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© Raquel Martins/Observador

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Das insónias aos gadgets para nos ajudar a dormir: a indústria milionária do sono /premium

A privação de sono tem custos físicos e emocionais, e rouba milhões à economia de países. O sono passou a ter valor económico: há apps, livros, podcasts e gurus. E há empresas que pagam a quem dormir.

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Antes visto apenas como um inimigo do trabalho e das horas extras, o sono tem ganho cada vez mais destaque na sociedade ocidental. Desde que foi reconhecido como tendo valor económico, quanto e como se dorme tornou-se tópico de debate entre empresas, especialistas e gigantes tecnológicas. Aplicações para monitorizar as nossas noites ocupam telemóveis, livros sobre a higiene do sono enchem prateleiras de livrarias e a comunidade científica mostra-se cada vez mais interessada na produção de gadgets para dormirmos melhor. A indústria está atenta e, de acordo com este artigo, está estimada em mais de 100 mil milhões de libras (cerca de 113 mil milhões de euros). Dormir está na moda e recomenda-se.

Já não são só os alertas de saúde que contam e que invadem jornais, mas também questões relacionadas com o rendimento e a produtividade da força trabalhadora de empresas, de mercados e de economias inteiras. A privação de sono e as doenças a ela associadas afetam também a riqueza de um país: um importante estudo de 2016, realizado pelo centro de investigação norte-americano RAND Corporation, mostrou que os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, o Japão e o Canadá perdem em conjunto até 680 mil milhões de dólares por ano devido à falta de tempo de repouso dos seus trabalhadores, incluindo 50 mil milhões de dólares no Reino Unido e 60 mil milhões de dólares na Alemanha. 

Fonte: “Why sleep matters – the economic costs of insufficient sleep A cross-country comparative analysis”, de 2016, da Rand © Grafismo Raquel Martins

O descanso está agora a ser encarado como “a última cura” do ponto de vista físico e emocional: dormir não só reduz seriamente o risco de desenvolver diversas doenças, como funciona como uma espécie de reset emocional, ajudando a dar perspetiva e até a diminuir níveis de stress, como se lê neste artigo publicado recentemente na GQ britânica, fazendo jus à velhinha expressão “dormir sobre o assunto” —  e se não se pode dormir de menos, também não se pode dormir de mais.

Ao mesmo tempo que estamos cada vez mais informados sobre os efeitos da privação de sono, ficamos também cada vez mais imersos numa cultura que nos alicia a ficar acordados até mais tarde, seja pelo hábito contínuo das redes sociais, pelo uso de plataformas de streaming — já antes o CEO da Netflix disse que o principal inimigo daquela plataforma não eram as concorrentes HBO ou Amazon Prime, mas sim o sono — ou pela cultura de trabalho que, em alguns países, ainda se orgulha das clichés horas extras. O certo é que em 2017 a Organização Mundial de Saúde começou por falar na privação de sono enquanto “uma epidemia”, a qual serve de base para um negócio de milhões. O artigo da GQ já citado faz a seguinte exposição: atualmente, existem gurus do sono, clínicas do sono, retiros do sono, aplicações para nos ajudar a dormir e para controlar o sono, pijamas inteligentes, livros sobre o tema que são best-sellers e até podcasts sobre dormir.

Em janeiro deste ano, o norte-americano The Washington Post acrescentava outros hábitos para não pregar o olho — como os diferentes ecrãs que temos por casa, a programação televisiva que se estende noite dentro ou os e-mails de trabalho por responder — dando destaque ao alerta de especialistas no campo da investigação do cérebro: “a privação de sono é uma crise de saúde pública”.

Um importante estudo de 2016 mostrou que os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, o Japão e o Canadá perdem em conjunto até 680 mil milhões de dólares por ano devido à falta de tempo de repouso dos seus trabalhadores, incluindo 50 mil milhões de dólares no Reino Unido e 60 mil milhões de dólares na Alemanha.

Como dormem os portugueses?

A recomendação internacional continua a apontar paras as famosas 8 horas de sono por noite, uma média que pode ser assim interpretada: as pessoas entre os 18 e os 65 anos devem dormir entre 7 e 9 horas por noite. Uma receita de sucesso que parece não ser seguida pelos portugueses, assegura o presidente da Associação Portuguesa do Sono (APS). “Os portugueses não respeitam o sono, acham que é uma perda de tempo”, diz Joaquim Moita ao Observador. Em 2018, um inquérito realizado pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia e pela Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho era claro no diagnóstico: 46% dos portugueses com idade igual ou superior a 25 anos dormem menos de 6 horas por dia, 21% dizem que demoram mais de 30 minutos para adormecer, 32% consideram ter mau sono e 40% admitem ter dificuldades em manter-se acordados durante a condução e outras atividades diárias.

