“Fui o pai do Tal&Qual. Digo-o aqui desde já antes que chamem pai a outro.” Arranca assim o prefácio de Joaquim Letria ao livro “Tal & Qual – Memórias de um jornalismo”, onde conta como o jornal nasceu, há 40 anos, por causa do fim abrupto do seu programa de televisão com o mesmo nome. Foi chamado por Carlos Cruz, diretor de programas da RTP, para lhe comunicar que iam acabar com o programa, por indicação do então presidente do canal público, Victor da Cunha Rego, por alegadamente a Igreja ter ficado incomodada com uma entrevista histórica em que o ator Carlos Wallenstein interpretava o padre José Agostinho de Macedo, da Real Mesa Censória.

Era noite de santos populares e Joaquim Letria foi jantar sardinhas a Alfama com o jornalista catalão Ramon Font, que o desafiou: “E se fizesses um jornal com o mesmo nome e a mesma filosofia do programa?”. Em poucas horas ficaria criado o núcleo duro de um novo jornal semanário, que duraria 27 anos. “Foi aí que nasceu o jornal Tal&Qual. Eu fui o pai, fui quem o concebeu, escolheu o grafismo, a filosofia editorial dum “yellow paper” que não havia em Portugal, as rubricas, “A Pimenta na Língua” e o modo de o fazer. Mas quem teve a ideia foi o Ramon Font. Quando me deitei de madrugada já tinha na cabeça um “jornal de boulevard”. No dia seguinte telefonei ao Hernâni Santos (…). Perguntei-lhe: “Queres vir fazer mais um jornal comigo?” Encontrámo-nos, ele acreditou que era possível e que éramos suficientemente loucos para o fazer e ter sucesso. (…) O Hernâni Santos, entretanto, sugere que conhecera no Expresso onde fora chefe de redação um tipo que fazia falta a este projecto. Ele tinha razão: o José Rocha Vieira foi um elemento muito importante. Ficaria mais tarde dono e senhor do Tal&Qual depois de os quatro desfazermos a sociedade de 4×25% de quotas que decidíramos criar.”

Além do prefácio de Joaquim Letria, o livro conta com depoimentos de ex-jornalistas com bastidores das histórias mais marcantes, reunidos por José Paulo Fafe, ex-jornalista que chegou à direção do Tal&Qual. O maior capítulo, onde se reconstituem de forma mais aprofundada os bastidores dos primeiros tempos do jornal e dos grandes escândalos que denunciou, é da autoria de Gonçalo Pereira da Rosa, jornalista e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, que já antes tinha escrito entre outros os livros “Parem as máquinas – Glórias, peripécias e embustes do jornalismo português”, “O inspetor da PIDE que morreu duas vezes” e “Big Mal & Companhia”. Pode ler a seguir a pré-publicação de alguns excertos desse capítulo.

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