Viagem até ao início dos sessentas e chamem-lhe proto-punk. Assinalem os redondos 50 anos de 1976 e do início dos Ramones e deem-lhe o rótulo oficial. Seja qual for o caminho, a conta dá sempre o mesmo resultado: o punk não está morto e há sempre mais alguém para o garantir. Sobretudo quando se trata de uma “superbanda”, como podemos carimbar as Mães Solteiras — grupo que junta André Henriques (Linda Martini e a solo), Pedro “Gaza” Cobrado (Men Eater, If Lucy Fell, Besta), Quim Albergaria (dos Vicious Five aos PAUS, chegando aos Bateu Matou) e Ricardo Martins (Adorno, Lobster, Papaya, atualmente integrante dos Pop Dell’Arte). O álbum de estreia, Vamos Ser Breves, foi lançado na terça-feira, 6 de janeiro. A edição em vinil chega no dia 20. Os concertos acontecem a 16 (M.Ou.Co., Porto) e 17 (Casa Capitão, Lisboa).
Tal como nas melhores histórias, estas Mães Solteiras nasceram de combustão espontânea, em modo “supersónico”. Nostálgico e a ouvir discos de Hot Snakes, o baterista Ricardo Martins tinha “saudades de suar e fazer barulho”. Resolveu enviar uma mensagem a André Henriques, que se riu da ideia e perguntou de volta: “não tens já bandas suficientes na tua vida?” Aparentemente, nem por isso. Ricardo Martins sugeriu convidar Gaza para tocar baixo. André Henriques gostou da ideia, mas disse que só aceitava com uma condição: não seria o vocalista e os temas não poderiam passar a marca dos dois minutos e trinta segundos.
Os três juntaram-se numa sala de ensaios e as canções brotaram em terra fértil. Após considerarem uma série de pessoas para vocalista, fixaram-se de Quim Albergaria. André Henriques questionou o amigo se este estava oficialmente reformado do punk rock e, por mensagem, Quim ativou o modo caps lock para manifestar o seu interesse: “TENHO PENSADO EM VOLTAR A BERRAR, TODAS AS SEMANAS.” Nasciam assim as Mães Solteiras, nome que André Henriques terá adotado após se ter cruzado com ele numa parede da cidade.
[o álbum “Vamos Ser Breves” pode ser ouvido na íntegra através do Bandcamp:]
“Tinha saudades da simplicidade e da imediatez deste tipo de música”, conta ao Observador Quim Albergaria, em minúsculas, salientando o caráter “objetivo”, “honesto” e “concreto” do punk rock. “É a felicidade de ser rápido, alto e imediato, que não promete mais do que dá. Tinha saudades de não ter de fazer outras coisas do ponto de vista logístico, de não estar preocupado com o crowd control, em tocar bateria, em pensar no espetáculo, que são coisas que me dão prazer… Mas depois há a possibilidade de ter uma banda onde se pode falar bruta, crua e emocionalmente das coisas que nos assustam e que nos incomodam. Não é que os PAUS ou os Bateu Matou [bandas que Albergaria integra] não consigam fazê-lo, mas têm outros registos, artisticamente têm outras linhas.”
Com letras escritas entre Quim Albergaria e André Henriques, com os “contributos democráticos” da restante metade da banda, este é um disco urgente sobre o agora. A precariedade laboral, a crise da habitação, a tendência para a privatização da saúde, a economia do cuidado, a guerra e o populismo político, a emigração, os imigrantes e os refugiados — enfim, uma explosão catártica para lidar com as dificuldades, dilemas e tensões do capitalismo tardio.
“Ninguém merece viver este medo institucionalizado sozinho. Abrimos um jornal, abrimos o Instagram e é impossível não nos sentirmos assustados e amedrontados”, desabafa Albergaria. “E o punk rock, pelo menos para mim [ele que se chegou definitivamente à frente dos palcos como vocalista dos Vicious Five], sempre foi esta ideia de precisarmos uns dos outros. Nesta sala, nesta garagem, a gente entende-se, estamos alinhados e consigo expressar alguns medos e frustrações. É uma rede e é a cultura de que todos podem fazer parte.” Tal como aludem em Pedra Fedelho, a faixa introdutória do álbum, o punk rock “não é sobre fazer bem, é sobre fazer bom”.
