foi agora retomada e terminará em julho no NOS Alive? A banda fecha-se em copas, não confirmam nem desmentem, dizem que só pensarão nisso depois e que até lá nem vale a pena traçar planos. Mas também não descartam que a “doninha”, como também é conhecida a banda (porque o termo inglês “weasel” remete para o animal em causa) tenha mais do que duas vidas: Guilherme Silva, o baterista, diz que “para a frente logo se verá” e “tudo pode acontecer”, João Nobre diz que nem pensam em mais espetáculos porque “este já dá muito que pensar e vai ser de uma responsabilidade tremenda”. Apetece que os versos de “Selectah” continuem válidos:

Da Weasel never stop,
já devias saber e aprender
que isso dá-me imenso prazer.
Adivinha quem voltou para surpreender muita gente.
Vamos continuar – vamos em frente!

“Estávamos meio assustados” mas “estamos com uma energia incrível”

Queria começar pelos ensaios para o concerto de julho. Têm sido publicados alguns vídeos a registar os ensaios. Como estão a correr até agora?
João Nobre — Estão a correr muito bem. Se o concerto fosse amanhã provavelmente estaríamos preparados. No início, foi um pouco… se calhar pela ansiedade que todo este processo provoca e cria. O facto de também alguns de nós, poucos de nós aliás, não estarem numa sala de ensaios há muito tempo contribuiu para isso. Havia até quem, e falo por mim, nem sequer pegasse nos instrumentos há muito tempo. Agora, neste momento está tudo a rolar muito bem, estamos com uma energia incrível. As coisas estão quase, como o meu irmão diz, em piloto automático. E quando se entra em piloto automático as coisas fluem sem pensares. Até há bem pouco tempo não, tinha de estar a pensar nos acordes, nas sequências todas, etc. Neste momento isso já não se passa e estamos em altas [risos].

Virgul — As coisas estão a correr super bem e, mais do que isso, há um entusiasmo enorme entre nós. Curtimos imenso só entre nós. Estamos mesmo ansiosos para que chegue esse dia porque estamos com uma pica enorme. Acabamos por saltar, por curtir, por rir, por sentir uma energia imensa nos ensaios.

Quando decidiram voltar e quando começaram a pensar em onde ensaiar, era ponto assente que seria em Almada? Ou não tinha de ser em Almada? Ainda por cima numa sala especial, Incrível Almadense, onde alguns de vocês viram muitos concertos.
Carlão — Acho que não havia…

Quaresma — Havia, havia.

Carlão — Havia [vontade de que fosse em Almada], não naquela sala em específico. Foi uma surpresa muito boa para nós conseguirmos alugar a sala e tê-la para ensaiarmos. Acho que se falou que Almada seria mais porreiro porque a maior parte das pessoas [dos Da Weasel] está ali. Quer dizer, se calhar agora está “50/50” ou menos, mas se calhar por várias razões — por ser a nossa cidade, onde aconteceram tantas coisas, onde ensaiámos durante muitos anos —, fazia sentido. Tivemos ali a nossa sala de ensaios…

Antigamente os ensaios eram sempre em Almada?
Carlão — Não, houve muitas salas, até deste lado [margem norte]. Ensaiámos em vários sítios. Mas aquela que era a nossa sala, onde tínhamos o nosso material, era em Almada. E agora houve essa vontade de ensaiar em Almada, também. Tivemos foi uma grande fezada para conseguir acesso a uma sala onde vimos alguns concertos memoráveis [sorri]. Acho que também o facto de estarmos a ensaiar em cima do palco já nos prepara um bocado para o próprio concerto. Ensaia-se logo de maneira diferente — se bem que agora estamos ali com a cortina fechada por causa do barulho [ri-se]. Mas a aura é diferente da que teria uma sala de ensaios normal, sem dúvida.

