É difícil dizer que Jéssica Silva não foi o primeiro nome do futebol feminino português a tornar-se conhecido e reconhecido por todos. Aos 30 anos, a avançada natural de Vila Nova de Milfontes prolongou o que as gerações anteriores já tinham feito e abriu caminho para as seguintes – ainda que tenha como objetivo que o futuro já não tenha só “a Kika, a Jéssica ou a Telma”, mas sim “uma equipa de estrelas e talentos”.
Depois de uma temporada difícil a nível individual, com uma operação em setembro para remover um mioma uterino e uma bolada durante um treino que a deixou sem ver do olho direito durante duas semanas, Jéssica Silva já anunciou que não vai renovar com o Gotham FC. Em entrevista ao Observador, a dias de rumar à Suíça para participar no segundo Campeonato da Europa da carreira com a Seleção Nacional, não esconde que saiu do Benfica por já não estar feliz e confirma que um regresso à Europa na próxima época é o cenário mais provável.
Depois de uma reta final da Liga das Nações complexa, com goleadas consecutivas contra Espanha, Inglaterra e Bélgica, Portugal estreia-se no Campeonato da Europa já na próxima quinta-feira, dia 3 de julho, novamente contra as espanholas. A Seleção Nacional de Francisco Neto está inserida no Grupo B, com Espanha, Itália e Bélgica, e percorre o sonho de superar a fase de grupos de uma grande competição pela primeira vez.
▲ Portugal está inserido no Grupo B do Euro 2025 com Espanha, Bélgica e Itália
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O que é que pensou no momento em que percebeu que não conseguia ver do olho direito?
Pensei logo no Europeu. Muito sinceramente. Pensei logo no Europeu porque achei logo que não ia conseguir estar presente. Além disso, tinha uma época toda pela frente e estava num bom momento para ajudar a equipa, íamos começar o Campeonato no dia a seguir. Fiquei sem chão, naquele momento. Foi duro.
Na altura, como disse apenas que o tempo de recuperação era indeterminado, falou-se muito numa “pausa na carreira”. Chegaram a perguntar-lhe se ia deixar de jogar ou nunca permitiu que essas conversas existissem?
Nem sequer foi tema. E fiquei um bocadinho surpreendida porque houve meios que fizeram a notícia de uma forma que não me pareceu justa, até para as pessoas que me seguem. Mas eu também estava meio em estado de choque com o que me estava a acontecer, só mais tarde é que tentei relativizar. Não era algo normal, não era uma lesão muito normal, estive 15 dias sem conseguir ver do olho direito e nem sabia qual é que seria o cenário. Mas nunca, em momento algum, disse que era uma pausa na carreira. Até foi um jornal desportivo que avançou com a notícia assim. Mas também percebi que é assim que as coisas funcionam e que às vezes é preciso criar essas narrativas ou esses títulos para criar impacto. Mas claro que não foi bom, porque as pessoas à minha volta já estavam assustadas e ficaram ainda mais. E eu também.
A própria notícia deixou-a mais assustada?
Não pela notícia, foi mesmo mais pelo que estava a sentir e por não saber bem quanto tempo é que ia demorar a voltar a ver, quando é que poderia voltar a jogar. A minha preocupação naquele momento era saber quando é que poderia voltar a jogar, voltar a estar disponível, e não havia mesmo um timing. A recuperação correu muito bem, pelo menos até me ser permitido começar a jogar outra vez. Ainda não estou totalmente recuperada, mas é algo em que só vou pensar depois do Europeu… Já que já posso jogar futebol, o meu foco é preparar-me o melhor possível para poder ajudar a equipa e a nossa Seleção. Depois vou ter de voltar e fazer mais exames e continuar a ser acompanhada para tentar perceber quando é que vou ficar totalmente recuperada e quando é que vou voltar a ver a 100%.
Portanto, ainda não consegue ver como via antes?
Não, não, não… Vejo nitidamente, mas é como se tivesse a visão obstruída. Não consigo ver totalmente bem e isso preocupa-me. Tenho umas cortinas de luz branca no olho, que aparecem assim de repente, e não é confortável. Mas como já posso jogar futebol estou a tentar não pensar no assunto e relativizar um bocadinho, porque pelo menos jogo.
