Ao fim de 23 romances, cinco livros de não-ficção, uma história infantil, um sem-número de prémios e distinções e mais de 40 anos de carreira literária, com 82 anos, Isabel Allende não tem vontade de abrandar a sua produção. “Se tenho saúde e mantenho-me forte, porque hei de parar?”, responde ao Observador.
De regresso a Portugal ao fim de um longo hiato, Allende — uma das mais bem sucedidas escritoras da atualidade — veio apresentar O Meu Nome é Emilia del Valle, o seu 23.º romance, numa sessão esgotada no Centro Cultural de Belém.
Já na privacidade de uma sala de hotel em Lisboa, explica que o cenário desta história — uma jovem jornalista de São Francisco que vai para o Chile cobrir a Guerra Civil Chilena de 1891 — foi escolhido por ter ecos com o que aconteceria 80 anos depois, com o golpe de estado que depôs o primo do seu pai, Salvador Allende, e mergulhou o país na ditadura liderada por Augusto Pinochet, forçando-ao exílio em Caracas, na Venezuela.
Seria essa fuga o que a levou à sua carreira literária, até porque “nesses momentos críticos, é quando a parte mais forte de nós se revela”, conta, deixando assim para trás um passado de jornalismo. Isabel Allende equipara esses tempos aos atuais para lembrar que há “tanta coisa má a acontecer” mas “tudo passa”. “E eu vivi o tempo suficiente para me aperceber dos ciclos. Provavelmente não viverei o tempo suficiente para ver o fim deste ciclo, mas ele vai passar.”
▲ A capa de "O Meu Nome é Emilia del Valle", de Isabel Allende, na edição portuguesa da Porto Editora
Porto Editora
O cenário em que se desenrola este romance, a Guerra Civil Chilena, é muito particular e talvez não seja muito conhecido do grande público. O que a levou a escolhê-lo para criar esta história?
Escolhi-o porque tem paralelismos com o que aconteceu no Chile 80 anos depois, em 1973. Em ambos os casos, havia um presidente progressista que tentou fazer grandes mudanças na sociedade e incorporar mais o povo, mas enfrentou uma oposição feroz. Em 1891, as forças armadas intervieram e dividiram-se: o exército ficou com o presidente e a marinha com a oposição e tivemos uma guerra civil que, em quatro meses, matou mais chilenos do que quatro anos de guerra contra o Peru e a Bolívia. Foi muito sangrento! E oito décadas mais tarde, tivemos também um presidente progressista, Salvador Allende, que tentou fazer grandes mudanças e enfrentou oposição. Mais uma vez, as forças armadas intervieram, mas desta vez não se dividiram. Tivemos então um golpe militar e 17 anos de ditadura. Tanto num caso como no outro, os presidentes suicidaram-se. Os paralelismos são tão evidentes que pensei “quero explorar o que aconteceu no passado”. E aqui estamos também no final do século XIX, é uma altura fascinante de mudança, são as consequências da Revolução Industrial e há muita coisa a acontecer. É também uma altura em que as mulheres ainda não tinham sequer o direito de votar, nada, por isso as suas opções eram muito limitadas, isso também foi interessante para mim.
Como acontece em vários dos seus romances, O Meu Nome é Emilia del Valle tem uma personagem feminina forte a tentar navegar num mundo de homens, tentando manter-se fiel às suas convicções. Mas Emilia, em particular, parece ter algumas semelhanças com a sua história de vida. Pode falar sobre isso?
Muitas pessoas já o referiram, como o facto de ela não ter tido um pai. Quero dizer, ela não conheceu o seu pai biológico. Teve um padrasto muito bom, como foi o meu caso. E também começou como jornalista, como eu. Mas é só isso, eu não estava a pensar nisso quando escrevi o livro. De resto, ela é alta e jovem e tem pernas compridas — não é nada parecida comigo!
Um dos maiores paralelos é o facto de Emilia começar a escrever quase por necessidade, pois é uma das únicas áreas de trabalho em que se pode emancipar e escapar à sua “realidade limitada”, como ela a descreve. Da sua parte, a sua vida literária começou com o seu exílio na Venezuela e com a sensação de que tudo o que tinha feito até então tinha de ficar no passado. Em ambos os casos, parece que a adversidade pode levar-nos a patamares que julgávamos inimagináveis. Considera que esse é um dos temas do livro?