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Outro estudo, citado por Teresa Paiva, considerada a maior especialista do sono em Portugal, remete para a investigação de nome Epi-Reuma PT, que tem como investigadores principais Helena Canhão e Jaime Branco. Tendo por base uma amostra de 5.436 indivíduos maiores de idade, constatou-se que, em média, os portugueses dormem 6h37 minutos por noite. Os jovens, dos 18 aos 25 anos, dormem em média 7h30; os adultos com idades compreendidas entre os 26 e os 64 dormem 6h30 e os idosos, com mais de 65 anos, dormem 6h15 por noite. O mesmo estudo permitiu perceber que as regiões onde se dorme menos de 5 horas por noite são o Algarve, Lisboa e Madeira, para os homens, e Madeira e Alentejo para as mulheres; onde se dorme mais de nove horas é no Algarve, para eles, e nos Açores e no Alentejo, para elas. Isto significa que Alentejo (para as mulheres) e Algarve para os homens são as zonas dos país onde há mais perturbações do sono tanto por se dormir de mais, como de menos. 

Apesar destes dois estudos, Joaquim Moita, da APS, destaca a falta de uma grande investigação, com uma amostra bastante significativa, para compreender a fundo os hábitos de sono dos portugueses e promete tais dados para o ano 2021. Ainda assim, o presidente daquela associação é perentório quando afirma que a apneia do sono e as insónias são as doenças do sono mais frequentes na realidade nacional. Outro dado muitas vezes repetido remete para o facto de mais de metade dos portugueses adultos dormirem menos de 6 horas. Mas não são só os crescidos que enfrentam problemas na hora de ir dormir, com a situação a resvalar para as crianças que, segundo Moita, “dormem cada vez menos”. “Levantam-se muito cedo e deitam-se muito tarde, e têm um dia muito preenchido não só na escola. Traduz-se em mau rendimento escolar… tem de haver mais atenção sobre isto”, afirma.

Nem de propósito, no passado dia 12 de setembro uma recomendação feita pelo Parlamento — a qual visa que o Governo estude a possibilidade de introdução da sesta na Educação Pré-Escolar — foi publicada em Diário da República, sendo esta uma resposta ao facto de uma grande parte dos jardins-de-infância públicos não prever as sestas a partir dos 3 anos, esclarece ao Observador Maria Helena Estevão, pediatra e membro da Sociedade Portuguesa do Sono.

“O facto de as crianças dormirem durante a tarde é muito importante para que cumpram as horas necessárias de sono. Isto porque muitas não conseguem cumprir essas horas durante a noite. O défice de sono tem muita influência no desempenho da criança no dia seguinte, na sua capacidade de concentração e de abstração. Estamos a falar de crianças que, nesta idade, estão em franco desenvolvimento, em que todos os dias contactam com coisas novas. E o sono é extremamente importante para a memorização, tal como para os adultos”, defende Maria Helena Estevão. E se nos adultos a privação de sono manifesta-se mais facilmente através da sonolência, nas crianças os sinais são particularmente diferentes e incluem birras e um estar irrequieto. “O que é importante é que os infantários tenham previstas as duas situações: a criança que dorme de menos e a criança que dorme o suficiente”, diz.

As regiões onde se dorme menos de 5 horas por noite são o Algarve, Lisboa e Madeira, para os homens, e Madeira e Alentejo para as mulheres; onde se dorme mais de nove horas é no Algarve, para eles, e nos Açores e no Alentejo, para elas. Isto significa que Alentejo (para as mulheres) e Algarve para os homens são as zonas dos país onde há mais perturbações do sono tanto por se dormir de mais, como de menos. 

