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▲"Um cérebro ideológico é um cérebro muito dogmático, que adota um sistema de regras e crenças e não está disposto a ouvir outros factos ou perspetivas sobre o mundo", diz Leor Zmigrod

AFP via Getty Images

▲"Um cérebro ideológico é um cérebro muito dogmático, que adota um sistema de regras e crenças e não está disposto a ouvir outros factos ou perspetivas sobre o mundo", diz Leor Zmigrod

AFP via Getty Images

Leor Zmigrod: "Mergulhar em certas ideologias de forma extrema pode mudar o nosso cérebro e a nossa biologia"

No livro "O Cérebro Ideológico", a neurocientista e investigadora americana explora os efeitos que as ideologias têm no pensamento e como certas mentes podem ser mais ideológicas. Falámos com ela.

Imagine que recebe um convite para participar num teste cognitivo que se assemelha a um jogo de associação. À sua frente surgem cartas com diferentes números de figuras, formas e cores. Para acertar e acumular pontos, tem de juntar as cartas com a mesma cor. Parece simples e satisfatório, no entanto, a meio do teste, as regras mudam sem que receba qualquer aviso — agora é preciso juntar as cartas que têm as mesmas formas. Face a esta alteração, tem duas alternativas: ou se adapta e, através de tentativa e erro, descobre a nova lógica do jogo, ou frustra-se e resiste a participar numa atividade onde lhe tiraram o tapete. Se tiver mais propensão para esta segunda hipótese, é capaz de ter o que Leor Zmigrod classifica como um “cérebro ideológico”.

O exemplo acima apresentado não é apenas hipotético, chama-se Teste Wisconsin de Classificação de Cartas e foi um dos que a investigadora da Universidade de Cambridge e a sua equipa aplicaram a 330 participantes num estudo para aferir se o pendor ideológico das pessoas afeta a sua capacidade cognitiva. A resposta curta é sim, porque as pessoas mais ideologicamente extremadas tendem também a ser as mesmas que apresentam aquilo que se classifica como “rigidez cognitiva”, ou seja, uma certa inflexibilidade na forma de pensar. “Quando se acredita numa ideologia de forma apaixonada e extrema, isso pode refletir-se no tipo de cérebro que se tem, no seu estilo de pensamento e até mesmo na sua biologia”, conta em entrevista ao Observador.

Os resultados desse teste são uma das pistas que O Cérebro Ideológico, livro que Zmigrod publicou este ano, oferece e expande para tentar perceber qual a relação entre extremismo ideológico, neurociência e biologia. No cerne da sua tese está a ideia de que, quanto mais intensa é a relação com ideologia, mais isso afeta a vida e os processos mentais dos seus seguidores — e isso verifica-se não só em ambos os extremos do espectro político, mas em todo o tipo de grupos sociais e religiosos. “Trata-se menos da ideologia em particular e das suas reivindicações e mais do estilo de pensamento que ela incentiva nos seus crentes”, afirma. Como antídoto, propõe que as pessoas cultivem formas de pensar que privilegiem posições contrárias e sejam mais flexíveis.

▲ Capa de "O Cérebro Ideológico", de Leor Zmigrod, na edição portuguesa da Dom Quixote

Dom Quixote

No entanto, a ideia mais intelectualmente controversa e desafiante que a premiada investigadora propõe é que a nossa propensão para o pensamento ideológico pode já ser inata, ou seja, a biologia de certos cérebros pode conduzi-los à adoção de ideologias. Dada a duração curta desta conversa, Zmigrod não explicitou em detalhe a ciência por trás destas conclusões que apresenta no livro. Por exemplo, que os cérebros ideológicos tendem a concentrar dopamina no estriado cerebral, que controla os nossos instintos rápidos, e menos no córtex pré-frontal, o nosso centro de tomada de decisões. Não obstante haver pessoas com diferentes níveis de suscetibilidade ao pensamento ideológico, a neurocientista defende que isso não é carta aberta para ceder a um determinismo biológico, pois “há centenas de fatores que podem tornar alguém mais vulnerável, mas cada pessoa continua a ter a liberdade de escolher de forma diferente”.

