Entrevista a Greg Louganis, 30 anos depois do acidente em Seul. O mergulhador olímpico fala da violação, de ser gay e do VIH /premium

21 Julho 2018381

Tem cinco medalhas olímpicas e é considerado o melhor de sempre em saltos para a água. Greg Louganis fala sobre a violação, a homossexualidade, o VIH e o acidente nos Jogos Olímpicos de Seul.

O ilhéu de Vila Franca do Campo fica em pleno Oceano Atlântico, ao largo da ilha açoriana de São Miguel, e recebe há sete anos consecutivos uma das etapas do Red Bull Cliff Diving World Series. Lá em cima, na plataforma construída a 27 metros de altura em relação à água e de onde os atletas masculinos saltam para três segundos de queda livre acrobática, um homem de cabelo grisalho limpa o chão – que tem de estar impecavelmente seco para não dar azo a escorregadelas. Curvado, a secar a superfície com um pano, está em visível boa forma e não fica atrás da maioria dos atletas.

É Greg Louganis. Atualmente, é diretor desportivo do Red Bull Cliff Diving World Series mas para além disso, para lá disso e mais do que isso, é vencedor de quatro medalhas de ouro olímpicas. O antigo atleta norte-americano, considerado por muitos o melhor mergulhador de todos os tempos, subiu ao mais alto lugar do pódio nas modalidades de plataforma e trampolim nos Jogos de 1984 e 1988. Antes disso, já tinha vencido a medalha de prata em plataforma nos Jogos Olímpicos de 1976. A isso junta ainda mais cinco medalhas de ouro em Campeonatos do Mundo, entre 1978 e 1986.

Está sempre bem perto da ação, sentado nas rochas a observar os saltos e a bater palmas de forma entusiasmada. Anda para cima e para baixo, para um lado e para o outro, não deixa nenhuma decisão por mãos alheias mas tem a serenidade para receber todos os que o abordam com um sorriso. É ele que serve de cicerone aos jornalistas, em cima da plataforma; estende a mão e conduz o percurso até ao precipício. Lá chegado, olha em volta e desabafa: “Não é fantástico?”.

Em entrevista ao Observador, garante que não tem saudades de competir, mas sim de treinar.

O diretor desportivo do Red Bull Cliff Diving World Series assiste a todos os saltos sentado nas rochas

Greg, de que é que tem mais saudades na competição?
Acho que não tenho saudades de nada na competição. Tenho saudades de treinar porque treinar implicava um horário regular, era uma coisa regular, o meu treinador dizia-me o que fazer e pronto. E esse tipo de vida é muito fácil para mim. Agora é muito mais desafiante e complicado, decidir o que vou fazer, a que é que vou dedicar a minha energia, principalmente estando a trabalhar em vários projetos.

Alguma vez saltou de tão alto como os atletas do Red Bull Cliff Diving World Series?
Ainda não! Mas estamos a planear isso. Estamos a trabalhar na Área 47, onde os atletas do cliff diving treinam, a tentar perceber até que altura eu consigo ir. Porque numa coisa como esta nós temos de o fazer de forma segura. Passo a passo. Eles não estão só a atirar os corpos deles dali de cima, há muito treino envolvido.

Greg Louganis está permanentemente perto da plataforma dos saltos

Tem cinco medalhas olímpicas, cinco primeiros lugares em Mundiais e seis nos Jogos Pan-Americanos. Qualquer outro aproveitaria a reforma sentado no sofá a ver outros arriscar a vida enquanto saltam para o abismo. Não é o caso de Louganis: está a escrever um musical, a lançar uma marca de roupa e a preparar um filme biográfico.

Filme que abordará, com toda a certeza, a fase mais conturbada da vida de Greg Louganis. Ainda que hoje seja assumidamente homossexual e esteja casado desde 2013, nos anos 80 guardava esse segredo com a própria vida. Desde 1983 a 1989, manteve uma relação secreta com o treinador, Jim Babbitt: anos mais tarde, o ex-atleta confessou que o relacionamento era abusivo e que Babbitt chegou a violá-lo enquanto o ameaçava com uma faca. Além disso, o treinador contagiou-o com o vírus do VIH.

"Eu acho que não tenho saudades de nada na competição. Tenho saudades de treinar. Porque treinar implicava um horário regular, era uma coisa regular, o meu treinador dizia-me o que fazer e pronto."

Em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul, Greg Louganis bateu com a cabeça no trampolim durante um salto mal calculado nas rondas de qualificação. Teve de ser suturado, levou dezenas de pontos mas completou essa ronda de apuramento. No dia seguinte, tornou-se campeão olímpico. Foi considerado “Atleta do Ano” pela ABC e a perseverança de Louganis ficou para a história como um dos exemplos maiores de desportivismo e força de vontade. Mas a história tinha mais para contar.