Teresa Rebelo Pinto, psicóloga especialista em sono — e coordenadora do Projeto Sono Escolas, que funcionou de 2010 a 2016 — explica ao Observador que muitas pessoas utilizam o sono como pretexto para pedirem uma consulta: desde insónias, que é o mais comum, ao facto de não terem um sono reparador, passando pela falta de energia durante o dia, falta de motivação ou até de concentração, incluindo “coisas bizarras que acontecem durante o sono”. “Há muita procura, mas sentimos que as pessoas só pedem ajuda no limite.” De acordo com a sua experiência clínica, considera que os portugueses “andam a dormir muito mal” sobretudo porque têm uma má relação com o sono e porque fazem horários muito irregulares — tanto ela como Teresa Paiva falam em “jet lag social, que retrata precisamente as horas de acordar pouco uniformes durante, por exemplo, uma semana, o que pode afetar o pensamento, a memória, a atenção, o raciocínio e também a criatividade. “É como se todas semanas fossemos ao Japão e no dia a seguir voltássemos. Isto é muito prejudicial para a saúde, o corpo gosta de ritmos”, diz Teresa Rebelo Pinto, sendo que o mesmo vale para quem trabalha por turnos.

Já antes o Observador escreveu que, em 2007, a perturbação dos ritmos circadianos (os ciclos diários que controlam as funções biológicas), nomeadamente pelo trabalho por turnos, foi considerada “provavelmente cancerígeno para humanos”, pela Agência Internacional para a Investigação em Cancro (IARC), da Organização Mundial de Saúde.

Outro problema resvala para o facto de não exercemos responsabilidade para com o sono, caindo na fantasia de que se dorme bem naturalmente. “Devíamos ter um horário estabelecido o mais regular possível durante a semana e também ao fim de semana que correspondesse ao nosso horário biológico. Não devo dormir 8 horas se sinto que fico bem com 6. Só se dorme pouco se não houver sintomas. Mas a maior parte das pessoas precisa de 7 a 8 horas, há outras que só se sentem bem com 9”, continua a psicóloga que deixa dicas para uma noite bem dormida: o quarto não deve estar muito frio, nem muito quente; é preciso garantir que há o menor número de interferências, seja de luz, seja de ruído; e as emoções devem ser “desligadas”.

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Maria João é uma portuguesa preocupada com o próprio sono. Aos 29 anos optou por participar num curso de três horas para aprender a dormir melhor devido às dificuldades que tem em adormecer. “Procurei o que podia fazer e descobri este curso. Costumo estar agitada quando me deito e levo sempre algum tempo a adormecer”, conta ao Observador. Do curso diz que o mais interessante foi conhecer como se processa o sono e deitar por terras algumas ideias preconcebidas. Tratar o sono por tu ajudou-a a dormir melhor. “Sinto que há muitas pessoas que dormem pouco e não são pro-ativas em relação a isso. O sono não é abordado como tema sério porque há outras áreas de preocupação, como a alimentação e o exercício físico.”

Os jovens, dos 18 aos 25 anos, dormem em média 7h30; os adultos com idades compreendidas entre os 26 e os 64 dormem 6h30 e os idosos, com mais de 65 anos, dormem 6h15 por noite

© sam thomas/iStockphoto

Porque é que dormir faz tanta falta?

Há muito que a ciência desenhou uma correlação entre a privação de sono e um conjunto de doenças, mas a consciencialização nesse sentido está longe de terminada. Em fevereiro deste ano chegava ao mercado português o livro “Porque dormimos?”, de Matthew Walker, professor de neurociência e psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, que nas páginas iniciais faz um resumo do que realmente pode acontecer quando se dorme frequentemente menos de seis ou sete horas por noite, a começar pela destruição do sistema imunitário e pela duplicação do risco de se vir a sofrer de cancro. Doenças cardíacas, apoplexias e insuficiência cardíaca também estão na lista, sendo que as perturbações de sono são ainda um contributo para condições psiquiátricas como a depressão, a ansiedade e as tendências suicidas, assegura o autor. A isso acrescenta-se o facto de dormir pouco aumentar a concentração de uma hormona que puxa pela fome, ao mesmo que suprime a produção de outra hormona associada à saciedade, pelo que aumento de peso pode, neste contexto, tornar-se numa inevitabilidade.

“Quanto menos dormir mais curta será a sua esperança média de vida. Os seres humanos são a única espécie que se priva voluntariamente de sono sem que isso represente um benefício legítimo”, salienta o mesmo autor. A verdade é que a Organização Mundial de Saúde já fala numa epidemia de privação de sono nos países industrializados: “Não é coincidência que os países em que as horas de sono foram mais dramaticamente reduzidas ao longo do último século, como por exemplo os Estados Unidos, o Reino Unido, o Japão, a Coreia do Sul e vários países da Europa Ocidental, sejam também os que sofreram os maiores aumentos na prevalência das já mencionadas doenças físicas e mentais”, escreve ainda Matthew Walker.