Não estava a pensar nisso, mas tem razão. Quando somos desafiados é quando encontramos essa força dentro de nós. Conheço alguém que está a escrever um livro sobre como as pessoas se saem melhor quando têm problemas, quando estão limitadas, quando não é fácil fazê-lo. Nesses momentos críticos, é quando a parte mais forte de nós se revela.
Mas, ao mesmo tempo, podemos ceder à pressão. Qual é o antídoto?
Por vezes, a pressão é tão terrível que algumas pessoas ficam traumatizadas e cedem, mas na maior parte das vezes, sobrevivem e tornam-se mais fortes. Eu tenho uma fundação e trabalho com mulheres. Muitas das nossas clientes são mulheres que passaram pelo inferno, estiveram em locais de guerra, foram violadas, perderam tudo — algumas delas até os filhos —, mas recuperaram e são hoje capazes de continuar a viver com generosidade, com um coração aberto, até com alguma alegria.
Antes de embarcar para o Chile para cobrir a guerra, alguns anos antes, Emilia tem uma entrevista marcante com uma dançarina do ventre em Nova Iorque, que lhe diz que ser uma “mulher má” pode trazer muitas vantagens inacessíveis a uma “dama decente”. Esta ideia de “mulher má” vai surgindo ao longo do romance, quase como um mantra. Apesar de os tempos terem mudado, acha que ainda se aplica atualmente?
Claro que sim. As boas mulheres nunca são recordadas, apenas os seus filhos e netos. Quem são as mulheres que fazem história? Aquelas que desafiam tudo e que são consideradas “más” na sua época porque não cumprem as normas. Elas quebram-nas e é isso que as torna especiais.
E, com Emília, parece manter a sua atração por este tipo de figuras.
Escrevo sobre pessoas que são interessantes! O meu padrasto costumava queixar-se “porque é que eu não apareço nos teus livros? Nunca escreves sobre mim”. E eu respondia-lhe “não escrevo porque tens bom senso”. As pessoas com bom senso não são boas personagens de ficção. Precisamos de pessoas loucas, de pessoas ousadas, pessoas que caem e cometem erros e, por vezes, conseguem redimir-se, mas nem sempre. Em qualquer romance, escrevemos sobre pessoas que são memoráveis, que são diferentes, que passam por situações especiais — caso contrário, porque é que escreveríamos essa história?
Isso também se aplica ao jornalismo. Ninguém escreve sobre ocorrências comuns.
Sim, já reparou que nunca há notícias felizes? Porque a felicidade não chega às notícias. É tudo o que corre mal que se torna notícia.
▲ Ilustração do ataque a Valparaíso pela marinha chilena que apoiava o Congresso contra o presidente José Balmceda durante a Guerra Civil Chilena.
Getty Images
Referi o jornalismo porque, obviamente, é um dos paralelismos que tem sido traçado entre a sua trajetória e o trabalho da Emília ao longo do romance, essa sua vida passada antes da vida literária. O que é que recorda desses tempos? Como é que foi ser jornalista?
Adorei, porque não era jornalista de profissão nem de formação. Nunca frequentei uma escola de jornalismo. Comecei a trabalhar na primeira revista feminista do Chile, a Paula. Era uma revista vistosa de moda, beleza e decoração, mas tinha um pendor feminista. Começámos a publicar sobre o aborto, a infidelidade, o divórcio, todos os assuntos que nunca tinham sido abordados publicamente no Chile, e isso teve um enorme impacto. Cinquenta anos depois, essa revista é considerada um ícone na cultura do país, mudou o tom da conversa no Chile. E eu tive a sorte de ter começado a trabalhar na revista logo no primeiro número, a minha vida era abundante, rica e divertida. Claro que tivemos de lidar com muita agressão e muitos problemas, mas valeu a pena, por todas as coisas que descobrimos, que desvendámos, que investigámos. Éramos três mulheres jornalistas, tão jovens — ninguém tinha sequer 30 anos — e, por isso, acho que não tínhamos qualquer tipo de medo. Pensávamos que podíamos fazer qualquer coisa, e podíamos mesmo.
Acha que essa falta de medo é algo que falta hoje em dia, de alguma forma?
Penso que há pessoas muito corajosas, jornalistas muito corajosos que desafiam o poder. Apresentam-se de frente para o poder com um microfone, e é preciso coragem. Atualmente, nos Estados Unidos, é preciso coragem.
