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Marjorie Taylor Greene, a estrela do MAGA que agora é uma "traidora" para Trump

Defendeu o Presidente, comparou-o com Jesus e com Mandela e ganhou notoriedade na base eleitoral do trumpismo. Mas depois zangou-se com Trump, que lhe chamou "traidora". MAGA pode fracturar-se?

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Pandemia e presidenciais de 2020. Foi nestas circunstâncias que Marjorie Taylor Greene se estreou na Câmara dos Representantes, dando a cara pelo 14.º distrito congressional da Georgia. Numa altura de elevada polarização, a congressista defendia as posições mais radicais do núcleo duro do Presidente norte-americano, Donald Trump. Era abertamente contra a vacinação da Covid-19 — e difundia teorias da conspiração sobre o assunto — e manteve-se convicta de que o atual chefe de Estado tinha vencido as eleições de há cinco anos, atacando o “roubo” que alegava ter sido perpetrado pelos democratas e por Joe Biden. Esta sexta-feira, esta política polémica anunciou que vai abandonar as funções políticas no Congresso, depois de entrar em rota de colisão com o homem que tanto defendeu no passado.

No ecossistema do Partido Republicano, Marjorie Taylor Greene representava a ala mais radical e dura. Difundia desinformação nas redes sociais, exaltava-se com facilidade e usava uma retórica agressiva. Por exemplo, durante a pandemia, Greene chegou a comparar o uso obrigatório da máscara com o Holocausto, algo pelo qual depois veio a pedir desculpa. Por causa do estilo extremista, a empresária da Georgia tornou-se alvo de várias críticas, mas também de vários elogios, tornando-se bastante conhecida.

Para os apoiantes mais radicais de Donald Trump, Marjorie Taylor Greene era a voz contra o sistema, era a voz contra o establishment, era a voz contra os poderes instalados, especialmente durante a administração de Joe Biden. Dizia o que mais ninguém tinha coragem de dizer, nem mesmo o Presidente norte-americano. Por causa disso, transformou-se numa estrela no movimento Make America Great Again (MAGA). E uma das apoiantes mais acérrimas de Donald Trump.

Swearing In Held For U.S. Senators To Start The 117th Congress

▲ Marjorie Taylor Greene com uma máscara a dizer que "Trump venceu"

Getty Images

A adoração que Marjorie Taylor Greene, uma política cristã evangélica, sentia por Donald Trump era imensa. Durante os processos judiciais de que o atual chefe de Estado foi alvo antes das presidenciais de 2024, a republicana da Georgia chegou a equiparar o magnata a Jesus Cristo — uma comparação com bastante peso na América religiosa. “Os democratas e os jornais das fake news estão constantemente a referir que o Presidente é um criminoso. Querem saber uma coisa? O homem que eu venero também é um criminoso. Foi assassinado numa cruz.”

O momento da mudança: o caso Epstein

Tudo mudou em 2025 quando Donald Trump chegou à presidência. A congressista radical começou a deixar algumas críticas à Casa Branca. Havia dois assuntos que a incomodavam em particular: o caso Epstein e a defesa de Israel pela Casa Branca. Marjorie Taylor Greene pretendia que todos os ficheiros sobre a rede sexual de menores montada por Jeffrey Epstein fossem tornados públicos e denunciava a excessiva aproximação entre Washington e Telavive.

Inicialmente, as críticas que a congressista tecia até podiam enervar a presidência norte-americana. Mas é certo que a base eleitoral de Donald Trump não é toda igual — e há algum espaço para algumas discordâncias, especialmente na política externa. Nos últimos tempos, no entanto, Marjorie Taylor Greene foi além disso e desafiou o chefe de Estado: foi a programas de televisão apresentados por personalidades que o chefe de Estado despreza, aumentou o tom das críticas e retratou-se por algumas ações radicais no passado.