Para além da questão da visão, já tinha sido operada em setembro devido a um mioma, tudo num ano em que deixou a zona de conforto no Benfica e voltou aos EUA. Dentro de todo este contexto, foi das temporadas mais difíceis que já teve?
Sim. Não quero chamar a isto uma lesão desportiva, não quero chamar ao facto de ter retirado um mioma uma lesão desportiva. Não quero e não são, na verdade. Sempre consegui recuperar muito bem de lesões desportivas, entorses no joelho, lesões musculares, consegui sempre dar a volta. Já disse mil e uma vezes que a minha carreira foi sempre construída à volta de tarefas e obstáculos e vivo bem com isso, com o facto de ter de ir à luta e não virar a cara ao desafio. Há pessoas que foram feitas para lutar e sinto que sou uma delas e está tudo bem com isso. Mas quando aparece a lesão do olho e mesmo com o mioma antes… O meu chão tremeu. Não sabia bem o que se estava a passar. E quando fico sem poder ver e durante tanto tempo, porque foi uma aflição estar 15 dias sem poder ver, ainda já questionei um bocadinho a minha carreira. Aí é que percebi a fragilidade disto tudo, do ser humano. E isso condicionou-me um bocadinho, fez-me repensar a minha vida. Não é que eu não tenha cuidados e não pense na forma como estou na vida e no meu futuro, mas comecei a pensar que estava muito longe e que aquilo tinha acontecido. Fiquei um bocadinho melindrada, senti-me muito sozinha, ainda que tivesse muito apoio à volta. Senti-me muito frágil. Foi um ano duro, foi um ano em que o meu chão tremeu.
Essa fragilidade e distância de Portugal também pesou na decisão de não renovar pelo Gotham FC? Sendo que ainda não anunciou se vai ficar nos EUA.
Claro que pesa, claro que também pesa bastante. Eu gostei muito de ter representado o Gotham FC, mas acabou por ser um ano atípico por todos estes azares. E isso pesa na decisão, pesa na minha forma de estar no futebol daqui para a frente. Neste momento, questiono-me se faz sentido estar tão longe. Não quer dizer que não volte aos Estados Unidos, mas já sei que não vai ser por muito tempo. Claro que pesou e claro que este ano pesa. Repensei e neste momento estou a tentar não focar muito no que vai ser o meu futuro, graças a Deus tenho as minhas opções, mas por enquanto não tenho de tomar nenhuma decisão e isso deixa-me tranquila. Mas estava muito longe, ainda que os meus irmãos tenham ido ter comigo. Foi difícil, foi muito difícil. Sinto que é importante pensar e não tomar decisões só porque sim, tenho de estar num sítio confortável e isso não é um sítio físico, tenho de me sentir bem comigo própria. E este ano foi tão difícil que aquilo que procuro é alguma estabilidade emocional, para além de continuar à procura da minha melhor versão a nível físico, porque estes azares mexeram com a minha performance.
▲ Jéssica Silva é a décima jogadora com mais internacionalizações por Portugal e a sétima melhor marcadora de sempre
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Essa dimensão mental e psicológica foi ainda mais complexa do que a parte física durante a recuperação?
Foi, naturalmente. Pelas questões, por tudo o que se questiona… Eu já passei por tanto que levar com mais onda para me enrolar não foi fácil. Ainda por cima tão à toa. Eu estava muito convicta de que este ano ia ser um ano incrível. E ainda não acabou, ainda tenho um Europeu pela frente, mas estava tão entusiasmada para o início desta época e estava tão bem fisicamente e de repente caio da prancha e fico aí a enrolar-me na onda. Mas agora sinto-me muito serena. Fruto desta lesão no olho, acabei por contrair também uma tendinopatia, que é uma lesão de sobrecarga, porque já queria jogar e treinar e não parava quieta e também estou a recuperar disso. O que quero é estar bem fisicamente e emocionalmente e tenho procurado tratar desta cabeça fora de campo porque é importante para mim. E por isso é que também vim para Portugal um bocadinho mais cedo, para estar com a minha família, para poder nutrir-me das coisas que me fazem sentir bem e ter o acompanhamento que é necessário para poder reunir as condições máximas para jogar futebol e estar com a equipa.