E para além de, obviamente, deixá-la muito mais à vontade com a escrita, que ferramentas acha que o jornalismo lhe trouxe?
Como investigar e verificar a informação. Como conduzir uma entrevista e obter da outra pessoa o que ela não quer dizer. Como estruturar uma história, de modo a captar a atenção do leitor nas primeiras linhas e mantê-la até ao fim. É como lidar com a linguagem. Tudo isso eu aprendi no jornalismo.
Além disso, um sentido de curiosidade, ou acha que isso já existia?
Acho que é preciso tê-lo antes. Porque é que se vai para essa profissão? Porque se tem esse sentido. Queremos estar na rua, a falar com as pessoas, a descobrir o que se passa, a tentar perceber o que move o país, a cultura e as pessoas.
É muito interessante a forma como Molly Walsh, a mãe de Emilia, ajuda a filha a escrever as suas histórias de crime. É quase uma forma de se vingar de um mundo que a injustiçou. Nem toda a gente tem essa relação com a criação de histórias, mas é comum encará-la como uma forma poética de corrigir males ou como uma catarse. Tendo em conta essa perspetiva, qual é a sua relação com a ficção?
Quando escrevo, quero contar uma história a alguém. Sou uma comunicadora, nunca planeio uma mensagem, nem quero provar ou pregar algo. Deixo tudo isso para o meu ativismo, nos livros de não-ficção e na minha fundação. Mas quando escrevo ficção, não há qualquer agenda. Faço-o pelo prazer de o fazer. Agora, claro, muitos romances — não estou a falar apenas dos meus —, mesmo sem intenção, podem ser muito desafiantes e podem mudar a sociedade. Estou a pensar em A Cabana do Pai Tomás, por exemplo. Esse livro fez, em poucos meses, mais do que os movimentos abolicionistas foram capazes de fazer em relação à escravatura nos Estados Unidos. Teve um impacto incrível. Alguns romances de Dickens ou Balzac, que mostram a pobreza, o stress e a miséria das pessoas, revelam partes da sociedade que normalmente não vemos. Portanto, nesse sentido, talvez haja um objetivo, mas eu não penso assim. Só quero contar uma história sobre algo que me interessa. O meu livro anterior chamava-se O Vento Conhece o Meu Nome e é inspirado num caso que presenciei na minha fundação, de uma menina, cega, que foi separada da mãe na fronteira dos Estados Unidos. A mãe estava perdida na burocracia e esta menina, cega, não sabia onde estava, não falava uma palavra da língua, não conhecia ninguém e começou a regredir, estava na cama, não comia, deixou de falar. O trauma foi terrível. Por isso, quando vi aquele caso, preocupei-me tanto com ele que escrevi sobre o assunto, mas não estava a tentar pregar ou fazer… O Trump, por exemplo, nem sequer é mencionado no livro, porque não interessa. É o sistema que cria essa situação. Por isso, quis contar uma história, mas não há pregação.
Não se trata, portanto, de qualquer tipo de inclinação ideológica, mas sim de falar sobre aquilo que nos interessa e que pode, de alguma forma, estar relacionado com o tipo de mensagem?
Sim, porque o autor está sempre nas entrelinhas. Não só eu, mas qualquer autor. “Porque é que escreves sobre isso? Porque é que tem de ser essa história e nenhuma outra?” Porque, de alguma forma, ou estamos a explorar algo em nós próprios, ou estamos a tentar compreender algo, ou estamos muito preocupados com determinado tema. É uma obsessão, torna-se uma obsessão.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Regressando ao que disse sobre o facto de não escrever sobre o seu padrasto por ser uma personagem desinteressante. Há uma dicotomia interessante no livro entre o pai que abandona a Emília e o padrasto que se chega à frente e tem uma relação muito doce e carinhosa com ela. O que é que queria explorar com isto?
É, de facto, uma homenagem ao meu padrasto, porque também o meu pai desapareceu da minha vida muito cedo. E eu tive um padrasto maravilhoso, um homem que me aceitou, me respeitou e nunca me julgou. Eu fiz tantas coisas malucas e nunca ouvi uma palavra dele a dizer “não faças isso” ou a culpar-me por alguma coisa. Eu fazia uma asneira e ele estava lá “ok, vamos ver como posso ajudar”. Era essa a sua atitude, nunca me criticando ou julgando. E isso deu-me muita confiança.