"O facto de termos estado parados muito tempo fazia-nos duvidar se estaríamos à altura de imediato. Estávamos meio assustados, será que vamos conseguir? Depois vimos que estava tudo guardado ali no subconsciente."
Virgul

Nos vídeos dos ensaios que têm publicado, dizem que estão a correr até “melhor do que esperavam”. Isso acontece porque tentaram não colocar muitas expectativas e pressão sobre como seria tocarem juntos outra vez? Ou era impossível não ir para os primeiros ensaios já com esse peso, com grandes expectativas?
Virgul — Acho que o facto de termos estado parados muito tempo fazia-nos duvidar se estaríamos à altura de imediato. Acho que foi mais por isso. Mas depois vimos que não, estava tudo guardado ali no subconsciente e naturalmente e rapidamente veio-nos tudo à memória, as músicas… Passado uma semana, dois dias de ensaio, tudo fluiu naturalmente. Estávamos meio assustados, será que vamos conseguir tendo estado parados tanto tempo? A verdade é que também tivemos tanto tempo juntos, tocámos tantas vezes juntos, que sabíamos mais do que imaginávamos.

Entre as canções a que têm regressado nos ensaios, quais têm sido mais fáceis e instintivas de voltar a tocar e quais têm dado mais luta?
Quaresma — Talvez aquelas que tocámos menos… bom, o alinhamento ainda não está fechado, então estamos também a experimentar várias coisas. Por isso, as coisas estão a vir naturalmente.

DJ Glue — Se houver dificuldades são coisas pontuais em alguns, separadamente. Não há nenhum tema em específico que seja mais difícil do que outros, há-de haver coisas a apontar em várias [canções].

"Estou a fruir muito mais a coisa agora do que na altura. Um gajo está mais focado [sorri], tem uma experiência diferente. Há menos baldas [riso]. Pessoalmente, acho que só ganhámos com a idade."
Carlão

Dez anos ainda é um tempo. As pessoas mudam, inevitavelmente, nem que seja um pouco. Vocês foram também tendo outros projetos fora dos Da Weasel e foram ficando mais velhos. O que é que todos estes anos passados têm trazido de diferente à banda?
Carlão — Pessoalmente estou a fruir muito mais a coisa agora do que na altura. Um gajo está mais focado [sorri], tem uma experiência diferente, sente as coisas de maneira diferente. Há menos baldas [risos], faz-se as coisas melhor. A fase da vida em que estamos, que é mais ou menos a meia idade — mais para alguns do que para outros [risos] — também é uma fase boa porque há uma experiência acumulada que é porreira. Mas também ainda se tem uma energia física que é boa e importante. Portanto, acho que é mesmo a melhor altura para fazer isto.

Pessoalmente acho que só ganhámos com a idade. Isto para já, se calhar daqui a cinco anos já será diferente. Estamos todos muito mais experientes, acho que estou a rimar melhor, acho que o Virgul está a cantar melhor, acho que o pessoal está a tocar melhor, o Glue… Assim é que deve ser e ainda bem, pá. Não deve ser ao contrário. É muito fixe porque poderia ser aquela coisa de olharmos para trás e pensar: ‘Ih, naquela altura é que…’. E não sinto nada isso, acho que agora a coisa está a soar melhor.

Virgul — Naturalmente a vida já traz este sabor, passa-se a apreciar e a ver as coisas de uma outra forma. Depois o facto de termos estado parados dez anos traz-nos um sabor também especial, porque as saudades de estarmos juntos, uns com os outros, eram imensas. Acharmos que as coisas estão a correr tão bem tem a ver com o facto de não sabermos se ainda havia o mesmo entrosamento. A verdade é que passado um tempo percebemos que foi real, tudo o que vivemos foi real. E essa amizade e o carinho que temos uns pelos outros permanece. Isso é importante para depois trazermos um bom espírito para cima do palco.

