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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

"Foi-se um bocado de mim e da minha história": 140 anos depois, viveu-se o 1.º dia sem Elevador da Glória — que não era só dos turistas

Apesar de ser um ícone turístico de Lisboa, o Elevador da Glória não transportava só turistas. Muitos — como os trabalhadores da Santa Casa — usavam-no todos os dias.

Manuel e Domingos já não passam com a frequência de outros tempos pela zona de Lisboa entre os Restauradores e o Bairro Alto, mas ainda assim, saíram os dois de casa e dirigiram-se ao local que percorreram várias vezes a caminho do trabalho ou em saídas de amigos. Na rua íngreme restam poucos vestígios do acidente, mas há duas ausências evidentes: 140 anos depois, não há carruagens à vista.

Para prestar homenagem ao monumento, Domingos, depois de apanhar autocarro e metro, comprou duas rosas, uma vermelha, “pelo sangue que foi derramado”, e outra amarela, da cor dos ascensores, para ver “se os elevadores voltam outra vez”, conta ao Observador.

Ao contrário do homem que começou a ver os elétricos pela mão do pai, quando tinha nove anos, a maioria das pessoas que vive nas redondezas, sobretudo no Bairro Alto, prefere nem regressar ao local, não conseguindo imaginar aquela rua sem o movimento que a caracteriza desde 1885.

“Não fui lá [ver a rua], nem quero! Não quero ir, nem quero passar lá”, confessa Fernanda, que mora numa rua paralela à Calçada da Glória. Usava o ascensor de vez em quando, mas o barulho em falta e o movimento que desapareceu são impossíveis de ignorar. Há também quem diga que nunca mais vai conseguir voltar a entrar num veículo daqueles: “Apanhei o elevador na terça-feira… Foi o meu último dia! Eu não vou andar nunca mais. Nem pensar”, desabafa Helena enquanto percorre as ruas do Bairro Alto.

E todas as pessoas ouvidas pelo Observador frisam que as 16 pessoas que morreram, as dezenas que ficaram feridos e as famílias de todas as vítimas no acidente que teve lugar na tarde de quarta-feira, lhes ocupam o pensamento. “[Quando soube] fiquei com o pensamento caramba, aconteceu no final da tarde, eu fiquei a pensar, podia ter acontecido comigo”, conta Maria da Conceição, brasileira a viver há vários anos também no Bairro Alto.

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Apesar de ser “atração turística”, Elevador da Glória era muito usado por moradores e trabalhadores do Bairro Alto

Quem passa pelo trajeto percorrido pelo Elevador da Glória ouve mais idiomas estrangeiros do que português. Entre as 16 vítimas mortais do acidente, onze eram estrangeiras, de oito nacionalidades diversas. Mas outras quatro pessoas eram portuguesas, além do guarda-freio André Marques.

“Perdemos colegas com quem partilhávamos a nossa missão.” Os funcionários da Santa Casa de Lisboa que morreram no Elevador da Glória

Quatro trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) morreram quando faziam um trajeto habitual para os funcionários. Trata-se de “um meio de transporte frequentemente utilizado por muitos dos que trabalham nesta Instituição”, reconheceu a SCML.

Como eles, muitos outros portugueses recorriam ao ascensor para ir para casa ou para o trabalho. Maria da Conceição era um exemplo disso: a viver no Bairro Alto há alguns anos, dirigia-se à paragem bem cedo, pelas 7h30, e descia até aos Restauradores onde apanhava um metro. Ao fim do dia, repetia tudo no sentido inverso.

Maria da Conceição apanhava o elétrico todos os dias e conversava muito com os guarda-freios, em especial duas mulheres. Quando soube do acidente, ficou preocupada por elas.

A rotina tornou-a muito próxima dos guarda-freios, sobretudo das “duas senhoras” com quem se cruzava mais e com quem ficava a conversar na viagem. Por esse motivo, assim que soube do acidente, ficou em pânico a achar que uma delas poderia estar entre as vítimas. “Eu calhava mais com as condutoras mulheres, que eram muito boas. A gente conversava de manhã, também com outras pessoas que entravam para descer, para ir trabalhar. E eu fiquei a pensar ‘será que aconteceu alguma coisa com elas?'”.