No decurso desta entrevista, Zmigrod aborda também como os fatores externos contribuem para a radicalização ideológica — o “stress” é um dos principais responsáveis — e como vivemos uma era sem precedentes onde a tecnologia começa a radicalizar jovens cada vez mais novos e como a Inteligência Artificial pode agravar tudo isto. “A forma como as pessoas estão a interagir com os chatbots é que agora o processo de radicalização não vai acontecer apenas através do consumo passivo de vídeos e conteúdos, vai ser ativo, certo? Porque a forma como uma pessoa interage com um chatbot é uma conversa, é pessoal, é um diálogo. Portanto, se os modelos de IA que tornar-se-ão predominantes tiverem uma agenda política, teremos aquilo que chamo IA ideológica”, alerta. No entanto, acredita também que ainda vamos a tempo de reverter esta tendência.

O que é um cérebro ideológico?
É, antes de mais, um cérebro muito dogmático, que adota um sistema de regras e crenças e não está disposto a ouvir outros factos ou perspetivas sobre o mundo. É isso o que faz uma pessoa pensar ideologicamente. São pessoas muito teimosas e presas à sua ideologia e que fazem disso a sua identidade. Por isso, julgam todos de acordo com o facto de pertencerem ou não a esse grupo, e isso faz com que se tornem hostis, agressivas e até violentas para com quem discorda. Agora, a questão de como esse pensamento ideológico afeta o cérebro está realmente no cerne do livro, porque o que mostro é que, quando se acredita numa ideologia de forma apaixonada e extrema, isso pode refletir-se no tipo de cérebro que se tem, no estilo de pensamento e até mesmo na biologia. Portanto, um cérebro ideológico é um cérebro que começou a internalizar essa ideologia e que foi moldado por ela.

Mas onde terminam as convicções e as crenças e começa a ideologia?
Essa é uma ótima pergunta, porque nem toda a crença ou conjunto de explicações ou histórias sobre o mundo são algo ideológico. Para mim, a linha que separa uma história cultural ou uma bússola moral de uma ideologia é a possibilidade ou não de desafiar as regras, coisa que não acontece numa ideologia. Qualquer pessoa que as desafie é considerada traidora e deve ser punida. Por outro lado, quando se fala de moralidade, de cultura ou de tradições, muitas histórias e explicações culturais permitem diferentes interpretações e é tido como bom brincar com as tradições ou modernizar as coisas. Numa ideologia, no entanto, não há capacidade para mudar ou incluir nada de novo ou diferente.

"Quando lhes aplicamos testes psicológicos que medem a sua capacidade de adaptação às provas e às mudanças, vemos que as pessoas que tendem a ser mais rígidas e maniqueístas no seu pensamento tendem a existir tanto na extrema direita como na extrema esquerda. Assim, em vez de uma rigidez da direita, vemos mais a rigidez dos extremos"

Argumenta que a suscetibilidade ao pensamento ideológico não é algo bem definido, que existe um espectro no qual todos nos enquadramos, sendo que algumas pessoas são mais propensas a isso do que outras. Porquê?
Nas investigações que realizei com milhares de pessoas, observei sempre que não se trata apenas da divisão entre mentes rígidas ou flexíveis, ideológicas ou não-ideológicas, mas geralmente de um espectro contínuo. E é importante reconhecermos que essa distribuição é contínua, porque assim entendemos que não somos completamente imunes. Não é que exista uma minoria radical por aí que é diferente de nós e acaba por envolver-se com ideologias radicais enquanto nós estamos “seguros”. Na verdade, todos nós podemos sentir-nos atraídos por essas formas dogmáticas de pensar e viver. Portanto, compreender que se trata de um espectro é importante tanto para permitir-nos fazer boa ciência sobre o assunto — porque podemos analisar as diferenças entre as pessoas —, como também para possibilitar que reconheçamos a nossa própria vulnerabilidade.