▲ Com 82 anos, Isabel Allende iniciou a sua carreira literária em 1982 com o lançamento do famoso romance "A Casa dos Espíritos"
Nuno Silva e Pinto/Porto Editora
Sem revelar muito da narrativa, podemos dizer que a Emília finalmente conhece o pai e a sua reação não é talvez a que se pensa que vai ter quando o conhece, não há uma represália no sentido que se pensaria que haveria, como a sua mãe queria. Isso quase como que subverte as expectativas. Esta ideia, não tanto de uma vingança, mas de uma chapada de luva branca, era algo que queria explorar?
Coloquei-me no lugar da personagem e pensei “qual seria a minha reação?”. Se tivesse visto o meu pai doente, velho, triste, deprimido, lamentando a sua própria vida, teria sentido compaixão, não raiva. Nunca tive raiva do facto de ele ter me abandonado, nunca me interessei por ele, e a única vez que o vi, ele já estava morto. Morreu na rua [de ataque cardíaco, tendo Allende sido chamada para identificar o corpo]. Por isso, nunca tive qualquer interação com ele. Mas Emília tem com o seu pai, e vê um homem destroçado, não lhe pode dar a carta que a mãe mandou porque percebe que aquele homem não a merece, já está destruído. Porquê bater mais?
Alguns dos seus leitores de longa data poderão aperceber-se de que o apelido “del Valle” já apareceu noutros livros, pelo que este romance se insere no mundo narrativo de obras como Filha da Fortuna. O que é que a atrai para esta família?
Essa família é a minha família materna. E eram todos lunáticos, loucos. Ninguém tinha bom senso, por isso, eram personagens perfeitas para um romance. Quando escrevi A Casa dos Espíritos, muitos dos meus familiares entraram no livro, com as suas personalidades, as suas histórias, só mudei os nomes. São tão claramente retratados no livro que alguns deles nunca mais voltaram a falar comigo, mas eles continuam a regressar porque, em primeiro lugar, a minha avó materna era uma de 12 filhos. Por isso tenho pelo menos 12 tios e tias-avós e somos malucos, gente belíssima para um romance. Tenho material suficiente para muito tempo. O nome da família é que não era “del Valle”, era “Barros”.
Existe também um sentido lúdico, de brincar com estas diferentes personagens e os seus destinos ao longo de vários romances?
Para ver o que acontece a seguir? Sim, sinto-me assim. E adoro quando eles regressam e depois reconheço-os, não obstante não aperceber-me disso no início. No caso de Paulina del Valle, no entanto, ela voltou intencionalmente. Eu precisava dela.
Isso traz-nos de volta à ideia de ser uma “mulher má”, Paulina diz o seguinte a Emília: “A menina não é jornalista? Isso não é bem-visto numa mulher, mas quase nada do que fiz na minha vida foi bem-visto. O que não me impediu de fazer o que me apetece”. Quase sente que está ali para cumprir esse objetivo.
Ela é a verdadeira definição de “mulher má”. Essa personagem é baseada na minha antiga agente, Carmen Balcells. Ela era exatamente como a Paulina, alguém maior do que a vida, agressiva, boa com negócios, orientada para o dinheiro, mas com um coração generoso e muito sentimental, ao ponto de García Márquez lhe ter dedicado um romance [Do Amor e Outros Demónios] — “a Carmen Balcels, banhada em lágrimas” — porque chorava facilmente. Por isso, nesse contraste, adorei essa personagem. Quando escrevi sobre Paulina, primeiro em Filha da Fortuna, Carmen reconheceu-se e ficou encantada.
A chegada de Emilia ao Chile leva-a a tentar navegar nas águas turvas das batalhas políticas, que se tornam ainda mais difíceis e perigosas de discernir quando se trata de uma guerra civil. Que temas pretendia aprofundar com esta obra?
Primeiro, quis explicar porque é que entraram em guerra, é preciso explicar a tensão política. O que é que estava em jogo? Para mim, o que era muito interessante era esta guerra entre pessoas, entre chilenos, irmãos a matarem-se uns aos outros. E foi absolutamente brutal. Como referi, morreram mais chilenos em quatro meses do que em quatro anos de guerra contra o Peru e a Bolívia. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos com a Guerra Civil, morreram mais pessoas nessa guerra do que em todas as guerras que os Estados Unidos tiveram desde então. Quando se trata de uma guerra civil, acontece alguma coisa, as pessoas enlouquecem. Queria responder às minhas perguntas. Quando estou a escrever sobre guerra, claro que sei que existem documentos militares, fiz muita pesquisa, e conheço os livros de história, mas esses são escritos pelas pessoas que ganham a guerra e por homens — normalmente homens brancos. Todas as outras vozes são ignoradas. Não temos as vozes das mulheres, dos vencidos, dos povos indígenas. As minhas perguntas são: o que aconteceu aos cavalos que foram mortos em combate? Como é que se fazia uma amputação? Havia anestesia na altura? O que é que usavam? Assim, ao fazer estas perguntas, obtenho grande parte da investigação.
