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João Vale de Almeida é um dos principais diplomatas que a União Europeia (UE) já teve. Jornalista de formação, chegou à delegação portuguesa da Comissão Europeia em 1982. A partir daí, sucederam-se as experiências: porta-voz da Comissão, membro da equipa de transição de Romano Prodi, Diretor-Geral de Relações Externas da Comissão Europeia e chefe de gabinete de Durão Barroso. Foi durante o primeiro mandato do português à frente da Comissão que correu mundo e conheceu muitos dos principais líderes mundiais: Tony Blair, Angela Merkel, Emmanuel Macron — e até Vladimir Putin, com que se reuniu muitas vezes. Trabalhou com Barack Obama enquanto embaixador da UE nos Estados Unidos da América e depois foi o representante do bloco europeu nas Nações Unidas. Em 2020, chegou a Londres como embaixador europeu, no período imediato após o Brexit.
Agora reformado, Vale de Almeida decidiu refletir sobre todas essas experiências. Escreveu o livro O Divórcio das Nações — O Colapso da Ordem Mundial Vista Por Dentro (ed. D. Quixote), que será publicado em Portugal no dia 2 de dezembro. Nele reflete sobre os impactos do 11 de setembro e da crise financeira de 2008 na situação atual do mundo, avalia o estado do multilateralismo, tenta projetar o papel do Ocidente no futuro. Mas também revela os bastidores de cimeiras europeias e os contactos em Londres com a imprensa britânica e o próprio Boris Johnson.
Em entrevista ao Observador sobre o livro e as suas memórias — que muitas vezes foi rabiscando ao longo de anos nas notas do seu iPhone em aviões — o embaixador confessa que não pode revelar alguns dos episódios mais caricatos com se deparou ao longo da carreira (“Um dia talvez conte”, diz entre risos). Mas expõe o impacto profundo que a invasão da Ucrânia teve sobre si e reflete sobre aquilo a que chama “the dark side of Putin” (“o lado negro de Putin”). Também dá pistas sobre como os líderes europeus devem lidar com Donald Trump: “Ocupem o terreno, falem com o senhor, vão ver o senhor. Digam-lhe coisas, escrevam-lhe coisas, digam-lhe algumas coisas que o deixem contente”, aconselha.
Não deixa também de falar sobre qual a melhor forma para lidar com os populismos, transversais no Ocidente — a que Portugal, que diz também ter “os seus trumpinhos”, não escapa. E reforça sempre uma ideia: nos bastidores da diplomacia, o futuro do mundo é definido pelas ideias, mas também pela química pessoal entre políticos. “Se há experiência que me marcou foi assistir a encontros entre líderes, quer telefónicos quer presenciais. Aí aprende-se muito da vida, da diplomacia, das relações externas, de tudo o que quiser. Coisas boas e más.”
“O senhor Putin é o mesmo. A sua personalidade escureceu, endureceu, tornou-se mais sombria”
Fala no livro de como conheceu e teve reuniões com Vladimir Putin e reflete um bocadinho sobre a personalidade dele. Achei muito curioso ter tido aquele ímpeto de escrever-lhe uma carta diretamente quando a invasão da Ucrânia começou. Nunca chegou a enviá-la… Mas por que é que sentiu a necessidade de pôr isso no papel e de falar diretamente para ele?
Tem piada, porque é a primeira pessoa das que já leram o livro que começa por aí. E eu, de facto, esperava mais que as pessoas começassem por aí [risos]. Aquilo é de tal maneira pessoal, não é? Por um lado, foi absolutamente espontâneo, escrevi aquilo sem uma hesitação. Já nem sei bem onde é que escrevi aquilo… Acho que escrevi no Moleskine, no caderno de notas. À mão, neste caso. E ninguém ainda me falou disso, está a ver? Já me falaram muito do Putin e do encontro com o Putin, do cão do Putin, essas coisas todas, mas ninguém começou por aí. Portanto, agradeço-lhe ter correspondido àquilo que na minha cabeça seria a reação das pessoas. E por que é que acho isto interessante? Porque, e repito o que disse, foi espontâneo, foi pessoal. E tem a ver também com o facto de eu ter estado com ele muitas vezes. Não é propriamente uma pessoa que nunca tenha visto, que nunca tenha sentido próximo de mim. E acho que a descrição que faço daquele encontro de 2006 fala um bocadinho disso também. Foi muito sentido, também porque ele no fundo estava a pôr um ponto final num período da História que me parecia relativamente positivo. Despertou em mim uma grande desilusão, se quiser, e tristeza, em última análise. E pensei na minha geração. Ele é cinco anos mais velho do que eu, não é muito velho. Ainda vai estar ali algum tempo [risos]. E pensei nos meus filhos, pensei nos meus netos: “O que é que você está a fazer com esta invasão?” Acho que essa nota sintetiza um bocadinho a importância da invasão da Ucrânia para as pessoas da minha geração, que viveram todo o ciclo desde a ditadura em Portugal à entrada da União Europeia, ao fim do Muro de Berlim, ao fim da União Soviética e, digamos, ao princípio daquela ideia do fim da História. Tudo isso desabou nessa noite de alguma maneira.
Foi um segundo 11 de Setembro?
Sim, é um segundo 11 de Setembro. O 11 de Setembro e o 24 de fevereiro são os dois… no inglês escrevi “bookends” — não descobri, aliás, tradução para essa palavra. Os bookends são aquelas duas coisas que aguentam os livros nas estantes; o princípio e o fim de um período. E por isso essa nota pessoal que, obviamente, não enviei a ninguém, mas que achei por bem incluir no livro, porque acho que sintetiza um bocadinho a impressão que tive naquela noite. Acordei por acaso dez minutos depois daquilo [a invasão] ter começado. Estava sozinho em Londres. Aquilo tudo tem uma parte de um imaginário… É um fim, um fim de um ciclo de alguma maneira.
Um otimismo que acabava em relação à Rússia de Putin. Teve os seus encontros com ele. Diz que já na altura ele mostrava aqueles agravos, aquelas queixas, mas mesmo assim o embaixador ainda mantinha um certo otimismo.
