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Marie Darrieussecq quase não dorme e escreveu um livro sobre a insónia: "Não se está muito longe da psicose quando são quatro da manhã"

"Não Dormir" descreve a vida de uma insone, a dependência do álcool, a causa clínica e as deambulações literárias e existenciais em volta desta condição. Entrevistámos Marie Darrieussecq.

“Não durmo. Não durmo. Não durmo
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!”

Canalizando a incapacidade de dormir para a figura de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa plasmou em Insónia o lamento por esta condição de que padecia. Não estava sozinho. Kafka, Proust, Duras, Styron, Scott Fitzgerald, Woolf, Pavese, Hemingway, Plath, Palahniuk e até mesmo Shakespeare ou Ovídio, todos eles escritores, todos eles “campeões da fadiga” como escreve Marie Darrieussecq, que tem aqui lugar da fala: também é um deles.

Uma das mais bem sucedidas escritoras da sua geração, a francesa-basca conseguiu atingir esse estatuto não obstante sofrer de insónia crónica e debilitante desde o nascimento do seu primeiro filho. “À medida que os meus filhos aprendiam a dormir, eu desaprendia”, escreve em Não Dormir.

Publicada agora em Portugal (Zigurate), esta é uma obra híbrida onde descreve a sua experiência como insone, desde a dependência do álcool de que padeceu para suportar a condição até descobrir a causa clínica da mesma, passando por um relato bem humorado de todos os gadgets e métodos que tentou sem sucesso para conseguir pregar olho. No entanto, é também um livro prenhe de reflexões ensaísticas sobre uma condição que existe desde sempre, mas que parece estar a agravar-se perante uma sociedade cada vez mais ansiosa e obcecada pela produtividade, que encara o sono como uma “anomalia sistémica no humano”.

Em entrevista ao Observador, a autora estava acordada perto da hora de almoço, mas não durante muito tempo, já que depois de cada noite insuficientemente dormida segue-se uma quebra imprevisível. “O meu problema é que nunca sei quando vou apagar, por isso nunca pude — e ainda não posso — ter uma vida social adequada”, assume, para depois acrescentar: “Acho que vou voltar a cair depois desta chamada do Zoom, é mais ou menos a minha hora”.

Muitos dos seus pares, do passado e do presente, tentaram aplacar o sentimento de injustiça metafísica ao considerar a insónia como um sinal de uma condição superior. “Creio que resulta naquilo a que chamarei a grande inteligência”, escreveu Marguerite Duras; “aqueles que não viveram intimamente esta tragédia nada podem compreender. A insónia é a maior experiência que se pode ter na vida”, aventou, por seu lado, Emil Cioran. Darrieussecq não desvaloriza essas experiências, mas também não as empola. “Somos das poucas pessoas que conseguem fazer da insónia o nosso ganha-pão”, garante.

▲ A capa de "Não dormir", de Marie Darrieussecq, na edição portuguesa da Zigurate

Zigurate

Não Dormir é em parte um livro de memórias sobre a insónia, em parte uma exploração ensaística das suas origens, dos seus efeitos e do seu legado na nossa cultura. Começando pelo primeiro, como é que a sua própria experiência com esta condição a levou a escrever este livro?
Na verdade, não me lembro exatamente porque é que comecei este livro. Estava obcecada e suponho que todos os escritores lidam com as suas próprias obsessões. Como refiro no início, tinha uma crónica mensal sobre insónias numa revista e descobri que não estava sozinha, que este era um problema social e clínico de grandes dimensões, na verdade. Não são estatísticas exatas, mas acredito que metade da população tenha insónias ou algo parecido — pelo menos metade dos meus escritores… perdão, dos meus leitores. O deslize é importante porque também me apercebi que os meus escritores favoritos são todos insones, absolutamente todos eles: Proust, Kafka, Duras, Pessoa, que escreveu versos maravilhosos sobre a insónia. Posso dizer-lhe que o primeiro título pensado para o livro era uma frase muito simples de Fernando Pessoa, em que ele escreve algo como “je ne peux pas dormir”, “não consigo dormir”. Perguntam-me muitas vezes se a insónia tem alguma relação com a escrita. Penso que tem uma certa ligação a um certo tipo de escrita, mais poética, mais metafísica, sim. Mas não afeta todos os escritores.