"Os democratas e os jornais das fake news estão constantemente a referir que o Presidente é um criminoso. Querem saber uma coisa? O homem que eu venero também é um criminoso. Foi assassinado numa cruz."
Congressista da Georgia, Marjorie Taylor Greene

A dissidência da outrora leal congressista não foi tolerada por Donald Trump. Na Truth Social, o chefe de Estado dedicou-lhe uma série de publicações com insultos, alcunhas e desconsiderações típicas — o que marcou a rutura total entre a congressista republicana, que abandonará a Câmara dos Representantes a 6 de janeiro de 2026, e o Presidente. “Tudo o que vejo a desvairada Marjorie fazer é queixar-se, queixar-se, queixar-se!”, criticou num post. Noutro, ainda foi mais ácido: “A Marjorie ‘Traidora’ Green é uma desgraça para o nosso grande Partido Republicano!”

Outros episódios da cisão entre Marjorie e Trump — que passou para as redes sociais

A congressista deixou de representar a oposição quando Donald Trump venceu as eleições. O trumpismo voltou em força aos Estados Unidos e as expectativas eram altas. Porém, não passou muito tempo até Marjorie Taylor Greene mostrar o seu desapontamento com a atual administração. A guerra na Faixa de Gaza e o apoio dos EUA a Israel motivaram várias críticas, assim como a decisão de não suspender a ajuda militar à Ucrânia.

“Fui eleita pelas mesmas promessas de campanha que o Presidente Trump foi eleito. Prometemos que não haveria mais guerras estrangeiras, não haveria mais mudanças de regime”, declarou Marjorie Taylor Greene. Os ataques norte-americanos ao programa nuclear iraniano em junho deste ano motivaram fortes críticas da congressista, defensora acérrima de uma política de não-intervenção pelos Estados Unidos, posição que muitos membros do MAGA também apoiam.

Em relação a Gaza, a congressista acusou mesmo Israel de levar a cabo um “genocídio” contra o povo palestiniano no enclave, uma posição que destoa dentro do Partido Republicano e da maioria dos cristãos evangélicos nos Estados Unidos — que normalmente são fervorosos apoiantes do Estado judaico. Se Marjorie Taylor Greene até podia contestar as decisões da presidência e demonstrar a sua oposição no Congresso, a política externa é um assunto que não preocupava a Casa Branca, que dava abertura para algumas críticas.

epa12523689 Palestinians collect plastic from a landfill to use for cooking fires in Khan Yunis, southern Gaza Strip, 13 November 2025. A severe fuel shortage has led residents of Gaza to burn plastic waste as alternative fuel, despite the creation of toxic smoke. The United Nations warns that the fuel crisis has reached an existential level for Gaza's 2.1 million residents, amidst nearly two years of conflict.  EPA/HAITHAM IMAD

▲ Marjorie Taylor Greene foi das poucas republicanas a declarar o que se passou em Gaza como um "genocídio"

HAITHAM IMAD/EPA

Contudo, existe um assunto mais sensível que irritou certamente Donald Trump. Prometendo durante a campanha eleitoral a divulgação dos ficheiros do caso Epstein, a Casa Branca criou vários obstáculos para que os documentos viessem a público, algo que deverá acontecer nos próximos tempos, já que a presidência mudou de ideias e promulgou o documento esta quarta-feira. Marjorie Taylor Greene defendeu sempre que fossem revelados e, contrariamente a muitos republicanos, deu a cara por uma iniciativa bipartidária para avançar com legislação no Congresso com a finalidade de que os ficheiros fossem desclassificados.

Nas redes sociais, a congressista fez pressão para os republicanos votarem a favor do projeto de lei para obrigar o Departamento de Justiça divulgar os ficheiros. Mais: Marjorie Taylor Greene passou a aparecer em canais de televisão que Donald Trump detesta, como a CNN Internacional, a CBS News ou até a ABC News — órgãos de comunicação social que o Presidente norte-americano descreve como sendo “fake news”. Criticou diretamente o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e outros nomes da administração por obstaculizarem o processo.

Estes dois tópicos incomodaram a congressista. No entanto, começaram, em simultâneo, a circular rumores de que havia também motivos políticos — e até uma  “vingança” pelo meio. A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez publicou um vídeo nas redes sociais, no início de novembro, em que denunciava o que seria um plano em curso de Marjorie Taylor Greene contra a administração Trump.