Sim, não era só eu. A União Europeia investiu muito na relação com a Rússia nessa altura. Era o único país com quem tínhamos duas cimeiras por ano, daí o número tão grande de encontros que tive com ele. Portanto, estávamos a investir bastante. Havia uma corrente dentro da Rússia que queria modernizar a Rússia. O tempo mais otimista, mais positivo, que nos encorajou mais, foi a presença do senhor [Dmitry] Medvedev [Presidente russo entre 2008 e 2012], apesar da invasão da Geórgia. Havia ali uma sensação de que se poderia construir alguma coisa com a Rússia. Acho que em relação a Rússia temos de perceber uma coisa essencial: não podemos mudar a geografia. Eles vão ser sempre o nosso grande vizinho de leste. E ou temos uma relação má, ou temos uma relação assim-assim ou temos uma relação boa — mas vamos ter sempre uma relação. Eles vão sempre determinar largamente a nossa segurança, vão ter uma influência importante. As duas economias são claramente complementares. E do outro lado temos a China. Portanto esta gestão da Eurásia não se faz sem a Rússia. Estamos condenados a viver ao lado da Rússia e, nessa altura, a nossa ideia era “Vamos fazer disto uma relação menos má e uma relação mais segura e mais promissora”.
Agora, tudo o que aconteceu depois ou tudo o que foi acontecendo depois, tento descrever um bocadinho esse arco, digamos. Não podemos esquecer que a Rússia estava dentro do G8, que era suposto ser, digamos, a Cimeira do Ocidente, a cimeira dos países modernos, industrializados, desenvolvidos, democráticos. Demos essa chance ao senhor Putin, de fazer parte disso. Ele escolheu, por várias razões — e não excluo algumas razões que têm a ver com o comportamento do Ocidente, mas enfim, [foi] sobretudo por culpa dele, sejamos claros — ir por outro caminho e decidiu, no fundo, escolher o lado sombrio da Rússia, o lado sombrio da História, se quiser. E por isso é que digo que se comparar a pessoa que conheci entre 2005 e 2010 — que foi o período em que tive os tais 15 encontros em que estive muito próximo dele — e o que vi em fevereiro de 2022 e que estou a ver agora quase quatro anos depois da invasão da Ucrânia, vejo uma personalidade que acentuou os seus lados mais mais sombrios. The dark side of Putin [o lado negro de Putin], no fundo, é essa a expressão que uso quando falo inglês e que traduz, a meu ver, essa ideia. O senhor é o mesmo, obviamente. E ele já tinha em 2006 — e por isso é que a descrição dessa reunião é ilustrativa —, todos os agravos, todas as humilhações, todas… Estavam lá. Incluindo no sentido de dizer “OK, isto é a História, não vou mudar a História, o Urso… Vamos fazer da Rússia qualquer coisa”. Ele escolheu o lado sombrio. Escolheu “Vamos acentuar isto”. O que é um bocadinho à imagem da alma russa: um certo romantismo, um certo dramatismo, um certo fatalismo de alguma maneira também. E sempre aquela ideia da grandiosidade da Rússia…
O Império.
O senhor Putin é o mesmo. A sua personalidade escureceu, endureceu, tornou-se mais sombria e o resultado está aí, infelizmente.
“Com a globalização, reduzimos a desigualdade. Mas hoje a desigualdade está à vista de toda a gente”
É um dos exemplos desta ideia que escolheu para do título do livro, o “Divórcio das Nações”. O da Rússia do Ocidente é um destes grandes divórcios. Outro talvez seja a fase em que vivemos de um grande crescimento de forças anti-sistema, forças sobretudo de direita radical. E no livro explora como isto também tem origem na crise financeira de 2008. Tenho a sensação que hoje em dia temos tendência a ignorar essas raízes. Sente o mesmo?
Isso é uma das razões pelas quais escrevi o livro. Para já, porque gosto de escrever e, dois anos depois de me ter reformado, tinha a liberdade de escrever o que quisesse, o que é uma coisa que… Enfim, você não conheceu a ditadura, mas é uma coisa muito importante a pessoa poder escrever o que pensa sem ninguém estar a dizer o que é que deve ou não. Portanto, por um lado, o prazer da escrita e o prazer de exercer a liberdade de escrever e, por outro, uma espécie de dever de deixar algum testemunho. Não estou a escrever a História, você quando escreve também não está a escrever a História, mas todos — escritores, autores e jornalistas — estamos a contribuir para alguém que fará a História deste período, com a distância necessária, com o acesso aos documentos que nós não temos acesso agora, tudo isso. Acho que quem teve o privilégio, a honra, a sorte, de viver algumas coisas que eu vivi, tem o dever de partilhar. Partilhar consigo, por exemplo, partilhar com os leitores, de deixar para os meus netos quando eles daqui a uns anos estiverem a mandar neste mundo. É a minha preocupação. E tento ter sempre uma visão big picture, uma visão holística das coisas. Acho que não se entende o que se passa hoje sem perceber muitas das coisas que se passaram no primeiro quartel deste século. Também as que se passaram no século passado e nos outros séculos, obviamente, mas se queremos perceber um bocadinho mais do que a espuma dos dias, temos que ver porque é que isto está a acontecer. E há aqui uma série de fenómenos que se encadearam neste muito rico primeiro quartel e que se… como é que se diz? Cross-fertilized.
Alimentaram-se umas às outras?
Sim, umas de uma maneira positiva, outras vezes de uma maneira negativa. E se você olhar rapidamente de memória para estes 25 anos, pensa basicamente naquelas coisas de que falo. O 11 de Setembro e o que isso determinou; a reação da América ao 11 de Setembro — que, em alguns aspetos, tem tantas implicações como o próprio 11 de setembro —; a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, que muitas vezes esquecemos e que é fundamental para perceber a mudança absolutamente fundamental que houve no mundo de 2000; a crise financeira, obviamente; a Covid, obviamente também. Todo o processo de globalização, todo o processo de revolução tecnológica absolutamente espetacular que aconteceu e que vai entrar agora num ciclo ainda mais acelerado com a Inteligência Artificial… Tudo isso joga, tudo isso interage, para construir aquilo que nós temos hoje.
E você estava a falar da globalização e do populismo. Há uma coisa que que acho muito interessante, que digo no livro e pouca gente salienta: a questão da desigualdade. Sempre houve desigualdade no mundo, isso continuará, infelizmente, a haver. Nós, com este processo de globalização, até reduzimos a desigualdade entre o mundo mais desenvolvido e o mundo menos desenvolvido. O mundo em termos globais, macro, está mais igual do que estava no final do século passado. O problema é que esse processo criou muitas desigualdades em várias partes do mundo e em particular nos países desenvolvidos. E outra dimensão que é menos vista, mas que me parece fundamental, é que ninguém hoje consegue esconder essa desigualdade. A desigualdade está à vista de toda a gente, não é? Você teve o jantar de ontem na Casa Branca… [a entrevista decorreu um dia depois da visita de Mohammed bin Salman e Cristiano Ronaldo à Casa Branca] Enfim, não vou comentar o Ronaldo e essas coisas [risos]. Mas está à vista de toda a gente que quem vai àquele jantar pertence a um mundo que não é o meu mundo, não é o seu, não é o das pessoas que ainda têm condições sociais e económicas piores do que as nossas. E ninguém consegue esconder isso. Ou seja, na Idade Média a desigualdade era muito maior, mas o desgraçado do camponês da Flandres ou de Trás-os-Montes sabia lá o que é que se passava na corte chinesa ou nos sultanatos. Hoje toda a gente sabe isso. Portanto, você tem, por um lado, o efeito da própria desigualdade e da criação de novos pobres, que explica largamente o fenómeno populista, das pessoas que ficaram para trás, que não se reveem. E, por outro, tem a dimensão da visibilidade de tudo isso. É a realidade aumentada pela visibilidade. O que é que vê nas redes sociais? Uns tipos super ricos que fazem umas coisas, têm uns iates… Tudo isso é atirado à cara das pessoas todos os dias.