Isso quer dizer que o mais provável é termos Jéssica Silva de volta à Europa na próxima temporada?
Não sabemos, não sabemos. É verdade que também não me importava de ter mais uma experiência, visitar outro estado nos EUA. Mas voltar à Europa pode ser uma hipótese, sim, é verdade.
Futebolista Jéssica Silva e Benfica rescindem de “comum acordo”
Há um ano deixou o Benfica, onde era uma referência e uma das jogadoras mais importantes. Como é que explica essa decisão? Houve mesmo essa vontade de sair da zona de conforto ou já não existia espaço para continuar na Luz? Tentaram convencê-la a ficar?
Havia espaço, mas fui à procura da minha felicidade. Não é segredo para ninguém que já não estava feliz no Benfica. Não sei se tentaram convencer-me a ficar, mas naturalmente que falaram comigo, assim como a treinadora também falou comigo. Mas senti que já não estava bem, que tudo o que tinha acontecido durante a época tinha feito muita mossa na minha cabeça e no meu coração. E acho que aquilo que um jogador procura sempre é a felicidade e fui tentar procurar a minha felicidade noutro lado. E ainda que tenha sido um ano atípico em termos de competição, porque tive poucos minutos por estes azares todos, foi mais uma experiência.
Mas arrepende-se de ter decidido sair?
Na altura estava muito convencida da decisão que tinha tomado, ter saído do Benfica antes do fim do meu contrato não foi uma decisão mal tomada. Achava que já não estava bem e continuo a adorar o Benfica, fui muito feliz no Benfica, ganhei muitos títulos no Benfica. Foram duas épocas e meia muito marcantes na minha vida, ainda que tenham existido uns episódios pouco positivos. Mais foram os momentos incríveis que passei. Tive a oportunidade de conquistar a Taça de Portugal. Sim, conquistámos os Campeonatos todos, é verdade, mas ganhar a Taça de Portugal foi muito importante e muito especial na minha vida. Há uns anos era impensável ganhar a Taça de Portugal com o clube do meu coração.
O futebol feminino português está a atravessar um verão complexo, com muitas jogadoras a saírem do Sporting e algumas até já quase certas no Benfica, como a Ana Borges ou a Diana Silva. Como é que olha para este panorama? É bom para a competitividade ou não se justifica?
É um bocadinho complexo falar sobre isto porque fui jogadora do Benfica, mas tenho ligações no Sporting. Acima disso tudo, sou uma mulher que está atenta ao crescimento do futebol feminino em Portugal e que torce para que as coisas corram bem e para que um dia não haja só um ou dois a investir. A verdade é que o Benfica está na modalidade de uma forma diferenciada e acho que é estranho, no mínimo, este fenómeno que está a acontecer no Sporting. Num clube grande, tantas jogadoras a sair, no mínimo é questionável. Não quero estar aqui a lançar o pânico para o ar, mas gostava de que mais clubes investissem como o Benfica investe. Não só o Sporting, o Sp. Braga ou o Torreense, gostava de que existisse um investimento claro no futebol feminino. Nota-se que falta essa consistência, essa continuidade. Não pode ser só agora ou só quando tudo corre bem, tem de existir um investimento contínuo para que exista um crescimento sustentável na modalidade. O Campeonato não pode fazer-se só com uma equipa e estas saídas todas que aconteceram no Sporting têm de ser questionadas pelas pessoas envolvidas no futebol feminino.
Mas pode ser uma questão de estratégia? Uma tentativa de começar com uma página em branco?
