Uma guerra de vários meses pelo controlo da opinião pública. É para isso que se vai preparando o Governo de Luís Montenegro. Na véspera de uma greve geral que o Executivo não conseguiu travar, a convicção que existe no núcleo mais próximo do primeiro-ministro é de que continua a contar com o apoio maioritário dos portugueses. Numa ideia, como foram resumindo os vários elementos do Governo que se pronunciaram sobre o tema, numa altura de praticamente pleno emprego, em que os salários e as pensões aumentam e em que os impostos descem, “ninguém compreende as razões” desta paralisação.
Acontece que a batalha de Luís Montenegro não termina amanhã, quinta-feira. Nem depois de amanhã. O Governo terá — se assim entender — de redobrar esforços para chegar a um entendimento com a UGT. Caso contrário, chegará ao Parlamento, onde tem de fazer aprovar a nova reforma laboral, sem um acordo em sede de concertação social e na inteira dependência de André Ventura, que se têm mantido relativamente ambíguo em relação ao novo pacote laboral.
Em qualquer dos cenários, isto representará meses e meses de desgaste político. Desgaste que, para já, o Executivo está disposto a aguentar. “Sou primeiro-ministro com o objetivo e uma vontade inquebrantável de deixar o país melhor do que aquilo que encontrei. Não vou desistir de ter um país com a ambição de estar na frente”, garantiu esta quarta-feira o próprio primeiro-ministro.
O Governo insiste nesta ideia por entender que tem a força da economia do seu lado — e porque eleitores com dinheiro no bolso são sempre eleitores felizes. “Numa economia que está a crescer, que está a gerar níveis significativos do emprego — até outubro estava a crescer em termos homólogos acima de 3% —, que está a gerar aumentos significativos das remunerações – até outubro estavam a crescer acima de 7% — com ganhos reais porque a inflação está perto de 2%, é verdadeiramente incompreensível que haja uma greve geral. A greve geral deve-se a razões políticas”, resumiu o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento.
A distinção da The Economist aumentou os níveis de confiança do Governo. Nuns casos, dentro de limites mais contidos (“Passámos é de muito pobres a um pouco menos pobres”, comentou o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida), noutros casos, com alguma dose de euforia. “Estamos no topo da Europa e do Mundo“, celebrou esta quarta-feira Luís Montenegro. Apesar das nuances discursivas que vão existindo dentro do próprio Governo, todos confiam que o estado da economia será suficiente para aguentar o embate e manter a confiança dos portugueses.
“As reformas laborais demoram sempre meses. Mas não há drama“, desvaloriza um destacado social-democrata. A partir do Governo, que já apresentou uma segunda versão do pacote laboral à UGT, ninguém fala, para já, em mais cedências concretas. Mas é evidente para todos que terão de existir contrapropostas em sede de concertação social. “Estamos disponíveis para continuar a negociar. E as negociações são sempre feitas de cedências de parte a parte”, sintetiza um elemento do núcleo duro do Governo.
Posteriormente, as negociações terão de acontecer no Parlamento e à direita — é altamente improvável que o PS venha a mudar de posição em relação às reformas propostas pelo Executivo, pelo que a aprovação da nova legislação laboral estará dependente de uma negociação da bancada do Chega. “A Iniciativa Liberal e, sobretudo, o Chega, terão de decidir se querem votar ou não ao lado do PCP”, acrescenta a mesma fonte. “Nós é que não estamos aqui para deixar tudo na mesma. O país está bem? Está. Mas devemos fazer um bocadinho mais. Podemos ser mais do que isto.”
Reconhecendo que qualquer greve geral é indesejável, os sociais-democratas continuam a acreditar convictamente que têm o peso da opinião pública do lado deles e que isso se tornará ainda mais evidente depois da greve geral. “Amanhã [quinta-feira], quando as pessoas não conseguirem apanhar o comboio para trabalhar, o autocarro para ir para a escola ou um sítio para deixar os miúdos, vão penalizar quem está a promover a greve”, insiste um elemento do Governo. Coerentemente, os homens de Montenegro acreditam ter a razão do lado deles: “Os sindicatos não estão a saber ler o país. As pessoas não compreendem esta greve”.
“O PS está a lutar pela sobrevivência”
A sondagem publicada esta quarta-feira no Diário de Notícias, e que aponta para uma aprovação maioritária da greve (69%), é largamente desvalorizada pelo Governo. A começar pelo próprio primeiro-ministro. “Não vale a pena andar com esse jogo, uma sondagem aqui ou amanhã vamos andar seguramente com números aqui ou lá”, despachou logo Luís Montenegro.