E cria muito mais ressentimento político?
Estamos numa sociedade de ressentimento, de alguma maneira. É talvez o custo do sucesso. De facto estas décadas foram boas para a Humanidade, sem qualquer espécie de dúvida. Às vezes há um problema que é as pessoas quererem deitar [fora] o bebé com a água do banho. Dizem “O que é preciso é acabar com a globalização”. Isso é um erro crasso. Países como o nosso, por exemplo, fecham as fronteiras? Autarcia? O que é isso? Não faz sentido nenhum. A própria União Europeia não pode viver fechada sobre ela própria, os Estados Unidos não podem viver fechados sobre eles próprios. Estamos numa fase em que temos que compreender o que se passa. A minha razão para escrever o livro — e páro aqui — é não ser um livro feito para especialistas, não ser um livro académico. É um livro que se dirige ou pretende dirigir-se às pessoas que têm o mínimo de informação, que estão preocupadas com a situação do mundo, que não percebem exatamente por que é que chegámos aqui. E espero dar-lhes algumas pistas para tentarem perceber um bocadinho de onde é que vimos e talvez para onde é que vamos. E perceber e ter mais consciência, num estilo que acho que é acessível, que não é pretensioso, que não é fechado, a partir de uma realidade concreta, da experiência que um diplomata teve ao longo destas décadas.
“As pessoas não emigram para a China, mas toda a gente quer ir para os Estados Unidos”
Olhando um bocadinho para os Estados Unidos e a sua situação atual. Escreve a certa altura a frase “Para a maioria dos americanos, o mundo é os Estados Unidos e os Estados Unidos são o mundo.” Acha que esta postura de, por um lado, um certo alheamento do mundo e, por outro, uma crença no excecionalismo americano são marcas que vêm para ficar mesmo em tempos de Trump?
Sim. Tento explicar no livro o que senti na América. Vivi lá quase nove anos, visitei os estados todos, acho que tenho uma visão relativamente relativamente correta da América. Pelo menos é a minha visão da América. As pessoas aqui na Europa às vezes esquecem-se de que aquele é um país que não se sente ameaçado por ninguém.
A geografia, mais uma vez.
Tem dois oceanos, [dois] monstros, a separá-los do resto. A norte e a sul tem países [que são] ou amigos ou inofensivos — à exceção da questão da imigração, mas, como se provou, é possível controlar. E depois têm a sensação de que são um país único, under God [sob Deus] e não sei quê. Portanto, isso é a América profunda e só se percebe andando pela América toda. Isso está lá sempre. E isso tem duas dimensões. “Epá, a gente não precisa dos outros, não nos vamos chatear com os outros, não nos vamos meter nas guerras dos outros, vamos é aqui tratar da nossa vidinha, que temos aqui suficiente soft power, hard power, military power, recursos naturais, tudo.” Há tudo na América, basicamente as pessoas têm essa sensação. Daí o isolacionismo, que é permanente na cultura política americana e na cultura política externa americana, mas que tem altos e baixos. Às vezes aparece mais do que outras, mas está lá sempre, underlying [subjacente]. A outra dimensão é o facto do país se sentir como um país excecional. As pessoas não emigram para a China, não é? Mas toda a gente quer ir para os Estados Unidos, mesmo aqueles que não o dizem. Portanto, há alguma coisa especial nos Estados Unidos. Um dos nossos filhos tornou-se cidadão americano entretanto, portanto sou pai de um americano. Os americanos têm uma capacidade de atração imensa e as pessoas tornam-se americanas e assumem aquela aquela vida, o excecionalismo americano que está sempre presente. Portanto, a tensão entre o isolacionismo e o excecionalismo muitas vezes resulta no intervencionismo. Algumas vezes [de forma] mais inteligente, outras vezes totalmente irracional. Em que a América sente o impulso ou para se defender de ameaças como em Pearl Harbor [na II Guerra Mundial] ou em Manhattan [no 11 de Setembro], ou para defender interesses algumas vezes menos nobres. Mas essa tensão está lá sempre e assume formas diferentes. Agora está a assumir uma forma muito radical, muito preocupante, com o populismo de Trump, que é muito perigoso. Sejamos claros, é muito perigoso a vários títulos. Mas, ao mesmo tempo, se você vir o que é que aconteceu na América nestes 25 anos, os americanos elegeram sucessivamente pessoas tão diferentes como George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, Joe Biden e outra vez Donald Trump. Esse é um país que está à procura do seu caminho também. Aqueles traços fundamentais que descrevi brevemente continuam lá e continuarão lá. Como é que eles se sintetizam? Como é que eles se articulam entre si e com que vozes? Tem variado ao longo deste quartel e vai continuar a variar.
A minha conclusão para este raciocínio longo é que, em termos europeus, nós não nos podemos dar ao luxo de desistir da América cedo demais. Vejo algumas tendências nalguns países europeus, nalgumas partes da opinião pública, de dizer “Esqueçam a América, a América acabou”. Eu acho que a América não acabou. Segundo, considerar que a América acabou é perigoso para nós. Nós precisamos da América, como acho que a América precisa de nós. E, se virmos o contexto mais global, da pressão da China, da pressão do lado da Rússia, dos novos poderes que se vão afirmar, dos middle powers — estamos a ver o papel dos países do Golfo já muito importante, como veremos rapidamente também as Indonésias e os Brasis e as Nigérias desse mundo, quando se conseguirem libertar dos seus próprios fantasmas e contradições. O Ocidente ainda faz sentido. Sei que sou atacado nalguns sítios, e legitimamente, por ainda falar do Ocidente e por ainda fazer propostas para o Ocidente. Enfim, o conceito é vago, não é científico, mas acho que basicamente estamos a falar de sociedades abertas, democráticas, liberais, desenvolvidas, com respeito pelos Direitos Humanos, pela decência. Um dos problemas com o senhor Trump é que ele está a dar-nos cabo da reputação, está a dar cabo da reputação das democracias liberais com esta falta de decência no seu discurso e na sua prática. Isso para mim é uma das principais consequências, um dos principais efeitos negativos do trumpismo: baixar os níveis da decência da política ao nível zero ou abaixo de zero. Isto é um sinal que a principal democracia do mundo, o país mais influente do mundo, não deve dar, não pode dar. E quando dá, isso tem consequências muito negativas para os valores que nós defendemos.