O seu foco neste livro não está tanto na substância das ideologias em si, mas na forma como todas elas acabam por afetar o cérebro humano. Porquê e como é que isso acontece?
O que descobrimos em toda esta investigação é que não se trata tanto do que uma pessoa acredita, mas de como ela acredita. Quando compreendemos isso, podemos traçar um quadro do cérebro ideológico observando o quão rígida e intolerantemente ele pensa, independentemente de a missão da ideologia subscrita ser de extrema esquerda, extrema direita, nacionalista ou religiosa. Assim, podemos obter uma imagem muito mais sólida do cérebro ideológico, porque se trata menos da ideologia em particular e das suas reivindicações e mais do estilo de pensamento que ela incentiva nos seus crentes. A mudança que sugiro no livro é realmente importante, porque não só torna possível uma ciência mais abrangente da ideologia, como também permite estar mais preparado para extremismos futuros, porque uma nova ideologia surgirá nos próximos dois, três ou cinco anos — e será bastante diferente em termos de substância daquilo que conhecemos anteriormente. Poderá recombinar elementos antigos, mas parecerá fresca e diferente numa nova embalagem. Temos de compreender que a forma como este extremismo atrai crentes é, na verdade, muito semelhante à forma como todas as ideologias atraem crentes.

Também destaca que esse tipo de pensamento é o que permite que algumas pessoas se convertam mais tarde a ideologias diametralmente opostas das que acreditavam. O que isso sugere é que, mesmo que a substância das ideologias tenha um papel importante, também tem muito a ver com a necessidade de “encontrar um sentido”.
É claro que a substância das ideologias tem um papel enorme, com certeza, não estou a dizer que não. Mas vemos frequentemente que pessoas que se radicalizaram em torno de uma missão ideológica, talvez em dado momento se desradicalizem, tenham dúvidas, passem por uma crise de fé e se afastem dela, mas muitas vezes essas mentes ainda estão vulneráveis e ainda são suscetíveis de se radicalizarem em torno de uma ideologia oposta, como referiu. E a razão para isso é porque uma ideologia não nos dá apenas um conjunto de crenças e diz-nos no que acreditar, também nos dá uma estrutura de como pensar e como existir no mundo. E essa é uma estrutura muito fechada. Portanto, se uma pessoa se acostumou a isso e se habituou a essa maneira de pensar e depois abandona-a, fica com um vazio, uma espécie de falta de sentido sobre como continuar a pensar e a viver, e é por isso que essas pessoas podem então apegar-se a uma nova ideologia. E, de muitas maneiras, espero que o livro dê aos leitores uma noção de como encontrar essa resiliência psicológica para não cair novamente numa ideologia extrema.

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Talvez este seja um salto lógico, e é preciso ressalvar as diferenças óbvias entre os dois casos, mas esta relação que descreve com a ideologia parece semelhante a um problema de adição. Será que podemos traçar um paralelo aqui?
Sim, acho que há um paralelo com o vício. Uma das semelhanças entre o vício em substâncias e os vícios ideológicos, em muitos aspetos, é que as ideologias funcionam pedindo à pessoa que repita as coisas uma e outra vez. Existem rituais, rotinas, padrões de comportamento que pedem à pessoa que as repita diariamente, às vezes até com mais frequência. E essas rotinas, rituais e hábitos são, da mesma forma que no vício [de drogas], algo que não é estático, não permanece fixo.

Em que sentido?
À medida que nos habituamos à dose, precisamos que ela seja cada vez mais forte para sentirmos o efeito. Da mesma forma, com muitas ideologias e a maneira como elas radicalizam as pessoas, as ideias tendem a tornar-se cada vez mais extremas, as conclusões tornam-se cada vez mais radicais e, às vezes, cada vez mais violentas por causa desse processo de habituação, dessa repetição que elas criam. Além disso, esse processo também permite que as pessoas acreditem que é normal prejudicarem-se a si mesmas. Um dos problemas da dependência não é apenas o facto de existir uma substância que prejudica a saúde, mas também o facto de a pessoa estar disposta a prejudicar-se a si própria na busca dessa sensação. E isso é semelhante ao que acontece com pessoas que estão dispostas a sofrer mazelas graves, a arcar com custos elevados, até mesmo a cometer suicídio [por uma ideologia]. Elas estão dispostas a fazer isso porque se habituaram a essa sensação.

