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Mais tragédia, mais bilheteira, mais martinis: chegado à última missão, o que nos deixa Daniel Craig, o mais real dos James Bond?

Diziam que não era parecido com James Bond e tinham razão. No fim, 15 anos depois, foi o agente secreto quem mudou nas mãos dele. “007 – Sem Tempo para Morrer” estreia-se esta semana.

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Em primeiro lugar, ele não era Bond, dizia a imprensa britânica; era Blonde, James Blonde, o primeiro 007 louro da história. Depois, era demasiado baixo. Finalmente, parecia o vilão – não o herói.

Tudo verdade. Mas, por si só, a semelhança física com o retrato do homem descrito nos livros não era garantia de nada – e George Lazenby e Timothy Dalton aí estavam para o provar (o homem que Ian Fleming tinha na cabeça como referência visual para Bond era, se quiser procurar, o cantor americano Hoagy Carmichael). Por outro lado, o próprio Roger Moore não era, propriamente, moreno. Craig parecia o mau? Parecia. Nalgumas cenas nos primeiros filmes em que surge de auricular, parece mais um segurança russo do que um espião britânico. E a altura devia ter alguma coisa a ver com isso, sim. O modesto 1,78 do louro de Cheshire comparava com o 1,86 de Moore e Pierce Brosnan, o 1,87 de Lazenby e Dalton e o 1,88 de sir Connery.

Sim, o novo James Bond teria de olhar 10 centímetros para cima para encarar “a” referência em matéria de Bonds, se por um acaso absurdo se encontrassem na rua. Mas, depois de verem os filmes, quem chamariam se estivessem em apuros? Quem vos parece realmente mais capaz de travar um ataque terrorista? De desmantelar qualquer coisa que exija mais do que duas piadas e um gadget magnético qualquer para abrir o fecho ziper do vestido da menina do casino? Daniel Craig ficou com umas quantas mazelas físicas para o contar: é ele quem faz muitas das cenas de ação dos últimos cinco Bonds, nem sempre os duplos, raramente a Computer Generated Imagery, e isso nota-se. Com vantagem.

[o trailer de “No Time to Die”, o novo filme da saga 007, com estreia marcada para 30 de setembro:]

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O criticismo em torno da escolha de Daniel Craig para encarnar o mais famoso e menos secreto de todos os agentes do mundo terminou, basicamente, assim que o viram trabalhar. “Casino Royale” (2006) é um marco na saga Bond, um dos melhores volumes da coleção e o primeiro de uma era em que 007 se tornou mais duro, mais trágico, mais real. Essa era termina agora, com a estreia de “Sem Tempo para Morrer”. Roger Moore (sete filmes) e Sean Connery (seis, mais o “apócrifo” “Nunca Digas Nunca”) vestiram o smoking mais vezes, mas ninguém foi “titular” da personagem mais anos do que Craig: 15 anos, contra os 12 de Moore e os nove oficiais de Connery, entremeados ainda pela “experiência Lazenby”. O que virá depois não sabemos, mas sabemos que, dificilmente, Bond voltará a ser leve como nas interpretações de Moore ou Brosnan. Craig mudou Bond mais do que Bond mudou Daniel Craig. Agora, dão-se, mutuamente, licença para irem cada um à sua vida.

Redefinindo um ícone

Claro. Sean Connery definiu a personagem e é, porventura, impossível competir com isso. Depois do próprio Ian Fleming, foi como um segundo criador de Bond. Materializou-o numa fórmula aparentemente simples, mas de finos equilíbrios entre ser o herói, mas ter também qualquer coisa de mau; ser sofisticado, mas ao mesmo tempo, latentemente, algo animal; ter o charme, o humor, a esperteza, mas também a dureza, a implacabilidade, uma crueldade, bem vistas coisas, a roçar o desumano. Bond não tem amigos, não tem família, não tem hesitações, não tem remorsos. Roger Moore teve o múltiplo mérito de lhe suceder, fazer diferente e continuar a fazer bem: tornou Bond mais diurno, mais divertido e, na verdade, ninguém foi tantas vezes Bond como ele. Já a Pierce Brosnan devemos tão só a ressurreição do franchise, depois dos anos zombie de Timothy Dalton e do maior intervalo de sempre sem um filme de 007 (agora igualado pela espera entre “Spectre” e “Sem Tempo para Morrer”, mas aí há a responsabilidade de um ano de atraso a imputar à pandemia) que chegou mesmo a fazer temer pela sua continuidade. Mas Craig afetou a personagem como talvez nenhum outro desde Connery.

Daniel Craig conseguiu, com enorme discrição, fazer a atualização da personagem: levá-la a sério, mas não tão a sério que se tornasse pretensiosa. Aprofundou-a, retirou-a da superfície, mas deixou-a na expressão enigmática do rosto, no olhar atormentado, nos silêncios.