A propósito disso, um tema recorrente nestes conflitos é o papel invisível das mulheres. Na Guerra Revolucionária Mexicana, havia as soldaderas; na Guerra Civil do Chile, havia as cantineras. Portanto, há sempre um papel das mulheres que passa quase despercebido.
Não há nomes, sabe? Conhecemos os nomes dos generais, dos brigadeiros ou de quem quer que seja, mas não das mulheres que lá estavam. E elas não eram apenas enfermeiras — dobravam as roupas, faziam a comida, traziam água no meio do campo de batalha. E se fossem derrotadas, seriam mortas como os homens, mas as suas vozes foram silenciadas. Por isso, para este romance, tentei encontrar uma personagem na história do Chile, uma cantinera, um nome.
Também quis ressalvar o aspeto político do romance porque, no momento em que estamos a falar, Portugal acabou de sair de eleições que resultaram na extrema-direita a tornar-se na segunda maior força no nosso parlamento. Isto parece seguir uma trajetória de cada vez mais países a pender para a extrema-direita ou o autoritarismo. Como sobrevivente da ditadura de Pinochet, como avalia os tempos atuais?
Acho que é muito assustador, mas tudo passa. Tudo é temporário. E isto pode acabar muito mal, mas vai acabar. Atualmente, nos Estados Unidos, onde moro, há um ataque à democracia, à Constituição e aos direitos das pessoas. E é feito abertamente, não é um mistério. Por isso, acho que é muito assustador porque tem a aprovação popular. Este é um presidente democraticamente eleito, por isso as pessoas queriam-no. Agora vão ter de pagar as consequências.
▲ O Presidente do Chile, Salvador Allende, a posar para um retrato em 10 de junho de 1971, dois anos antes de ser deposto num golpe de Estado.
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Existe uma ideia em curso — e que até já tinha sido avançada por Francis Fukuyama em O Fim da História? — de que é quase como se tivéssemos, de um modo geral, chegado a um estado de coisas relativamente próspero no mundo e nos tivéssemos aborrecido com isso e agora estamos a encontrar novos problemas para criar a partir do tédio.
Não tinha pensado nisso, mas tem razão. Penso que a democracia é como ter boa saúde, que tomamos como garantida até a perdermos e, quando a perdemos, apercebemo-nos de como é difícil recuperá-la e de como é valiosa. Mas durante a minha vida — tenho 82 anos — assisti a progressos. Nasci antes da Declaração dos Direitos do Homem, antes das Nações Unidas, em plena Segunda Guerra Mundial, em pleno Holocausto, com a queda das bombas atómicas. Havia 50 milhões de refugiados, só na Europa. Portanto, vi progresso e vi momentos maus. Os anos 60, nos Estados Unidos, foram a época da guerra do Vietname, dos protestos, do movimento dos direitos civis, do assassinato de Kennedy e de Martin Luther King. Tanta coisa má a acontecer. Mas depois passa, tudo passa, e eu vivi o tempo suficiente para me aperceber dos ciclos. Provavelmente não viverei o tempo suficiente para ver o fim deste ciclo, mas ele vai passar.
Então o que está a dizer é que a idade também lhe trouxe perspetiva?
Passa-se a ver o panorama geral. Quando estive no Chile nos anos 70, tinha 30 e poucos anos, não conseguia ver nada para além da ditadura, do Chile, do facto de que isto ia durar para sempre, e que as pessoas estavam a ser torturadas e mortas e desaparecidas. Mas agora vejo para lá disso, vejo todas as outras coisas, porque viajei e porque envelheci. Por isso, não estou desesperada. Estou furiosa, mas não estou desesperada como estava na altura. Estava aterrorizada, estava doente de medo.