É provável que a maioria das pessoas pense imediatamente em política ou em política partidária quando se menciona ideologia. No entanto, no decurso do livro, recorda os estudos de Else Frenkel-Brunswik com crianças nas décadas de 40 e 50 para demonstrar que a propensão ao pensamento rígido não precisa de ser influenciada pela política e pode ocorrer numa idade precoce. Pode explicar como isso acontece?
O que foi realmente interessante nos estudos de Else Frenkel-Brunswik é que, ao observar crianças e medir os seus níveis de preconceito e a sua hostilidade em relação a grupos minoritários que eram relevantes para elas na época, é possível compreender que essa propensão para o autoritarismo, para querer que as coisas estejam em hierarquias, para que haja obediência a uma autoridade superior, para que todos se conformem, é algo que se aplica a quase qualquer tipo de ideologia fechada. Falo dessa glorificação de um líder — que, para muitas crianças, pode ser um dos pais —, e essa insistência de que todos devem se conformar ao mesmo modelo do que significa ser um ser humano. E o que esses primeiros estudos na década de 40 começaram a demonstrar é que podemos estudar o preconceito de crianças a partir dos nove anos, mesmo que possamos dizer que elas não sabem nada sobre política. Nessa idade, é possível ver crianças que já têm essa característica autoritária de querer que todos, até mesmo elas mesmas, sejam obedientes às autoridades e acreditem que essa é a virtude mais importante a ter. Por outro lado, também havia crianças na década de 1940 que eram muito liberais, muito tolerantes, que viam as relações como mais igualitárias e mútuas. E isso também era verdade num contexto de género.

De que maneira?
Fala-se nessas crianças e pode-se pensar “ah, era a década de 1940, elas certamente tinham visões muito antiquadas sobre género”, mas não. Quando se fez um inquérito a crianças de 9, 10, 11 anos na época, viu-se que as crianças mais autoritárias diziam “sim, meninas e meninos são completamente diferentes e as meninas devem ficar apenas em casa”, mas as crianças mais liberais diziam “não, meninos e meninas são a mesma coisa e as meninas devem seguir o que querem”. Ou seja, não era aquilo que agora se chama “ideologia de género”, porque as crianças têm um sentido mais intuitivo disso. É por isso que é tão interessante estudá-las.

"Há uma mudança a acontecer agora, em 2025, que não tem precedentes, e é a forma como recebemos e nos envolvemos com ideologias. Enquanto no passado isso acontecia de forma muito mais distante para nós, hoje ocorre nos smartphones que estão nas nossas mãos durante várias horas do dia. E há algoritmos que são propositadamente concebidos para nos radicalizar de forma eficaz. Sabemos que os incentivos financeiros das empresas de tecnologia são recompensar os criadores que criam os conteúdos mais radicais e extremos, porque é isso que se torna viral."

Mais de meio século depois, quando realizou estudos com a sua equipa, chegou a conclusões semelhantes, sendo que também evitou abordar a problemática num contexto político. Ao invés, realizou uma série de testes mais neutros. Como decorreram?
O que foi aqui empolgante para mim é que, embora algumas das ideias sobre o que torna uma pessoa ideológica, dogmática e preconceituosa já existam desde os anos 40, elas não foram realmente testadas com uma abordagem neurocientífica moderna. E assim, na investigação que realizei, fiquei realmente interessada em usar as tecnologias e métodos mais avançados para mapear o que há em alguns cérebros e as suas características que os tornam propensos a envolver-se com essas formas de pensamento fechadas, autoritárias e dogmáticas. Durante muito tempo, nas décadas de 40 e 50 e desde então, existiu a suposição de que sim, existem diferenças nas características psicológicas de pessoas com crenças diferentes, mas provavelmente o efeito mais pronunciado seria que as pessoas que estão na direita política, que valorizam a tradição e a manutenção do status quo, provavelmente tenderiam a ser os pensadores mais rígidos e inflexíveis nas suas vidas quotidianas. Isso foi batizado como a “hipótese da rigidez da direita”, um conceito muito popular e que, na verdade, continua a afetar a nossa área até hoje. O problema, no entanto, é a forma como esses estudos foram feitos originalmente.

