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João Carvalho é responsável pela Ritmos, empresa que organiza os festivais Vodafone Paredes de Coura e (em parceria) o NOS Primavera Sound

João Carvalho é responsável pela Ritmos, empresa que organiza os festivais Vodafone Paredes de Coura e (em parceria) o NOS Primavera Sound

João Carvalho: “Gostava muito de fazer alguma coisa no inverno em Paredes de Coura” /premium

O fundador e diretor do Vodafone Paredes de Coura esperava a proibição dos festivais de verão, mas não esconde a tristeza. Em entrevista, diz pensar em alternativas e numa “edição histórica” em 2021.

A realização de festivais de música este verão em Portugal foi uma questão discutida ao longo das últimas semanas, sabendo-se esta quinta-feira, após o Conselho de Ministros, que existe uma proibição generalizada para este tipo de eventos até 30 de setembro.

“Foi aprovado a proposta de lei, a submeter à apreciação da Assembleia da República, que estabelece medidas excecionais e temporárias de resposta à pandemia da doença Covid-19 no âmbito cultural e artístico, em especial quanto aos festivais de música. Neste contexto, impõe-se a proibição de realização de festivais de música, até 30 de setembro de 2020, e a adoção de um regime de caráter excecional dirigido aos festivais de música que não se possam realizar no lugar, dia ou hora agendados, em virtude da pandemia”, pode ler-se em comunicado.

A decisão está tomada, só falta a lei: não haverá festivais de música este verão em Portugal

Há pouco mais de uma semana, alguns dos principais promotores de festivais de música e concertos do país reuniram com o Governo para delinear uma decisão definitiva. Apesar de nem todos concordarem com ela, a proibição dos festivais tornou-se agora pública e sem surpresas. João Carvalho foi um dos promotores presentes à mesa com o Executivo. É fundador e diretor do Paredes de Coura, um dos festivais mais antigos do país, criado em 1993. Este ano estava marcado no calendário entre os dias 19 e 22 de agosto e tinha nomes no cartaz como Jarvis Cocker, Idles, Pixies, Mac DeMarco ou Ty Segall.

O responsável não foi surpreendido pela decisão do Governo, mas mostra-se triste com a situação e não esconde a preocupação relativamente ao futuro. “Este ano, mais do que nunca, precisávamos de estar juntos.” Ainda assim, João Carvalho recusa-se a perder o otimismo para encontrar soluções e a esperança de uma vacina que devolva a confiança ao público de frequentar este tipo de eventos. Entre chamadas a sócios, advogados e patrocinadores, falou com o Observador.

A organização do festival esperava 25 mil pessoas por dia para a edição de 2020

Estava à espera desta decisão do Governo?
Não fomos surpreendidos, como pessoas conscientes que somos, há vários dias que pensávamos nesta hipótese. Lemos notícias, sabemos o que se passa no mundo, não só no mundo em geral, mas no mundo da música em particular. A maioria dos festivais europeus foram cancelados no mês de agosto, portanto, fomos preparando e montando cenários. Não é propriamente uma surpresa. Não quero com isto dizer que não fique triste, porque mais do que nunca precisávamos este ano de estar juntos, de nos abraçar. O Paredes de Coura sempre foi o festival das relações, das cumplicidades, por isso é que lhe chamam o festival do amor. Este ano, transmitir amor é estarmos quietos, é o mais sensato. Estamos já a preparar uma edição histórica para 2021.

Vão conseguir manter o cartaz?
Posso dizer que já há alguns dias que preparamos este cenário, parece-me que vamos conseguir manter grande parte do cartaz e até me parece que a próxima edição será ainda melhor que esta, porque há mais oferta de bandas. Isto é, as bandas que estão em digressão em 2020 vão voltar a estar em 2021, porque não podem estar paradas, e depois há as bandas que tinham tours marcadas para 2021, que vão estar na estrada. Vai haver mais oferta e para mim o cenário ideal era manter o cartaz e melhorá-lo.

João Carvalho, o fundador e diretor do festival Vodafone Paredes de Coura

Os cabeças de cartaz vão manter-se?
Garantias ainda não há. Isto é ainda muito recente, é tudo muito novo. Embora nós andássemos já a sondar algumas bandas, ainda não temos respostas definitivas, mas está tudo muito bem encaminhado para mantermos parte substancial de todo o cartaz. O Paredes de Coura não vive apenas de cabeças cartaz, vive também das coisas novas, das surpresas e das bandas que se agigantam e que às vezes poucos conhecem.

Em março disse que esperava que em agosto o problema estivesse resolvido. Em abril afirmou que a única certeza que tinha era a incerteza. Manteve a esperança durante algum que o festival se realizasse?
Sim, no mês de março tinha essa convicção, a partir de meados de abril comecei a pensar que iria ser muito complicado fazer, daí termos começado imediatamente a traçar cenários em termos criativos e a pensar em alternativas. O festival faz-se no interior do país, com uma população envelhecida, portanto, mesmo quando acreditávamos, tínhamos sempre esse receio de o fazer e de contribuirmos para a alastrar a pandemia ou a doença a um concelho que até tem poucos casos. A verdade é que estamos a falar disto há dois meses, mas parece que estamos a falar disto há três ou quatro anos. O tempo passa muito rapidamente, todos mudámos de opinião muito rapidamente e todos fomos invadidos pela incerteza. Queríamos muito fazer o festival, mas sempre tivemos essa consciência. Sim, acreditei muito no mês de março, em abril comecei a achar que provavelmente ia ser muito complicado.