"Se isto vai acontecer é porque estamos a sentir-nos bem, falamos uns com os outros, bebemos copos uns com os outros. Isso vai dar para se sentir no concerto, a energia não está só nos decibéis"
João Nobre

João Nobre — Até porque nunca esteve em equação, como acontece muitas vezes, as bandas juntarem-se de novo e ninguém falar uns com os outros [sorri]. Juntam-se para cumprir um contrato. Nunca foi nada disso connosco. Se isto vai acontecer é exatamente porque havia vontade e está de facto a resultar, estamos a sentir-nos bem, falamos uns com os outros [Carlão começa a rir], bebemos copos uns com os outros [riso geral], vamos jantar ou almoçar, etc etc.. Isso vai dar para se sentir no concerto. Nos ensaios, quem tem o privilégio de conseguir lá ir sente isso, sente que a energia não é só nos decibéis, está lá no palco e sente-se.

Depois do Alive? “Logo se verá, tudo pode acontecer”

Desde que anunciaram o concerto no NOS Alive, em julho do ano passado, houve alguma semana em que não vos tenham chateado com pedidos para fazer mais do que só um concerto? Entre jornalistas, amigos, família, fãs…
Guilherme Silva — Naturalmente são questões que se põem, não é? Agora neste momento e nesta fase, temos a exclusividade com o NOS Alive. Temos esse concerto este ano, foi isso que nos propusemos a fazer. A partir daí tudo pode acontecer [risos].

Nos vídeos dizem que estão a gostar imenso, que estão felizes, que isto vos está a dar pica, que a química ainda se sente. Isso não é um fator a ter em conta para que o regresso possa não ser apenas para um concerto, para se a questão se colocar…?
Guilherme Silva — Com certeza que é um fator. Penso que isto não poderia acontecer, como já disseram o Virgul e o Nobre, sem esta empatia e sem estarmos a sentir as coisas de determinada maneira. Os Da Weasel foram sempre uma banda com uma essência forte e emocional, levámos sempre as coisas de uma forma intensa. Acho que também é uma surpresa para nós, uma surpresa boa, as coisas estarem a resultar desta forma. Mas como estava a dizer, eh pá, para a frente logo se verá….

DJ Glue — Agora estamos concentrados numa missão.

Têm as vossas famílias e filhos que poderão ter aqui a primeira oportunidade de vos ver em palco. Não ouviram de ninguém das vossas famílias um ‘era giro haver mais’…
Carlão — Vou ter um grande drama, que é… [pausa] É capaz de ser melhor não falar. Bom, as minhas filhas praticamente conheciam os singles de Da Weasel. Agora por causa disto tudo estão a conhecer mais o trabalho e estão com alta pica [sorri]. Para elas o concerto vai ser uma primeira vez, como para os filhos da maior parte do nosso pessoal. Tirando a filha mais velha do João [Nobre], acho que os nossos filhos nunca viram nada. Portanto, vai ser uma experiência…

DJ Glue — Acho que podemos falar daquilo a que te referias mas de uma forma tranquila [diz, olhando para Carlão]. Gostávamos muito de levar os nossos filhos mas não sabemos se isso é possível por questões relacionadas com a idade [mínima, para entrada no festival].

Portanto, toda a gente que quer mais concertos dos Da Weasel pode colocar as esperanças nos vossos filhos.
[riso geral]

"Não fazem ideia de quantas vezes fomos assediados ao longo destes dez anos. Não fazem mesmo ideia. A resistência aos assédios ou a tocar mais do que uma vez resume-se ao seguinte: para elevarmos tudo isto de novo, temos mesmo de trabalhar no duro, temos de partir pedra."
João Nobre

Uma coisa que assumiram claramente foi que no acordo com o Alive ficou logo definido que seria só um concerto único, que o festival teria exclusividade. Isso foi fácil de decidir? Assumirem um compromisso de exclusividade foi uma coisa muita discutida ou nem por isso?
João Nobre — Não fazem ideia de quantas vezes fomos assediados ao longo destes dez anos. Não fazem mesmo ideia. Essa questão é muito simples de responder: se voltámos ao ativo dez anos depois, foi [uma decisão] de extraordinária responsabilidade a todos os níveis. A nível da nossa própria essência [da banda] ou da reconstrução de um espetáculo dos Da Weasel, por exemplo, porque não somos só nós, são todos os técnicos envolvidos, a parte cénica, de áudio e vídeo.