Acho que é importante que as pessoas saibam o que estão a fazer. É importante que as cabeças pensantes, com visão, saibam o que estão a fazer para que tudo isto cresça. Não há festa do futebol feminino sem o Benfica, sem o Sporting, sem o Sp. Braga, agora sem o FC Porto, mas todos os clubes são grandes quando investem no futebol feminino. É preciso acreditar sem ver e falta esse investimento. Os clubes têm de investir nas miúdas como investiram no Cristiano Ronaldo com 15 anos, no João Félix com 15 anos ou no Trincão com 15 anos. Fico triste quando sinto que não há essa vontade homogénea de ver esta modalidade crescer, quando só vemos um a acreditar. A minha preocupação é o futebol feminino, porque eu gostava mesmo de que as coisas mudassem, gostava mesmo de que não fosse só o Benfica. Gostava de que existisse uma luta maior e dou os parabéns a todos aqueles que pensam com carinho no futebol feminino. Porque precisamos disso… Agora é tudo muito bonito, já aparecemos na televisão, as pessoas parecem sempre muito interessadas, mas as miúdas querem mesmo fazer disto vida e querem jogar futebol. Querem ser profissionais. E para poderem ter um Campeonato competitivo aqui em Portugal, para não terem de ir para fora, têm de ser dadas essas condições.
▲ Avançada portuguesa deixou o Benfica no verão passado para voltar aos EUA e representar o Gotham FC
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A Mariana Cabral, antiga treinadora do Sporting, disse há pouco tempo numa entrevista que parece que os clubes estão a fazer uma espécie de favor ao criarem equipas femininas. Concorda?
Concordo plenamente com a Mariana, é isso. Ainda é aquela coisa do ‘Já é bom haver uma equipa, já estão representadas’. Não é por aí, não pode ser assim. Têm de ser dadas condições às jogadoras para depois termos os resultados. O que acontece no futebol feminino é o contrário: temos de mostrar resultados para depois nos serem dadas as condições. Acho que devia ser tudo ao contrário e é uma pena que assim seja. Mas pode ser que as coisas mudem, continuo a acreditar que as coisas vão mudar. Mas não devia ser um favor ter futebol feminino, não podemos continuar de boca cheia a dizer que temos uma equipa feminina e pronto. É um dever.
Acha que a Seleção feminina acaba por ser vítima do sucesso da Seleção masculina? Ou seja, que existe uma enorme expectativa para que os resultados sejam iguais quando a nossa realidade face a vários países europeus não é sequer comparável.
Só fala assim quem é um bocado ignorante. Quem não pensa de forma mais profunda sobre as questões e não percebe que a evolução do futebol feminino em Portugal foi mais rápida do que a evolução do futebol masculino. Quem não se questiona profundamente e fala dessa maneira é mesmo porque não percebe, só quer mandar bitaites e não tem noção. Acho que não há conversa para essas pessoas. As pessoas que pensam que o futebol feminino é igual ao masculino não percebem nada disto. Acho que é a coisa mais sucinta que posso dizer.
A Federação Portuguesa de Futebol mudou de liderança nos últimos meses, depois de mandatos consecutivos de Fernando Gomes que promoveram muito o futebol feminino e alcançaram resultados inéditos. A nova realidade tem sido semelhante? Receberam votos de apoio e confiança por parte de Pedro Proença e da nova direção?
Acredito que sim, mas ainda é tudo tão recente… Acredito que vá existir uma continuidade do bom trabalho que estava a ser feito. As coisas boas são para continuar e quiçá tentar melhorar, há sempre coisas a melhorar. Acredito e quero acreditar que isso vai acontecer. Mas as relações também se constroem e é todo um processo. Acredito que a Federação vai dar continuidade ao que estava a ser bem feito anteriormente.
Olhando agora para a Seleção Nacional e para o Europeu, como é que está o ânimo depois de um período tão complicado na reta final da Liga das Nações e até com este empate sem golos contra a Nigéria?
Estamos bem, estamos com energia, estamos felizes. Queremos chegar à Suíça na melhor forma. Acho que as pessoas se esquecem muito rápido do que já fizemos, não tivemos só três jogos no último ano. Acho que é importante dizer que a Seleção não são estes resultados. Isto é um processo e todas as equipas passam por momentos mais difíceis, nós também tivemos este momento. Mas já virámos a página, completamente. Queremos chegar ao Europeu e mostrar a Seleção competitiva que temos, fazer o que ainda não foi feito. Esse é o grande objetivo. E sabemos que vai ser um Europeu dificílimo, sabemos que teremos grandes adversárias, mas temos demonstrado sempre que podemos jogar contra essas grandes equipas e mostrar um Portugal competitivo. O objetivo é consolidar esse nosso processo e continuar a mostrar que somos uma equipa competitiva e capaz de jogar contra as grandes seleções. Estamos felizes e há muito tempo que não passávamos tanto tempo juntas, o que também é bom para o grupo. Temos a nossa dinâmica, a dinâmica “casa”, que nos faltava.
