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Ao longo das décadas, vários tocadores tinham deixado repertórios escritos, com as suas letras e composições. Mas os primeiros discos de funaná só chegam no final dos anos 70, com o aparecimento de jovens artistas como o conjunto Bulimundo
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▲Ao longo das décadas, vários tocadores tinham deixado repertórios escritos, com as suas letras e composições. Mas os primeiros discos de funaná só chegam no final dos anos 70, com o aparecimento de jovens artistas como o conjunto Bulimundo

▲Ao longo das décadas, vários tocadores tinham deixado repertórios escritos, com as suas letras e composições. Mas os primeiros discos de funaná só chegam no final dos anos 70, com o aparecimento de jovens artistas como o conjunto Bulimundo

Funaná: como a independência de Cabo Verde libertou esta festa dançada

Durante décadas, esta foi uma música proibida, criada às escondidas para conseguir sobreviver. Hoje é uma influência essencial e um fenómeno de popularidade. Que história é esta e quem é que a tocou?

No mês em que se celebram os 50 anos da independência de Cabo Verde — proclamada a 5 de julho de 1975 — é inevitável recordar a história da auto-determinação de um povo sem abordar as respetivas expressões culturais. Até à revolução do 25 de Abril de 1974, que pôs fim à ditadura portuguesa e desencadeou os processos de independência das antigas colónias africanas, práticas musicais como o funaná, o batuque ou a tabanca eram proibidas ou reprimidas em Cabo Verde.

Hoje, são géneros tradicionais do arquipélago reconhecidos em todo o mundo, com uma vitalidade impressionante para quem enfrentou tantas décadas de repressão. Em 2024, o funaná foi elevado a Património Cultural Imaterial Nacional de Cabo Verde, e o género tem mantido uma frescura considerável até por ter dado origem a subgéneros — como é o caso do cotxi po, uma versão mais acelerada e eletrónica do funaná que se tornou popular entre os jovens e que muito se ouve nas Hiaces, as carrinhas Toyota que funcionam como transportes públicos coletivos em Santiago, a mais populosa das ilhas, onde o funaná tem origem.

Na vasta diáspora — estima-se que haja 1,5 milhões de cabo-verdianos espalhados pelo mundo, sem contar com os muitos descendentes, em comparação com os cerca de 520 mil residentes no arquipélago — géneros tradicionais como o funaná têm servido de matéria-prima para novos híbridos sonoros. A partir de Portugal, Dino D’Santiago (que eternizou a ilha dos seus pais no seu nome artístico) tornou-se uma autêntica referência nesse sentido, cruzando a tradição musical cabo-verdiana, com especial foco para o funaná, com elementos eletrónicos contemporâneos.

“A música tem sido o maior embaixador de Cabo Verde e o nosso maior fator de exportação”, diz ao Observador o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Augusto Veiga, aludindo à importância cultural — mas também económica — que a música representa para o país e as comunidades cabo-verdianas dispersas pelo planeta. Por isso mesmo, as políticas culturais de apoio aos artistas, com vista à internacionalização, têm sido frequentes e consensuais no arquipélago, com a atribuição de subvenções ou outro tipo de iniciativas nesse sentido.

▲ Norberto Tavares, José Sanches Tavares, Dô, João "Djon" Emanuel Duarte e Manuel Teixeira: os Black Power, banda que surge no início dos anos 70 em Lisboa

“Também é a cultura que é o fator diferencial do nosso turismo”, acredita Augusto Veiga, referenciando outro dos mais fundamentais motores económicos de Cabo Verde. “Por isso assinámos recentemente um memorando de entendimento com o Ministério do Turismo e Transportes, para trabalharmos projetos em conjunto.”

Augusto Veiga, que antes de assumir funções políticas trabalhou durante cerca de 30 anos na indústria musical do país, não tem dúvidas de que a independência de Cabo Verde “funcionou também como a liberdade e independência de muitos géneros musicais”. “Os ritmos mais aceites eram a morna e a coladeira, mas hoje muitos dos estilos musicais cabo-verdianos estão a obter grande sucesso a nível internacional. Tivemos o exemplo da Madonna a fazer, basicamente, uma tour baseada no batuque. E estamos a trabalhar para que outros dos géneros, que ainda não são tão conhecidos lá fora, façam o mesmo caminho, como o colá ou o talaia baxu da ilha do Fogo. O nosso trabalho é ajudar a que haja essa difusão, tanto a nível interno nas diversas ilhas como a nível internacional. E temos muitos artistas filhos da emigração cabo-verdiana que se estão a reconetar com as suas raízes, a kizomba também entrou no léxico musical cabo-verdiano, temos o hip hop feito em crioulo muito forte. É uma área que me é muito cara.”