É um processo que tem de ser construído de raiz novamente. Claro que havendo uma hipótese de um regresso, em circunstância alguma iríamos aventurar-nos a improvisar neste capítulo. A resistência aos assédios ou a tocar mais do que uma vez resume-se ao seguinte: para elevarmos tudo isto de novo, temos mesmo de trabalhar no duro, temos de partir pedra.

E perceber se resulta, também?
João Nobre — Exatamente. Vão ser praticamente dez meses seguidos de ensaios, ou mais do que isso. Isto é um processo que toda a gente respeitou. Toda a gente disse: ok, se vocês estão a pensar dessa forma é assim que vai ter de ser. Foi um processo simples. Se nos dissessem ‘agora fazem três de seguida’, [diríamos que] não. Vamos trabalhar para um, construí-lo primeiro e depois logo se vê [sorri].

Nesse sentido, foi fácil tomar essa decisão [de só um concerto em exclusividade]. Toda a gente respeitou, toda a gente compreendeu, o promotor percebeu perfeitamente quais eram os nossos objetivos e como é que queríamos construir isso, por isso foi muito simples negociar. Nem nós pensámos noutros concertos, este já dá muito que pensar e vai ser de uma responsabilidade tremenda. Para voltar a jogo, não valeria a pena voltarmos a jogo com um desconforto de alguma parte — ou do promotor [do festival], ou da nossa parte, ou da parte do nosso management. Foi muito, muito simples decidir, não houve stress nenhum.

No NOS Alive de 2019, quando anunciaram o concerto que acontece na edição deste ano

Mario Cruz / LUSA

O regresso e os 10 anos de ‘massacre’: “No táxi, no barco, no café, no restaurante…”

A banda que vai estar em palco é a formação que os Da Weasel tinham quando terminaram — e que tinham quando a banda atingiu a sua maior dimensão e popularidade. Tiveram membros antigos como a Yen Sung e o Armando Teixeira. Ser esta a formação escolhida tem a ver com identificarem-se mais com uma fase final dos Da Weasel do que com uma fase inicial?
Carlão — A década de 2000 foi a década em que os Da Weasel se cimentaram mais em estúdio e ao vivo. As coisas consolidaram-se fortemente nessa década e a formação definitiva é a formação dessa década. Faz todo o sentido que ao voltarmos seja com esta formação. Em relação ao concerto, não vamos estar a inventar: não tocamos há 11 anos, não vale a pena inventar muito, é ir tocar a nossa cena como já não tocamos há muito tempo. Mas esta é a formação… isto é que é Da Weasel.

Quando começaram havia muitas tribos — a malta do rock, os fãs de hip-hop, a malta do metal, etc. Porque é que acham que ao contrário do que era habitual nesses tempos, os Da Weasel não eram só do hip-hop e não eram só do rock, procuravam várias linguagens musicais misturadas?
João Nobre — Porque nós, na nossa essência, somos tudo isso. Aliás, o nosso background vem de coisas muito distintas e variadas. A banda foi-se construindo exatamente assim, dessa forma, com essa procura [de mistura]. Os elementos que estão ou estiveram nos Da Weasel trouxeram muito deles próprios para a banda, daí ter havido uma mestiçagem cultural e sonora, como o meu irmão já disse.