Infetado com o VIH mas a manter segredo do resto do mundo, o norte-americano ficou com receio de que o sangue que derramou na piscina contagiasse todos os outros atletas com o vírus (na altura, ainda que a ciência já o soubesse, a maioria da população desconhecia que o contágio só acontecia em caso de troca de fluidos corporais).

30 anos depois, com 58 anos, recorda a importância do apoio de Ron O’Brien, o então treinador, para que conseguisse voltar a saltar.

O que é que ainda falta fazer a alguém como o Greg, que tem quatro medalhas de ouro olímpicas, uma de prata e diversos primeiros lugares em Mundiais? Quais são os seus planos para o futuro?
Dou palestras à volta do mundo. Sobre diversidade, VIH, sobre vários assuntos que precisam de ser abordados de forma mais eficiente e que são importantes para mim. Estou a escrever um musical com alguns amigos e também estamos a tentar criar uma marca de roupa. Por isso, tenho muita coisa em preparação. Ah, e também estou a colaborar num filme biográfico sobre mim com uma produtora de Londres! Tenho muita coisa pela qual ansiar. Depende tudo do que é que vai ser um êxito, nunca sabemos o que vai ser um êxito. Quando acontecer, é aí que coloco a minha energia.

"30 anos depois do acidente em Seul, na Coreia, o que eu consigo perceber é que a coisa que me surge logo na cabeça é a minha relação com o meu treinador, Ron O’Brien. Ninguém alcança o sucesso sozinho, é preciso estar lá mais alguém."

Este ano, 2018, assinala os 30 anos desde o acidente nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Que memória é que guarda desse dia? Apenas o medo ou agora é uma memória feliz?
30 anos depois do acidente em Seul, na Coreia, o que consigo perceber é que a coisa que me surge logo na cabeça é a minha relação com o meu treinador, Ron O’Brien. Ninguém alcança o sucesso sozinho, é preciso estar lá mais alguém. E o Ron O’Brien foi esse “alguém” para mim. Eu fui apenas muito abençoado pelo facto de ele estar lá. Há sempre alguém, na verdade, seja uma mãe, um amigo ou outra pessoa qualquer, há sempre alguém por detrás dos grandes feitos.

O momento antes do salto em que bateu com a cabeça, nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988

Arrependimentos, apenas um. O facto de ter sido impedido – em conjunto com centenas de outros atletas – de participar nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscovo. Na altura, os Estados Unidos lideraram um boicote aos Jogos como forma de protesto contra a presença das tropas soviéticas no Afeganistão. Além dos norte-americanos, outros 64 países não viajaram até à então União Soviética (Portugal participou e enviou uma comitiva de 11 atletas que incluía João Campos e Paulo Frischknecht, antigo presidente da Federação Portuguesa de Natação).

Em 1993, no dia do 33.º aniversário, organizou uma “festa de anos final”, convencido de que iria morrer devido à deterioração da saúde que tinha vindo a sofrer nos meses anteriores, provocada pelo vírus do VIH. Sobreviveu. E decidiu contar ao mundo inteiro, meses depois, que era homossexual e estava infetado com o vírus que surpreendeu a sociedade daquela época e deixou a medicina e a ciência perplexas. Começou com um comunicado, lançou um livro de memórias (“Breaking the Surface”) e depois deu uma entrevista a Barbara Walters, onde contou, na primeira pessoa e ao pormenor, tudo aquilo por que passou.

Mais de 20 anos depois de ter tornado pública a orientação sexual, Greg Louganis garante que ainda há muito para avançar no que toca ao tratamento dos homens e das mulheres que são atletas e homossexuais.

Tem arrependimentos? Alguma coisa que gostaria de ter feito?
O único arrependimento que tenho – ainda que fosse uma coisa sobre a qual eu não tinha qualquer controlo – é o boicote de 1980. Porque eu ganhei uma medalha nos Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, e a oportunidade de competirmos nos Jogos de 1980 foi-nos retirada. Não tive essa oportunidade. Claro que tive os Mundiais, mas é diferente. Esse é o meu único arrependimento.

Acha que as coisas estão a mudar no que toca aos homens e mulheres que são atletas e homossexuais? Ou ainda há muita coisa que tem de ser alterada?
Ainda há muita coisa que tem de mudar. Muitos países ainda têm legislação anti gay e em alguns países ser homossexual é punível com a pena de morte. Há muito trabalho a fazer. O melhor do tempo em que vivemos é que muitos atletas são visíveis, estão a fazer com que a suas vozes sejam ouvidas e isso é importante, que eles sejam ouvidos. Porque muitos dos miúdos que estão a crescer e que não têm uma base de apoio precisam de alguém que possam admirar. Precisam de ouvir que está tudo bem em ser homossexual. Está tudo bem em serem quem são.

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