Agora, assume que em algumas viagens — “duas ou três vezes” — sentiu o ascensor a abanar mais e um som estranho “como se tivesse alguma coisa a travar”, mas que foi rapidamente solucionado e em que não ficou a pensar muito tempo. Depois da tragédia, assume como normal que se recorde destas situações. Elaine, amiga e compatriota, a viver no Bairro Alto há mais de oito anos assume a tristeza de ver a rua vazia: “É como ter um monumento e de repente levarem-no. Eu vi a reportagem [da retirada], foi como se estivessem a levar uma pessoa”.

Pelas ruas do Bairro Alto não há morador que não tenha algo a dizer sobre o Elevador que tornava o acesso àquela zona histórica, nomeadamente de quem vem da Baixa, mais rápido e confortável. Traçam, no entanto, uma distinção entre o passado (mais longínquo) e o presente (até ao acidente), notando um claro aumento de procura com os turistas, o que afastou muitas pessoas. “Eu vinha à pendura no elétrico nos anos 70. Era puto, faz parte da vida das pessoas”, conta um homem, que prefere manter o anonimato. Agora “é uma atração turística”, desabafa, antes de voltar a trautear cantigas enquanto mantém o braço apoiado na banca de uma papelaria no Largo Trindade Coelho, a escassos metros da entrada para a SCML.

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“Lisboa vai ficar muito pobre. Era um símbolo”, relata moradora do Bairro Alto. “Fartei-me de chorar”

Já demorada, íngreme e difícil, a subida dos Restauradores até ao miradouro de São Pedro de Alcântara torna-se ainda mais longa quando feita pelos acessos paralelos e sinuosos possíveis, uma vez que a Calçada da Glória continua cortada ao trânsito desde a tarde do acidente. Domingos Bruno é um dos que, movido pela saudade de um elétrico que faz parte da sua vida, desafia o cansaço para chegar ao topo. “Gostava de andar nisto e agora custou-me também. Foi-se um bocado de mim e da minha história, acho eu. É um bocadinho da nossa história e eu até até hoje não tinha visto uma coisa assim”, lamenta.

No início da rua, onde se concentram jornalistas e turistas, há movimento, mas “não é nada daquilo” que costumava ser. A curiosidade pela tragédia não se compara ao movimento que gerava o ascensor. “A gente olha para ali e vê uns carros [das equipas da Carris] a carregarem entulho, não é a mesma coisa”, relaciona.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

No passado, a passagem pelo local era constante, e mesmo quando não subia para o ascensor, Domingos “subia e descia” a rua “por gosto. Mesmo sem a intenção de visitar algum espaço em concreto, ia na companhia dos amigos ver o movimento, como fez esta sexta-feira, mas sem os elétricos. “Anda hoje matei a saudade”.

Manuel também não vive ali perto, já nem percorre aquela calçada como antes fazia, quando ia para o trabalho. “Moro na margem Sul [do Tejo], mas trabalhei no Bairro Alto vários anos”, pelo que subia a rua todos os dias e “apanhava o elétrico de vez em quando”. Para ele, e para “as pessoas que moram perto”, causa “impressão”. “São cento e tal anos, estava sempre aqui, é duro”, desabafa enquanto vê os funcionários da Carris a trabalhar depois de ter cruzado o rio de propósito para ver a rua no estado atípico em que se encontra.

Sem esquecer as mortes trágicas, diz que agora os moradores, a maioria idosos que resistem à pressão dos preços da habitação, vão ter que passar a dar uma grande volta, ou a subir a rua íngreme, para chegar a casa. Ainda assim, destaca que o “forte do elétrico, nesta altura, são os turistas”.