São muitas as funções do cérebro que são restauradas e até aprofundadas enquanto dormirmos. Foi em setembro de 2014, numa TEDMED (conferência TED dedicada à saúde e medicina) em São Francisco, que o neurocientista Jeff Ilif, da Oregon Health & Science University, revelou que a limpeza do cérebro acontece durante o sono. Até aqui já se sabia que o líquido cefalorraquidiano (líquido que preenche o espaço entre o crânio e o cérebro) protegia e nutria o sistema nervoso central e era responsável pela respetiva limpeza, mas só então se descobriu que esse processo ocorre durante o sono. Não é por acaso que em 2017 o psicólogo espanhol Álvaro Bilbao garantia ao Observador que cuidar do cérebro é mais importante do que cuidar da pele, devendo este ser um hábito tão comum como escovar os dentes depois de cada refeição. E como se cuida de um cérebro? Através da alimentação, do exercício físico e… do sono.

"A privação de sono provoca efeitos tão devastadores no cérebro, relacionando-a com numerosas condições neurológicas e psiquiátricas (como, por exemplo, doença de Alzheimer, ansiedade, perturbação bipolar, suicídio, apoplexia e dor crónica) (…) contribuindo adicionalmente para inúmeras perturbações e doenças (como, por exemplo cancro, diabetes, ataques cardíacos, infertilidade, aumento de peso e obesidade). Não existe nenhuma parte do corpo humano que seja poupada aos efeitos aterradores e nocivos da falta de sono.”
Livro: “Porque é que dormimos?”

O artigo do The Washington Post já mencionado faz ainda referência a uma “nova e alarmante linha de investigação” que sugere que dormir pouco pode aumentar o risco de Alzheimer, que até reduções de sono “modestas” estão associadas a sentimentos crescentes de isolamento social e solidão, e que noitadas levam a ansiedade a níveis clínicos. “Antes era popular as pessoas dizerem ‘Durmo quando estiver morto/a’. O que é irónico é que não dormir o suficiente pode levar-nos a isso [à morte] mais depressa”, diz ao jornal Daniel Buysse, professor de medicina do sono na Universidade de Pittsburgh.

As consequências negativas da privação de sono têm hoje mais destaque na sociedade, tanto que o próprio Guiness Book of World Records já não reconhece as tentativas de quebrar o recorde mundial de número de horas que é possível passar-se sem dormir. “O sono sempre foi tido pelos animais como uma forma de garantir a sobrevivência. O nosso sono é um super-poder”, afirma Teresa Paiva, considerada a maior especialista do sono em Portugal. A neurologista no CENC – Centro de Medicina do Sono assegura ao Observador que desperdiçar horas na cama em função do trabalho não traz qualquer benefício. “O sono é a coisa mais natural que temos, mas claramente não é necessário na nossa sociedade.”

“Começamos a trabalhar muito cedo e acabamos muito tarde. O excesso de trabalho é negativo para a produtividade e para a qualidade de vida das pessoas. Quando uma mãe chega a casa às 21h não tem capacidade para estar com os filhos e gera-se um sentimento de culpa. E na sociedade atual a família é parte nuclear”, continua Teresa Paiva. “Há qualquer coisa na nossa organização social que não é necessária, que não nos faz mais felizes e que não nos torna mais ricos.”

Em média, os portugueses dormem 6h37 minutos por noite

© kasinv/iStockphoto

Quanto custa não dormir?

Aos 56 anos, Arianna Huffington, fundadora do jornal online que lhe leva o apelido emprestado, desmaiou sem aviso devido ao cansaço extremo e acordou numa poça de sangue em pleno escritório. Na queda partiu o maxilar. O susto serviu de arranque a um novo capítulo e aquela que é uma das mulheres mais bem-sucedidas nos EUA entregou-se ao movimento a favor do sono, preocupação que esteve na origem do best-seller “A Revolução do Sono”. “Antes disso eu era uma daquelas pessoas que acreditava na nossa ilusão coletiva de que o burnout é necessário para o sucesso. Acreditava que o [jornal] Huffington tinha sido bem-sucedido devido ao trabalho em excesso e à privação de sono. Hoje sou uma pessoa que percebe que qualquer sucesso que tive foi apesar — e não por causa — do excesso de trabalho e do burnout. Agora sou uma pessoa que percebe que somos mais produtivos, mais criativos, mais presentes e que tomamos [melhores] decisões quando damos prioridade ao nosso bem-estar. E, claro, isso é o que a ciência mostra claramente”, disse em entrevista ao Observador.