Mas como é que se explica este aparente retrocesso? Vínhamos de qualificações consecutivas, de termos deixado de sofrer estas derrotas contra Espanha ou Inglaterra, e agora voltámos a parecer uma equipa frágil.
É um momento, muito sinceramente. As coisas não nos saíram bem, não nos correram bem. Não vale a pena tentar arranjar explicações para algo claro: não fizemos as coisas bem, ponto final. Não estávamos a passar uma boa fase, porque acho mesmo que já virámos a página. E também custa que as pessoas estejam sempre a questionar, porque quando ganhamos também não andam a falar de nós durante o ano inteiro, sobre as coisas boas que fizemos. Acho que as pessoas que estão à nossa volta, que estão à volta do futebol feminino e que nos têm acompanhado neste processo todo percebem que a evolução tem sido positiva. Infelizmente, as grandes equipas também passam por estes processos. Para mim e para a Seleção, é uma página que já foi virada e estamos muito focadas no que vamos e queremos fazer no Europeu. A energia é boa. Claro que queríamos ter vencido a Nigéria, mas não perdemos o jogo e jogámos contra uma seleção muito competente, com jogadoras que estão em grandes campeonatos e grandes equipas. Não era uma equipa qualquer. As pessoas que estão atentas ao futebol feminino percebem o que se está a passar. Estamos muito convictas do que valemos e isto não custa mais a ninguém do que nos custa a nós.
A verdade é que, até a nível individual, foi um ano difícil para a Seleção: a Jéssica lesionou-se, a Kika Nazareth também, depois a Lúcia Alves, agora a Carolina Mendes. Falam sobre esses azares?
Isto é o futebol, parece cliché, mas isto é futebol. Acontece e ninguém está imune. Nenhuma equipa está livre deste tipo de coisas, são ossos do ofício. Mas acho que conseguimos dar sempre a volta a este tipo de desafios. A Seleção com ou sem Jéssica, com ou sem Kika, com ou sem Carolina, com ou sem Ana Borges porque também já aconteceu, consegue sempre dar uma resposta bastante positiva. Claro que não ajuda, não ajuda ao processo e não ajuda a esta fase. Mas acho que uma das expressões que melhor caracteriza a nossa Seleção é mesmo o espírito de superação, a resiliência. A nossa garra, a nossa alma. Não estando uma, está outra. Ali valemos todas por igual e isso é o mais importante, dar uma resposta positiva na adversidade.
▲ Jéssica Silva jogou no Benfica entre 2021 e 2024 e conquistou três Campeonatos, uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga e duas Supertaças
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O objetivo de ultrapassar a fase de grupos do Europeu é plausível ou é uma ideia que não é comentada?
Queremos fazer aquilo que ainda não foi feito, é por aí. Já estivemos noutros Europeus e queremos mais, somos uma Seleção que quer mais e melhor, sempre. Este é o nosso terceiro Europeu e queremos chegar ao último jogo da fase de grupos a depender só de nós para passar. Quem nos conhece sabe que somos uma Seleção ambiciosa, super competitiva, que quer chegar o mais longe possível.
O facto de o Europeu ser na Suíça, onde Portugal tem tantos emigrantes, abre a porta à expectativa de contar com muito apoio nas bancadas dos estádios?
Temos tido a sorte de, mesmo fora de casa, ter tido sempre os nossos adeptos. Saber que é na Suíça, onde há tantos emigrantes, tantos portugueses que poderão estar nos estádios a apoiar-nos, é um boost extra. É uma motivação extra e acreditamos que isso também nos ajudará a conseguir o melhor resultado possível. Contamos com os nossos portugueses, com estádios cheios de portugueses, para sermos todos muito felizes.
Qual é que era o seu ídolo quando estava a crescer?
A Marta, sempre foi a Marta. Pelo estilo de jogo… Eu já gostava muito do Ronaldinho e a Marta, com aquela ginga toda, aquelas fintinhas, era só a Marta, para mim nem havia outra jogadora. Eu ainda não jogava futebol e já era a Marta.