Pode ter uma marca a longo prazo, que não deixa o país igual depois de Trump?
Sim, a América não será igual, o mundo não será igual depois deste primeiro quartel. Mas é muito cedo para desistirmos da América e nós devemos ser os últimos a fechar a porta ou a fechar a luz do nosso entendimento, da nossa relação com os Estados Unidos, porque isso é do nosso interesse. Mas, a meu ver, também é do interesse dos valores que nós defendemos. É fundamental que a América esteja do lado certo da História, mesmo que às vezes a gente tenha dúvidas aqui e ali de que eles estejam nestes últimos tempos. Mas não podemos sequer admitir a hipótese. Imagine um ditador ou um aspirante a ditador em África, na América do Sul ou em qualquer parte do mundo. E a União Europeia chega lá e diz “Olhe, nós só vamos dar ajuda e abrir o vosso mercado se o senhor se portar bem e se respeitar a democracia, os Direitos Humanos, a governança, aquelas coisas todas”. E ele diz “Então vocês estão-me a pedir isso e o que é que o senhor Trump está a fazer? Se o senhor Trump faz o que faz aos seus opositores políticos, se o senhor Trump trata o senhor Zelensky como tratou na Sala Oval, se o senhor Trump usa o sistema de Justiça americano para perseguir os seus opositores… Você está-me a pedir a mim para eu fazer diferente do líder da principal democracia do mundo?”
A autoridade moral desaparece.
A autoridade moral do Ocidente, das democracias liberais, perde-se. O mal que ele possa estar a fazer à América os americanos é que têm que julgar. O mal que certamente está a fazer à relação transatlântica e à reputação do Ocidente é o sinal, a mensagem, que ele envia para o resto do mundo. Nós em Portugal às vezes estamos muito preocupados com as aulas de cidadania — e justamente, acho que é uma coisa muito importante para os nossos jovens — e o senhor Trump todos os dias dá uma aula de cidadania daquelas que a gente não queria que as nossas crianças aprendessem. E isso entra pelas televisões adentro, pela casa das pessoas adentro, a maneira como ele maltrata toda a gente. Para além da economia, da política, do comércio e das tarifas, há aqui uma dimensão que talvez até me preocupe mais em termos dos efeitos futuros, em termos de valores, em termos de princípios. É, no fundo, o que chamei num artigo que escrevi para o Expresso “O fim da decência”, que me parece que é talvez um dos traços mais negativos deste populismo — e do populismo em geral, atenção, não é só o senhor Trump. Não quero falar de política portuguesa, mas você sabe do que é que estou a falar…
Acha que temos uns mini Trumps aqui?
[Silêncio]
Ou um?
Uns trumpinhos… [risos] Temos aqui e noutros países, não é só Portugal. Isto não tem só efeito entre os países em desenvolvimento e candidatos a ditadores. Tem também efeitos dentro dos sistemas políticos nos países democráticos liberais. E isso é também obviamente preocupante.
Como é que olha para este paradoxo de, por um lado, Trump assumir-se como um isolacionista, e, ao mesmo tempo, termos Trump a promover um acordo para Gaza e uns Estados Unidos que estão a escalar a situação na Venezuela? Como é que se conciliam estas duas coisas?
Aí têm uma boa ilustração das contradições americanas entre o isolacionismo e o intervencionismo. Como é que se exprime o excecionalismo americano na frente externa? Trump ilustra as contradições da cultura externa americana de uma forma muito, muito evidente. O segundo aspeto é que eu acho que Trump não tem propriamente uma estratégia. Não compro a ideia de que ele é ignorante ou de que ele é inapto e de que, no fundo, não nos devemos preocupar muito com aquilo. Não tem muito sentido. Acho que há uma estratégia, neste segundo mandato muito mais do que no primeiro, e não devemos subestimar o senhor Trump e as pessoas que estão à volta dele. Conheço algumas e… cuidado. Agora, se há aqui uma linha muito clara, uma perspetiva tática, uma perspetiva estratégica muito consolidada, também não há.
E depois há a dimensão que é preciso não ignorar, que também é preocupante em termos do prestígio das democracias liberais, que é a dimensão dos interesses pessoais e familiares, que é por demais evidente. É a dimensão comercial da política externa. Há aqui uma mistura de várias dimensões, se quiser: as contradições próprias do sistema americano e a atitude americana em relação ao resto do mundo; os interesses pessoais e familiares do senhor Trump; a cultura transacional dele próprio, que faz tudo como se fosse um negócio imobiliário. Tudo isso comes together, se junta, se agrega, para resultar em ações que muitas vezes parecem um bocadinho contraditórias. Mas, por outro lado, há duas ou três frases no livro que sintetizam isto: no fundo, um país como a América nunca pode ser totalmente isolacionista. Nunca pode dizer que os problemas dos outros não lhe interessam. Nenhuma crise do mundo pode realmente ser resolvida sem a intervenção dos Estados Unidos ou sem a contribuição dos Estados Unidos. No fundo, quer os Estados Unidos quer o mundo estão condenados a um papel importante dos Estados Unidos. E isso é preciso também perceber na Europa. Os Estados Unidos, pelo que representam no mundo, pelo que representaram até agora, pelo peso a todos os níveis que têm, são incontornáveis. E mesmo que os Estados Unidos não queiram participar na solução dos problemas, cedo ou tarde a cavalaria está aí a chegar. Portanto, é isto que temos que gerir. E temos de agir com inteligência, não desistir da América, entender como é que funciona o senhor Trump e as pessoas que estão à volta dele, gerir o melhor possível, esperando sempre que a América, entretanto, entre num caminho um bocadinho diferente.
“Percebo perfeitamente o que deve viver o secretário-geral das Nações Unidas nestes tempos. Não é fácil”
Outra contradição que encontrei no livro tem a ver mais com a situação do multilateralismo hoje em dia, em particular a ONU. Ao ler sobre a sua experiência nas Nações Unidas, achei muito curioso que há esta perceção geral de que a ONU é cada vez mais irrelevante, está paralisada e não consegue ter a influência que teve, mas ao mesmo tempo há uma competição feroz entre Estados para terem o assento no Conselho de Segurança.
Exatamente.
Como é que se conjuga isto? Como é que é assim tão irrelevante se há esta pulsão [dos países]?