"Trump disse que não, a Casa Branca e a Trumplândia deitaram por terra as ambições pessoais para concorrer ao Senado e ela tem andado a vingar-se desde aí."
Congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez

“Marjorie Taylor Greene queria concorrer ao Senado na Georgia. Ela queria concorrer ao Senado no início deste ano no estado da Georgia. Ela queria ser a candidata republicana. Ela estava a preparar-se para a corrida, mas Trump disse-lhe que não. Trump disse que não, a Casa Branca e a Trumplândia deitaram por terra as ambições pessoais para concorrer ao Senado e ela tem andado a vingar-se desde aí”, alegou a democrata.

A congressista da Georgia desmentiu estes rumores. No entanto, o Presidente norte-americano usou o argumento de Alexandria Ocasio-Cortez para alegadamente desmascarar Marjorie Taylor Greene. “Tudo começou quando lhe enviei uma sondagem a declarar que ela não devia concorrer a senadora, ou a governadora, que ela estava nos 12% e não tinha qualquer chance (a não ser, claro, se tivesse o meu apoio — algo que ela não ia ter). Ela disse a muitas pessoas que estava zangada porque eu não retribuía as suas chamadas, mas — com 219 congressistas, 53 senadores e 24 membros do governo e uma vida normal — não podia atender as chamadas de uma lunática delirante“, acusou Donald Trump.

“Ela virou-se para a esquerda radical, até esteve no The View [um programa da ABC News], com as suas apresentadoras que odeiam os republicanos e com pouco quociente de inteligência”, prosseguiu Donald Trump, que acusou a “desvairada Marjorie Traidora de trabalhar para se vender como uma vítima, quando, na verdade, ela é a causa de todos os seus próprios problemas”.

epa08919544 Republican US Representative from Georgia Marjorie Taylor Greene takes the podium in front of US President Donald J. Trump as he participates in an election eve campaign rally on behalf of Republican Georgia Senators Kelly Loeffler and David Perdue at Dalton Regional Airport in Dalton, Georgia, USA, 04 January 2021. Senator David Perdue is running Democrat Jon Ossoff and Republican Senator Kelly Loeffler is running against Reverend Raphael Warnock in the 05 January 2021 runoff election.  EPA/ERIK S. LESSER

▲ Donald Trump não poupou críticas à sua antiga aliada

ERIK S. LESSER/EPA

O Presidente não ficou sem resposta. A congressista da Georgia disse que Donald Trump “ficou irritado” com o facto de ela insistir que os ficheiros Epstein fossem divulgados. “Claro que ele me está a atacar com força para dar um exemplo e assustar os outros republicanos antes da votação para divulgar os ficheiros Epstein. É realmente impressionante o quanto ele se está a esforçar para impedir a divulgação dos documentos”, atirou.

“Apoiei o Presidente Trump com muito do meu tempo precioso, com muito do meu dinheiro, e lutei arduamente por ele, mesmo quando todos os outros republicanos lhe viraram as costas e o criticaram”, destacou Marjorie Taylor Greene, entrando ao ataque mesmo que isso tivesse contrariado algumas das suas declarações passadas: “Eu não venero ou sirvo Donald Trump. Eu venero Deus, Jesus é o meu Salvador e o meu distrito congressional e o povo norte-americano”. 

Esta troca de acusações nas redes sociais culminou com o anúncio de que Marjorie Taylor Greene vai abandonar as funções de congressista em janeiro de 2026, não se recandidatando para um segundo mandato. Mas sem antes tecer as críticas mais duras ao Presidente: “Se sou descartável pelo MAGA e sou substituída pelos neoconservadores, pelas grandes farmacêuticas, pelas grandes empresas de tecnologia, pelo complexo militar-industrial, pelos líderes estrangeiros e pelas elites de doadores que nem sequer consegue se identificar com os norte-americanos, então muitos norte-americanos comuns também foram descartados e substituídos”. 

O que tornou Marjorie Taylor Greene tão influente no Partido Republicano?