Uma das ideias que se pode retirar da leitura deste livro é que a insónia é uma espécie de experiência totalitária, porque define todos os momentos da vida.
Sim, isso é verdade.

Cada pessoa tem uma experiência diferente, mas como definiria o estado de espírito de alguém com insónia?
Exaustão, um certo tipo de fadiga, de cansaço, que é muito específico. Falta-nos algo muito profundo, um elemento de vida tão necessário como a água, a comida e o abrigo. É uma tortura. Eu sou basca e, quando Francisco Franco estava no poder, os polícias torturavam os independentistas bascos com falta de sono, era uma espécie de tortura limpa. Como é que eu a descreveria para lá da terrível palavra “tortura”? Não posso, é mesmo isso. No entanto, como também conto no livro, tive a sorte de não ser uma camionista que conduz de manhã ou, como a minha mãe, ser uma professora de crianças pequenas. Porque nesse tipo de trabalho, é preciso ser 100% eficiente logo às oito da manhã. De um modo geral, a minha vida tem sido dividida em duas fases de sono: quatro horas de noite, o que não é suficiente para mim — não faço parte daquelas pessoas sortudas, como Macron ou Obama, que podem dormir apenas quatro ou cinco horas —, e também uma longa sesta de duas horas a dada altura. O meu problema é que nunca sei quando vou apagar, por isso nunca pude — e ainda não posso — ter uma vida social adequada, como almoçar com editores ou jornalistas! Por exemplo, acho que vou voltar a cair depois desta chamada do Zoom, é mais ou menos a minha hora.

"Gosto da ideia de que o sono é a nossa sombra e de que, com insónia, somos cortados dessa sombra que precisamos para viver — para viver o dia, em especial. Precisamos de sair de nós por um momento, de deixar o nosso eu, o sujeito, a consciência de nós, à sombra. Mas como a minha sombra não se ocupa da minha pessoa, do meu eu, tenho de me ocupar do "eu" todo o dia e toda a noite. É um fardo, é demasiado."

Ser escritora e ter os seus próprios horários ajuda, então?
No meu caso, não é assim tão importante. Posso escrever a qualquer altura, preferia era dormir como as pessoas normais. Estou sempre mais ou menos vestida de pijama. Nunca faço uma refeição em condições, porque não se pode comer uma salada quando se acorda! Portanto, é um modo de vida muito pragmático, há que lidar com isso e saber dar a volta aos obstáculos. Mas, para ser franca, depois de ter escrito o livro e de este ter sido lido por muitas pessoas — pelo menos em França —, senti-me um pouco melhor. E também a minha médica, quando lhe dei o livro, tentou fazer algo melhor comigo, levou o assunto muito a sério e por isso sinto-me um pouco melhor depois de tê-lo escrito.

Disse que, ao não dormir, sente falta de alguma coisa. Também escreve no livro que o sono é “a nossa outra metade. É o nosso eu de refúgio, o nosso eu de emergência. Nós na nossa ausência”. Quer isto dizer que perdê-lo significa perder uma parte de nós?
Gosto da ideia de que o sono é a nossa sombra e de que, com insónia, somos cortados dessa sombra que precisamos para viver — para viver o dia, em especial. Precisamos de sair de nós por um momento, de deixar o nosso eu, o sujeito, a consciência de nós, à sombra. Mas como a minha sombra não se ocupa da minha pessoa, do meu eu, tenho de me ocupar do “eu” todo o dia e toda a noite. É um fardo, é demasiado. Mas com todo este processo, fiz exames médicos e, de certa forma, senti-me feliz por ver que há algo objetivo de que sofro, hipervigilância, o que significa que nunca caio num sono profundo, estou sempre atenta, alerta. O que me falta é ir às profundezas do oceano, sabe? Bater no fundo, no bom sentido. Gostava de me deitar no fundo do mar como uma baleia cansada, e depois subir à superfície e respirar, mas não consigo. Acho que o que me falta, encontro-o na escrita, porque há também algo de profundo e obscuro aí, onde me perco, onde me esqueço de quem sou no dia a dia. Por isso, há uma ligação entre a noite e a escrita e é aí que encontro o meu equilíbrio.