Uma música proibida e reprimida que representava uma herança cultural africana

O funaná é um género tradicionalmente tocado com um acordeão — chamado de gaita, que foi sendo alterado ao longo das décadas para ter um som mais grave — e com uma barra de ferro que habitualmente é percutida com uma faca. Tal como noutras músicas de Cabo Verde, os pares juntavam-se para dançar, mas com o tempo tornou-se uma sonoridade mais virada para o indivíduo. O género terá surgido entre o final do século XIX e o início do século XX no interior rural da ilha de Santiago e nos bairros periféricos da atual capital cabo-verdiana, a cidade da Praia.

Havia gaitas que vinham da metrópole, mas a população camponesa de Santiago tinha uma forte ligação a outra colónia portuguesa, São Tomé e Príncipe, para onde iam trabalhar nas roças de cacau. Esse outro arquipélago africano, que tinha um comércio de instrumentos musicais, foi determinante para introduzir os acordeões em Cabo Verde. Em Santiago, os tocadores interpretavam diferentes ritmos, mas acabaram por fazer nascer uma prática de ferro e gaita que se foi tornando popular nas comunidades locais. Inicialmente, muitos dos ferros que eram utilizados na música eram, literalmente, enxadas do campo — tanto que existia o termo “baile de enxada”. Noutro género musical de Santiago, o ainda mais ancestral batuque, tradicionalmente tocado por mulheres, utilizavam-se outros instrumentos do quotidiano para a percussão — sobretudo panos.

Muitas destas práticas eram olhadas com grande desconfiança por parte das autoridades coloniais e dos poderes instituídos, como era o caso da Igreja Católica. “Desde pelo menos metade do século XIX que existem fontes escritas com interdições ou medidas coercivas em relação ao batuque e à tabanca”, explica ao Observador o antropólogo e investigador Rui Cidra, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, um dos principais estudiosos deste tema, que publicou em 2021 o livro Funaná, Raça e Masculinidade: Uma Trajetória Colonial e Pós-Colonial. “Também vamos encontrar medidas semelhantes, durante o século XX, em relação ao funaná.”

"Porque é que a música e a dança interessam tanto aos poderes coloniais? Porque são domínios ligados ao corpo e sabemos que existem, em torno do corpo, certas fronteiras sobre o que é social e moralmente permissível. E o funaná era uma experiência de liberdade."
Rui Cidra, antropólogo e investigador

Os músicos eram “vigiados” e podiam “ser detidos para interrogatório”, muitas vezes sendo condenados ao “pagamento de multas”. “Era proibido, sempre que estas pessoas tocavam podiam ser detidas. Considerava-se que não era civilizado, que era uma ameaça — usando os termos da época — à tranquilidade e boa moral. Sobretudo no caso do funaná, esse ambiente de coerção e de violência simbólica torna-se mais intenso a partir da década de 40, quando se inicia na ilha de Santiago a atividade de uma ordem missionária, a Congregação do Espírito Santo, que desenvolve aquilo a que chamam um projeto de restauro da vida social e cultural.”

A rejeição destas práticas culturais, enraizadas no quotidiano daquelas comunidades, tinha a ver com a própria mentalidade imposta pelo regime português face a Cabo Verde, um arquipélago inabitado quando os navegadores portugueses lá atracaram no século XV, e que entretanto se tornara uma colónia populada por descendentes de escravos trazidos da costa ocidental de África e dos próprios europeus — sem condições naturais para plantações intensivas e lucrativas, como era o caso de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde foi um dos mais importantes postos portugueses do comércio transatlântico de escravos, graças à sua localização geográfica. Ao longo dos séculos, através da religião ou da língua, dos hábitos culturais como um todo, o regime português procurou “civilizar” os escravos e os seus descendentes, aproximando-os do imaginário cultural português e europeu.

“Estas práticas eram desvalorizadas porque são associadas à ideia de uma sobrevivência africana, de um passado africano que não é civilizado. Isto assenta numa forma de pensar sobre a própria identidade da crioulabilidade cabo-verdiana, que vem do período colonial e que ainda tem consequências nos dias de hoje, que são dois polos imaginados. O polo da Europa, que era o polo valorizado, que representava a civilização, a razão, a cultura, o progresso; e o polo de África, desvalorizado, que representa a não civilização, a natureza, o corpo. E porque é que a música e a dança interessam tanto aos poderes coloniais? Porque são domínios ligados ao corpo e sabemos que existem, em torno do corpo, certas fronteiras sobre o que é social e moralmente permissível. E o funaná era uma experiência de liberdade. Este contexto dá conta da racialização histórica destas práticas, até porque Santiago — talvez em conjunto com o Fogo — foi a ilha mais profundamente estruturada pela instituição social da escravatura e, também, pelas desigualdades do próprio regime colonial nas ilhas.”