“Neste momento estamos a assistir à valorização do sono, que está a ficar na moda”, atesta Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono, argumentando que os media preocupam-se cada vez mais com o assunto. “Nos EUA já é um tema há vários anos, sobretudo por causa do movimento liderado por Arianna Huffington. Em Portugal está a começar agora”, continua, salientando que ainda existe uma cultura empresarial que valoriza as longas horas de trabalho. É por isso que diz que “os portugueses estão cronicamente privados de sono devido ao culto empresarial e ao estilo de vida”. E não dormir custa muito dinheiro. Em 2014, a Ordem Portuguesa dos Psicólogos (OPP) divulgou um documento que revelou que o stress no trabalho traduz-se em custos avolumados para empresas e pessoas, salientando que relativamente às empresas portuguesas os gastos andarão na ordem dos 300 milhões de euros por ano — e entre as causas de stress laboral está a carga de trabalho excessiva ou o tempo insuficiente para terminar as tarefas.

Acidentes de viação, baixa produtividade e doenças são algumas das consequências da privação de sono apontadas por Joaquim Moita que custam dinheiro. Mas os grandes gastos estão na baixa de produtividade relacionada em grande parte com a insónia, o que em Portugal é visto “como uma doença menor”. A baixa produtividade pode também traduzir-se em absentismo e presentismo, este último associado a problemas físicos e psicológicos que podem variar muito de pessoa para pessoa — maior apatia e irritabilidade, isolamento, fadiga constante e ansiedade relacionada com a incapacidade de se fazer bem o trabalho, já antes explicou ao Observador Samuel Antunes, vice-presidente da OPP, que salientou que em casos mais extremos há o risco de suicídio.

“Tudo o que eu faço durante o dia depende de um sono de qualidade. As pessoas devem procurar proteger ao máximo o sono em vez de o ultrapassar”, afirma a psicóloga Teresa Rebelo Pinto, que tem realizado diversas formações em empresas, no sentido de incentivar as diferentes organizações a serem mais sleep friendly, considerando que o sono tem um grande impacto na produtividade. “Se eu investir em boas noites de sono isso fica-me mais barato, tanto pela saúde física e mental dos colaboradores, como em níveis de produtividade para as empresas. Portugal não é dos países mais produtivos, mas é dos países onde se trabalha mais horas e até mais tarde. As empresas podem beneficiar de bons hábitos de sono e oferecer condições que não sejam presentes envenenados — a isenção de horário é um convite à clandestinidade.”

“Tudo o que eu faço durante o dia depende de um sono de qualidade. As pessoas devem procurar proteger ao máximo o sono em vez de o ultrapassar.”
Psicóloga Teresa Rebelo Pinto

Os dados mais recentes da Pordata, Eurostat e Instituto Nacional de Estatística relacionados com a produtividade de trabalho por hora trabalhada mostram que em Portugal cada hora de trabalho vale, em média, 21,9 euros. Na vizinha Espanha esse valor sobe para 35,6 euros. A média da União Europeia fixa-se nos 40,7 euros por hora, sendo que é na Dinamarca onde se produz mais (71,9 euros) e na Bulgária onde se produz menos (9,5 euros).

A especialista Teresa Paiva faz notar a crescente preocupação de empresas com o sono de colaboradores noutros países. E, na verdade, não é muito difícil de encontrar notícias nesse sentido: em junho de 2016, a BBC escrevia que o grupo de seguros norte-americano Aetna pagava até 300 dólares por ano aos trabalhadores por noites bem dormidas; em outubro de 2018, a Bloomberg noticiava que o CEO da empresa japonesa Crazy Inc. estava a pagar aos colaboradores que dormissem um mínimo de seis horas por noite durante pelo menos cinco dias seguidos, o que poderia equivaler até 570 dólares por ano (a mesma publicação cita dados que revelam que 92% dos japoneses com mais de 20 anos admitem que não dormem o suficiente, sendo que outro estudo da Rand Corporation, de 2009, já antes mostrou que a privação de sono está a custar ao país 138 mil milhões de dólares, isto é, 2.92% do Produto Interno Bruto). Na cidade de Tóquio, startups de tecnologia estão a criar salas para dormir (vulgo, fazer a sesta) de forma a ajudar a combater o problema que é a privação de sono, acrescenta o The Guardian.