Falou sobre as consequências físicas da insónia, mas gostaria que abordasse também as mentais. Escreve sobre a vigília que os insones cumprem todas as noites: na melhor das hipóteses, é uma desculpa para ser produtivo e até pode ser vista como uma forma de economizar tempo; na pior, é como estar preso num deserto ou empoleirado numa ravina a olhar para o vazio, onde a realidade e o tempo ficam distorcidos. Como é que se tenta dar sentido a isto?
Penso nos provérbios e nos ditados em muitas línguas que relacionam o sono à boa consciência — as pessoas boas dormem bem. Mas também existe exatamente o oposto em todas as culturas: as pessoas boas estão tão preocupadas com o estado do mundo, com os outros, que dormem mal. Portanto, há os dois lados. Eu estava obcecada com o facto de não dormir, por isso juntei frases dos futebolistas que diziam coisas como “joguei bem, por isso vou dormir bem”. E depois temos todas as outras pessoas que dizem “não consigo dormir porque o meu vizinho tem fome” ou “não consigo dormir por causa do que se passa em Gaza”. Ou seja, há todos estes provérbios e estados de espírito que associam a insónia a uma coisa boa ou má.

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▲ "Durante o dia, é suposto sermos produtivos, é suposto sermos educados, é suposto estarmos ligados, sermos reativos, sermos eficientes. Na insónia, que se lixe tudo isso"

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Portanto, há sempre uma esfera moral?
Exatamente, a moralidade está associada ao facto de dormir ou não dormir. Mas voltando à pergunta, ter mais tempo não significa nada, porque perco muito tempo por estar demasiado cansada, pouco concentrada ou pouco focada. Tenho uma memória muito fraca e que está a piorar devido aos medicamentos que tomo para dormir. E o álcool… [pausa] Há um capítulo inteiro sobre o álcool. É uma péssima ideia, mas quando estamos tão cansados pensamos que uma boa bebida nos vai animar e dar energia. E dá-nos energia, sim, mas mata-nos ainda mais o sono, por isso o álcool é um péssimo companheiro para quem dorme mal. Sabe, tudo é afetado, a alimentação, as relações… A situação melhorou porque os meus filhos já são crescidos, mas eu era uma mãe impaciente, zangava-me, irritava-me. Por isso, afeta todos os aspetos da nossa vida — exceto a leitura! Talvez eu seja uma “má mãe” — o que não acho que seja —, mas sou uma boa leitora. Porque mesmo quando estou muito cansada às quatro da manhã, quando acordo e não quero, a melhor coisa que encontrei foi a leitura. E a essa hora não leio filosofia ou livros de história difíceis, leio bons romances. Leio muito, estou sempre a ler, é a melhor coisa que posso fazer.

Estava a falar de ser uma “má mãe”. Essa ideia tem sido muito explorada na literatura nas últimas décadas, sobretudo a questão de que as mães não têm direito à inquietação, ao cansaço, à irritação, apesar de o maior fardo de ter filhos recair sobre elas. Portanto, há também aí um paradoxo na nossa cultura. O que pensa sobre isso — especialmente porque essa dinâmica é ainda mais difícil para as mulheres que sofrem de insónia?
Vou recorrer a um dos meus livros, O Bebé [editado em Portugal pelas Edições Asa em 2003]. Escrevi-o em França em 2001 e, aparentemente, foi um dos primeiros livros a dizer “ei, pessoal, não é só felicidade. Ser mãe é muito, muito difícil, e tem uma forte relação com a ansiedade”. Foi aí que descobri algo muito comum, mas de que ninguém fala, que é o facto de que se perde sono quando se tem bebés — perde-se temporariamente, em geral, mas pode perder-se para sempre, porque nos torna como uma mãe lobo, sempre acordada.