Hoje, a casa da maior parte da população cabo-verdiana residente no arquipélago — com cerca de 270 mil habitantes — Santiago “abrigava o que se considerava ser uma herança cultural africana”. “Após a abolição da escravatura na segunda metade do século XIX, é a população que é a principal mão de obra para a exploração da terra, em regimes desiguais de propriedade. E é neste enquadramento de racialização e destas relações de poder que podemos situar estas proibições. Não eram apenas as práticas, mas a sociabilidade do funaná que perturbava. Havia uma divisão estanque entre o trabalho e o lazer, o funaná perturbava isso e as autoridades civis e religiosas pretendiam regular o quotidiano das pessoas e as suas práticas, também para assegurar a ordem social como eles a projetavam.”

▲ Depois do fim dos Bulimundo, surgiam os Finaçon, ativos entre as décadas de 80 e 90, assegurando a continuidade do funaná

Naturalmente, os santiaguenses que tocavam ou que apreciavam o funaná e outras das práticas culturais reprimidas desenvolviam as suas estratégias de resistência. “Tanto tocavam durante a noite em lugares inacessíveis, longe do olhar e dos ouvidos dos párocos e dos polícias; como há relatos de se envolverem nas atividades da igreja numa lógica de sedução e pacificação; como, enfim, tentavam embriagar os catequistas locais para poderem tocar. Havia todo o tipo de estratégias.”

Não há certezas sobre a origem da palavra “funaná”, mas ela aparece imortalizada pela primeira vez num artigo de jornal publicado por volta de 1910. “Existem várias teses. Há uma popular que diz que a palavra talvez tenha tido origem numa dupla de tocadores, um homem e uma mulher, Funa e Naná. Não estou seguro disso, acho que é muito efabulada. Os indícios da minha investigação apontam antes para o facto de a palavra funaná ter sido inicialmente uma designação pejorativa, que vem do ‘fungagá’, e que depois acabou por ser adotada pelos próprios tocadores.”

As primeiras gravações, que levaram o funaná às outras ilhas de Cabo Verde

Apesar da repressão que se manteve durante várias décadas, o funaná — tal como o batuque e a tabanca — nunca desapareceu e manteve sempre uma importância cultural e social para muitas comunidades na ilha de Santiago. No outro lado da moeda, a morna, uma espécie de parente cabo-verdiano do fado, foi acarinhada pelo Estado Novo, que nela via um “exemplo de convivialidade, de coexistência pacífica entre colonizador e colonizado”, veiculando os “valores da ideologia luso-tropicalista que justificava a manutenção das colónias”, numa época em que muitas antigas colónias europeias já tinham proclamado as suas independências, e também num período em que a guerra colonial — mais conhecida como guerra de independência ou de libertação nas antigas colónias portuguesas — tinha começado, no início da década de 60, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

“Enquanto reprimia as práticas culturais de Santiago, o Estado Novo promoveu a morna através de digressões de músicos à metrópole, através da rádio, da edição discográfica. Mas é interessante porque a morna também foi apropriada pelos nacionalistas anti-coloniais. Eles defendem que a morna, no fundo, é um dos instrumentos que o povo de Cabo Verde tem para expressar a sua dor. Dizem que a nostalgia e a melancolia têm um fundo político. E as razões são o domínio cultural português, o modo como promove as desigualdades nas suas colónias, então a morna também participa da política anti-colonial.”

Se o funaná era uma prática tradicional ligada à experiência da comunidade camponesa da ilha de Santiago, só se torna de facto num género musical no pós-independência. Ao longo das décadas, vários tocadores tinham deixado repertórios escritos, com as suas letras e composições. Mas os primeiros discos de funaná só chegam no final dos anos 70, com o aparecimento de jovens artistas como o conjunto Bulimundo ou o cantor Norberto Tavares, já a utilizar instrumentos modernos e elétricos, mas que gravaram temas desse cancioneiro proibido que estava há décadas à espera de ser imortalizado em disco.