"O festival faz-se no interior do país, com uma população envelhecida, portanto, mesmo quando acreditávamos, tínhamos sempre esse receio de o fazer e de contribuirmos para a alastrar a pandemia ou a doença a um concelho que até tem poucos casos."

Que alternativas têm agora em cima da mesa?
Neste momento estamos a pensar em várias coisas, mas tudo depende da evolução da pandemia. Hoje em dia ninguém se quer comprometer com nada, cabe-nos pensar em fórmulas e em alternativas. Gostava imenso de fazer alguma coisa em Paredes de Coura no inverno, não sei se vai ser possível ou permitido, mas gostava de o fazer para manter Paredes de Coura viva na memória, para o celebrarmos e para ajudar um comércio local, que cada vez mais depende do festival para o seu sucesso financeiro a cada ano que passa. Não estou a comprometer-me com nada, isto não é uma proposta, é apenas um desejo. Gostava de fazer alguma coisa no inverno com outro conceito, em várias salas, é uma ideia e iria ajudar também as bandas portugueses, porque seria um cartaz essencialmente nacional. Não sei se isto vai ser possível, não é uma promessa, é uma intenção porque, obviamente, estamos todos a viver um momento triste.

Cálculo que seja muito dececionante.
Se fizer uma reflexão pelo meu passado, já não consigo lembrar-me de momentos felizes, tirando obviamente a família, sem estar ligado ao festival. Isto é uma coisa muito triste para todos nós que fazemos o festival consecutivamente há 27 anos. Éramos uns miúdos quando o começámos e é a primeira vez que isto nos acontece. Obviamente estamos invadidos por uma tristeza gigante, agora o mundo é cada vez um lugar mais estranho, temos de aceitar. Achamos de muito bom senso esta decisão do Governo.

"Se eu era otimista em abril, mal seria se não estivesse otimista daqui a um ano", diz João Carvalho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Durante o encontro com o Governo, todos os promotores de festivais tiveram esta opinião?
Por norma não se conta o teor dessas reuniões, mas posso dizer que a grande maioria concordou que não se fizessem os festivais este ano. Sabíamos que havia um risco, porque o primeiro-ministro, a ministra da Saúde, a ministra da Cultura e o ministro da Economia nos elucidaram para isso mesmo, não que a gente desconhecesse a realidade, mas depois dessa conversa aceitamos essa posição e achamos que é uma decisão que nos entristece, que empobrece a economia, mas que é uma decisão sensata e com a qual concordamos em absoluto.

Quais são agora as vossas preocupações e prioridades relativamente aos cachets?
Os festivais têm despesas durante todo o ano, há uma série de funcionários e empresas que são contratadas e, claro, há cachets que são pagos. Quando se contrata uma banda, normalmente pagamos 50% do cachet e isto é um problema financeiro que vamos tentar contornar da melhor maneira. Estamos todos a trabalhar nisso, mas é tudo ainda muito recente. Neste momento, temos uma grande preocupação em mãos e estamos a tentar resolver.

"Nenhum deles cancelou o concerto, antes pelo contrário, já com a pandemia em curso, em meados do mês de março, anunciamos o Jarvis Cocker, quando ainda acreditávamos que podíamos fazer."

O Governo prevê a emissão de um vale de igual valor ao preço do bilhete de ingresso pago, garantindo, assim, os direitos dos consumidores. O que é que isto quer dizer?
A maioria dos países da Europa estão a tomar essas medidas de voucher, não é uma medida portuguesa, vai de encontro a políticas europeias.

Será um reembolso dos bilhetes?
Não. Esta é uma decisão que ainda será discutida na Assembleia da República, mas,, à partida é uma garantia que o bilhete é válido no próximo ano.

Quantos bilhetes já tinham sido vendidos para esta edição?
Tínhamos cerca de nove mil bilhetes vendidos. Faltavam ainda muitos meses, por isso a perspetiva é que tivéssemos as 25 mil pessoas do ano passado. As vendas estavam até ligeiramente acima do ano passado.

Algum artista já tinha cancelado o concerto?
Estávamos em contacto constante com os artistas, perguntavam-nos como estava a situação em Portugal e qual era a nossa ideia. Nenhum deles cancelou o concerto, antes pelo contrário. Já com a pandemia em curso, em meados do mês de março, anunciámos o Jarvis Cocker, quando ainda acreditávamos que podíamos fazer tudo o que tínhamos planeado.

Acredita que no próximo ano o público, tanto português como estrangeiro, irá recuperar a confiança de frequentar eventos com grandes aglomerados de pessoas?
Se eu era otimista em abril, mal seria se não estivesse otimista daqui a um ano. Sinceramente, espero que sim. Neste momento, não temos a união mundial que todos pretendíamos no combate à pandemia, temos alguns líderes a pensar de forma muito diferente, não promovem sinergias e não têm tido um comportamento de união. Mesmo assim, há muita gente a trabalhar para que seja descoberta uma vacina e um tratamento, por isso espero que seja uma questão de meses e que para o ano haja essa confiança e nos possamos abraçar e comemorar a música.

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