A maternidade reconfigurou-a biologicamente?
Sim, provavelmente, e psicologicamente, de certeza. Reconfigura uma série de coisas. No capítulo sobre o álcool — e também espero que o livro seja engraçado, tentei não fazer disto uma tragédia —, digo que foi algo que me ajudou. Foi uma má companhia, mas ajudou-me a ser uma mãe paciente. Tal como nas Donas de Casa Desesperadas, quando se começa a beber às seis da tarde, os filhos já estão connosco — a escola acaba às quatro e meia em França. Por isso, ajudou-me a ser mais paciente, porque eu estava um pouco grogue, um pouco entorpecida pelo álcool. Ao fim de alguns anos, apercebi-me que, de facto, estava sempre bêbeda com os meus filhos pequenos por perto. Hoje fala-se mais sobre isso, mas estava exausta, perdi o sono e estava cansada por causa da maternidade. Tenho três filhos e estou muito feliz com eles, é claro, mas alterou a minha vida para pior, em alguns aspetos.

"Não é porque se é escritor que se tem insónias e não é porque se tem insónias que se é escritor, mas há um cruzamento em que os escritores podem fazer algo com as suas insónias. Suponho que a escrita alimente a insónia. É um modo de vida, de certa forma."

A questão da insónia, sublinha, é que ela não escolhe classe, nem género, nem idade. É desprovida de moralidade, objetivo ou razão. Mas, ao mesmo tempo, mostra que tem vítimas preferenciais — os escritores, para começar. Porque é que acha que a mente do escritor é tão vulnerável a esta condição?
Ou então é o contrário — somos das poucas pessoas que conseguem fazer da insónia o nosso ganha-pão! Mas para falar um pouco mais a sério, talvez haja um ponto na insónia, às quatro da manhã, em que se chega a algo que é simultaneamente muito sombrio, muito ligado à ansiedade e à angústia, mas também à poesia, se tivermos as palavras. Se se ousar ir até lá, se se ousar enfrentá-lo, há muitas maneiras de também acabar a ver fantasmas, de atirar-se ou resvalar para a atividade paranormal. Porque não? É também um campo muito romanesco, muito poético, mas eu prefiro escrever sobre ele. Portanto, não é porque se é escritor que se tem insónias e não é porque se tem insónias que se é escritor, mas há um cruzamento em que os escritores podem fazer algo com as suas insónias. E suponho que a escrita alimente a insónia. É um modo de vida, de certa forma.

Como já referiu, ao consultar um sonologista, descobriu que sofre de hipervigilância, que alimenta as suas insónias. De certa forma, isso significa que está muito sintonizada com o mundo, o que parece ser uma condição muito propícia à atividade da escrita. O que pensa sobre isso?
Sim, isso é verdade, e também me liga aos livros e à leitura. Mas, por exemplo, nunca vejo imagens nem ligo ecrãs às quatro da manhã. Aprendi que são os livros, o papel, não as coisas ligadas, o que me interessa. Há um capítulo que me diverti a escrever sobre os gadgets que experimentei [para combater a insónia] Por exemplo, o cobertor muito pesado que comprei e que agora não sei o que fazer com ele! Nem sequer o posso vender no eBay, porque é demasiado pesado! Quer dizer, é apenas uma engenhoca, uma engenhoca muito pesada e parva.

Das insónias aos gadgets para nos ajudar a dormir: a indústria milionária do sono

Escreve sobre ter tentado usar um engenho, a caixa Morphée, para ajudá-la a dormir, mas acaba por anular o seu propósito porque começa a intelectualizar a experiência e a encontrar temas literários para explorar. Por isso, de certa forma, nunca descansa. É nesse sentido que pergunto: a hipervigilância é uma “condição de escritor”?
Tenho sempre metáforas a vir-me à cabeça. É uma crise de metáforas a meio da noite. E as metáforas nem sempre são boas, por vezes não devemos usá-las, temos apenas de contar as coisas como elas são, o que é muito difícil. Mas sim, qualquer objeto relacionado com insónias incendeia-me a mente de certa forma, é um dos meus problemas. Mas a insónia também é algo precioso para mim, tenho de me contentar com ela.

E para a maioria das pessoas, ler na cama é uma forma de adormecer — para si, no entanto, é uma forma de alimentar o seu cérebro, para que continue a ter mais energia.
Imagino que suspeite que eu acordo de propósito para ler.

