Gouveia e Melo encheu esta quarta-feira o Grande Auditório do ISCTE para apresentar o manifesto de candidatura, uma folha A4 com cinco tópicos e pouco mais de três mil caracteres. Com pouco conteúdo, o ponto alto seria mesmo o discurso do candidato presidencial, dividido em dois campos de ataque: evidenciar os seus próprios méritos e atacar as falhas de adversários. De forma velada, sem citar nomes, mas com mísseis direcionados, atirou a Marques Mendes, André Ventura, António José Seguro e até ao incumbente, Marcelo Rebelo de Sousa.  Com Rui Rio, o mandatário nacional, na plateia, o Ministério Público também não escapou às críticas do almirante.

Ataques a Marcelo, Ventura, Mendes e Seguro

Gouveia e Melo atacou os adversários ao dizer, essencialmente, o que um chefe de Estado não deve ser. O primeiro tiro à concorrência a Belém foi quando disse que “o Presidente não pode ser hesitante, nem um catavento, muito menos um demagogo ou populista“. A dúvida é se se estaria a referir aos adversários nesta corrida ou a Marcelo Rebelo de Sousa, mas, em declarações aos jornalistas no final, confirmou que estava a “pensar no futuro“, já que “passado é passado”.

O “catavento” — expressão que Passos Coelho utilizou para definir Marcelo — seria então dirigida a Marques Mendes e a expressão “demagogo ou populista” a André Ventura. Depois, visando todos os candidatos com apoio partidário (em particular Mendes, Ventura e também Seguro), defendeu que “o Presidente não pode ser o cavalo de Tróia de qualquer partido”. Uma vez que “não está na Presidência para dizer sim a tudo”. Mas logo acrescentaria, numa tirada que atinge o incumbente Marcelo, que o Presidente também não serve “para derrubar governos à primeira oportunidade.”

O almirante atiraria ainda depois a Marques Mendes e António José Seguro — que já foram líderes partidários e agora concorrem ao mais alto cargo da Nação — ao dizer: “Não vejo a Presidência como uma reforma dourada de uma carreira política.” E, em mais um duplo ataque, desta feita dirigida a Marcelo e a Marques Mendes, explicaria que não vê a política “nem como um palco de vaidades e muito menos de intrigas”, mas sim “como uma missão ao serviço de Portugal.” E ainda acrescentava, na mesma alusão aos dois ex-comentadores políticos e ex-líderes do PSD: “A política não é o diz-que-disse.”

Gouveia e Melo garantia também que não tem “nada contra os partidos”, que “até são importantes na democracia”, mas advertia: “Se não ter ligações aos partidos é estar fora do sistema, então eu estou fora do sistema. Se o sistema é a democracia, as instituições e uma sociedade livre, então é claro que eu faço parte desse sistema.”

Depois de apontar os vícios do sistema partidário, Gouveia e Melo contrapõe com o seu próprio “perfil”, que acredita ser determinante. “Precisamos de um Presidente que compreenda o mundo, que tenha uma visão clara, que domine os assuntos da Defesa e que saiba orientar o país com segurança e com confiança, sem alarmismos, sem demagogia”.

Críticas à justiça com Rio a assistir e o “tema quente” da imigração

O mandatário nacional da candidatura de Gouveia e Melo, Rui Rio, que tem sido bastante crítico da Justiça, estava a assistir. Como alguém comentava na plateia: “O almirante é tão  convincente que consegue convencer Rui Rio a vir a Lisboa”.

Do púlpito, Gouveia e Melo defendeu que a Justiça “só cumprirá a sua função se for também acessível a todos e decidir em tempo útil, sem espetáculos mediáticos nem fugas de informação que mais parecem dirigidas por agendas nada relacionadas com os fins da própria Justiça.” Após atirar a “agendas” de interesses ocultos, Gouveia e Melo acrescentou que “uma Justiça em que o povo não confia é um fator que contribua para uma democracia enfraquecida.”

Sobre a imigração, revelaria uma posição moderada, atirando novamente de forma velada a Ventura. “A imigração é um tema quente que agita o país. Devemos tratá-lo com informação
e serenidade, nunca com medo ou ódio. Portugal nunca foi um país de muros. Foi sempre uma terra de encontros e deve continuar a ser assim, justo e humano. Entre o entra tudo e o sai tudo, há um caminho de bom senso, inteligência e equilíbrio.”

No entanto, acabou por ir um pouco mais longe do que tem ido nos últimos meses, ao fazer uma leve relação entre imigração e segurança e ao alinhar na tese de que os imigrantes nivelam por baixo os salários dos portugueses. Sobre a atividade económica, disse então que a imigração deve ajudar a nossa economia a crescer, não pode servir para precarizar e reduzir os salários dos portugueses.” Mas também defendeu que a mesma imigração “não pode gerar também insegurança“, e que “quem vem viver connosco deve respeitar as nossas leis e a nossa história.”