Qual foi o problema?
Os investigadores simplesmente perguntaram às pessoas o quão rígidas elas achavam que eram e descobriram que os subscritores de esquerda diziam “sou muito flexível, não convencional e criativo”, enquanto que os de direita afirmavam “sou mais convencional”, e eles interpretaram isso como prova de que a “hipótese da rigidez da direita” era verdadeira. A questão é que não devemos perguntar às pessoas o quão rígidas elas acham que são, porque, na verdade, as pessoas têm muito pouco conhecimento sobre si mesmas. Descobri que as que se consideram mais rígidas podem ser as mais flexíveis, e as mais flexíveis não têm consciência disso. Por isso, o que tem sido importante para mim, cientificamente, é medir a rigidez cognitiva das pessoas e os seus atributos psicológicos com métodos mais objetivos e inconscientes. E quando fazemos isso, quando lhes aplicamos testes psicológicos que medem a sua capacidade de adaptação às provas e às mudanças, vemos que as pessoas que tendem a ser mais rígidas e maniqueístas no seu pensamento tendem a existir tanto na extrema direita como na extrema esquerda. Assim, em vez de uma rigidez da direita, vemos mais a rigidez dos extremos, e foi assim que começámos a mapear isso na política, no comportamento eleitoral e noutras ideologias.

A esse respeito, um dos principais dilemas que encontrou durante a sua investigação é semelhante ao velho enigma sobre o que veio primeiro, o ovo ou a galinha: somos predeterminados a ser mais ideológicos pelos nossos cérebros, ou os nossos cérebros mudam devido à ideologia que escolhemos? Admite no livro que são precisos mais estudos e deixa a questão algo em aberto. No entanto, que conclusões pode tirar até agora?
Isto funciona em ambos os sentidos. Alguns cérebros podem ser particularmente atraídos por certas ideologias e o seu funcionamento pode influenciar as ideologias que escolhemos. Ao mesmo tempo, se mergulharmos em certas ideologias de forma extrema e apaixonada, essa é uma experiência que pode realmente mudar o nosso cérebro e a nossa biologia. O problema do ovo e da galinha às vezes parece mutuamente exclusivo, parece que é uma coisa ou outra, mas, na verdade, acho que, neste caso, pode ser das duas maneiras. Mais importante do que isso, falo no livro sobre como, para compreender totalmente este problema do ovo e da galinha, temos de olhar para o que chamo “o ninho”, o ambiente em que uma pessoa se encontra. Porque se tivermos em conta o ambiente que nos rodeia, compreendemos realmente como isso pode afetar os nossos cérebros e, portanto, as nossas ideologias. E assim podemos desvendar este enigma olhando para a interação entre a nossa psicologia, a nossa biologia, as nossas crenças e o nosso ambiente.

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▲ Polícias recorrem a cassetetes para dispersar os confrontos entre membros da União Britânica de Fascistas e comunistas em Bermondsey, Londres, Inglaterra, em 4 de outubro de 1937.

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Nesse sentido, o foco principal do seu trabalho parece estar a um nível mais granular, nas características cognitivas do indivíduo. No entanto, ao longo da história temos visto ondas de ideias ideológicas a conquistarem a consciência coletiva — por exemplo, a ascensão do socialismo e do fascismo no início do século XX. Levando em consideração a ideia de “ninho” que propõe, como é que as influências externas entram em jogo?
Uma das principais formas como as influências externas afetam este processo é através da maneira como o stress nos afeta. Existem certos ambientes que são particularmente stressantes, talvez devido ao esgotamento dos recursos económicos, talvez devido à criação de hierarquias sociais que colocam algumas pessoas em posições de poder e outras não, espaços de isolamento social, solidão. Todos esses tipos de fatores stressantes podem tornar o nosso cérebro muito mais atraído por soluções ideológicas que nos dão certeza, clareza e identidade em tempos de caos, e isso é realmente um processo biológico. Vemos em estudos e experiências que, quando se coloca um corpo numa situação de stress ou de solidão ou com a sensação de que não tem recursos suficientes, esse cérebro começa a tornar-se mais rígido nos seus pensamentos e fica mais aberto a aceitar ideologias muito fechadas e sistemáticas. E é isso que precisamos de compreender sobre como diferentes gerações podem ser afetadas por isso: compreender também os diferentes fatores de stress que empurram as pessoas em determinadas direções. Além de que há também jogos de poder político em curso e incentivos financeiros que afetam as ideologias às quais somos expostos. Isso é realmente muito verdadeiro agora, em 2025.