Quando lá estive, a ONU era um bocadinho mais relevante do que é agora, sejamos honestos. Agora a tendência tem vindo a decrescer. Em relação à ONU, diria o seguinte: o problema com a ONU é que se nós acharmos que ela já não serve, não tenho a garantia de que seremos capazes de construir alguma coisa alternativa que seja melhor do que a ONU atual. E, portanto, volto à expressão do bebé e da água do banho: se acharmos que a ONU não está a funcionar e disser “OK, acabou-se a ONU”, o que é que vamos fazer em alternativa? É impossível hoje construir algo semelhante às Nações Unidas, neste momento histórico em que falamos. Portanto, talvez seja melhor não ir por aí e tentar preservar o essencial das Nações Unidas. Nós fizemos em 2015 duas coisas essenciais: o Acordo de Paris sobre o clima e o acordo sobre os Sustainable Development Goals, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que foram grandes conquistas das Nações Unidas. Ultimamente fizemos um tratado que passou um bocadinho despercebido sobre a regulação do alto mar, das águas não territoriais — muito importante para Portugal também. Ou seja, as Nações Unidas são capazes de fazer coisas úteis. E têm os instrumentos, desde que haja vontade política dos seus principais protagonistas. O problema das Nações Unidas, neste momento, é essencialmente o Conselho de Segurança e, dentro do Conselho de Segurança, os cinco membros permanentes. Todo o edifício das Nações Unidas se baseia nesse conceito. No fundo, as potências que ganharam a Segunda Guerra Mundial construíram aquilo, depois a China adaptou-se em termos da sua própria evolução, mas basicamente são os vencedores da guerra que criaram aquela estrutura e, portanto, aquela estrutura tem como seu pináculo essencial os membros permanentes. Ora, se você tem dentro dos membros permanentes alguns que estão em total violação do espírito e da letra da Carta das Nações Unidas, os P5 deixam de funcionar. Se os P5 deixam de funcionar, o Conselho de Segurança deixa de funcionar. E se o Conselho de Segurança deixa de funcionar, o secretário-geral deixa de ter poder.
E a ONU paralisa.
E a ONU paralisa. E ao paralisar a sua vertente de segurança, de prevenção de conflitos, de manutenção da paz, de mediação, de tudo isso que é o pilar central, os outros pilares — o humanitário, a recuperação das crianças, o ambiente, o que você quiser — também são vítimas dessa deterioração da relevância e da centralidade das Nações Unidas. E é aí que estamos atualmente. Agora, países que não os nossos vão dizer “Mas o problema é que as Nações Unidas não refletem o mundo de hoje, refletem o mundo de 1945, mas não refletem o mundo de 2025″. Eles têm razão. Se nós queremos preservar o essencial das Nações Unidas, mas torná-la mais capaz de agir no mundo atual, temos que reformar as Nações Unidas. Temos de ser capazes — e quando digo nós, somos sobretudo os países ocidentais, que são três dos cinco [do P5] e todos os que estão à volta deles e que são, de algum modo, representados por eles — de assumir que, para que a ONU continue a ser útil no mundo, é preciso que se reforme de alguma maneira. Mas isso é muito difícil de fazer. O Conselho de Segurança só é reformável se os membros permanentes quiserem que ele seja reformado. Portanto, estamos nesse impasse. O que espero é que nos próximos anos, na sequência desta turbulência em que vivemos nos últimos anos é que vamos continuar a viver ainda alguns anos, que a síntese disso tudo possa ser um consenso em termos da reforma das Nações Unidas, que mantenha um sistema. Agora há alternativas a isso: o decoupling, ou seja, a separação total entre o mundo chinês e o mundo americano; a existência de esferas de influência, a Monroe Doctrine do mundo ocidental, a Rússia com o seu espaço de influência e a China do outro lado. Isso é o pior negócio para a Europa, obviamente, mas isso também são alternativas possíveis. Ou então um sistema muito anárquico de multilateralismos regionais que depois se combinam entre eles. Eu não sei, não faço ideia. Já não é para a minha geração, certamente será para a sua. Mas enfim, o meu ponto crucial em relação à ONU é dizer “Não deitemos o bebé com a água do banho, porque não temos outro bebé aí disponível para o substituir e, portanto, cuidado com isso”. Agora, percebo perfeitamente o que deve viver o secretário-geral das Nações Unidas nestes tempos. Não é fácil.
“Tem de se ter um grande respeito pelo populismo. Não respeito pelas soluções que eles preconizam, mas no respeito pelas preocupações que levaram os eleitores a votar nos populistas”
Mudando aqui um bocadinho a agulha e olhando para o Brexit, que naturalmente ocupa grande parte do seu livro. Considera que foi o maior desafio da sua carreira?
Acho que ele é exemplar. Às vezes digo “Há ali uns dois ou três capítulos do Brexit que as pessoas não precisam de ler”, porque, no fundo, é o meu testemunho sobre aquele período, que corrige de alguma maneira ou completa outros testemunhos que foram postos aí. Você vê tudo o que fiz com os jornalistas ingleses, não é propriamente essencial para perceber a História…
Mas é muito divertido de ler.
Aquilo foi de facto muito intenso. Mas o meu objetivo com um capítulo tão grande sobre os mil dias é porque acho que tem piada um primeiro embaixador da União Europeia ver o país da janela do prédio da [Margaret] Thatcher [o edifício onde se estabeleceu a embaixada da UE em Londres é o mesmo onde em tempos foi a sede do Partido Conservador]. Achei piada a essa coincidência. Eu chamo ao Brexit “A mãe de todos os divórcios”, na medida em que é uma síntese da congregação dos fatores exógenos e dos fatores domésticos. E a maneira como os populistas aproveitam essa conjugação e a maneira como os populistas utilizam de forma oportunista as dificuldades que resultam, por exemplo, da globalização. Toda a questão do Rust Belt [cinturão do aço] do norte da Inglaterra e das pessoas que se sentiram vítimas do processo de globalização e o choque entre elas e a elite globalista… Aconteceu na América, foi isso que elegeu Trump, é isso que elege a Frente Nacional na França. E não quero falar do caso português, mas se calhar também estamos por aí. O Brexit incorpora isso, essa dimensão dos fatores externos que tiveram uma influência interna e depois dos fatores domésticos que estão lá bem presentes. No fundo, houve uma campanha pró-Brexit que apostou muito nas emoções e houve uma campanha contra o Brexit que foi mais racional. Ganharam as emoções. Isto é também uma lição para os políticos moderados do centro-esquerda, centro-direita, aqueles que construíram a Europa, para perceberem que, em relação ao populismo… Acho que tem de se ter um grande respeito pelo populismo. Não um respeito pelas soluções que eles preconizam — que não são viáveis, que não existem na maior parte das vezes — mas no respeito pelas preocupações que levaram os eleitores a votar nos populistas. E se nós não percebermos isso, se nos focarmos apenas na vacuidade das propostas e das soluções que os populistas propõem, estamos a perder o essencial e estamos a perder estes eleitores.