Faz isso?
Às vezes pergunto-me se o faço. Porque quando acordo às quatro da manhã e não quero, pego num livro. Por isso, talvez acorde para ler. Pelo menos não estou a acordar para beber vodka!

Então, o que está a sugerir é que se trata de uma reação física involuntária?
Sim, e tornou-se num hábito tão profundo que suponho que vou ter de lidar com ele para o resto da minha vida. E, aparentemente, piora quando se envelhece. Outra coisa é que também me interessei muito pelos livros de história sobre o sono. Aparentemente, aquilo de que sofro, o sono bifásico, era o sono da Idade Média, o que faz sentido, porque no inverno tinham de acordar para voltar a acender a lareira, senão ficavam com frio. Acordavam durante um ciclo de duas horas e depois voltavam a adormecer.

▲ "Os meus escritores favoritos são todos insones, absolutamente todos eles: Proust, Kafka, Duras ou Pessoa, que escreveu versos maravilhosos sobre a insónia"

Chegámos a uma fase em que esta tornou-se uma discussão esgotada e não lhe dedica assim tanta atenção no livro, mas há muitos textos dedicados às forma como os artistas “pagam o preço do génio”, ou pelo menos de ter uma mente criativa, e como lidar com isso significa muitas vezes recorrer a coisas como o álcool, fármacos, drogas psicotrópicas. Qual é a sua opinião?
É muito clichê, mas penso que nasceu, como muitos outros, de algo real. Houve uma altura em que escritores como Faulkner ou Hemingway, que era um insone, bebiam até ficarem apagados. Penso que há outro clichê que pode ser verdadeiro, que é o de caminhar. Os escritores com sorte, como eu, têm muito tempo. Não faço mais nada senão escrever, por isso tenho muito tempo para andar e escrevo enquanto ando. Só o consegui passar a fazê-lo quando envelheci, porque quando era nova não podia caminhar em Paris ou em cidades francesas porque uns estúpidos me paravam ou faziam perguntas. Agora já tenho idade suficiente para poder andar livremente e já ninguém me interrompe. Andar a pé e ter insónias têm algo em comum porque estamos numa espécie de transe, um transe leve, estamos fora de nós.

É como um estado de fuga?
Sim! E a fuga tem algo a ver com a escrita, porque a escrita está ligada ao sonho. Sobretudo a sonhar acordado, mas também um pouco ao sonho noturno. Kafka é o mestre nos seus diários a falar desta espécie de “sonho noturno diurno”, esta espécie de estado, esta “zona” em que não estamos a dormir mas também não estamos completamente acordados, e vemos imagens. Está muito ligado à criatividade, de certeza. Mas quanto ao sofrimento, que é do que estava a falar, esse o clichê romântico do escritor.

Presumo que escreve como escreve por causa da insónia, em tudo o que de bom ou mau ela lhe trouxe. Ao mesmo tempo que alimenta a sua imaginação, penso que provavelmente também afete as suas capacidades cognitivas de alguma forma. Talvez não seja um sentimento objetivo, mas se pudesse tentar pô-lo em palavras, como acha que a insónia afetou a sua escrita?
Vou dar-lhe um exemplo. Há um capítulo chamado Loopings. É uma parte do livro em que decidi seguir o meu instinto e as palavras estranhas que me vinham à cabeça. Aconteceu à noite, às quatro da manhã, e pensei “escreve isto, mas depois é claro que o vais cortar, porque ninguém vai ler isso, é demasiado louco”. Mas, de facto, mantive-o e agora acho que é uma das melhores partes do livro, mesmo que seja estranho. O meu primeiro livro, Estranhos Perfumes [publicado em 1996, editado em Portugal pela ASA em 2002], era um livro muito audaz, muito punk. Agora também sou audaz, mas de outra forma. Estou demasiado velha para ser punk, talvez, mas confio nas minhas frases e sigo-as, vou até onde elas vão. E acho que isso está relacionado com a insónia, porque não temos escolha. Pensamos “é assim mesmo, não durmo, por isso vou escrever isto”. E há algo na insónia que não está relacionado com o que se pede a um bom cidadão diurno. Durante o dia, é suposto sermos produtivos, é suposto sermos educados, é suposto estarmos ligados, sermos reativos, sermos eficientes. Na insónia, que se lixe tudo isso. Na insónia, de facto, ninguém mais, a não ser nós próprios, nos pede para estarmos acordados. Percebe o que quero dizer? Portanto, não se é “produtivo”, não se é um bom cidadão, não se é moral. Mas também não se é perigoso, pelo menos no meu caso. Fico apenas na cama, mas posso ir muito longe na minha mente.