Com a imensa popularidade da sua literatura, veio também algum escrutínio e crítica, nomeadamente a ideia de que a sua ficção era de consumo fácil. Hoje em dia, porém, parece haver um consenso muito maior sobre a sua importância literária. Como olha para esta trajetória?
Como disse antes, para uma mulher, é preciso o dobro do esforço de qualquer homem para ser respeitada, para ter sequer metade do respeito e do reconhecimento, especialmente no seu próprio país — as piores críticas ao meu trabalho foram feitas no Chile. Acabei por receber os prémios literários e tudo o mais, mas é sempre difícil para uma mulher. E se vendermos muitos livros, somos considerados ficção ligeira. No entanto, nem sempre é esse o caso, porque García Márquez também vendeu muitos livros, Stephen King também vende muitos livros, por isso depende. Demorei muito tempo a ser respeitada, mas sabe que mais? Isso nunca me impediu e nunca me preocupei muito com isso, porque para mim isto não é uma carreira. Esta é a minha vida e adoro o processo, adoro o que faço, mas nunca o planeei como uma carreira. Não tenho ambições disto ou daquilo ou deste prémio. Não importa. Desde que tenha alguém a quem contar a história, sinto-me feliz.
E tem algo que até pode ser desconsiderado em certos círculos literários, mas é a maior benesse de um escritor, que é ter leitores.
Tenho muitos leitores, em muitas línguas, e isso é maravilhoso. E as pessoas perguntam-me “porquê, porque é que tem sucesso?”. E eu acho que é porque escrevo sobre emoções e relações, e isso é universal. Todos nós nos sentimos da mesma maneira.
O facto de ser uma escritora tão importante acarreta algum sentido de responsabilidade para si? Sente isso?
Apenas no sentido em que não quero pôr ideias horríveis na cabeça de alguém. Por exemplo, neste livro, há cenas de tortura, mas não são descritas. Ouvimos falar delas, mas não as vemos, porque não quero. Nesse sentido, sou cuidadosa. Embora faça parte da história, tenho cuidado com a descrição. Essa é a única coisa em que me autocensuro. Mas, de resto, desde que esteja a contar uma história que me interesse, sigo com a corrente.
Nos últimos anos, tem-se falado de uma nova geração de escritoras latino-americanas. E é interessante porque têm grande popularidade e aclamação crítica, mesmo que muitas das suas obras sejam vistas como desafiantes ou mesmo violentas. Qual é a sua opinião sobre isso?
Adoro isso. As mulheres escrevem na América Latina desde sempre, mas entre os anos 60 e os anos 80 — na verdade, mesmo depois dos anos 80 — tivemos este boom literário, mas eram todos homens. Nenhuma voz era feminina. Por isso, agora adoro o facto de termos esta onda de jovens escritoras de diferentes países, acho que é maravilhoso.
Já falou sobre este tema antes. Não lhe parece um pouco redutor considerá-las todas na mesma categoria pelo facto de serem mulheres?
Não. Em parte, acho que tem razão. Quando se junta um adjetivo à palavra “literatura”, diminui-se a sua importância. Quando se diz literatura para jovens adultos, literatura negra, literatura asiática, o que quer que seja, o adjetivo diminui, porque a “Literatura” — com L maiúsculo — é escrita por homens brancos. Mas quando há um movimento como este, acho que é muito importante salientar que é composto de mulheres, porque é um fenómeno único. Nunca aconteceu antes, nunca.
A sua carreira literária estende-se por mais de 40 anos e, na última década, tem vindo a escrever e a publicar a um ritmo muito constante. O que é que mantém para si esta dinâmica?
Não tenho mais nada para fazer! Não vou ter vida! (risos) Isto é o que eu gosto de fazer e não faço mais nada. Não tenho de cuidar dos filhos, dos netos ou dos meus pais, isso já está feito. Por isso, agora vivo uma vida muito tranquila em que passo o dia a escrever. O meu marido tem a minha idade, anda na universidade e estuda várias coisas diferentes. Sai de manhã com uma mochila e a sua lancheira. É a pessoa mais velha de Berkeley e toda a gente o conhece. No outro dia, estávamos num jantar e uma jovem adorável aproximou-se e disse “estudo consigo, estou na mesma turma!” Toda a gente o conhece porque ele é a pessoa mais velha, e ele, de facto, parece muito velho, não é um daqueles que parecem jovens e andam de forma atlética. Por isso, quando ele chega a casa, deixo de escrever, mas o resto do dia é o que faço.