“Os Bulimundo e os Finaçon já tinham passado, o funaná estava no fim. Então, com a experiência de uma banda anterior que tínhamos tido, fizemos os Ferro Gaita e foi logo um grande sucesso, com o disco mais vendido do ano em Cabo Verde. Mostrámos que era possível.”
Bino Branco, músico e um dos fundadores dos Ferro Gaita

Só nessa altura, portanto, é que as restantes ilhas de Cabo Verde — sobretudo as mais afastadas de Santiago e da sua influência cultural — foram apresentadas ao funaná. “A adesão dos cabo-verdianos de outras ilhas a estes novos estilos de música foi praticamente imediata”, conta o investigador Rui Cidra. “É um reconhecimento de que o trabalho destes músicos foi desenvolvido com muita pertinência e qualidade. Mas, politicamente, esse processo foi mais moroso. Num primeiro momento, o projeto Cultura Nacional proposto pela nova classe dirigente não comporta o funaná.”

Afinal, Santiago era a ilha mais ligada a África, à escravatura, às desigualdades coloniais. Era o “território entendido como o mais distante da governação colonial”, o que fazia com que a ilha e as respetivas práticas culturais não fossem assim tão bem encaradas por uma sociedade estruturada pelo colonialismo português, que tinha promovido essa rejeição africana, sendo uma ilha “socialmente desvalorizada pela governação portuguesa” e ainda “silenciada no âmbito das próprias práticas de representação da cultura cabo-verdiana pelas elites culturais”. “E tudo isto ainda foi mais ampliado pelo facto de haver uma grande falta de comunicação e de mobilidade entre ilhas. Isso fez com que muitos cabo-verdianos, no momento da independência, não conhecessem a realidade cultural e social de outras ilhas.”

Foram os próprios protagonistas desta música, argumenta Rui Cidra, que “negociaram a importância” do funaná nesse período do pós-independência. “Foram eles que, através da sua prática musical, mostraram que havia toda uma história, uma história marginal e silenciada, à qual era necessário dar voz, num momento de formação da nação. Os músicos é que desencadeiam essa luta cultural.”

▲ Bino Branco: "Estamos espalhados pelo mundo inteiro, há pessoas a inovar, e diria que o funaná está mesmo num patamar muito elevado"

William Farrington

O funaná acabou por ser abraçado, também num contexto de “fervor nacionalista muito marcado pelas ideias de Amílcar Cabral”, num momento em que Cabo Verde se vira como nunca antes para a África ocidental. “Nesse ambiente, os músicos abordam estas práticas do interior de Santiago como expressões de uma africanidade. E o trabalho cultural e político que estão a fazer é reclamar a inclusão dessas expressões de africanidade, de isso ser aceite como parte da identidade cabo-verdiana, numa cultura nacional que está em formação.”

O funaná “no auge”, enquanto género musical reconhecido em todo o mundo

Se o funaná só se tornou conhecido em todo o arquipélago de Cabo Verde no pós-independência, o caminho que esta prática tradicional tornada género musical iria fazer a nível internacional só aconteceria mais tarde, ao longo dos anos. Isso não significa, porém, que não existissem bailes de funaná noutros países, visto que a ampla diáspora cabo-verdiana mantinha as práticas e os hábitos culturais que trazia das ilhas quando chegava a novos territórios.

“Os primeiros tocadores de funaná que chegam a Portugal é quando se dá a primeira vaga de migrações a partir da ilha de Santiago para a metrópole, sobretudo no final dos anos 60 e início dos anos 70”, explica Rui Cidra. “E nos bairros que os cabo-verdianos vêm ocupar — e, nalguns casos, construir — há tocadores de ferro e gaita.”

Depois de uma explosão do funaná em disco no final dos anos 70 e durante a década de 80, o género parece perder alguma força e relevância com o passar do tempo, diluindo-se num mercado aberto de múltiplas influências musicais, lógica reforçada pelo facto de existirem tantos cabo-verdianos a viver nos Estados Unidos da América ou na Europa, com outras referências, que também moldam aquilo que se passa musicalmente em Cabo Verde.

Nos anos 90, surge uma banda que vem revitalizar o funaná e, mais importante ainda, resgatar as suas raízes musicais. Com o seu nome artístico dizem logo ao que vêm: os Ferro Gaita lançaram em 1997 o seu álbum de estreia, Fundu Baxu, trazendo de volta o ferro e a gaita — e mesclando-o com o baixo e a bateria — numa altura em que o género já era tocado com instrumentos mais modernos e elétricos, ainda que mantendo o ritmo e outros elementos estilísticos.