O estilo explosivo e controverso converteu Marjorie Taylor Greene numa das políticas mais mediáticas dos Estados Unidos da América. No livro Weapons of Mass Delusion, o jornalista do New York Times Robert Draper explicou que a congressista ganhou relevância “ao dominar a chamada ‘economia da atenção’ da internet”. Nas redes sociais, apresentava uma retórica explosiva, associada às teorias de conspiração do grupo QAnon — que alega, entre outras coisas, que existe uma rede global de pedófilos que governa o mundo.

É certo que o comportamento da congressista nas redes sociais gerava indignação, revolta e fazia com que se levantassem questões sobre a sua seriedade enquanto política; mas o retorno consistia em visualizações, engagement, likes e atenção mediática. Num duro golpe para esta estratégia, a conta do Twitter (que na altura ainda não era detido por Elon Musk) de Marjorie Taylor Greene chegou a ser suspensa em 2022 por violação das normas da comunidade, apesar de já ter sido reposta. A resposta de Greene? Era um sintoma de “uma revolução comunista” que estava em marcha nos Estados Unidos.

epa09488844 Republican congresswoman Marjorie Taylor Greene holds up a facemask at a Donald Trump rally sponsored by 'Save America' at the Georgia National Fairgrounds in Perry, Georgia, USA, 25 September 2021.  EPA/ELIJAH NOUVELAGE

▲ Marjorie Taylor Greene numa ação de campanha de Donald Trump a contestar o uso de máscaras durante a pandemia de Covid-19

ELIJAH NOUVELAGE/EPA

No rescaldo das eleições presidenciais de 2020, que o Partido Republicano perdeu, os Estados Unidos entraram em convulsão. Trump nunca aceitou a derrota e rodeou-se dos seus apoiantes mais aguerridos para o defenderem, enquanto os republicanos mais moderados tentavam em vão moderá-lo. Na linha da frente do combate do atual chefe de Estado contra as instituições democráticas norte-americanas, estava Marjorie Taylor Greene. “Eu amo-a. Não brinquem com ela”, chegou a dizer Donald Trump há cinco anos.

Não é de estranhar que Greene tenha ajudado a acicatar os ânimos que levaram à invasão do Capitólio em 2021. 24 horas antes, chegou a dizer numa entrevista que se aproximava o “momento 1776” para os apoiantes de Donald Trump, numa alusão ao ano em que os Estados Unidos declararam a independência do Reino Unido. A congressista terá mesmo pedido que o Presidente declarasse a lei marcial em mensagens privadas — o que evitaria a transferência de poder para Joe Biden.

Marjorie Taylor Greene nunca foi condenada, nem fez parte dos principais responsáveis pela invasão ao Capitólio. “Nunca apoiei violência de nenhum tipo”, garantiu. Mesmo assim, depois do sucedido, os restantes congressistas (mesmo os republicanos) olharam com muita desconfiança para a política da Georgia — que deixou de integrar várias comissões pelo seu comportamento radical e extremista.

Trump Supporters Hold "Stop The Steal" Rally In DC Amid Ratification Of Presidential Election

▲ A invasão do Capitólio

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A forma como defendeu Donald Trump após as presidenciais deram-lhe credibilidade e notoriedade na base eleitoral do movimento MAGA. Nos EUA governados por Joe Biden, a congressista manteve o mesmo estilo. E aproveitou o silêncio do agora Presidente após a invasão do Capitólio para ganhar ainda mais atenção mediática, extremando ainda mais as suas posições.

“Trump falava muito sobre os socialistas radicais, mas raramente usava a palavra ‘comunista’ para descrever os democratas. Taylor Greene não tinha essa timidez. Numa conferência de imprensa, chegou a dizer que acredita que havia membros ativos do Partido Comunista entre os democratas”, exemplificou Robert Draper.

