Final de 2022. No seio do grupo Salvador Caetano nascia a Go Charge, a pensar na mobilidade elétrica. O grupo do Norte tem várias representações em Portugal de marcas de automóveis, muitas a dar cartas no segmento elétrico. BYD, Farizon, Xpeng, Voyah, Dongfeng são algumas das marcas chineses sob sua alçada, às quais se juntam a Toyota, Lexus, Nissan, Honda e Hyundai. A Go Charge nasceu, assim, para “ajudar” o grupo Salvador Caetano a “vender mais carros elétricos”, fundando uma empresa para soluções de carregamentos que tem um plano de expansão ambicioso e que, em 2026, passa por “aterrar” em Espanha.
Ricardo Soares, diretor geral da Go Charge, não esconde o propósito da empresa: “O nosso propósito é incrementar a quota de mercado do grupo Salvador Caetano no mercado dos veículos elétricos”.
A transição de carros a combustão para elétricos tem resistência em particular devido aos carregamentos e à autonomia dos automóveis. “Quisemos criar uma entidade com uma solução que possa dar ao cliente tranquilidade”, realça ao Observador Ricardo Soares, assumindo que “não vamos aumentar a autonomia do carro nem tirar a ansiedade [o chamado range anxiety], mas quisemos dar aos nossos clientes, quando compram um carro elétrico no Grupo Salvador Caetano, uma forma de carregar na rede pública através de uma aplicação de carregamento — que permite ao cliente, assim que sai com o carro novo, poder carregá-lo — e também uma solução de carregamento, através da instalação de postos de carregamento em casa ou na empresa”.
Para o gestor, “é indispensável que exista uma rede privada, porque entendemos que, com o crescimento do parque automóvel, a rede pública, por muito boa vontade dos players, não vai ter capacidade per si de responder a toda a necessidade de carregamento”. A rede privada funcionará, assim, de “suporte a trabalhar em complementaridade com a rede em locais públicos”.
Se a Go Charge foi criada a pensar naqueles que compravam carros elétricos na Salvador Caetano passou, entretanto, para lá desse universo. Neste momento, diz ao Observador Ricardo Soares, mais de metade dos clientes já não têm relação com o grupo, nomeando clientes como a Delta Cafés, Media Capital ou Taylor Fladgate. A empresa terá fechado 2025 com 1.300 carregadores vendidos, 500 dos quais instalados em particulares.
“Rapidamente entendemos que havia um mercado para a Go Charge trabalhar de forma independente do grupo e trabalhar diretamente com as empresas e com os clientes que não compram carros ao grupo, através da instalação de postos de carregamento como fornecedor de soluções de mobilidade elétrica e, até, numa fase posterior como fornecedor de soluções de transição energética”.
Crescer nos clientes particulares. Apoios à instalação são importantes
A Go Charge já tem 500 instalações feitas em particulares. O objetivo, garante o responsável da empresa, é “crescer muito para lá disso”. Admite que o conseguido é ainda um número relativamente baixo, mas não há dados oficiais sobre a totalidade de postos instalados junto de particulares. E Ricardo Soares admite dificuldades neste universo de clientes, em que ainda há muitos a ligarem à tomada elétrica.
“Há pessoas que não têm condições para ter um carregador em casa e dependem totalmente da rede pública”, admite, sugerindo que muitos dos utilizadores de carros elétricos se socorrem também de redes instaladas nas empresas onde trabalham.
Sendo a Go Charge instaladora de carregadores, os clientes terão de ter um contrato para o fornecimento de energia. Mas a empresa garante que ajuda os clientes também nesse processo. “Não está nos nossos planos tornarmo-nos comercializadores”, mas “está nos nossos planos sermos um fator de tranquilidade para o cliente e ajudá-lo também nisso”. E mais. A Go Charge garante que também trabalha junto do condóminos para desbloquear entraves que muitas vezes existem na instalação de carregadores em garagens comuns.