Mas também salienta no início do livro que, mesmo tendo em conta esses fatores externos, se opõe à ideia de Hannah Arendt de que, nas circunstâncias certas, todas as nossas mentes estão prontas para serem conquistadas. É aí que entra a propensão biológica?
Sim, porque nem todos somos igualmente atraídos por essas ideologias totalitárias [de que Hannah Arendt falou]. Alguns de nós correm mais riscos do que outros, e compreender que existe essa diferença lembra-nos que não se tratam apenas de processos universais completos ou de que todos nós podemos ser submetidos a uma lavagem cerebral da mesma forma. Isso funciona de maneira diferente para pessoas diferentes.

Da banalidade do mal ao valor de uma revolução: a política de Hannah Arendt

Referiu-se ao nosso atual clima político, no qual estamos a passar por divisões cada vez mais acentuadas. Eu mencionei o início do século XX, mas o que estamos a sentir agora deve-se basicamente às mesmas causas fundamentais, certo? Mesmo que as circunstâncias sejam diferentes.
Sim, o cérebro e o corpo humano ainda respondem às coisas da mesma forma. Os mesmos seres humanos que existiam há 100 anos continuam a existir hoje, se bem que perante contextos, ambientes e tecnologias diferentes. A forma como hoje recebemos propaganda ideológica é, essencialmente, muito diferente daquela de 100 anos atrás. No livro, discuto um pouco sobre se essa é uma diferença categórica, ou seja, se são situações completamente diferentes, ou se é apenas uma diferença de grau em vez de uma diferença de natureza. E acho que, provavelmente, em muitos aspetos, trata-se de uma diferença de grau. No entanto, há uma mudança a acontecer agora, em 2025, que não tem precedentes, e é a forma como recebemos e nos envolvemos com ideologias. Enquanto no passado isso acontecia de forma muito mais distante para nós, hoje ocorre nos smartphones que estão nas nossas mãos durante várias horas do dia. E há algoritmos que são propositadamente concebidos para nos radicalizar de forma eficaz. Sabemos que os incentivos financeiros das empresas de tecnologia são recompensar os criadores que criam os conteúdos mais radicais e extremos, porque é isso que se torna viral. É com isso que as mentes se envolvem, conteúdo extremo que oferece algum tipo de novidade e algum tipo de provocação. E, portanto, há incentivos financeiros para nos radicalizar, sendo que agora há tecnologias cada vez mais perigosas para fazer isso das formas mais pessoais.

"Analisei os dados da última década e vejo que, há 10 anos, a idade média de uma pessoa vulnerável encaminhada para serviços de radicalização na maioria dos países europeus ainda era em torno dos 17 ou 18 anos. Agora, a maioria tem cerca de 13 e 14 anos. Isso é muito, muito jovem e muito, muito preocupante, e é por isso que no livro falo sobre o que há nas mentes jovens que as torna especialmente vulneráveis a esses tipos de efeitos. São as mais vulneráveis às ideologias porque são as mais necessitadas de sentido de significado e pertença, algo que procuram apenas por serem adolescentes no mundo."

Está a referir-se ao quê, em concreto?
Uma das coisas que me tem preocupado, especialmente nos últimos seis meses, é para onde a Inteligência Artificial (IA) nos levará. Porque, em primeiro lugar, este processo já começou, já temos uma enxurrada de deepfakes a entrar nas nossas vidas, o que significa que será muito difícil distinguir informações verdadeiras das falsas, entre distorções e a realidade. Mas, mais importante ainda, a forma como as pessoas estão a interagir com os chatbots é que agora o processo de radicalização não vai acontecer apenas através do consumo passivo de vídeos e conteúdos, vai ser ativo, certo? Porque a forma como uma pessoa interage com um chatbot é uma conversa, é pessoal, é um diálogo. Portanto, se os modelos de IA que tornar-se-ão predominantes tiverem uma agenda política, teremos aquilo que chamo IA ideológica, e isso radicalizará as pessoas muito rapidamente e em direção a estados muito, muito perigosos.