Porque se está a ter um debate intelectual sobre algo que é emocional?
É preciso ir à raiz! Por que é que as pessoas votam nessas pessoas? Por que é que votaram no Brexit? Num capítulo tento ir um bocadinho mais ao fundo e perceber como é que é que isso aconteceu. A relação que o Reino Unido sempre teve com a União Europeia foi muito utilitária, muito economicista. Não havia alma naquela relação. Às vezes tenho um bocadinho medo que também em Portugal as pessoas pensem que a Europa é só para dar dinheiro — quando se acabar o dinheiro, o que é que fica da Europa? O Brexit é útil para se perceber como é que nos devemos relacionar com a União Europeia, como é que os que apoiam a Europa devem defender o projeto europeu, mas também em termos mais gerais, como é que as forças políticas moderadas devem falar com os cidadãos que se sentem deixados para trás. E os populistas têm, na maior parte das vezes, maior capacidade de falar para essas pessoas do que os políticos mais moderados. Portanto, há aí uma série de lições do Brexit que é preciso entender. Mas, por outro lado, também é evidente no Brexit que aquilo foi uma má opção para o Reino Unido. Está agora óbvio que, no mundo atual, até um país como o Reino Unido é um país pequeno e que pesa menos do a União Europeia quando fala com os Estados Unidos.
Ou com a China.
Com a China. Ou com a Rússia. Isso é hoje evidente no Reino Unido. Portugal é um país ainda bastante mais pequeno que o Reino Unido e digo na introdução da versão portuguesa do livro que estarmos sós, mesmo que orgulhosamente sós, não é solução para o país. E é preciso que isso seja dito e redito e que Portugal se empenhe, sobretudo na relação euro-atlântica — NATO-União Europeia — sem esquecer, obviamente, as nossas extensões para a África e para a América do Sul. Mas Portugal tem que se empenhar fortemente no reforço desta dimensão euro-atlântica, é aí está o nosso futuro, sejamos claros. E, no caso do Brexit, é um país muito maior do que nós, uma grande potência, um antigo império, um membro permanente do Conselho de Segurança que, estando fora do seu habitat natural, se sente enfraquecido.
Diz que tanto a Covid como a invasão da Ucrânia mascararam os efeitos iniciais do Brexit e que se calhar se demorou a perceber os problemas trazidos pela saída. Não acha que estamos a ver uma recuperação da influência no espaço mundial do Reino Unido agora? O papel, por exemplo, na Coalition of the Willing [Coligação das Vontades] foi muito marcante… Pelo menos em termos diplomáticos há uma reorganização e reposição do Reino Unido?
Sim, acho que o senhor [Keir] Starmer e o Labour trouxeram uma outra dimensão, obviamente. Embora eu reconheça que o Boris Johnson, meu caro amigo [risos], teve um papel importante desde o início da crise ucraniana em afirmar a necessidade de apoiar a Ucrânia e foi mais vocal do que alguns líderes europeus nessa altura. Portanto, reconheço a Boris esse papel. O Labour prolongou essa linha e há uma coerência total entre os conservadores e os trabalhistas na questão da Ucrânia, na questão da Rússia, na questão dos Estados Unidos — embora com nuances —, há uma continuidade da posição britânica. A diplomacia britânica é excelente, ficou traumatizada com o Brexit e traumatizada com aqueles anos difíceis, agora está também a recuperar. Para mim, o Reino Unido continua a ser um país central da diplomacia internacional. Estou muito contente que se tenha feito um reset com a União Europeia. Não sem alguns problemas, não é tão fácil como as pessoas possam pensar, porque, enfim, entre as pessoas que viveram um divórcio — não é, felizmente, o meu caso — a relação nunca volta a ser como era. Não temos de ter ilusões quanto a isso. Também não temos de ter ilusões que o Reino Unido vai voltar à União Europeia any time soon [brevemente]. Não, isso não vai acontecer. Temos é que ser criativos e imaginativos e investir numa nova relação entre a União Europeia e o Reino Unido, que acho absolutamente fundamental. Como acho que é fundamental a triangulação Reino Unido-UE-Estados Unidos, aquela minha ideia que não se pode desistir dos Estados Unidos. Acho que o Reino Unido tem um papel importante nisto. E estou de acordo consigo, depois da chegada de Keir Starmer o posicionamento inglês reforçou-se na cena internacional. Mas não invalida o handicap que representa o Brexit.
“Você ia a França, ia à Alemanha, e ninguém queria falar com Boris”
Falou agora em Boris Johnson, conhece-o há muitos anos. Escreve a certa altura que o caráter pessoal dos líderes e a química entre líderes pode ser muito mais relevante do que as pessoas pensam. No caso de Boris, essa química não foi suficiente? Ele separava muito bem a persona e a interação pessoal das políticas que defende?
O Brexit foi muito traumático, consideravelmente traumático. E os três anos em que estive em Londres, os mil dias depois do Brexit, foram o período mais difícil. Os líderes europeus pura e simplesmente não queriam falar com o Boris. Não houve nenhuma cimeira — à exceção do G7, de que fui anfitrião — entre a União Europeia e o governo conservador pró-Brexit. Tínhamos cimeiras anuais com a China, com toda a gente, mas não com o Reino Unido. Houve ali uma total quebra de comunicação, de intimidade entre os líderes europeus e os líderes britânicos. E isso é fundamental para as relações internacionais. A minha relação com ele não podia resolver esse problema. Embora, nos contactos que nós tivemos… Eu descrevo alguns, houve outros que não posso descrever ainda.
Mas daqui a uns anos…
[Risos] Toda aquela história de demorarem a minha apresentação de credenciais foi um tiro no pé do lado deles e que os fez sentir um bocadinho envergonhados pelo que estavam a fazer. Em cada uma dessas relações, percebia-se que ele não queria cortar os laços pessoais e que “We remain good friends” [continuamos a ser bons amigos], aquelas coisas todas. Mas, ao nível dos líderes europeus e ele, o corte foi quase absoluto. Você ia a França, ia à Alemanha, e ninguém queria falar com Boris. Porquê? Não era só “Traíste-nos, foste embora e já não nos falamos”. Foi a maneira como ele geriu as relações dessa altura, renegando totalmente aquilo que tinha assinado. A confiança quebrou-se, não só por ele ter saído da União, mas por ele não ter respeitado as coisas que assinou. Porque ele não queria implementar aquilo, sobretudo em relação à Irlanda do Norte — é uma coisa um bocado tecnicamente complicada, mas foi o exemplo mais claro de “Eu vou assinar isto, mas nunca vou aplicar isto”. Era assim. E tomava medidas unilaterais contrárias àquilo que tinha assinado. Isso é a pior coisa… Add insults to injury, em português “esfregar o sal na ferida”. A ferida já lá estava, que era o Brexit. Portanto, ninguém queria falar com ele, ninguém queria perder tempo com o Brexit. É também uma ilustração da importância da relação pessoal entre líderes, que tive a oportunidade de presenciar a vários títulos, sobretudo quando fui chefe de gabinete de José Manuel Durão Barroso.