“Porque nunca é só o barulho, não é?”, acrescenta Ricardo Martins. “É um grupo que constrói, é uma comunidade bonita. E, neste caso, partilhar sala com malta com quem ainda não tinha partilhado música desta forma. São tudo desculpas para virmos para o estúdio não sei quantos dias por semana, estarmos juntos e curtirmos a música.”
Neste caso, foi também um regresso às origens para todos estes músicos com cerca de 30 anos de carreira e mais de 40 de idade, um resgate das origens punk e hardcore com que se fizeram músicos no final dos anos 90, um retorno ao conforto no meio da desordem sonora.
“O hardcore é uma das comunidades mais resilientes na música portuguesa, que se continua a auto-sustentar completamente num mundo paralelo a tudo o que é a indústria da música ou do entretenimento”, comenta Albergaria. “Fomos fazendo coisas paralelas, muito inspiradas pelo que aprendemos com o punk e o hardcore. Agora, a nossa necessidade de voltar a fazer música para entrar nisso, nessa comunidade que existe, é a ideia de que podemos estar numa banda com referências partilhadas, com espaços que podem ser partilhados, e tudo na banda é sobre estarmos juntos a pensar e a cantar e a construir. Era uma das coisas que mais queria, voltar a sentir essa coisa do não-estou-sozinho.”
▲ "Brincamos ao dizer que as Mães Solteiras teriam sido a nossa banda favorita em 1998. Mas não tenho a certeza, porque misturamos coisas que na altura não se misturavam"
FOTO: Paulo Segadães
Também por isso, os quatro músicos decidiram gravar o álbum em simultâneo, na mesma sala do estúdio Barulho, na zona de Marvila, em Lisboa. Foram acelerando e desacelerando o ritmo à medida que se iam apercebendo das nuances próprias que cada tema pedia, optando não pelo take mais perfeito, mas por aquele que de facto, por uma razão ou outra, mais se adequava a cada canção. Num mundo em que a tecnologia é progressivamente mais avançada e sofisticada, preferiram a experiência humana básica. “Este disco teve bem menos produção do que qualquer um dos meus discos dos últimos 20 anos, mas o nível de intenção foi muito mais determinante, porque era sobre escolhermos o take que define a canção, é sobre essa crueza e simplicidade”, diz Quim Albergaria.
O processo criativo e todo o espírito em torno da criação foram verdadeiramente colaborativos. “Tu estás ali por causa do momento que está a acontecer por estarmos todos juntos. Não é sobre cairmos naquela coisa de nos encontrarmos a nós próprios dentro das outras pessoas, acho que é mais permitir-nos ir buscar coisas fixes e diferentes [com origem nos restantes colegas]. Vi muitas bandas a morrer, de gajos que viviam a solo e não sabiam”, comenta Albergaria. “A figura do maestro numa banda por vezes é complicada”, complementa Ricardo Martins.
A homenagem a Alcindo Monteiro, os temas curtos que “não têm vergonha de ser canções”
Embora desejassem faixas curtas, à boa maneira do punk rock, e mesmo não obedecendo a uma estrutura concreta que percorra o alinhamento de 13 faixas do início ao fim, quiseram construir temas que “não tivessem vergonha de ser canções”. “Queríamos o barulho, a simplicidade, mas uma das fantasias que tínhamos era sobre termos 30 gajos numa sala a gritar o mesmo refrão. Esse lado envolvente e acessível dos refrões era necessário”, defende o vocalista.
Ao mesmo tempo, é um álbum que cruza estéticas que, quando começaram nas bandas de garagem na década de 90, não se misturavam tão levianamente. “Brincamos ao dizer que as Mães Solteiras teriam sido a nossa banda favorita em 1998. Mas não tenho a certeza, porque misturamos coisas que na altura não se misturavam. Não farias um punk quase straight edge com coisas rock tipo Drive Like Jehu ou Hot Snakes. Essas estéticas não se tocavam, não era permitido. Eram dois nichos diferentes. Mas como hoje já é visto à distância por quem não o viveu, quem não experimentou o lado social desses gostos e estéticas… Vale tudo no punk de hoje e é fresco. Isto está no mesmo disco, está na mesma banda e é possível. E é essa aventura, esse desarranjo que é mesmo punk rock. Porque é mesmo essa desordem e desrespeito estético que ele tem por si próprio que define o género, e é um género que se reinventa com muita facilidade, que tem este lado cíclico de morrer todos os dias e depois voltar a ser excitante.”