"Há algo em mim que acredita que se eu dormir, o avião vai cair, algo terrível vai acontecer (...) E o paradoxo é que o único lugar onde realmente durmo bem é num avião, porque já não posso fazer nada. Estou reduzida à impotência.

Sente, de alguma forma, que para contrariar o caos mental que a insónia traz, a reação é ter esse tipo de clareza de objetivo? No livro, escreve sobre a elaboração de listas e utiliza uma expressão mordaz: “o insone obsessivo organiza a noite como um enterro”. É uma questão de tentar criar algo a partir dessa substância negra?
É muito simplesmente dirigir-se aos outros, esperando que a sua voz seja ouvida. Mas suponho que se não fosse uma escritora publicada, escreveria de qualquer forma nas minhas insónias. É uma boa maneira de me manter no domínio de algum tipo de ordem. Não se está muito longe da psicose quando são quatro da manhã, é uma linha ténue.

Voltando ao capítulo que escreve sobre o looping, como alguém que já sofreu de insónias antes, o que acontecia era cair numa mania de pensamentos em cascata que não conseguia controlar e que não cessavam. Este livro, devido à profusão de referências históricas e culturais entrelaçadas com as suas experiências, parece-me que procura um efeito semelhante. Foi algo intencional?
Penso na imagem do bosque, da floresta, e no facto de nos perdermos ou de tentarmos fazer um caminho. Este livro tem também digamos, uma ligação com ecologia, porque tenho a certeza — e aparentemente é verdade — que dormimos menos do que antes, não só por causa dos ecrãs e da produtividade que é pedida aos trabalhadores, mas também porque estamos muito ansiosos. A insónia está a crescer ao mesmo ritmo que as florestas estão a recuar ou a arder. Assim, a insónia é metafísica e cria uma comunidade de pessoas que, se não se refugiarem num ecrã, se não se esquecerem de si próprias no ecrã, têm uma forma de pensar que me é comum, que me é cara. Mas eu não julgo, também faço isso a toda a hora. Mas, por exemplo, nunca estou no Instagram à noite, nunca.

Há uma ideia antiga de que o sono e a morte andam de mãos dadas. Vemos isso no Hamlet de Shakespeare ou, num exemplo muito mais recente, na letra do rapper americano Nas, “I never sleep, because sleep is the cousin of Death”. Mas são muitos os exemplos de que a insónia é igualmente mortiça. Kafka escreveu: “Estou a viver numa espécie de morte, pontuada por breves despertares”. Porque é que a insónia é tão equiparada à morte?
Suponho que seja uma relação tão antiga como a humanidade, porque somos tão vulneráveis. Imagino que nas cavernas houvesse sempre alguém de guarda. E a primeira linha da mais antiga tragédia que chegou até nós de Ésquilo [Agamémnon] começa com alguém que está na vigília e está coberto de orvalho com a água da noite. Ele acorda para os outros. Este medo de ser uma presa levou-nos, a humanidade, a estar acordados, mas não como lobos, apenas acordados às vezes. Eu sei que não durmo porque tenho medo que os meus filhos morram; não eu, os meus filhos. É como disse, fui reconfigurada! Suponho que o natural é termos medo da nossa própria morte, mas preferiria morrer eu do que os meus filhos, isso é certo. Por isso, há algo em mim que acredita que se eu dormir, o avião vai cair, algo terrível vai acontecer. Acho que isso é muito comum a muitas pessoas, talvez especialmente aos pais. E o paradoxo é que o único lugar onde realmente durmo bem é num avião, porque já não posso fazer nada. Estou reduzida à impotência.