Se a legislação não é um problema, porque o condómino que queira instalar um carregador está protegido, Rocardo Soares admite que muitas das garagens não têm potência elétrica que permita essas instalações. E aí é que o processo poderá esbarrar. “A lei diz que pode instalar um carregador, mas não diz que o condomínio tem de por uma instalação elétrica que suporte um carregador” e, por isso, garante, “esse é um segmento que temos de tentar trabalhar, que é o de ajudar os condomínios a serem eles a revisitarem a sua instalação, a reforçarem a instalação e a promoverem e disponibilizarem aos condomínios soluções de carregamentos”. Ricardo Soares admite que é uma área com limitações técnicas, mas também económicas.
E, por isso, sugere que o Orçamento do Estado ou o Fundo Ambiental possam ter incentivos à mobilidade elétrica, mas não olhando apenas para a compra de veículos. “Devia existir um apoio à instalação de carregadores para particulares, para condomínios e para pequenas empresas para que estas pequenas redes possam suportar o crescimento da mobilidade elétrica, porque um utilizador que carrega o carro durante a noite é um utilizador a menos a pressionar um posto público”. Instalar um carregador num condomínio pode custar qualquer coisa em torno dos 1.000/1.500 euros, assegura, valor que, no entanto, acrescerá significativamente se for preciso intervenção na infraestrutura elétrica, compromisso financeiro que muitos condóminos não estão dispostos a fazer.
▲ A Go Charge não entrou, ainda, nos postos públicos, mas não descarta avançar para essas instalações
João Girão / Global Imagens
A entrada em Espanha e a expansão que pode passar por aquisições
Com a presença em Portugal a crescer, a Go Charge traçou para este ano uma nova ambição. A expansão para Espanha que marca, assim, a primeira etapa de internacionalização da companhia. Numa primeira fase, as regiões de Madrid e Málaga serão as apostas iniciais, mas a meta é alargar a todo o território até 2028.
Em Espanha o arranque será nos mesmos moldes do que foi feito em Portugal, “como entidade de suporte às operações do grupo Salvador Caetano” que já está no país vizinho e “é o maior grupo de venda de automóveis”. Ricardo Soares explica essa liderança pelo facto de estar em várias províncias, já que muitos concorrentes são regionais.
“Sendo o grupo Salvador Caetano o maior grupo de venda de automóveis em Espanha, dá-nos uma tração muito grande para suportar as atividades, ou seja, temos um potencial de venda já muito grande”. O grupo Salvador Caetano é o representante em Espanha da marca chinesa Xpeng, o que permite chegar a províncias onde o grupo não tem operação própria, mas está através de concessionários.
Para o crescimento em Espanha, a Go Charge não descarta “ir às compras”. É um mercado fragmentado. “Nós temos o plano de crescer rapidamente e, não tendo nós uma presença tão grande no mercado como temos em Portugal, a expansão passará provavelmente pela aquisição de um player local, já com alguma pegada”, admite.
Nos projetos futuros a Go Charge não descarta também entrar como instalador de postos públicos, que até agora não estiveram na atividade da empresa. “Neste momento não temos postos em locais públicos”, diz Ricardo Soares, admitindo, no entanto, que “é um projeto que temos para o médio prazo, até decorrente das alterações jurídicas da mobilidade elétrica”. Pode até já ser em 2026 em Portugal, mas também em Espanha pode acontecer essa operação, mas mais à frente.
A Go Charge estima ter fechado 2025 com um volume de negócios de 3,5 milhões de euros, traçando como meta chegar aos 10 milhões em 2031. Além dos 1.300 carregadores vendidos globalmente, o ano ficará fechado com 12 mil utilizadores da aplicação de carregamento. Neste momento a empresa tem 31 trabalhadores, apontando para este ano subir para 48: 40 em Portugal e 8 em Espanha.
(notícia corrigida as 9h30)