Enquanto Ana Rosa se dirige para o local onde costuma alimentar gatos, cruza-se com um trabalhador da Carris — e testemunha que a manutenção era sempre cuidada —. O homem recorda a tragédia e lembra que minutos antes tinha combinado ir beber um café com André, o guarda-freio que morreu no Elevador da Glória.

De saco de ração na mão, Ana Rosa vai subindo devagar a rua à procura dos amigos que deixou abandonados nos últimos dias, devido ao perímetro de segurança. “Eu venho aqui há muitos anos dar de comer aos gatinhos. Vinha muitas vezes ao dia. Antigamente, vinha duas vezes. Depois passei a vir apenas uma”. Com o passar dos anos, deixou de subir de elevador até ao Largo da Oliveirinha, onde deixa água e comida aos felinos.

“Agora custa-me muito a subir ao elevador, porque tenho um problema no joelho”. Desde quarta-feira, porque “estava ali a polícia e para não me estar a aborrecer, porque eles, por norma, têm ordens para não deixar passar ninguém e eu sou tinhosa”, deixou de passar ali. Esta sexta-feira percebeu que já conseguiria passar e voltou.

“Eles já estavam habituados [ao ascensor], porque nasceram aqui e foram criados aqui. Não estranharão [a ausência], porque quanto menos barulho, melhor, que eles não gostam muito de barulho. Mas para eles já era familiar”. Mas o problema, continua, não é a ausência do veículo, mas sim “as pessoas que foram”.

Perto do local onde Mimi e os outros gatos comem e bebem, há um pequeno armazém da Carris, que serve de apoio à manutenção dos elétricos e onde Ana Rosa testemunhou, como faz questão de vincar várias vezes, as inspeções quase constantes às carruagens. “Eu sei que eles todos os dias paravam os elevadores aqui ao meio, era aqui que eles paravam, inspecionavam, abriam e fechavam”.

Um amigo “como já não há”, professor “paciente”, e “filho da terra”. Quem era André, o guarda-freios do Elevador da Glória

No caminho, cruza-se com a cuidadora dos gatos um funcionário da empresa de transportes públicos. Com breves palavras e um reconhecimento de cumplicidade pela tragédia que se passou, Ana Rosa volta a frisar que aquele e outros senhores fazem um bom trabalho. Emocionado, o trabalhador da Carris recorda o acidente: “tinha andado no ascensor dez minutos antes”. Além disso, detalha, tinha combinado tomar um café com o guarda-freio que o transportou quando terminasse o turno. Pouco tempo depois, soube do descarrilamento e, perplexo, correu até ao local onde acabaria por morrer André, o colega com quem tinha combinado um café pouco tempo antes. “Quando cheguei ainda estava o pó no ar”.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

“Fartei-me de chorar, foi trágico”, conta Helena, que usava o ascensor várias vezes para ir ou vir da Baixa.”Lisboa vai ficar muito pobre. Era um símbolo, aquele elevador era um símbolo da cidade”. Ainda hoje, conta, parece que não assimilou o que aconteceu. “Parece um excesso, parece que foi um sonho. É uma coisa tão estranha que não parece real. Já houve um acidente ou dois, mas uma coisa mínima que se resolveu. Agora, desta maneira… Não há palavras”.

Domingos, que também subiu o percurso todo, continua a olhar para o vazio. “É longe da minha porta, mas é uma coisa que me faz doer a mim, e acho que a qualquer pessoa. Era uma coisa que não era só de Lisboa. (…) Não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera… mas isto não foi só uma andorinha. Dói muito”.