▲ "O único lugar onde realmente durmo bem é num avião, porque já não posso fazer nada. Estou reduzida à impotência"

Uma ideia paralela a esta é dizer “durmo ou descanso quando morrer”, ou seja, trabalhar muito agora e descansar mais tarde. Será esta a consequência de uma cultura insone e obcecada pela produtividade?
Para ser sucinta, sim! Não sei se ele ainda o faz, mas Donald Trump costumava tweetar às três da manhã para mostrar que estava acordado. Se ele dormisse, o mundo seria melhor!

Há uma espécie de ideia de “hustle”, de que se estivermos acordados e a trabalhar, estamos um passo à frente de todos.
Sim, é exatamente esse o sistema de Trump. Não há lugar para os sonhadores, especialmente para os que sonham acordados. E sonhar acordado é poesia imediata. Não se ganha muito dinheiro a sonhar acordado. É, inclusive, algo punível na escola.

No livro, fala também de um tipo diferente de insónia, que afeta aqueles que não podem descansar devido à falta de abrigo ou de segurança. Fala de refugiados, de requerentes de asilo, de vítimas de guerra. Descreve, inclusive, algumas experiências que teve com estas pessoas — o que retira das mesmas?
O facto de ser também uma lotaria. No Ruanda, com sobreviventes do genocídio, encontrei pessoas que dormiam muito bem e pessoas que não dormiam de tudo, com basicamente o mesmo tipo de experiência terrível. Algumas pessoas, mesmo vivendo nas ruas, refugiam-se num sono profundo que, nesse caso, é semelhante à morte, um sono muito profundo. Por isso, nunca se sabe. Mas, com certeza, qualquer tipo de sono dá-nos força. No livro, cito uma amiga que perdeu o seu único filho num acidente de viação e o psiquiatra disse-lhe “se consegue dormir, já tem metade da solução”. Isso dá-nos força. Quando não dormimos, ficamos frágeis. Se não dormimos por causa de um trauma, sim, é possível. Mas, de certa forma, também não tem nada a ver com isso. Há este tipo de traumas em que surgem pensamentos intrusivos — diz-se, por exemplo, que as mulheres violadas podem ser acordadas por memórias terríveis. Infelizmente, a maioria dos refugiados provenientes da Líbia foram violados, mesmo os rapazes. Conheci alguns deles. O problema é que há curas possíveis, é possível voltar a dormir, mas há pessoas que nunca voltarão a fazê-lo. É uma lotaria. Ninguém compreende realmente.

"Pergunto-me como é que as pessoas que não escrevem conseguem sobreviver, psiquicamente. Para mim, escrever é uma forma de sobreviver, porque me sinto ligada."

Ao ler o livro, não pude deixar de pensar em alguns paralelos com o que hoje em dia entendemos por “cultura woke”. Deixando de lado os aspetos positivos ou negativos da mesma, “woke” significa literalmente “estar acordado”, uma condição que tem semelhanças com a do insone. No seu caso, a sua insónia é alimentada por uma espécie de hipervigilância que a faz perder o descanso e o sono. Ao mesmo tempo, estar “woke” é estar consciente dos problemas do mundo, cria de alguma forma uma ansiedade generalizada. O que é que pensa disto?
Bem, nunca pensei nisso em relação à insónia, escrevi o livro antes de a palavra “woke” estar tão em voga, mas tem razão. Penso que a metáfora, a ligação entre estar acordado, ou desperto, e estar consciente é muito antiga — quer a vejamos de forma positiva ou negativa. Ésquilo começa a tragédia que já mencionei com este Vigia, cuja função é estar acordado. Ou quando Kafka escreve aquele conto maravilhoso e horrível [Na Colónia Penal] em que um homem que devia estar acordado é encontrado a dormir e é castigado terrivelmente com a frase escrita no corpo até morrer — eles sabem o que fazem, esses grandes escritores, e o tipo que está acordado é o que tem razão, e é também a vítima. Quando penso naqueles jovens que podiam ser meus filhos, tudo bem, podem ser incómodos, podem ser confrangedores, mas são maravilhosos. Prefiro muito mais as pessoas woke do que os trumpistas.