A congressista da Georgia transformou-se no produto mais radical do trumpismo. Durante os anos da administração Biden, manteve a mesma intempestividade e lealdade ao então ex-Presidente, endossando muitas das suas ideias. À medida que os efeitos da pandemia de Covid-19 se iam desvanecendo, Marjorie Taylor Greene não abandonava o seu radicalismo em redor do tema, mas o assunto ia perdendo fulgor e atenção mediática — e ela precisava de encontrar outras bandeiras. Uma delas foi aquando da invasão russa da Ucrânia: a política foi acusada de partilhar propaganda russa, acusando a Ucrânia de ter “milícias nazis que torturavam pessoas inocentes”, numa posição que não era de todo popular entre os republicanos.

"Trump falava muito sobre os socialistas radicais, mas raramente usava a palavra 'comunista' para descrever os democratas. Taylor Greene não tinha essa timidez. Numa conferência de imprensa, chegou a dizer que acreditar que havia membros ativos do Partido Comunista entre os democratas."
Jornalista do New York Times, Robert Draper

Ao longo dos anos da administração Biden, Greene consolidou a sua fama de política antissistema e radical. Quando Donald Trump deu os primeiros sinais de que se ia candidatar em 2024, Marjorie Taylor Greene foi das que mais entusiasmo mostrou, estando ao lado do magnata. Quando o agora Presidente enfrentou uma vaga de processos judiciais, a política da Georgia foi um acérrima defensora, comparando-o com as figuras de Nelson Mandela e Jesus Cristo.

Participando ativamente na campanha das presidenciais de 2024, Marjorie Taylor Greene referia-se a Donald Trump como o “fundador do movimento America First” e o “líder que a América merece”. Quando venceu as eleições, disse que Trump fora “eleito Presidente pela terceira vez”, voltando à tese de que Joe Biden não ganhou as presidenciais de 2020.

A vitória em toda a linha de Donald Trump e dos republicanos — na presidência, Câmara dos Representantes, Senado e no voto popular — levou a que Marjorie Taylor Greene tivesse vivido um dos momentos mais felizes da sua carreira política. E deu-lhe uma dose de autoconfiança. Numa entrevista após as eleições, a congressista declarava que já não estava mais à “margem” da cena política norte-americana: ela configurava já o “mainstream“. “Atacaram-me tantas vezes, chamaram-me radical, extremista. Mas sabem qual é a mensagem? O povo norte-americano, os eleitores que votaram em Trump, são, na sua grande maioria, MTG [a sigla do seu nome]. A MTG não é nem radical, nem extremista. Ela é a América mainstream.”

epa12034124 Republican Representative from Georgia Marjorie Taylor Greene participates in her Cobb County Town Hall at the Acworth Community Center in Acworth, Georgia, USA, 15 April 2025.  EPA/ERIK S. LESSER
"Atacaram-me tantas vezes, chamaram-me radical, extremista. Mas sabem qual é a mensagem? O povo norte-americano, os eleitores que votaram em Trump, são, na sua grande maioria, MTG [a sigla do seu nome]. A MTG não é nem radical, nem extremista. Ela é a América mainstream."
Congressista da Georgia Marjorie Taylor Greene

“Nada mudou em mim.” Marjorie aponta baterias aos republicanos que “odeiam” Trump

Nos programas de televisão que a congressista vai participando, Marjorie Taylor Greene assegurou que não mudou. “Nada mudou em relação a mim. Eu mantenho-me 100% fiel às pessoas que votaram em mim e permaneço fiel ao meu distrito”, assinalou, confirmando que continua a “gostar de Donald Trump” e está-lhe “grata por haver fronteiras mais seguras”. “Ambos os partidos falharam” — este é o argumento que a congressista republicana tem apresentado.

No entanto, Marjorie Taylor Greene tem-se distanciado da sua retórica mais explosiva. Após tantas críticas aos democratas, tem procurado construir pontes com o Partido Democrata, uma ação inédita para alguém que sempre apostou num discurso marcado por uma forte polarização política. “Apenas posso falar por mim mesma, mas, como cristã, o perdão é uma grande parte da minha fé. Estou aqui para mostrar que é possível resolver as nossas diferenças e avançarmos como americanos”, realçou a congressista numa entrevista à CNN, explicando ser por esse motivo que está “disponível para ir a programas de televisão com pontos de vistas distintos”. “Acredito verdadeiramente no perdão”, vincou.