É o drama de que sofre muita cultura pop quando ascende ao estatuto de cânone: até que ponto pode, realmente, ser levada a sério? Acontece na DC, na Marvel, em Star Wars e, claro, acontece a Bond. Não é possível acreditar num homem que salva sozinho o planeta, uma e outra e outra vez, enquanto ganha a roleta no casino, conquista três raparigas e conduz, com mestria de ninja, toda e qualquer máquina que lhe ponham nas mãos. E, no entanto, ao mesmo tempo, a figura tornou-se demasiado sacrossanta para ser beliscada.

Daniel Craig conseguiu, com enorme discrição, fazer essa atualização da personagem: levá-la a sério, mas não tão a sério que se tornasse pretensiosa. Aprofundou-a, retirou-a da superfície, mas deixou-a na expressão enigmática do rosto, no olhar atormentado, nos silêncios. Ao contrário dos Batmans e dos Jokers e dos super-heróis que, agora, andam todos a tentar ocupar o lugar das personagens de Shakespeare na noção contemporânea de tragédia com a espessura de duas gillettes e meia. Porque, na verdade, saberá melhor do que ninguém que, se nos pusermos a escavar, não vamos encontrar nenhuma backstory assim tão credível nem interessante (“Spectre” é, a esse respeito, uma pouco feliz e bem aborrecida confirmação).

Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Dainel Craig: todos os atores que interpretaram 007 nos filmes da saga oficial

“Casino Royale” deu o mote que as três instalações seguintes confirmaram. James Bond terá perdido algum charme, bastante humor e uns quantos centímetros de altura (já citados), mas ganhou realismo, negrume, consistência. O Bond de Craig é mais real, menos boneco. Tem tormento, raiva e tripas. Coisas dentro, dúvidas, segredos. Brosnan ou Moore, por melhor que tenham sido, pareciam, fundamentalmente, estar a pensar em como levar para a cama a rapariga seguinte; Craig é o primeiro Bond que pode ser enganado, traído, abandonado, caçado – e que, ainda assim, no final, consegue sair na outra ponta do túnel.

Mais do que um ator, uma era

Nem tudo é perfeito? Não. “Quantum of Solace” (a começar pelo título) e “Spectre” são duas xaropadas valentes, enredadas em tentar contar uma história mais séria e mais lógica do que a natureza e histórico da saga realmente admitem. Mas “Casino Royale” e “Skyfall” são duas das melhores aventuras 007 de sempre, honradas, curiosamente, também por duas das suas melhores canções: o “You Know My Name”, de Chris Cornell, e o tema-título de Adele. De resto, “No Time to Die” mostra agora a quem ainda não tivesse reparado que estes últimos anos levaram mesmo muito a sério a pasta musical (em “Spectre”, até foi preciso deitar fora uma encomenda aos Radiohead). Se o filme for tão bom como o tema de Billie Eilish, Craig sai em grande – como merece.

A era 2006-2021 de 007 fica ainda marcada pelos atores. Os vilões, colhidos entre o melhor que o cinema europeu tem para dar: Javier Bardem e Mads Mikkelsen mais felizes com as personagens que lhes couberam em sorte do que Christoph Waltz ou Mathieu Amalric. E as bond girls, não apenas belas, como de costume, mas, seguindo a mesma lógica da personagem Bond, que nunca como agora se afastou tantos metros da superfície, interpretadas por algumas atrizes com muito mais que se lhe diga (e sim, Daniel Craig tem poder de decisão sobre as colegas com quem contracena): Eva Green, Léa Seydoux, Monica Bellucci, Ana de Armas, agora.

Craig, o tal que era demasiado baixo, demasiado louro, demasiado cara de mau para Bond, redefiniu Bond. Bond agora também é o que Daniel Craig lhe deu. Quem vier a seguir já não o vai poder tirar, não sem enfrentar a ira dos mesmos que, há 15 anos, resistiram a “Blonde”.

O que virá depois permanece inteiramente em aberto. Craig conduziu com integridade também a transição de uma personagem com quase 60 anos de vida no grande ecrã, 60 anos que assistiram à revolução cultural dos anos 60, à Guerra Fria, à nova era do terrorismo global, ao surgimento da internet, das redes sociais, dos ataques cibernéticos e da consciência woke. A personagem permanece razoavelmente misógina, para não entrar em contradição, mas estamos longe dos trocadilhos gratuitos com “pussy” (chegaram até aos títulos dos filmes, plamordedeus) e agora é para Bond sair da água em fato de banho reduzido que o filme pára. O guião de “Sem Tempo para Morrer” foi mesmo entregue a Phoebe Waller-Bridge para um “polimento”.