Se pensarmos nisso de forma binária, o oposto de estar acordado é estar a dormir, ou seja, estar isolado dos problemas.
É tão binário como o Matrix, é a questão do comprimido vermelho ou do azul. O problema é que o lado paranoico e conspiracionista, aquele que se insurge contra as vacinas e todas essas coisas malucas, também pensa que é o que está acordado. Portanto, é um grande caos.

No final do livro, tenta encontrar um sentido para si própria e para a sua condição. É interessante a forma como olha para o mundo animal, e desafia o velho paradigma de que os animais, ao contrário de nós, não estão imbuídos de razão, por isso apenas vivem e são capazes de dormir tão bem.
Mas, na verdade, eles não dormem muito, nem precisam — exceto os nossos gatos em casa. É uma forma de pensar muito francesa, creio eu. Nasceu com Descartes e, depois dele, com os escritores do Iluminismo. Quer dizer, todas essas pessoas eram maravilhosas, mas a maioria delas era, penso eu, muito cega em relação aos animais. Precisavam que eles fossem estúpidos e bons dormidores ou o que quer que fosse, para fazer da humanidade — e dos homens, especialmente — a maravilha do mundo. Foi o momento histórico, suponho. Ainda bem que hoje em dia existe este grande movimento generalizado — exceto que chega já um pouco tarde — para perceber que não somos os únicos habitantes deste planeta. Gosto de um filósofo francês, Baptiste Morizot, que defende que não devemos dizer “animais”, mas sim “os outros animais”, porque nós também somos animais.

Porque nos coloca a todos no mesmo nível?
E faz-nos conceber novas frases, e isso interessa-me muito. Se escrevermos, por exemplo, “consegues mesmo comer os outros animais?”, soa diferente aos nossos ouvidos do que “consegues mesmo comer animais?”, porque nos tornamos parte deles. Lembro-me que quando era jovem, nos meus 20 anos, era uma acérrima defensora dos animais, de uma forma talvez atabalhoada, mas queria salvar as baleias, os lobos, etc… E lembro-me que os outros estudantes — todos eles, na verdade — gozavam comigo, porque a moda estava em falar nos trabalhadores e na luta contra os extremistas de direita — o que é muito importante, mas significa que o foco esteve sempre nos seres humanos. Era-se ridículo se se quisesse salvar pinguins ou focas bebés, como a Brigitte Bardot! E esses eram bonitinhos; agora percebemos que os insetos, que não são supostamente bonitinhos, começaram a desaparecer em massa, e por isso os pássaros começaram a morrer. Hoje em dia, já não me sinto só, sinto-me parte de uma grande comunidade de pessoas que não comem animais.

No que diz respeito ao mundo natural, uma das conclusões a que também chega no livro é que o nosso estado de insónia ou de inquietação coletiva se deve, pelo menos em parte, ao nosso divórcio desse mesmo mundo natural, dos seus ritmos.
Tenho a certeza disso e não sou a única a dizê-lo. Os jovens, sobretudo, estão muito [atentos]… Estamos a sofrer, estamos de luto por algo que nos escapa, mas se pararmos para pensar “estou a fazer luto ao quê?”, ligamo-nos ao planeta de uma outra forma, de uma forma mais “desperta”.

Pegando em algo que disse no início da conversa, parece ter tentado purgar uma espécie de demónio, um certo mal-estar, ao escrever este livro. Sente que isso também está relacionado com o conhecimento partilhado de que outras pessoas passam pelas mesmas coisas, que leem o seu livro e encontram algum alívio?
É o simples efeito de escrever, publicar e ser lida. Tive a mesma sensação depois d’O Bebé, e também depois do meu primeiro livro, porque muitas mulheres se identificaram com o que eu estava a dizer sobre o estatuto das mulheres nos anos 90 e no espaço público. Pergunto-me como é que as pessoas que não escrevem conseguem sobreviver, psiquicamente. Para mim, escrever é uma forma de sobreviver, porque me sinto ligada. É preciso pedir muito às pessoas para me lerem, mas sinto-me muito sortuda e isso ajuda-me a viver.

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