O sono também é um negócio

“Portugal continua a ser um dos países com maior consumo de remédios para dormir, sobretudo aqueles que não têm receita médica”, atesta a especialista Teresa Paiva ao Observador. Segundo um relatório de 2019 do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), que cita as estatísticas da OCDE correspondentes ao ano de 2017, o “volume de vendas de ansiolíticos em ambulatório correspondia nessa data a 2% de todos os fármacos vendidos em território nacional, representando uma despesa de 51,9 milhões de euros. Portugal estava em primeiro lugar comparativamente a todos os outros países da OCDE”.

Em 2018, foram vendidas 10.387.766 embalagens de benzodiazepinas comparticipadas e dispensadas em regime de ambulatório aos utentes do Serviço Nacional de Saúde e subsistemas públicos, segundo dados fornecidos ao Observador pelo Infarmed, menos 150.255 embalagens do que no anterior e menos 355.299 do que em 2015. O Infarmed salienta, em nota enviada ao jornal, “uma efetiva redução da sua utilização”, que diz resultar da estratégia adotada “no sentido de promover o seu uso racional e boas práticas de utilização de benzodiazepinas”. No entanto, estes dados não contemplam medicamentos não comparticipados e a unidade de medida remete para embalagens.

As benzodiazepinas são, de acordo com Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), ” psicofármacos depressores do sistema nervoso central (…), medicamentos utilizados no tratamento da ansiedade e das insónias, com efeitos tranquilizantes e ansiolíticos”. Num documento de 2016, da autoria do Infarmed, lia-se ainda que “Portugal é um dos países com maior consumo de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos”, grupo que inclui, maioritariamente, benzodiazepinas e análogos”. Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono, diz ainda que os fármacos em causa têm o problema de criar habituação e que, na sua versão genérica, podem ser adquiridos por baixo custo, criticando assim o “acesso muito facilitado”.

Em 2018, foram vendidas 10.387.766 embalagens de benzodiazepinas comparticipadas e dispensadas em regime de ambulatório aos utentes do Serviço Nacional de Saúde e subsistemas públicos, segundo dados fornecidos ao Observador pelo INFARMED, menos 150.255 embalagens do que no anterior e menos 355.299 do que em 2015.

“Os medicamentos e a tecnologia têm de ser tratados com muito respeito e devem ser usados quanto baste e de acordo com o problema”, lembra Teresa Paiva, que garante que é mito a ideia de que as tecnologias vão resolver qualquer assunto. “É uma ideia altamente perigosa, a das coisas informáticas criadas por firmas altamente colocadas no mercado e aplicadas à saúde. A maior parte delas não estão corretas na análise que fazem do sono”, diz, referindo-se a dispositivos que prometem uma eficaz monitorização do sono. “Existe uma diferença entre tecnologia comprovada ‘over-the-counter’, como se costuma dizer, e a tecnologia feita com prescrição. Não estou a dizer que a tecnologia não venha a mudar de forma mais substancial, agora a pessoa acreditar que o que mete no pulso mede o sono é verdadeiramente irrealista.” A especialista em sono olha com desconfiança para tais aparelhos, ressalvando que os mesmos — e a ciência que por detrás deles se esconde — devem ser validados.

Os Sleepbuds da Bose são uns tampões de ouvidos tecnológicos que prometem noites bem dormidas

ROBERT ADAMO PHOTOGRAPHY/BOSE

Os gadgets que nos prometem uma noite bem dormida

Há produtos tecnológicas que quase prometem milagres para ter uma noite bem dormida. O barulho dos vizinhos é impedimento para o descanso? Há auriculares da Bose — com um “humilde” valor de cerca de 250 euros — que prometem resolver o problema. Acorda várias vezes inquieto ou tem dificuldade em adormecer? Marcas como a Fitbit, a Samsung ou a Fossil (entre outras) prestam-se a monitorizar o sono com relógios inteligentes. Tem um parceiro que ressona alto? Ponha-lhe uma máscara vibratória da Hupnos que acalma o nariz. Dizem que olhar para um ecrã antes de dormir faz insónias? Mude-lhe a cor, dizem os fabricantes de ecrã que até dão essa opção. Tem um bebé e, por isso, sonos trocados? O criador do Facebook, Mark Zuckerberg, fez — literalmente, — uma caixa luminosa para o ajudar. Tudo isto funciona? Aí, a conversa já é outra.