O Carlos Costa faz um comentário ao livro sobre aqueles que acham que a História é determinada pela evolução de acontecimentos económicos, sociológicos e outros, e que as pessoas têm pouca influência no devir da história, e a outra escola que diz que no fundo é feita por pessoas e etc. No comentário dele, ele diz que o livro no fundo reflete bem esse peso respetivo da dimensão pessoal dos líderes na gestão da História. E talvez seja cada vez mais assim, não é? Nas nossas sociedades muito determinadas pelas redes sociais, pelos ciclos noticiosos de 24 horas, pela personificação da política… Nós, em Portugal, teoricamente, não elegemos primeiro-ministro, mas a campanha é toda feita à volta daquele que vai ser o primeiro-ministro. Tudo é personificado. E, quando é assim, quando as pessoas chegam ao poder, o papel delas acaba por ser mais importante do que seria no século XIX, por exemplo, em que as pessoas viam o Rei à distância. Por isso é que quis dar um bocadinho dessa ideia e falo de algumas personalidades que me pareceram mais interessantes. Se há experiência que me marcou foi assistir a encontros entre líderes, quer telefónicos quer presenciais. Aí aprende-se muito da vida, da diplomacia, das relações externas, de tudo o que quiser. Coisas boas e más.
Ainda a propósito disso, fala no livro de Emmanuel Macron e diz que, apesar de não o ter conhecido tão de perto como outros líderes que menciona, deixa-lhe alguns elogios, mas diz que lhe faltou alguma química pessoal com Merkel e com Scholz. Acha que é porque lhe falta o carisma que identificou em figuras como Tony Blair e como Bill Clinton? Macron tenta, mas não tem essa dimensão?
Talvez, talvez. Bill Clinton e Tony Blair são os políticos mais naturais. Fui buscar um livro muito interessante do Joe Klein sobre a campanha do Clinton em 1992 e estive perto do Tony Blair mais do que do Clinton, mas também do Clinton. E eram de facto os dois que tinham mais… Um político que é capaz de numa conversa consigo a deixar assim…
Impressionada?
Impressionada, mas ao mesmo tempo ele é capaz de impressionar uma multidão de 20 mil pessoas. Há poucos líderes que sejam capazes de fazer isso sem criar qualquer espécie de reação, de se sentir que eles são arrogantes ou que são petulantes ou que se sentem superiores. Nem Tony Blair nem Clinton passavam essa imagem. Tenho dúvidas sobre Macron, como tenho dúvidas sobre outros outros líderes como [Barack] Obama também, que aprecio muito e com quem privei bastante, mas que não deixa de ter alguma dimensão de arrogância intelectual que pode afastar algumas pessoas. Macron é um bocado do estilo francês e da posição de um chefe de Estado com muito poder e tudo muito centralizado numa pessoa. Ainda assim, acho que Macron tem a vantagem e tem o mérito de ter levantado algumas questões que outros não levantaram e de ter avançado com algumas ideias que, boas ou más, tentam ainda encontrar soluções para os problemas que a Europa tem hoje. Daí considerar que ele teve uma influência importante nestes 25 anos, como teve Tony Blair por outras razões, como teve Angela Merkel por outras razões, em termos da formatação daquilo que foi a União Europeia ao longo destes anos. Vamos ver o que é que o senhor Macron pode fazer e espero é que ele não dê posse ou não acolha a senhora [Marine] Le Pen ou o senhor [Jordan] Bardella na escadaria do Eliseu quando sair.
“É fundamental” manter relação dos europeus com Trump, mesmo “tendo de engolir alguns sapos”
Veremos. A propósito de Merkel, escreve que com ela “Um acordo era sempre um acordo“ e que não se pode dizer isso sobre todos os líderes da UE. Quer revelar em quem é que estava a pensar quando disse isso?
[Risos] Não posso, não posso… Mas é verdade, isso é verdade. E se perguntar ao doutor Durão Barroso, ele certamente estará de acordo comigo. Porque é um facto e posso comprovar isso ao nível das pessoas com quem trabalhava diretamente. Os dois principais conselheiros dela nunca falharam nos compromissos. Podíamos estar em desacordo com coisas, mas quando dizíamos “Pronto, vamos fazer assim”, isso sempre aconteceu. Não aconteceu com todos os líderes europeus, mas não vou nomear ainda [risos]. E isso é fundamental nas relações internacionais.
A confiança?
A confiança. E isso foi o que se quebrou com o Brexit e que se quebrou com Boris Johnson. Aí é um bom exemplo de quão importantes são as personalidades dos líderes e a relação entre eles e a intimidade que eles criam. Por exemplo, em relação a Trump, no princípio deste mandato algumas pessoas pediram o meu conselho sobre como é que se trata Trump, how to deal with Trump. Disse várias coisas mais ou menos inteligentes, entre elas “Ocupem o terreno, falem com o senhor, vão ver o senhor. Digam-lhe coisas, escrevam-lhe coisas, digam-lhe algumas coisas que o deixem contente” — obviamente com as pessoas vaidosas tem que se tem que se ter essa consideração —, mas ocupem o terreno, não deixem que outros falem por vocês, não deixem que outros falem mais com ele do que ele com vocês. Encontrem a melhor maneira de o fazer, mas empenhem-se numa relação pessoal com o líder dos Estados Unidos, isso é absolutamente fundamental. E acho que os líderes europeus têm feito isso, basicamente. Muitas vezes a muito custo, muitas vezes relutantemente, muitas vezes a contragosto, muitas vezes tendo de engolir alguns sapos, não é? Mas isso é fundamental. E é válido para Trump, como, a meu ver, é válido para qualquer outro líder de uma nação. Às vezes é mais difícil. Às vezes temos que respeitar alguns princípios e, quando se ultrapassam linhas vermelhas, temos de dizer não. Mas o princípio do empenhamento numa relação pessoal entre líderes é fundamental.