E, se me permite, o problema é que mesmo que esses modelos não sejam criados com uma intenção ideológica, são bajuladores, existem para reforçar as nossas noções e crenças.
Precisamente. Vimos esse problema com as “câmaras de eco” projetadas para reforçar os nossos preconceitos nas redes sociais, mas isso apenas afetou o tipo de informação que recebíamos. Agora, com essas propriedades de agradar as pessoas dos chatbots de IA, como referiu, mesmo que eles não tenham uma intenção explícita, vão começar a fazer isso. E estamos a ver casos de pessoas vulneráveis que vão para a Internet à procura de respostas e de um sentimento de pertença, e a IA que de repente se torna bastante ideológica e as incita a fins violentos e ideológicos. E isso, na minha opinião, é muito, muito perigoso.

Neil Lawrence. “A ideia de que está tudo condenado e do risco existencial causado pela IA é simplesmente absurda e uma enorme distração”

No início da nossa conversa, mencionou que nos próximos anos poderão surgir novas ideologias, mas há alguns indícios de que isso já começou a acontecer. Nos últimos anos, temos assistido a uma onda de ataques extremistas por parte de jovens cujas motivações parecem escapar à tradicional dicotomia esquerda/direita. A única coisa em comum entre eles parece ser que eles se radicalizaram em espaços online e por grupos como o 764, o No Lives Matter ou a Ordem dos Nove Ângulos. Como é que encara isso?
Esses exemplos mostram exatamente porque é que precisamos não apenas de observar no que as pessoas acreditam, mas como elas acreditam. Porque se trata realmente de compreender esse processo e essas vulnerabilidades. E agora, como mencionou, há novas ideologias a sugerir e a idade com que as pessoas se estão a radicalizar está a ficar objetivamente cada vez mais jovem. Analisei os dados da última década e vejo que, há 10 anos, a idade média de um jovem encaminhado para serviços de radicalização na maioria dos países europeus ainda era em torno dos 17 ou 18 anos. Agora, a maioria tem entre 13 e 14 anos. Isso é muito, muito preocupante e é por isso que no livro falo sobre o que há nas mentes jovens que as torna especialmente vulneráveis a esses tipos de efeitos. São as mais vulneráveis às ideologias porque são as mais necessitadas de sentido de significado e pertença, algo que procuram apenas por serem adolescentes no mundo. Mas também acho que há espaço para esperança, embora tal possa parecer improvável, porque o que sabemos sobre os cérebros jovens é que eles são capazes de muita aprendizagem e de passar por mudanças plásticas. Se lhes dermos melhores maneiras de se envolver com o mundo, podem adaptar-se muito bem a isso também. Portanto, precisamos aproveitar essa plasticidade do cérebro jovem para maneiras saudáveis de se envolver com o mundo, em vez de maneiras mais violentas e dogmáticas.

▲ Leor Zmigrod, neurocientista, investigadora da Universidade de Cambridge

Afirma que essa questão da plasticidade cerebral ainda não foi estudada a longo prazo. Esse é um dos seus objetivos, perceber se os processos de desradicalização também podem afetar o cérebro?
Sim, e estou neste momento a realizar um estudo longitudinal que acompanha pessoas ao longo do tempo. Começou quando eram crianças e eu entrei quando estavam no início da idade adulta e vou continuar a acompanhá-las na próxima década, provavelmente, para que possamos começar a compreender realmente as causas e os efeitos dos cérebros, corpos e ambientes familiares das pessoas que moldam as suas ideologias e também como elas podem também revertê-lo. Vai demorar, porque com um trabalho longitudinal de longo prazo é preciso esperar que as pessoas cresçam e mudem.

Um aspeto que enfatiza no livro é que, mesmo que alguém tenha predisposição para o pensamento ideológico, isso não significa que tenha de agir dessa forma. Nesse sentido, é um pouco como alguém com propensão para a obesidade ter de ter mais cuidado com o que come?
Sim, funciona exatamente da mesma maneira. Pode haver fatores genéticos que afetam a sua suscetibilidade ao extremismo ideológico rígido, pode ser algo biológico, psicológico, ambiental ou familiar, há centenas de fatores que podem tornar alguém mais vulnerável, mas cada pessoa continua a ter a liberdade de escolher de forma diferente. Como psicóloga, concentro-me na psicologia individual porque, é claro, há muitos sistemas que precisam de mudar, não se podem ignorar muitos problemas sistémicos e sociais, mas o começo tem de partir do indivíduo. É por isso que espero que os leitores se sintam empoderados para ver que podem ir contra isso, mesmo que estejam em risco por muitas razões diferentes. E eles têm a escolha e a capacidade de pensar de forma diferente. Eu até sugiro pensar de uma forma anti-ideológica.