Da nova geração, que jogadora portuguesa é que acha que pode vir a ter o impacto que teve a Jéssica ou até a Kika?
Eu gosto muito da Matilde [Nave, internacional Sub-19 do Sporting]. Há outras, mas tenho de dar o props à Matilde porque eu gosto muito dela, é uma miúda muito querida. Mas existem muitas jogadoras, acho que o futuro está tão bem entregue. E deixo os meus parabéns às Sub-19, ainda que não tenhamos passado à final [do Europeu do escalão]. Estava a vê-las jogar e uau, incrível, babei, babei, babei. Mereciam muito estar na final, mas aquilo que fizeram já foi tão grandioso. E sim, têm um futuro promissor, mas o presente delas já é tão gigante que já me deixa muito feliz. Está entregue. Sei que Portugal, mais tarde ou mais cedo, vai estar aí a conquistar Europeus e Mundiais, porque a qualidade está lá e está a ser bem trabalhada. Por isso é que também acho tão importante oferecermos um Campeonato mais equilibrado, a dar as melhores condições às nossas miúdas que estão a crescer e a cativá-las para poderem jogar nas equipas portuguesas. Acho que podemos construir algo muito bonito e um futuro sustentável, não ser a Kika ou a Jéssica ou a Telma, ser uma equipa de estrelas e de talentos. Acho que Portugal caminha para aí.
Este é a última fase final de uma geração? Esta Seleção conta com algumas jogadoras já acima dos 30 anos, como a Carole Costa, a Ana Borges ou a Dolores, que poderão já não estar presentes no próximo Mundial ou no próximo Europeu.
Não sei, talvez. Eu não vou estar no próximo Europeu, de certeza! É possível, é normal, é o ciclo normal das coisas. Mas, ao mesmo tempo, acho que é importante haver uma transferência e uma preparação de forma saudável e pensada. As nossas miúdas têm imensa qualidade, sim, mas não pode ser de um dia para o outro. Um contexto internacional A não é um contexto internacional Sub-19. Mas acredito que essa mudança de ciclo possa acontecer. Mas também não ficaria surpreendida se algumas jogadoras desta geração ainda aparecessem no próximo Europeu.
Qual é que foi o momento em que percebeu que já não podia andar na rua sem a reconhecerem?
Isso foi um fenómeno na minha vida! Comecei a sentir que as pessoas diziam o meu nome quando passava na rua. Talvez há seis ou sete anos, quando fui jogar para o Lyon. Mas sempre absorvi isso de forma muito tranquila, muito normal. Não sou uma pessoa vaidosa e tento estar próxima das pessoas que me abordam. Lembro-me de que quando era miúda olhava para a Ana Borges como ídolo e fui à Seleção pela primeira vez também fui pedir para tirar fotografias. Mas ser conhecida ou mais conhecida… Às vezes só atrapalha, quando uma pessoa quer ir dançar um bocadinho.
Já tem planos para uma vida depois do futebol? Consegue imaginar o dia em que termina a carreira?
Já começo a imaginar, na verdade, e também já começo a preparar. Já estou a trabalhar nesse lado e também tenho o foco aí, porque é algo que me distrai e de que gosto. Mas ainda consigo dar uns pontapés na bola e ajudar as minhas equipas, por enquanto. Mas claro que vou tentando adquirir outros conhecimentos e beber de outras fontes.
Mas quando é que começou a preocupar-se com a vida para lá dos relvados?
Sempre tive pessoas à minha volta que me foram orientando e questionando sempre, sempre com aquele ‘atenção ao futuro’. Sempre tive essas vozes ao meu ouvido e eram boas vozes. Mas também acho que sempre fui muito sensata, muito consciente de que isto não é para sempre. E estes percalços que a vida vai trazendo também fazem com que uma pessoa antecipe um bocadinho os planos. Sempre disse que não ia jogar para sempre. Tenho o sonho de ainda estar no próximo Mundial [2027], mas tenho outro sonho, que é ser mãe. Quero muito ser mãe. E tenho de preparar as coisas. Não posso planear a 100%, porque às vezes as coisas não acontecem como nós queremos, mas tenho de ter uma ideia do que será o meu futuro.