▲ Isabel Allende, fotografada em 1985 durante o seu exílio em Caracas, na Venezuela.
AFP via Getty Images
Sem querer entrar muito na sua vida privada, já mencionou noutras entrevistas que se divorciou aos 73 anos e voltou a casar aos 77. Portanto, a sensação quanto ao que está a dizer é que mantém esse mesmo espírito na sua vida e na sua escrita, de nunca parar.
Acho que isso só vai acontecer quando perder o cérebro. Quero dizer, se ficar demente ou paralisada ou algo do género, suponho que então pararei. Mas entretanto, se tenho saúde e mantenho-me forte, porque hei de parar?
Anunciou em algumas entrevistas que o seu próximo projeto é um novo livro de memórias e que a enorme correspondência que manteve com a sua mãe é de grande ajuda para isso. Escrever romances também ajuda nesse sentido, ao despertar ligações e reminiscências da sua própria vida que poderia ter esquecido?
Bem, sobre o que é que escrevemos? Escrevemos sobre a nossa própria experiência. Mudamo-la, mas usamos a nossa experiência, a nossa memória, as pessoas que conhecemos, as coisas que nos interessam. Esse é o material para um romance. E podemos pegar numa história como Inés da Minha Alma, por exemplo, que se passa em 1500, e é uma personagem completamente diferente de qualquer pessoa que viva hoje, mas eu posso ser essa mulher nessa situação e posso dar-lhe a minha experiência de ser uma mulher num mundo de homens. É por isso que não consigo escrever romances muito introspetivos sobre um casal que está a fazer terapia porque se vai divorciar em Nova Iorque. Não consigo relacionar-me com isso, não me interessa mesmo nada! (risos)
Disse que tem pensado um pouco mais sobre o além e aquilo que não conseguimos compreender verdadeiramente, mas que faz parte da nossa vida, o que tem sido, em alguns casos, apontado também para a forma como tece o realismo mágico nos seus romances. O que é que mudou ao longo da sua escrita? Sente que está mais sintonizada com essa ideia do além ou com a ideia deste mundo espiritual?
Em todos os meus livros e na minha vida, há uma sensação de que existe uma dimensão misteriosa da realidade. Isso vem da minha avó. Eu era muito nova, não tinha sequer três anos, quando fui viver com os meus avós. Ela, que passou a sua curta vida a fazer experiências com o paranormal, acreditava em tudo isso, claro. Fazia sessões espíritas em casa às quintas-feiras. Por isso, cresci com a ideia de que há outro mundo, que as almas dos mortos estão connosco, astrologia, telepatia, todas essas coisas estavam lá em casa. Não acredito em metade dessas coisas e não vejo fantasmas, mas acredito que, num exercício de memória e de amor, mantenho a minha filha comigo a toda a hora. Tenho a minha mãe comigo. Não é que eu pense que há um espírito que vem ter comigo — sou eu, a recordar. Mas há tanta coisa que não compreendo, coincidências. Aqueles sonhos proféticos em que eu sonho uma coisa e presto atenção porque sei que vai acontecer alguma coisa relacionada com aquilo.
Vou dar um exemplo. Só quando estou a escrever é que sonho com bebés. E o que acontece ao bebé no sonho, acontece ao livro na vida real. Aprendi isto com o tempo. Portanto, se eu sonhar com um bebé, dependendo da sua idade, essa é a fase do livro. Portanto, se estou a acabar o livro, o bebé tem um ano; se estou a começá-lo, é um recém-nascido. E o que acontece com o bebé influencia também. Por exemplo, se há um bebé recém-nascido que chora com a voz de um velho, então sei que tenho de prestar atenção à voz narrativa. Não é boa, tenho de a mudar. É assim que o sonho me informa. Claro que há uma explicação para isso.
E qual é?
É que tenho todas estas ideias na cabeça e não as consigo processar. Mas quando estou a dormir, consigo juntá-las. Portanto, há explicações para tudo. Mas o facto de o sonho funcionar é um mistério, de certa forma. E como isto, há tantas coisas. A coincidência de se encontrar num sítio onde se tem a certeza de já lá ter estado, mas onde não é possível ter estado antes. Ou uma pessoa que se encontra e que tem-se a certeza que já a conheceu, mas nunca a conheceu. Então porquê? Todas essas coisas que são mistérios na vida é o que pode vir nos livros. E não se trata de um mero artifício, faz parte daquilo em que acredito.