Por outro lado, há quem olhe para as letras pequeninas da mesma sondagem e aponte para o copo meio-cheio: o apoio aos sindicatos cresce sobretudo a partir dos 35 anos; por contraste, os mais jovens são os que mais se colocam do lado do Governo. Aliás, quem, no Executivo, ajudou a pensar esta reforma laboral vai tentando comprovar a tese de que esta flexibilização permitirá responder aos desafios que o país enfrenta em matéria de “desemprego jovem”, mais expressivo do que a média, combater a “precariedade” nos mais novos, aumentar os “baixos salários de entrada” e travar a “emigração jovem”.
É para esta nova geração, que “não sonha com o mesmo emprego para a vida” e que quer progredir mais rapidamente em termos salariais, e para um país largamente não sindicalizado (apenas 7,2% dos trabalhadores o são) que o Executivo está a falar. O resto é ruído. Importa, ainda assim, não juntar mais ruído ao ruído. A partir do Governo, a ordem foi para parar com o tiro ao alvo à UGT e aliviar a pressão sobre a central sindical. “Queremos serenidade“, sublinha fonte do Executivo.
A audiência entre o secretário-geral, Mário Mourão, e Luís Montenegro foi um primeiro sinal nesse sentido, e os dois saíram de lá manter as portas abertas, apesar da greve. No mesmo dia, porém, a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho deu uma entrevista à RTP a dizer que a paralisação era “inoportuna” e “um instituto danoso“, o que motivou renovadas críticas por parte dos sindicatos.
“Quando saí da reunião com o senhor primeiro-ministro, disse que tinha sido muito construtiva. Logo nessa noite, vi a entrevista que a senhora ministra deu à RTP e fiquei preocupado. Estivemos a construir um ambiente propício para o diálogo e a senhora ministra diz que as linhas mestras continuam. Assim não vamos lá”, ameaçou Mário Mourão, já depois de ter dito que a ministra do Trabalho “é uma técnica” e que “não tem jeito para criar ambiente e clima negocial”.
De todo em todo, com o aproximar da greve, os decibéis da discussão pública foram baixando. O que vai sendo dito em privado, nos corredores do Governo, nem por isso. “Ninguém compreende a greve. É o descrédito da UGT, que promove greves e negociações ao mesmo tempo”, denuncia um elemento do núcleo duro do Governo. “Dizem ‘não queremos abandonar o diálogo’, mas fazem uma greve a meio das negociações? Não faz sentido”, concorda outra fonte do Executivo.
Em novembro, quando se perspetivava esta greve geral, já se multiplicavam as críticas à posição negocial da UGT e àquilo que se dizia ser uma cedência de Mário Mourão à CGTP de Tiago Oliveira. Semanas depois, a opinião não mudou, mas as baterias estão agora mais apontadas a José Luís Carneiro, acusado de estar a instrumentalizar a central sindical para fazer prova de vida. “O PS ficou em terceiro em número de deputados, perdeu 40 Câmaras nas autárquicas, o seu candidato presidencial aparece em quarto lugar nas sondagens… Está a lutar pela sobrevivência. Estão desesperados”, analisa fonte do Governo.
Em rigor, não é apenas a esquerda, a CGTP, o PS ou a UGT que criticam esta proposta de reforma laboral. Pedro Roque, secretário-geral dos Trabalhadores Social Democratas (TSD), estrutura do partido e que é afeta à UGT, não deixou de reconhecer que há divergências com o Governo nesta matéria. Lucinda Dâmaso, membro da direção do PSD e presidente da UGT, votou favoravelmente esta greve. Bagão Félix e José da Silva Peneda, antigos ministros do Trabalho nos governos de Durão Barroso e Cavaco Silva, criticaram abertamente os planos da atual ministra.
Mesmo assim, os sociais-democratas continuam apostados em insistir na mensagem que norteou a última campanha legislativa e agarrados à ideia de que há quem não queira deixar Luís Montenegro trabalhar. Uma imagem que já era uma colagem evidente à simbologia cavaquista, que imortalizou o “Deixem-nos trabalhar”. Nem de propósito, Alexandre Poço, antigo líder da JSD e um dos ‘vices’ da bancada parlamentar social-democrata, assinará amanhã, quinta-feira, dia da greve geral, um texto de opinião no Observador com o título: “Deixem o país trabalhar”. O guião está estudado e não muda. Até ver, pelo menos.