Henrique Gouveia e Melo deixa tudo em aberto: sugere sem dizer qual (felicitou ambos) que pode apoiar um dos dois candidatos que passaram segunda volta e admite continuar na política para aproveitar os quase 700 mil votos que os portugueses lhe deram. No discurso de derrota deste domingo, o almirante fugiu a todas as questões sobre a criação de um partido ou de um movimento cívico, mas mostrou-se disponível para continuar na vida política. Vai dizendo que é “muito precoce” para tomar decisões, mas nem uma nova candidatura em 2031 está descartada.
Sobre o futuro político, Gouveia e Melo fez questão de destacar que os “mais de 600 mil votos” (na verdade são 693 mil) são uma “enorme responsabilidade”. Antes da votação tinha chegado ao Hotel Coríntia, em Lisboa, a reafir que tinha dois caminhos: “Um cenário é continuar [na vida política], outro dedicar-me à minha vida privada”.
No discurso, acabaria por sugerir que está mais inclinado a escolher para a segunda opção : “Depois de 45 anos a estar a vir a Portugal, posso afirmar com clareza que o país continuará a contar comigo, com a minha participação cívica com a minha voz e com o meu empenho na defesa dos valores. Continuarei assim disponível para servir Portugal, com lealdade, sentido de dever e profundo respeito pelos portugueses”.
Mas Henrique Gouveia e Melo vai mais longe do que isso: diz que ainda não desistiu de despartidarizar a Presidência da República, deixando em aberto uma nova tentativa de chegar a Belém. “Acreditei, e continuo a acreditar, na necessidade de despartidarizar a Presidência da República e devolver a esse cargo a natureza suprapartidária.”
No último dia de campanha, durante uma viagem de comboio entre Cascais e Lisboa, Henrique Gouveia e Melo estava a dizer que o seu “último serviço” ao povo português era a candidatura. Porém, quando questionado sobre se podia garantir que daqui a cinco anos não concorreria de novo, deixou o cenário de ser candidato em 2031 em aberto: “Não garanto nada”.
O assunto do seu futuro é tema desde os últimos dias de campanha. No programa Prova Oral, da Antena 3, Henrique Gouveia e Melo foi questionado sobre a criação de um partido e respondeu: “Não ponho de parte, porque já aprendi a não pôr de parte nada, qualquer projeto político de futuro se isso estiver dentro da minha capacidade”.
Questionado então diretamente sobre se esse projeto seria um partido, não rejeitou liminarmente essa possibilidade, mas mostrou-se mais favorável a outro tipo de estrutura: “Um projeto político não é necessariamente criar um partido. Pode ser um movimento cívico, mas para já não passa pela minha cabeça fazer uma coisa dessas”.
No dia seguinte, esclareceu e disse aos jornalistas que podem “ter a certeza que não vou fundar nenhum partido.” Gouveia e Melo (e vários dos seus apoiantes ouvidos desde então pelo Observador) admitia, no entanto, prosseguir a atividade política através de um movimento cívico, sem especificar se é a associação já criada (Honrar Portugal) ou uma outra. “Fico com esse capital, ninguém me vai retirar esse capital.”
Os quase 700 mil votos fazem com que (à exceção de Sampaio da Nóvoa, que teve o apoio de metade do PS), Gouveia e Melo tenha sido o independente com melhor resultado (em termos absolutos de votos) sem o apoio declarado de um partido. Fernando Nobre, em 2011, teve 14,1%, mas apenas 594.068 votos . O resultado do almirante em 2021, teria chegado para ficar em segundo lugar com mais votos do que por exemplo Ana Gomes (541.556) ou mesmo o André Ventura de 2021 (que teve na altura 496.773).
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Apoia a Segurou ou Ventura? “Falarei”
Durante a campanha eleitoral, Henrique Gouveia e Melo disse sempre que não diria quem apoiava na segunda volta porque nem sequer admitia não estar lá. Mas foi o que aconteceu. Questionado sobre essa escolha, o almirante fez questão de dizer: “Não disse que não ia tomar posição [sobre a segunda volta]. Só disse que era prematuro para tomar posição”.
O candidato, que ficou em quarto, distingue no entanto a sua tomada de posição individual de uma indicação de voto aos seus apoiantes: “Ninguém é dono de ninguém. Eu só sou dono de mim próprio e da minha consciência.” Mas sugere que irá dar essa indicação a título pessoal: “Mais tarde falarei quando achar que é oportuno”.
No discurso, Henrique Gouveia e Melo fez questão de não distinguir, para já, os dois candidatos que conseguiram passar à próxima fase: “Acabei de felicitar pessoalmente o António José Seguro e André Ventura pela passagem à segunda volta”. A decisão fica para depois.
Afinal, o que falhou?
Henrique Gouveia e Melo chegou a ser super-favorito e só saiu da liderança das sondagens no último trimestre de 2025. Ficou, por isso, aquém das expectativas que inicialmente foram criadas. “Os resultados destas eleições não corresponderam aos objetivos que traçámos”, confessou. Na verdade, o único pequeno objetivo atingido foi ficar à frente de Marques Mendes e prejudicar a candidatura do comentador político. Tudo o resto falhou.
Na sua própria análise, o almirante diz que ainda é cedo para “abordar com alguma profundidade “o que aconteceu ou deixou de acontecer”, mas acaba por dar duas grandes razões: a partidarização das eleições e a influências das sondagens.
“Na minha opinião nós não tivemos, verdadeiramente, umas eleições presenciais. Tivemos mais umas eleições legislativas. E, consequentemente, por isso, um candidato independente ressentiu-se desse processo”, diz sobre o facto de sete partidos com assento parlamentar terem um candidato que apoiavam.
A outra razão, diz o almirante, foram os estudos de opinião. “Sobre as sondagens, há sempre uma dúvida que fica no ar a partir de agora: é causa ou consequência.” E deixa uma sugestão para o futuro: “A minha proposta é que, no período que aparece a decisão eleitoral, não deve haver um período de sondagem.” A primeira batalha está perdida, mas a guerra continua.
A sala escolhida está cheia e sem lugar para todos. Apoiantes de todas as horas como o mandatário nacional Rui Rio ou o empresário Mário Ferreira fizeram questão de estar, mesmo na hora da derrota, na primeira fila.