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Hila Abir Festival Nova 7 de outubro
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▲Hila Abir toca na foto do irmão colada no abrigo antiaéreo na estrada nacional 232, em Re'Im

RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR

▲Hila Abir toca na foto do irmão colada no abrigo antiaéreo na estrada nacional 232, em Re'Im

RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR

Lotan era português e foi assassinado pelo Hamas. A música ainda toca no Festival Nova, em Re’im

Lotan Abir, 24 anos, tinha nacionalidade portuguesa. Foi assassinado pelo Hamas no 7 de outubro, quando procurava refúgio num abrigo antiaéreo. A vida da família mudou nesse dia.

Hila Abir tem mais de um metro e 70 e estica o braço esquerdo para tocar na fotografia do irmão colada na parede de um abrigo antiaéreo. A caixa de betão está junto a uma paragem de autocarro na estrada nacional 232, no sul de Israel. Foi por ali que tentaram escapar centenas ou milhares de jovens que estavam no Festival de Música Nova, em Re’im a 7 de outubro de 2023.

Lotan, 24 anos, que gostava de andar sem camisola e já tinha surfado em Portugal, está entre os mortos. Tal como a irmã, era um israelita de origem marroquina com nacionalidade portuguesa. Hila Abir fala do seu “mano mais novo” com um sorriso, mas há 15 meses que procura explicações sobre como foi possível o ataque surpresa lançado pelo Hamas numa manhã de sábado e a demora na resposta das forças de defesa israelitas. Era arquiteta e ajudava no negócio de construção da família, mas “a vida mudou” desde aquele dia e agora, Hila Abir diz que é “uma ativista”. Quer que o estado assuma a sua culpa e aprove legislação que ajude as famílias das vítimas, como a dela. O pai não conseguiu voltar ao trabalho depois de ver morrer o mais novo dos 4 filhos.

Lotan Abir português assassinado pelo Hamas

▲ Lotan e Mai cresceram juntos e morreram juntos. Os autocolantes com as fotos e nomes estão colados juntos no abrigo antiaéreo em Re'im.

RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR

A caixa de betão está hoje pintada de azul por fora e de branco por dentro. Não tem porta, tem uma entrada curta e uma segunda passagem do lado esquerdo, como se fosse o pescoço de um cavalo. Estes abrigos servem para proteção contra os rockets lançados a partir da Faixa de Gaza e não estão preparados para lidar com invasões terrestres, como aconteceu a 7 de outubro. As paredes estão cobertas de autocolantes com as fotos e os nomes das vítimas. Lá dentro acumulam-se dezenas de “velas da alma”, que ardem por 24 horas, explica Hila Abir. A irmã entrou ali pela primeira vez um mês depois de Lotan ter sido assassinado. Veio com o pai. Não estava pintado, “o cheiro era horrível, ainda havia sangue e pedaços de corpos espalhados por toda a parte”, descreve. O espaço é exíguo e servirá para abrigar uma dezena de pessoas, mas nessa manhã estavam 40. Ficaram lá 8 horas e os terroristas do Hamas regressavam a cada “20 minutos”, disparavam e terão lançado granadas. “Não há polícia, não há exército, não há armas. Estas foram as últimas palavras dele para mim”, via telemóvel, recorda a irmã, que tentou desesperadamente encontrar socorro e salvação para Lotan, mas sem sucesso.

Abrigo antiaéreo em Rem'Im - Festival Nova

▲ O abrigo com as fotos e nomes das vítimas. Estavam 40 pessoas no exíguo edifício e apenas 12 sairam com vida.

RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR

Hila descreve Lotan como alguém que amava a vida, que sorria, que conversava, gostava de surf e até apanhou umas ondas na Nazaré. Tinha 1,84m, “era alto, grande”. Andava desde criança com a sua companheira de aventuras Mai Naim. Morreram juntos. A confirmação da notícia só foi dada à família ao fim de quatro dias. Foram 96 horas de angústia e de uma esperança que ruiu quando uma amiga identificou o corpo de Lotan por uma tatuagem que tinha numa perna. “Não conseguia acreditar que Lotan não tinha sobrevivido e não quis acreditar até ver o corpo. Na manhã de quarta-feira, 11 de outubro, “fizemos os dois funerais” e a vida mudou para sempre.

A música continua a tocar em Re’im, mas “parece um Luna Parque”

A música vai aumentando de volume à medida que nos aproximamos do memorial aos mortos e sequestrados no Festival Nova, em Re’im. Estamos a poucos quilómetros do abrigo antiaéreo, onde Lotan e Mai morreram. Uma cabine improvisada homenageia o DJ Kido, uma das grandes estrelas do festival de música eletrónica, que acabaria também por ser morto na manhã de 7 de outubro. A música de dança, com as sincopadas batidas graves, continua a ecoar num espaço campestre, com poucas elevações e com manchas de eucaliptos. Podia ser no Alentejo, se as árvores fossem outras. Ali morreram 365 pessoas.

▲ As fotos e os nomes das vitimas no festival Nova, em Re'im

RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR

As fotografias das vítimas estão colocadas numas estacas espetadas no chão. Cada uma delas conta uma história, cada uma delas tem um sorriso. São na maioria jovens. Alguns cartazes têm notas biográficas, outros apenas o nome. Podemos deambular entre eles e imaginar como 15 meses depois se sentem os pais, os irmãos, os primos, os amigos. São jovens que saíram para dançar e não voltaram mais. Encostado aos cartazes foi criado um jardim de papoilas de porcelana. São uma homenagem às vítimas e aos heróis que tombaram em combate.

O parque de estacionamento tem dezenas de viaturas, incluindo autocarros. “Não gosto que se tenha transformado numa espécie de Luna Parque” (parque de diversões ou temático), confidencia Hila Abir. O memorial transformou-se em atração. Largas dezenas de pessoas tiram fotografias e fazem vídeos.

Hila é apenas uma entre milhões de israelitas que procuram resposta para a pergunta “como foi possível?” A revolta e a dor são grandes e profundas. “Penso que o exército não fez o que devia, o Governo não fez o que devia. O Hamas usou o dinheiro que doamos para construir túneis e comprar armas em vez de cuidar da população de Gaza. Eles escolheram a guerra e não a paz e isto mudou a forma como olhamos para os palestinianos. Eles querem eliminar os judeus”, diz Hila Abir. Apesar do cessar-fogo, o Governo liderado por Netanyahu sublinha que a libertação dos reféns não será suficiente para acabar com a guerra: sem a aniquilação do Hamas e a desradicalização de Gaza não haverá paz.

O Observador está em Israel a convite da embaixada israelita em Portugal

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