Até a postura da congressista mudou. Deixou de ser explosiva e de estar sempre ao ataque. O leque de críticas também se alongou: ainda recentemente, Marjorie Taylor Greene criticou o aumento de custo de vida nos Estados Unidos — algo que Donald Trump tem desmentido categoricamente. “Vou ao supermercado. [O preço] dos bens alimentares continua alto. Os preços da energia são elevados. As minhas contas da luz são elevadas”, lamentou.

A postura mais crítica de Marjorie Taylor Greene também se sobressaiu após a derrota do Partido Republicano nas eleições deste mês em vários pontos do país (como Nova Iorque). Outro nome próximo do trumpismo, Vivek Ramaswamy, também destacou que é necessário aprender várias lições na sequência do resultado eleitoral. “O nosso foco precisa de ser o custo de vida: tornar o sonho americano acessível e baixar os preços — na luz, na comida, na saúde, na habitação — e perceber como vamos fazer.”

epaselect epa11450403 US Congresswoman Marjorie Taylor-Green (L) with former White House chief strategist to President Donald J. Trump Steve Bannon (R) speak to the media as he reports to federal prison Danbury, Connecticut, USA, 01 July 2024. Bannon was found guilty of contempt of Congress in 2022 for his refusal to comply with a subpoena issued by the Select Committee to Investigate the January 6th Attack.  EPA/MICHELLE MCCOUGHLIN

▲ Marjorie Taylor Greene ao lado de Steve Bannon, um dos ideólogos do trumpismo

MICHELLE MCCOUGHLIN/EPA

Por tudo isto, poderá ser Marjorie Taylor Greene o primeiro (e não último) nome do movimento MAGA em virar-se contra Donald Trump? O sentimento da congressista é que já não se “relaciona” com o Partido Republicano, pelo menos não tanto como no passado. “Penso que o Partido Republicano virou as costas [à filosofia] America First, aos trabalhadores e aos norte-americanos normais”, afirmou.

Na sua nota de despedida, a política da Georgia diagnosticou que o Partido Republicano está controlado pelo sistema: “Eu lutei arduamente mais do que qualquer outro republicano para que Donald Trump fosse eleito. Ao mesmo tempo, a maioria dos republicanos do establishment, que secretamente odeiam [o Presidente] e lhe dão facadas nas costas, foram todos bem-recebidos após as eleições”.

Mas ainda não é claro se a fiel base eleitoral de Donald Trump vai acompanhar a congressista e se partilha o mesmo diagnóstico. No distrito congressional da Georgia que representa, Marjorie Taylor Greene ainda continua a ter apoiantes, mas o Presidente permanece popular. À NBC News, Angela Dollar, que trabalha para o Partido Republicano no condado de Floyd, no distrito por onde a congressista foi eleita, sintetizou o sentimento de muitos habitantes: “Algumas pessoas estão divididas. Algumas escolhem a equipa Marjorie, outros são da equipa Trump“. “Eu posso gostar de duas pessoas que não gostam uma da outra. A minha esperança é que se reconciliem”.

Nas redes sociais, o movimento MAGA está em constante mutação e é difícil, por agora, de antever quais serão as consequências da rutura desta congressista. Mas mesmo que o afastamento de Marjorie Taylor Greene nem resulte numa rebelião, a congressista, segundo o Politico, sempre foi encarada como uma “purista” do grupo — e pode servir de exemplo no futuro para apontar como Donald Trump se está a afastar da base eleitoral e a rodear-se das elites poderosas, um pecado capital para o Make America Great Again.

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▲ Marjorie Taylor Greene com um chapéu do Make America Great Again assinado por Donald Trump

Bloomberg via Getty Images

A mulher que entrou na política a sério no meio de uma pandemia e a defender intensamente o Presidente norte-americano mostrou que há espaço para a contestação dentro do MAGA, mas que há um preço a pagar: a ostracização por Donald Trump. Marjorie Taylor Greene tem assegurado ao mundo que não mudou e que se mantém fiel à sua ideologia de America First. Mas uma coisa é certa: o estilo explosivo e polarizador parece ter ficado no passado.

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