A partir daqui, admite-se tudo, até que uma mulher venha a suceder no papel, uma “Jane Bond” como lhe chamou o sempre solitário George Lazenby (único ex-Bond de que não há notícia que tenha alguma vez felicitado Craig pelo trabalho ao serviço de Sua Majestade). Todavia, a própria Barbara Broccoli, produtora da franquia, já se manifestou muito pouco disponível para essa ideia. O que quer que aconteça, isto fica: Craig, o tal que era demasiado baixo, demasiado louro, demasiado cara de mau para Bond, redefiniu Bond. Bond agora também é o que Daniel Craig lhe deu. Quem vier a seguir já não o vai poder tirar, não sem enfrentar a ira dos mesmos que, há 15 anos, resistiram a “Blonde”.

O Bond de Craig é mais real, menos boneco. Tem tormento, raiva e tripas. Coisas dentro, dúvidas, segredos

Nicola Dove

Os números, para além de 0-0-7

Mas, em números, de que é que estamos a falar, afinal? Em que lugar fica Daniel Craig no épico ranking de James Bonds? Depende do critério – e não faltam a esse respeito quadros e tabelas nestes dias pré-estreia por essa internet afora.

Ponto prévio: consideremos para o efeito apenas os 25 filmes da série oficial, deixando de fora os dois apócrifos: a abordagem satírica do “Casino Royale” de 1967, com David Niven, cujos direitos já tinham sido vendidos a Gregory Ratoff quando Albert Broccoli e Harry Saltzman compraram os direitos sobre a obra de Ian Fleming; e “Nunca Digas Nunca”, esse filho tardio de Sean Connery, em 1983, resultado de uma querela judicial em torno dos direitos de “Operação Relâmpago”, adaptado com aquele novo título por Kevin McClory, um dos argumentistas da fita original.

Craig sai como o Bond que esteve mais anos no ativo (15), o terceiro com mais filmes (cinco) e o segundo a reformar-se mais velho (52 anos, contra os impressionantemente frescos 58 de Roger Moore em “Alvo em Movimento”).

"Não só é o Bond em melhor forma, como o consegue fazer, diz a Forbes, consumindo 85 bebidas alcoólicas em quatro filmes (só em 'Casino Royale' são 26. E lidera também noutra coisa muito importante: dinheiro. 'Skyfall' é o filme que gerou mais receitas em toda a história Bond: nem mais nem menos do que $1.218.848.723 de dólares."

No capítulo das mortes e segundo contas da Time, Craig retira-se também como o terceiro 007 mais letal: 15,3 cadáveres por filme, a menos que “Sem Tempo para Morrer” mexa muito nessa média. Acima dos 12,5 de Sean Connery, dos 10 de Timothy Dalton e dos cinco de George Lazenby, mas abaixo dos 16,6 de Roger Moore e dos impressionante 27 por fita de Pierce Brosnan. Quem diria, aliás, que os mais bem-dispostos eram afinal também os mais mortíferos? Moore, já agora, estava atrás da arma da vez em que 007 foi mais sangrento, mas também daquela em que foi mais perdulário: 59 corpos em “Octopussy” (cá está) e apenas um – um – n’ “O Homem da Pistola Dourada”.

Quanto a conquistas amorosas, as fontes divergem. Mas julga-se que o número total de vítimas a cair na cama de Bond andará algures entre 55 e 58. Roger Moore e Sean Connery, os que mais filmes fizeram, lideram também aqui com naturalidade, 19 e 15 conquistas, respetivamente, que o BuzzFeed bem as contou. Seguem-se Brosnan com 10 em quatro filmes (média: 2,5 por fita), Craig com seis noutros tantos (uma modestíssima média de 1,5, há gente mais impressionante na pista do Lux, a confirmar o recalibrar da mira moral dos produtores), Dalton com quatro em dois e George Lazenby com três – três! – num só filme, em que ainda teve tempo para casar e ficar viúvo. Respeito.

[“No Time to Die”, de Billie Eilish, o tema oficial do novo filme de James Bond:]

Então, mas dedicam estas linhas todas a Daniel Craig e, afinal, o homem não lidera em nada? Calma, amigo leitor, claro que lidera. Nos Martinis. Sim, ele não só é o Bond em melhor forma, como o consegue fazer, diz a Forbes, consumindo 85 bebidas alcoólicas em quatro filmes (só em “Casino Royale” são 26. Vão lá fazer isso e, depois, tentem acertar um tiro que eu quero ver. Ou melhor, deixem lá isso para os profissionais.)

E lidera também noutra coisa muito importante: dinheiro. “Skyfall” é o filme que gerou mais receitas em toda a história Bond: nem mais nem menos do que $1.218.848.723 de dólares (pouco mais de mil e duzentos milhões de dólares, caso esteja com dificuldade em ler tanto número. Em linguagem americana: mais de um bilião).

Tem licença para se reformar, Mr. Craig. Ou melhor: para voltar a ser um ator, em vez de um fétiche.

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