"Muita gente conheceu algumas destas canções connosco, mas muitos outros vinham dizer-nos que era esta a música que ouviam dos discos dos pais. Para nós foi um espanto, uma admiração boa, quando começámos a sair de Lisboa e a ver as pessoas a conhecerem as canções cantadas em crioulo."
David Pessoa, músico dos Fogo Fogo

“A música já estava quase morta, estava quase no fim”, relata, em declarações ao Observador, Bino Branco, um dos fundadores dos Ferro Gaita, responsável por tocar o ferro. “Os Bulimundo e os Finaçon já tinham passado, o funaná estava no fim. Então, com a experiência de uma banda anterior que tínhamos tido, fizemos os Ferro Gaita e foi logo um grande sucesso, com o disco mais vendido do ano em Cabo Verde. Mostrámos que era possível.”

O êxito dos Ferro Gaita coincide ainda com uma série de políticas culturais que, a pouco e pouco, vão dando frutos, colocando grupos de funaná — e de outros géneros musicais de Cabo Verde — no circuito das chamadas músicas do mundo, particularmente forte a partir dessa década de 90.

“O funaná como música internacional é um fenómeno ainda recente, mais dos anos 2000, que tem sido gradual mas que só se solidificou nos últimos 10 ou 15 anos”, afirma Rui Cidra. “A música chegou aos jovens, às pessoas ligadas à música alternativa, e também está ligado aos processos de reedições de discos e da cultura de informação da Internet.”

Na cena musical portuguesa, sobretudo da Grande Lisboa, surgiram ao longo dos últimos anos uma série de projetos que também abordam o funaná e que têm contribuído para a sua disseminação pelo país — e não só. É o caso dos Fogo Fogo, banda que já leva uma década de existência e que surgiu a partir de uma residência na Casa Independente, centrada na música africana presente numa cidade com essa herança, de natureza multicultural.

“O funaná era um estilo muito pouco explorado nesse contexto urbano”, conta ao Observador o português David Estevas Pessoa, que partilha o título de vocalista do grupo com o cabo-verdiano Danilo Lopes (também guitarrista), a par do teclista João Gomes, do baixista Francisco Rebelo e do baterista Edu Mundo, nome artístico de Márcio Silva.

“Queríamos fazer uma banda que representasse uma Lisboa misturada e multicultural, com muitas influências africanas. O João e o Márcio é que se lembraram de explorar o funaná, que era um estilo pouco tocado. Havia a banda do Bleza que tocava um ou outro funaná, alguns DJs também passavam uma coisa ou outra, mas não havia uma expressão que fosse funaná puro e duro. E começámos por prestar homenagem aos grandes nomes: os Ferro Gaita, os Bulimundo, os Tubarões.”

▲ Francisco Rebelo, Danilo Lopes e David Pessoa: os Fogo Fogo em palco

Os Fogo Fogo nasceram como uma banda de versões e de palco, muito centrada numa performance contagiante e vibrante que rapidamente os catapultou para voos maiores — naturalmente começaram a construir as próprias canções, em torno da “clave do funaná”, e a tocar em festivais de todo o país (e até lá fora), deixando de estar confinados ao circuito noturno do centro de Lisboa. Pelo caminho lançaram um par de discos e outro par de EPs, incorporando diferentes influências musicais, entrelaçando o crioulo e o português.

“Muita gente conheceu algumas destas canções connosco, mas muitos outros vinham dizer-nos que era esta a música que ouviam dos discos dos pais. Para nós foi um espanto, uma admiração boa, quando começámos a sair de Lisboa e a ver as pessoas a conhecerem as canções cantadas em crioulo. É muito prazeroso e um sinal de que conseguimos abranger outros públicos. Lá fora, tenho gosto em tocar para pessoas que nunca nos ouviram na vida, é uma reação muito real, gosto da sensação de estar a tocar na Alemanha e ver os alemães todos a saltar. Porque a música, efetivamente, tem esse poder — é um ritmo muito contagiante que consegue agarrar públicos que, à partida, não estariam familiarizados com aquele ritmo. Obviamente, muitos outros têm feito esse trabalho, do Dino D’Santiago aos Acácia Maior, passando pelo Fidju Kitxora, são todos grandes fontes de divulgação desta cultura.”

Bino Branco olha para o funaná como um “património” do “tesouro” que é a música de Cabo Verde. “A morna, a coladeira, o batuque, a tabanca… O funaná pode ser hoje o mais forte, mas são todos filhos e frutos de Cabo Verde que estão a crescer. Estamos espalhados pelo mundo inteiro, há pessoas a inovar, e diria que o funaná está mesmo num patamar muito elevado.” Mais de 100 anos depois, enfrentando uma longa história de proibições e repressões, que se misturam com a própria história e identidade de Cabo Verde, “o funaná está no auge e é até ao fim do mundo”.

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