O pós-discurso: o regozijo por o país “voltar ao centro

Não estava previsto Gouveia e Melo falar no fim, mas o almirante não resistiu ao ver os microfones e as câmaras. As primeiras questões foram sobre o resultado das autárquicas em que, em declarações aos jornalistas, o candidato começou por registar que “as autárquicas são coisas mais unipessoais” e que, por isso, os “resultados das legislativas não se refletem nas autárquicas.”

Sobre esses mesmos resultados de domingo, o almirante mostrou-se satisfeito com a força demonstrada por PS e PSD, os partidos que tem dito em que votou toda a vida: “Preocupo-me sempre com o centro político. Quanto maior for o centro político, mais equilibrado é o país. E o que eu vi foi o país voltar ao centro e a votar de forma muito significativa no centro.”

Nessa ocasião, Gouveia e Melo aproveitou para voltar a atirar aos adversários apoiados por partidos, que são as maiores ameaças à sua vitória: “Não vou concorrer a umas segundas legislativas. E estou a ver que há quem o queira fazer”.

No evento falaram ainda várias figuras como o antigo ministro da Saúde e mandatário distrital de Viseu, António Correia de Campos, e o ex-CEO do gigante automóvel Stellantis, Carlos Tavares. Mas, no fim do dia, o menos importante foi o manifesto.

O que dizia, afinal, o manifesto?

O manifesto, distribuído pelas cadeiras, era afinal uma folha A4, com pouco mais de 3.400 caracteres. O manifesto não faz mais do que resumir algumas ideias do almirante, não acrescentando novidade àquilo que Gouveia e Melo tem dito. Além disso, sintetiza em cinco pontos as qualidades do almirante para exercer o cargo. Aqui está ele, na íntegra:

MANIFESTO: PORQUÊ GOUVEIA E MELO
O cargo de Presidente da República é um cargo unipessoal, que deve ser exercido com elevação, independência e equidistância dos interesses e programas partidários. Os poderes formais do Presidente estão bem definidos pela Constituição, correspondendo à distribuição equilibrada pelos órgãos de soberania. Mas, para além dos poderes formais, o Presidente da República dispõe de uma legitimidade singular adquirida por um sufrágio universal maioritário e respeitabilidade pública que lhe confere uma autoridade moral muito própria. Usada ponderadamente, essa magistratura de influência poderá orientar caminhos, aconselhar, promover diálogos e aproximações, dirimir divergências, influenciar decisões e mobilizar a sociedade para a superação dos desafios do País. Nas circunstâncias que o País vive, em que se destacam nomeadamente uma grande fragmentação partidária e significativas dissensões sobre os caminhos da governação, a eleição de um novo Presidente da República assume uma importância fundamental e poderá fazer uma enorme diferença nos anos vindouros Henrique Gouveia e Melo reúne, de forma impar, um conjunto de atributos que o destacam, na eleição que se aproxima, como o candidato melhor capacitado para fazer essa diferença:

1- Liderança, Coragem e Espírito de Missão

Não só na gestão pública dos mais elevados cargos que, ao longo da vida, desempenhou de forma inovadora e com visão estratégica, como, sobretudo, numa comprovada capacidade de liderança serena e decidida, mesmo em situações extremas de crise, sobrevivência ou conflito.

2- Independência

Num tempo de reconfigurações da nossa representação parlamentar, com um número recorde de partidos na Assembleia da República e oscilações inéditas nas tendências de voto, importa ter, mais do que nunca, uma figura independente e equidistante das forças partidárias no mais alto cargo da Nação. Um Presidente que seja referência unificadora da Nação e um zelador dos seus valores e da sua cultura, das instituições nacionais, da autoridade e credibilidade do Estado e da confiança pública em que assenta a coesão social.

3- Integridade
Demonstrada num percurso de vida distante de todos os grupos de interesses que naturalmente existem, de todos os quadrantes e naturezas, sempre orientado pelo superior interesse nacional.

4- Conhecimento
Em áreas fundamentais para o exercício da soberania do Estado. Num contexto internacional instável e perigoso, tem a experiência profissional, a cultura estratégica que nela adquiriu e a perspetiva do mundo complexo e interativo que obteve no ponto de observação privilegiado que a vida lhe proporcionou. Estas são características que farão toda a diferença em ter um Presidente da República – o Comandante Supremo das Forças Armadas por inerência constitucional – profundo conhecedor que trabalhe em estreita cooperação com o poder executivo.

5- Visão e Capacidade Mobilizadora
Bem reveladas nas suas ações de liderança que se tornaram mais visíveis publicamente e cuja importância se destacará mais no tempo de acelerada evolução e de novos desafios que o País tem pela frente.