Feiras como a CES, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo que se realiza anualmente em Las Vegas, nos EUA, já têm grandes espaços dedicados em exclusivo às novidades nesta indústria. Como escreveu o CNET no início deste ano, o objetivo destes aparelhos é ter uma noite mais “smart”. Foi nesse evento, na edição de 2016, que a Bose apresentou os tampões de ouvidos tecnológicos “Sleepbuds” (algo como “auxiliares do sono”, em português).

Estes auriculares não funcionam para ouvir música como auriculares tradicionais, mas permitem ouvir sons calmantes. Além disso, o design maleável faz com que se possam adaptar aos ouvidos da maioria das pessoas e ainda têm uma app para ser tudo mais inteligente. Contudo, lendo a maioria das críticas, como quando se compara este gadget com opções bem mais baratas, como tampões de ouvidos de cera, ficamos com a ideia de que os Sleepbuds não passam de uma promessa tecnológica para uma noite bem dormida.

Relativamente aos relógios inteligentes de marcas com a Samsung, a Fitbit ou a Fossil (entre outras), propõe-se a acompanhar o sono a par e passo para poder vir a ter uma noite mais descansada. Como têm sensores de movimento e de batimentos cardíacos, apresentam, teoricamente (sublinhe-se o teoricamente), dados sobre como dormiu. Contudo, com esta opção, vemos uma característica transversal a estes equipamentos, a falta de legitimidade científica.

Relógios inteligentes como o Galaxy Watch, da Samsung, têm funções para controlar os ritmos de sono (TIAGO COUTO/OBSERVADOR)

Tiago Couto/Observador

Dando o exemplo da Apple e do seu relógio inteligente Apple Watch, a empresa afirmou em 2018 que trabalhou com cardiologistas para desenvolver a app de batimentos cardíacos. No entanto, para este dispositivo e para o Series 5, anunciado recentemente, não há de registo de sono. Porquê? Porque não pode afirmar a fiabilidade e validade científica deste tipo de processo (refira-se que ao anunciar funcionalidades de saúde tem sido ao longo dos anos a Apple tem sido bastante cautelosa).

Apesar de produtos como os auriculares da Bose chegarem a ser lançados no mercado, outros, como a máscara vibratória da Hupnos, ficam-se por campanhas de crowdfunding e protótipos em feira e não chegam ao mercado. Na base de soluções como estas estão histórias comuns, como “a minha mulher queixava-se que eu ressonava e, por isso, inventei esta máscara” (ver campanha de crowdfuding da Hupnos). Mais uma vez, nem sempre os estudos científicos secundam invenções como estas.

A caixa que Mark Zuckerberg criou para ajudar a mulher a dormir melhor (Mark Zuckerberg/Instagram)

Truques para poder ficar a olhar para o ecrã durante mais tempo, como o “modo noturno” (ou “night shift” ou “modo leitura”), são cada vez mais comuns em sistemas operativos como o Windows, o MacOS ou no Android. Na prática, estes são um modo de visualização que pode ser ativado na maioria dos dispositivos com ecrã e reduz a luz azul emitida. Desta forma, o ecrã fica mais castanho e, teoricamente, cansa menos a visão. Esta funcionalidade tem como objetivo levá-lo a adormecer mais depressa. Não é uma solução tão boa, ou saudável, c0mo largar o telemóvel e ler um livro à noite, mas, como referiram especialistas ao The Verge quando esta modalidade foi lançada, parece ter ajudado.

E a invenção de Mark Zuckerberg para dormir melhor? Essa, com todas as limitações, existe e assenta num princípio que é base — ou devia ser — para a maioria dos produtos tecnológicos: ser simples e facilitar. Em vez de apps que controlam o sono ou pulseiras com Bluetooth, o fundador do Facebook teve a ideia de criar uma caixa que emite luz entre uma determinada hora. A ideia teve como objetivo evitar que a mulher pegasse no telefone durante a noite e ficasse ansiosa ao ver quanto (pouco) tempo ainda tinha para dormir. No fundo, é uma tecnologia que evita a ansiedade que outra tecnologia pode criar. Pode ter sido um golpe de auto-promoção numa altura em que há cada vez menos confiança no Facebook, mas os passos para criar uma destas caixas foram partilhados livremente e várias empresas criaram as suas versões.

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