Diz que Durão Barroso tinha esse investimento pessoal de forma muito visível. Isso hoje em dia sente-se com Ursula Von der Leyen, por exemplo? Ela tem mantido contactos regulares com Donald Trump. Sente que é o mesmo tipo de investimento pessoal que Durão Barroso tinha, à época dele?
Não sei. Não trabalhei com senhora Von der Leyen diretamente. Trabalhei para ela enquanto estive em Nova Iorque e em Londres. Ela visitava e eu acompanhava, mas não trabalhei diretamente como trabalhei quase 24 sobre 24 horas com Durão Barroso. O estilo é muito diferente. O que achava de Durão Barroso é que era um investimento até físico na relação com os líderes. O tempo que ele passava, as viagens que ele fazia, as démarches que tomava para para estar em contacto os líderes… Antes de mais, com os 27 — 28 na altura —, com os próprios comissários também, depois com os líderes dos Estados-membros, depois o G7, depois o G20, depois a África e tudo isso. E isso é fundamental no dia de hoje e é fundamental para a Europa. Acho que a senhora Von der Leyen também anda na mesma linha. Ela fez um bom trabalho com Joe Biden.
Este animal europeu — chamo-lhe um bicho raro — é um animal raro na cena internacional porque nós somos uma construção especial. No próprio G8 ou G20, estão lá os líderes nacionais e depois estão mais duas pessoas, e alguns não sabem de onde é que estes vêm, muitos jornais nem nos identificam. O G8 tinha dez pessoas, o G7 tem nove, porque estão lá aqueles outros dois que representam os 20 e tal que não estão lá. Portanto, é um animal raro, não é? Até por essa razão é fundamental que os líderes europeus tenham proativamente a capacidade de falar com outros e de se empenharem na relação internacional. Quem começou a fazer isso de uma forma mais evidente foi Durão Barroso. Depois, Jean-Claude Juncker fez um bocadinho menos, porque interessava-se menos por isso. E depois a senhora Von der Leyen nestes mandatos tem obviamente expandido isso. O que às vezes tem alguns problemas com o presidente do Conselho Europeu, por exemplo. Teve com o senhor Charles Michel, a relação entre eles era não era boa e às vezes havia uns problemas…
Lembremo-nos do episódio da cadeira [numa visita à Turquia, em 2021, ambos tentaram sentar-se na cadeira disponível ao lado do Presidente turco, com Von der Leyen a acabar subalternizada].
O episódio da cadeira na Turquia! E outros que um dia talvez conte [risos]. Agora parece-me que as coisas estão melhores, parece-me que entre Von der Leyen e António Costa as coisas se passam duma maneira diferente. Mas há sempre uma tensão, porque são duas pessoas a disputar um bocadinho o [mesmo] papel. É fundamental que não projetem para o exterior algumas dificuldades que têm e parece-me que isso está a ser conseguido atualmente.
Discutam dentro de casa, mas que isso não não passe para fora?
Exatamente, exatamente.
“Temos de ter confiança na bondade do sistema que conseguimos criar” no Ocidente
Neste tempo de divórcio das nações, invocou Gloria Gaynor como mensagem de esperança.
[Risos] Não é do seu tempo!
Continua convicto disso, de que que vamos sobreviver, mesmo que não saiamos de um mundo igual àquele em que em que nascemos, provavelmente?
Acho que sim. Confio na Humanidade e não posso deixar de confiar. E espero que para os meus netos o mundo deles não seja muito pior do que este. Será diferente, mas espero que não seja muito, muito pior. Espero até que seja melhor. Acho que temos de ter mais confiança nos nossos valores e na bondade do nosso sistema de democracia liberal aberta.
Mais orgulho, até?
Se nós não estivermos convencidos como é que vamos convencer os outros? Já vivi em vários países e já visitei 75 países no mundo. Tenho alguma ideia de como este mundo é. O melhor lugar para se viver é a Europa, não tenha dúvidas. Em termos médios, não estou a falar das pessoas muito ricas nem estou a falar das pessoas muito pobres. Bem, as pessoas muito pobres vivem melhor na Europa do que em qualquer outro lado do mundo, sejamos claros. Os mais ricos se calhar vivem melhor noutros sítios do que na Europa. Mas, em termos médios, a melhor qualidade de vida em termos da relação entre a capacidade de atingir os seus objetivos pessoais, de se desenvolver enquanto pessoa, e a proteção que o sistema oferece àqueles que são menos capazes ou que são mais desfavorecidos por alguma razão, o melhor equilíbrio é na Europa. Não tenhamos dúvida nenhuma sobre isto. E o facto de nós conseguirmos ter a garantia de paz na Europa, quando antes havia regularmente guerras civis, são grandes conquistas europeias, das quais devemos estar mais confiantes e até ter honra nisso. Isso falta na Europa e falta ao Ocidente em geral. Algumas pessoas ficam fascinadas com o sistema chinês porque aquilo anda certinho… Por amor de Deus! Quem é que quer emigrar para a China? Todos querem emigrar para os países europeus e para os Estados Unidos. Ponto final. Ninguém quer emigrar para a Rússia, ninguém quer emigrar para a China, ninguém quer emigrar para a Coreia do Norte.
Temos de ter essa consciência, essa noção e essa confiança na bondade do sistema que conseguimos criar, mas também confiança e honra naquilo que conseguimos construir em termos multilaterais. Tivemos a Guerra Fria, tudo bem, mas ainda assim, durante a Guerra Fria, evitámos uma catástrofe nuclear, o mundo conseguiu aguentar sem cair no desfiladeiro. Depois, com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, conseguimos umas décadas de paz, de desenvolvimento, de abertura do mundo, de grande expansão tecnológica e de aproximação do mundo através da revolução móvel, digital, tudo isso. Vamos deitar isto tudo pela borda fora? A favor de quê? Zonas de influência? Fronteiras fechadas? Sistemas não democráticos, de autoritarismo? Não é isso que eu quero para os meus netos, sinceramente. Temos de ter consciência do que está em causa aqui. Daí que eu tenha utilizado o conceito de divórcio. Porque quando penso em divórcio, penso nos filhos do casal divorciado, que são, geralmente, as principais vítimas do divórcio. A humanidade são os filhos deste divórcio global e, portanto, é nisso que temos que pensar. Temos de ter consciência que está em curso um processo de deterioração das relações internacionais. O mundo está a leilão, de certa maneira, não é? Não sabemos bem quem é que vai pegar nisto, como é que vamos sair disto. Este livro é uma modesta contribuição para as pessoas pensarem um bocadinho nestas coisas, perceberem um bocadinho como é que chegámos aqui e evitar que… Podemos estar à beira de um precipício, vamos tentar não cair.
Sobreviveremos?
We will survive.