"Não há regras nem prescrições que eu possa dar para combater o pensamento ideológico, mas o que podemos discutir são as perguntas que podemos fazer a nós mesmos, temas em que podemos decidir. Se eu quiser viver uma vida mais independente, crítica, equilibrada e sensível às evidências, aqui estão algumas coisas que posso ter em mente, porque é uma luta permanente"

Mas quanto a isso, quando pensamos na história, tendemos a constatar como os seus principais atores foram pessoas cuja firmeza e convicções determinadas não foram abaladas por opiniões contrárias. Isso pode ser visto como rigidez ideológica, certo? Onde é que isso se encaixa na sua tese?
Acho que há uma grande diferença entre ideologia e ciência. É verdade que às vezes as pessoas pensam “bem, o consenso científico é algo que parece rígido”, então como é que se encontra a diferença? E acho que, para mim, trata-se do facto de que, por exemplo, na ciência, há essa abertura a novas provas e evidências. Essa é a base da ciência: quando as evidências sugerem que devemos atualizar as nossas crenças, seguimos as que são credíveis. E isso é algo que não existe nas formas ideológicas de pensar. É claro que temos de estar constantemente atentos às estruturas, aos estilos e à forma como as pessoas pensam sobre as coisas, se estão a usar a ciência como desculpa para prosseguir intuitos ideológicos, mas há uma linha que podemos traçar. E, em muitos aspetos, também foi importante para mim que o livro em si parecesse, de certa forma, anti-ideológico.

Em que sentido? Isso não é ideológico em si mesmo?
A diferença é que não estou aqui a dizer “aqui estão as suas regras para a vida, aqui estão as regras para se tornar um pensador não ideológico”. Não há regras nem prescrições que eu possa dar para combater o pensamento ideológico, mas o que podemos discutir são as perguntas que podemos fazer a nós mesmos, temas em que podemos decidir. Se eu quiser viver uma vida mais independente, crítica, equilibrada e sensível às evidências, aqui estão algumas coisas que posso ter em mente, porque é uma luta permanente, certo? Não é que se possa alcançar uma mentalidade flexível e pronto. É um trabalho constante para evitar todas essas pressões e forças que tentam fazer-nos pensar de maneira mais limitada e encontrar essa adaptabilidade, criatividade e flexibilidade para manter-nos longe de pensar dessa maneira.

Quais são as implicações práticas que espera que esta investigação tenha?
Uma é, obviamente, no âmbito das políticas e da ajuda às pessoas que correm maior risco de serem afetadas por estes processos, ajudando-as a obter os recursos necessários para evitar essas soluções ideológicas e crenças violentas. Mas as aplicações práticas também são o que os leitores vão tirar pessoalmente e espero que isso lhes dê uma noção do mal que acreditar em ideologias extremas faz a cada um individualmente e como se pode viver uma vida mais livre disso, que espero que seja a mais autêntica para cada pessoa. E assim, espero que, de alguma forma, isso ajude as pessoas a alcançar uma espécie de liberdade mental, seja qual for a forma que elas queiram que ela tenha.

Como vê o seu trabalho progredir a partir de agora?
Tenho a sorte de o livro ter tido repercussão junto dos leitores em todo o mundo. É por isso que foi traduzido para mais de 15 idiomas e é por isso que agora estou a falar sobre ele com muitas pessoas diferentes em muitos lugares diferentes e a ouvir todas as diferentes formas como ele repercutiu. Na verdade, uma das coisas mais surpreendentes para mim foi como leitores em lugares muito diferentes, seja na Coreia do Sul ou na Alemanha, descobriram que ele reflete o momento político atual. Por isso, agora estou entusiasmada em falar com as pessoas sobre isso e espero em breve encontrar tempo para começar o meu próximo trabalho.

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