Como sublinham na derradeira e homónima (e menos pujante, mais etérea) faixa do disco, Vamos Ser Breves é um estrondo. Que inclui, ainda assim, a apurada lente poética de André Henriques. Tal como Quim Albergaria descreve, o colega de grupo possui uma “sensibilidade” para os ângulos que escolhe para contar histórias, na forma como é “cuidadoso” com os temas abordados. Uma das canções, Alcindo, é naturalmente uma homenagem direta a Alcindo Monteiro, o rapaz de 27 anos que saiu para dançar em Lisboa na noite de 10 de junho de 1995 e nunca mais voltou, vítima do ódio de um grupo de skinheads neo-nazis.
[o “lyric video” de “Não Peçam Horas Extra a Uma Mãe Solteira”, os restantes podem ser vistos aqui:]
“Há vários momentos muito bonitos no disco, mas esse é um dos mais emocionantes”, acredita Albergaria. “É um poema lindo que é sobre reconhecer a motivação dele, de que é que ele gostava, o que queria e acima de tudo dizer-se o nome dele por inteiro. Passaram 30 anos e temos um cenário político em que é permitido dizer-se e fazer-se uma data de coisas que não deveriam ser permitidas. Temos fascistas a dizer que o são a céu aberto, racistas com orgulho de o serem. Os caídos do racismo não devem ser esquecidos e, eles sim, merecem canções e tempo.”
Quando Quim Albergaria e André Henriques começaram a formular as letras, os instrumentais compostos já dispunham de “coisas latentes”. O primeiro tema a ser feito foi Não Peçam Horas Extra a Uma Mãe Solteira, o single de estreia, revelado no início de dezembro. “Na minha cabeça, era importante percebermos do que estávamos a falar. ‘Bora não deixar cair isto num vácuo de má interpretação. A mãe solteira é uma figura super punk rock, de resiliência, amor, desespero e autossuficiência. É um símbolo punk rock absoluto.”
E Mães Solteiras ao vivo? A estreia acontece no M.Ou.Co., no Porto, a 16 de janeiro; e na Casa Capitão, em Lisboa, no dia seguinte. “Acho que só vamos ser banda depois desses dois concertos”, atira Quim Albergaria. “Tenho pensado todos os dias nisso.”
▲ “O hardcore é uma das comunidades mais resilientes na música portuguesa, que se continua a auto-sustentar completamente num mundo paralelo a tudo o que é a indústria da música ou do entretenimento”
FOTO: Paulo Segadães
Apesar da experiência e da rodagem de todos os elementos, paira no ar uma “incógnita” sobre como será a performance, à medida que a banda se vai reunindo para ensaiar. “Quem são as pessoas que vão estar nesses concertos?”, questiona o vocalista. “Que tipo de comunhão vamos ter ali? Sabemos que teremos bastantes amigos presentes, mas temos visto pelas reações que há pessoas que não conhecemos que estão a gostar disto. Será que este disco é o chamamento que nós achamos que é? Será que vamos ter este espírito de comunidade nestas salas?”
Ricardo Martins argumenta que também é essa a “magia da cena”, bem como a “responsabilidade” da banda “criar esse sítio”. “Em qualquer concerto, chegas à sala e ela responde-te de uma forma que não estás à espera. Reages e o concerto vai sempre soar diferente. Estou muito curioso, no final do dia é sobre feedback.”
As Mães Solteiras prometeram ser breves, mas já estão a marcar mais datas para o resto do ano, seja em clubes ou em festivais. Além do mais, adiantam que têm “mais canções feitas”, “ideias para letras e para T-shirts” e até já está definido o título de um próximo EP. “Há vontade e, enquanto houver esta frase a acontecer, há banda”, remata Quim Albergaria.