O segredo dos Da Weasel reside exatamente aí: em todos sermos diferentes, com backgrounds distintos, mas ao mesmo tempo partilharmos ideias e vontade de misturar, trazendo para o grupo tudo o que é bom no que ouvimos, somos e sentimos. Sem querer rotular, eu e o meu irmão vimos de uma matriz se calhar mais punk, hardcore, metal, etc; o DJ Glue de uma matriz mais hip-hop; o Guilherme do funk e do metal; o próprio Quaresma do death metal ao hip-hop, à soul e ao funk…

O Virgul do ragga, originalmente [risos da banda].
Virgul — Eu aprendi a gostar de guitarras e baixos com distorção com os Da Weasel, com o Jay… Não fazia parte da minha essência ou cultura e hoje em dia esquece, sou eu a dizer ‘Jay!…’ Isso é porreiro, sentir que essa é a essência dos Da Weasel e que fazemos precisamente aquilo que gostamos. Sem estarmos com grandes preocupações…

Nesta fase atual da música, criam-se fenómenos mais rapidamente. Às vezes, com a internet, não é preciso sequer um disco para alguém se tornar uma pop star, rock star ou rap star. É um exercício difícil, mas se os Da Weasel aparecessem agora teria sido tudo muito diferente? O que é que teria provocado na banda, por exemplo, ter um grande sucesso logo de início?
Carlão — É complicado porque nem nós faríamos a mesma música da mesma maneira. São tempos completamente diferentes, é muito difícil imaginar isso. São gerações diferentes, com maneiras de pensar e fazer diferentes. Os Da Weasel não seriam os Da Weasel, seriam outra coisa qualquer. Mas realmente para nós acho que foi mesmo muito importante termos tido um crescimento gradual. Foi fundamental, é uma das razões pelas quais estamos aqui hoje passados dez anos, a fazer isto com àvontade, segurança e querer.

Fizemos as coisas de uma maneira porreira, passo a passo. As coisas foram crescendo, antes de termos um sucesso grande tivemos de fazer muita estrada. Aconteceu tudo no tempo certo. Hoje em dia se calhar é difícil ter essa preparação, as pessoas se calhar nem têm paciência para isso.

Apesar de se falar muito nos Da Weasel terem acabado, também é relevante terem durado mais de 15 anos. O que é que fez a banda durar tanto tempo e o que é que fez com que naquela altura, em que ainda estavam ‘por cima’, tivessem acabado, para agora regressar?
Quaresma — Acho que durou tanto porque quisemos, pudemos e tínhamos vontade para o fazer. Se não houvesse essa vontade para o fazer não teria durado tanto tempo. Para mim a resposta é simples: durámos tanto porque gostávamos do que fazíamos. Isso é ponto assente. A partir de determinada altura, as coisas às vezes não correm tão bem… Como em tudo na vida, há coisas que correm bem e correm mal, nas nossas vidas privadas, nas famílias. É normal. Mas os Da Weasel estiveram no ativo muitos anos e por vezes pessoas de uma geração mais nova não têm noção que a banda existiu tanto tempo. Muitas bandas não têm essa longevidade. Terem sido muitos anos também quer dizer que foram bons anos.

Virgul — Fomos crescendo passo a passo. Quisemos sempre apostar na nossa produção, no nosso concerto. Tentámos sempre reinventar-nos, trazer coisas novas ano após ano. Acho que isso também faz com que se cimente uma carreira, foi uma parte essencial para nos termos mantido por cá durante aquele tempo todo.

Há duas ou três decisões curiosas no percurso de Da Weasel, que à partida não seriam óbvias. Por exemplo, o Virgul entra muito novo na banda — teria uns 16 anos. Mais tarde e numa banda já consolidada, entra o DJ Glue para fazer deejaying. Visto de fora, mexidas como estas poderiam parecer arriscadas. Ainda assim, resultaram na mouche. Na altura tinham a convicção que apostas dessas iam fazer a banda crescer ainda mais?
João Nobre — Naturalmente quando ‘deixamos alguém entrar’ é porque vemos ali valências extraordinárias, que podem vir a dar ou que dão de imediato bons resultados. No outro dia estava a dar uma entrevista e falei neste assunto: a ingenuidade também é importante. Quando o Virgul entra, já íamos para o terceiro álbum, com uma editora extraordinária, a EMI — Valentim de Carvalho.