No topo da Calçada da Glória, pode olhar com mais sossego para a rua que desce até se perder de vista. Ali, com turistas a tirar fotografias às flores colocadas no limite do perímetro — algumas como as amarelas que Domingos deixou no início da rua —, contempla os carris que em tempos o levaram até ao Bairro Alto para beber copos com amigos. Ali, imóvel e alheado dos turistas que vão passando, tira o chapéu, ajoelha-se e benze-se. Sem dizer uma palavra, volta a colocar o boné e sai do local discretamente.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Com medo de recuperar imagens trágicas do acidente, muitos não querem voltar ao local. “Não vou andar [no elevador] nunca mais”

Se há quem, como Domingos, tenha procurado ir ao local para ver o que nunca tinha visto e prestar a devida homenagem, há quem não consiga estar tão perto da rua sem ter presente na memória a tragédia que se abateu sobre Lisboa. “Eu nem quero passar lá. Eu estava a ver televisão quando ouvi. Disse ‘ai, meu Deus!’. Eu tinha acabado de chegar a casa, estava na sala, sentei-me no sofá e comecei a chorar”, descreve Fernanda que, com a ajuda de um amigo, leva as compras do supermercado até à casa onde vive há 50 anos. Assume, mais uma vez, que “até meterem lá os elétricos” não tem coragem de ir à Calçada da Glória.

Ideia igual tem Helena, que vai mais longe: “Apanhei o elevador na terça-feira, para depois ir de comboio a Sintra. Foi o meu último dia! Eu não vou andar nunca mais. Não quero. Nem pensar. Eu já tenho fobia com certos transportes”. Maria da Conceição não consegue ser tão definitiva, mas também assume que tão cedo não tem essa intenção. “Neste momento não [voltaria a andar], até porque muitas vezes eu a descer imaginava [um acidente]. Cheguei a comentar com o meu neto: “Já pensaste que se isto descarrila aqui, vai descer, descer, descer até aos Restauradores. Vai ser um estrago”.

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Ao balcão de um talho que têm há várias décadas no Bairro Alto, Jorge e Clara comentam com clientes a desgraça e o talhante recorda comentários parecidos com os da vizinha brasileira. “Dizia aos meus amigos que se ele saísse dos carris só parávamos sentados no Condes”, conta, recordando tempos antigos em que o edifício onde é agora o Hard Rock era ocupado pelo Cinema Condes, nos Restauradores.

Nessa altura já o elétrico era muito frequentado, dizem, mas mais por portugueses, sobretudo trabalhadores. “Lembro-me de andar em miúda no elevador e não havia nada de perigoso, nem havia os barulhos que agora há. Há dois meses fui com o meu marido para baixo e eu disse ao meu marido, que me avisou que o elétrico estava a fazer um barulho esquisito. Ouvia-se “pim, pim, pim”, como se fosse um ferro a bater no chão”, recorda Clara.

Ainda assim, Jorge diz que não há necessidade de deixar de andar nos veículos, desde que seja feita a devida manutenção. “Toda a vida caiu gente. Todos os dias há acidentes de carro. Mas as pessoas não vão deixar de andar de carro”.

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Trabalhadores da Carris retiraram destroços

Dois dias depois depois do acidente, o aparato em redor do local onde passava constantemente o ascensor da Glória já tem poucos vestígios da tragédia que matou 16 pessoas. Depois de durante a madrugada terem sido retiradas as carruagens, um dos únicos sinais que permanecia cravado na calçada são os grandes buracos no chão.

Para resolver esse problema, chegaram pelas 10h20 desta sexta-feira à Calçada da Glória cinco elementos de uma equipa da Carris para tapar os buracos. No entanto, repararam que apesar de ainda estarem montadas barreiras de segurança, a polícia já não está no local. Com receio de transgredir alguma regra, a equipa esperou. Feita uma chamada a confirmar se podiam ultrapassar as barreiras, entraram com uma carrinha de caixa aberta e subiram a rua até à curva onde se deu o acidente.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Na carrinha trazem pás, picaretas e vassouras, que usam para limpar os destroços e retirar os carris mais danificados e que dificilmente serão recuperados. Mais tarde, chegam os Sapadores de Lisboa para terminar os trabalhos de limpeza. Na interceção da Calçada da Glória com a rua da Glória vê-se bem a mobilização dos trabalhadores, numa parte da rua que tem poucas habitações — tem alguns hotéis, um edifício em obras e outro que pertencia a uma empresa de tecnologia. Brevemente, estará em obras para ser outro hotel.

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