Se fosse hoje, com a experiência que temos, acho que se diria: ‘Meter um miúdo de 16 anos a fazer o quê, desculpa? Não, man, é que nem pensar nisso, não sabemos no que vai dar, como se vai desenvolver, o que irá acontecer; isto e aquilo’. Na altura, não foi assim: este puto [olha para Virgul] aparece cheio de tesão e já determinado, com pelo na venta. Entrou e entrou logo com uma canção [“Duia”].

"Tivemos tempo para sermos ingénuos. Tivemos tempo para sermos se calhar mesmo imaturos. Fizemos os disparates que tínhamos de fazer, mas ao mesmo tempo fomos super genuínos. O crescimento gradual permitiu-nos ser hardcore quando quisemos ser hardcore, ser pop quando quisemos ser pop."
João Nobre

Foi muito rápida a entrada do Virgul, não foi? Já contaram uma vez que bastaram dois ou três ensaios…
João Nobre — Foi quase imediato. Mas a questão é exatamente essa: tivemos tempo para sermos ingénuos. Tivemos tempo para sermos se calhar mesmo imaturos. Fizemos os disparates que tínhamos de fazer, nos álbuns e etc. e etc., mas ao mesmo tempo fomos super genuínos. Ainda hoje, muitas das coisas que estão na internet sobre estes primeiros ensaios… Tudo o que o não correu bem, aqueles pregos e erros, estão lá [nos vídeos] e são assumidos. Se fosse de outra forma, por exemplo ensaiarmos seis meses e só começarmos a pôr coisas cá fora quando estivesse tudo muito bom, não faria sentido. Isto faz parte mesmo da nossa identidade.

O crescimento gradual que tivemos permitiu fazer tudo: ser hardcore quando quisemos ser hardcore, ser pop quando quisemos ser pop. Foi sempre assim ao longo deste trajeto e acho que foi isso que cimentou a nossa carreira, essa determinação, a ingenuidade, a teimosia — muita teimosia — também. Lutas contra a editora [ri-se], contra o mercado, contra nós próprios: vivemos isso e tivemos a felicidade de ter vivido dessa forma e termos construído o nosso caminho dessa forma. Sem isso teríamos sido outra coisa qualquer, quem sabe?

Ainda assim, apesar de terem tido um crescimento gradual, não houve momentos em que ficaram surpreendidos, assustados, com a dimensão que os Da Weasel ganharam nos últimos anos? Porque a dada altura era uma banda que toda a gente ouvia, todos os miúdos conheciam as letras do início ao fim, quando saíam à rua de certeza que as pessoas se dirigiam a vocês. Houve momentos desses?
Carlão — Sim, sim. Acho que por muito gradual que seja, nunca estamos preparados para certas coisas e para saber como lidar com elas. Sendo que estávamos mais preparados do que estaríamos se o sucesso tivesse aparecido da noite para o dia, ainda assim não estávamos totalmente preparados.

No entanto, falo pessoalmente mas mesmo enquanto banda: na fase do grande sucesso dos Da Weasel, estávamos a curtir, acho eu. Senti muito mais a dimensão dos Da Weasel quando a banda acabou, porque aí realmente percebi a importância para as pessoas, pelas demonstrações todas que houve, com o pessoal a falar e a passar-se. É claro que sabia, tínhamos todos percebido, era preciso não vivermos neste país para não perceber isso, mas acho que estávamos mais a curtir do que propriamente assustados. Também pode ter a ver com a altura em que se vivia. Se calhar hoje em dia, com redes sociais, era muito mais fácil ter essa perceção porque é tudo quantificado, com likes e views. Os números estão lá todos. Na altura andávamos a fazer os concertos, íamos gravando discos… não estávamos muito deslumbrados com o sucesso. Estávamos a curtir.

Mesmo o contacto com as pessoas seria diferente. Na rua lidavam com quem vos ouvia, mas hoje, com as redes sociais, se calhar seria ao minuto, haveria mais intrusão.
Carlão — Exatamente, nem há…

João Nobre — Estaríamos formatados de outra forma e não teríamos crescido como crescemos. É mesmo isso.

Em 2017 apareceu no Facebook um rumor sobre um regresso dos Da Weasel, que se propagou. Esse rumor foi negado pela banda e na altura o Carlão disse ao jornal Público que “da parte da banda não houve nenhuma conversa” sobre qualquer concerto, que era uma não notícia.
Carlão — Sim, exatamente.

Agora pergunto-vos: quando é que houve essa primeira conversa e como foi?
João Nobre — Isso agora é outra conversa… [riso geral] Acho que não vamos aprofundar muito essa questão, mas como dissemos há bocado o assédio foi grande. Aliás, o assédio começou no primeiro ano em que os Da Weasel estiveram parados. Naturalmente houve sempre essas conversas. Queres saber exatamente o quê?

Em que momento é que esse regresso começou a ser ponderado? Como e quando é que foi discutido?
João Nobre — O que posso adiantar é que temos pessoas que gostam muito de nós à nossa volta. Quando falo de pessoas que gostam muito, falo de família que não é de sangue: técnicos, uma quantidade de gente extraordinária e incrível. Têm um grande carinho por nós. A decisão foi, se calhar, [motivada] pela saudade que tínhamos uns dos outros, aliada a estarmos constantemente rodeados de pessoas de quem gostamos e que nos querem ver bem, que têm também saudades de muita coisa.

O que aconteceu foi uma espécie de alinhamento planetário. Porque de vários lados, quer da banda quer exterior à banda, houve um alinhamento que permitiu isto. Não foi propriamente: ‘Bora lá conversar sobre isto’ ou ‘bora lá tomar uma decisão’. Foi um conjunto de coisas que se proporcionaram ao mesmo tempo e que permitiram este regresso, não foi nada laboratorial. E depois de dez anos de massacre, no táxi, no barco, no café, no restaurante… credo, meu Deus do céu [ri-se].

E o número de convites que foram tendo ao longo destes anos, como referiam há pouco…
João Nobre — Quando vês que o carinho e o respeito não esmorece e todo o teu santo dia há sempre uma ocasião por dia em que alguém fala nisso… esta insistência, esta vontade de nos ver juntos, leva a pensar se calhar de outra forma, quando se torna constante, quase um massacre. Tu próprio pensas nisso e há um conjunto de coisas que permitiu que isto acontecesse.

Tenho uma pergunta para o Virgul: a “Duia”, a primeira canção que levaste para os Da Weasel, foi dedicada a uma pessoa chamada Cláudia, como ouvimos na versão ao vivo da Antena 3. Mas a dedicatória não foi só feita naquele momento, a canção já tinha sido escrita a pensar nessa pessoa. A Cláudia chegou a ouvir a canção?
Virgul — Claro, claro. Não chegou a ouvir a dedicatória [no “Ao vivo na Antena 3”], mas chegou a ouvir a canção e na altura foi a relação que me inspirou para a escrever. Confesso que foi um namoro de pouco tempo, na altura estava no secundário e nesses tempos ainda se vive as coisas de uma forma muito ingénua. Mas serviu como inspiração. Encontrei a Cláudia passados uns cinco ou seis anos. Acho que na altura estive com ela três meses, e comprei “aliança” [riso geral]. Não foi a Cláudia que ficou comigo, mas inspirou a canção que está aí até hoje.

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