E o pleno ali tão perto. Governo em funções, maior partido no Parlamento, maioria das autarquias, liderança das regiões autónomas e agora, se tudo tivesse corrido como as sondagens pré-campanha indicavam, o PSD teria um Presidente em Belém. Luís Montenegro tinha chegado mesmo a avisar: com este cenário, se a AD não se mobilizasse em torno de Luís Marques Mendes isso seria “masoquismo político”. E, mesmo assim, o alerta não resultou. No final da noite eleitoral, Mendes saiu com um resultado pior do que as previsões mais dramáticas indicavam, a AD mostrou-se dividida e ficou um receio na cabeça dos sociais democratas: para o Governo, podem vir aí “tempos duros”.
A hora da derrota chegou rapidamente — pelas 20h, os sociais democratas já tinham percebido que a única dúvida que restava era verificar se Mendes ficava em quarto ou em quinto lugar, à frente ou atrás do almirante Gouveia e Melo — e sem deixar espaço a hesitações. Por isso, Mendes, que esperava pelos resultados numa sala do hotel lisboeta que se transformou em sede eleitoral, acompanhado pela família, não demorou a anunciar que faria uma declaração rápida e sem direito a perguntas dos jornalistas. Não havia muito mais para esperar ou analisar.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
E nessa declaração tinha duas mensagens principais a deixar, a mais importante dirigida ao Governo que o apoiou: “Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro e responsabilidade por este resultado — é minha, toda minha e apenas minha”, disse sobre os 11,3% de votos que conquistou e que o colocaram em quinto lugar, bem longe da segunda volta que a candidatura começara por assumir como certa. “Os portugueses escolheram e não me escolheram a mim”, reconheceu, assegurando que não guardaria “mágoa ou rancor” por isso.
Afastada a leitura de derrota para o Governo e para Luís Montenegro, que apareceu duas vezes na campanha, Mendes quis fazer a mesma opção, quanto à segunda volta, que o primeiro-ministro e presidente do PSD também fez: deixar claro que não apoiará nenhum dos dois candidatos que passam à segunda volta. “Não sou dono dos votos em mim depositados. Cada um decidirá de acordo com a sua liberdade e a sua consciência”.
Apesar de pelas 19 horas ter chegado, já cabisbaixo, respondendo aos jornalistas que lhe perguntavam se esperava a presença de Montenegro que não esperaria “coisíssima nenhuma”, acabaria mesmo por contar com ela — Montenegro, seguido de Hugo Soares, António Leitão Amaro e Paulo Rangel, deslocou-se mesmo ao hotel para “dar um abraço” ao candidato derrotado. A mulher, Carla Montenegro, já tinha de resto estado ali para ouvir o discurso de Mendes e cumprimentá-lo também.
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Mas a participação do PSD nestas presidenciais, anunciou Montenegro nas televisões, fica assim encerrada. Não faltam leituras nas fileiras sociais democratas sobre os efeitos da derrota do candidato que Montenegro e o Governo apoiaram, que contou com a ajuda do aparelho social-democrata e com mais de metade dos ministros em eventos de campanha: serão “tempos duros” para o Executivo, que terá agora um André Ventura ainda mais insuflado e a reclamar para si a “liderança da direita”, desafiando o Governo a todo o momento (e muito provavelmente desafiando-o a apoiar o candidato da direita contra o “socialismo”, nas semanas que se seguem).
Por isso, Montenegro quis reconhecer que o candidato que escolheu não teve a “adesão” esperada e tentar virar rapidamente a página: estas eleições passam a não ter nada a ver com o Governo e, oficialmente, com a AD — que valeu até ao momento pelo menos mais 1,3 milhões de votos nas legislativas do que Mendes nestas eleições. No Executivo aponta-se, de resto, para uma falta de adesão ao próprio candidato — sugerindo que Mendes não convenceu, e que a derrota não é um sintoma de fraqueza da AD como um todo.
Montenegro resumiu assim o novo cenário: Seguro, que representa o espaço à esquerda do PSD, e Ventura, que representa o espaço à direita, passam à segunda volta, pelo que o espaço do PSD “não estará representado”; logo, o PSD não se mete, não dá indicação de voto e, mais importante, passa imediatamente a focar-se na governação: “Aceito democraticamente não estar ativo e não participar nas três semanas de campanha eleitoral que vão agora decorrer.”
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O que não significa, como Montenegro sabe e admitiu, que o PSD não vá ser desafiado — muito provavelmente por Ventura — a pronunciar-se e a assumir uma posição. E o primeiro-ministro e líder do partido tentou desde já prevenir-se: “Não vale a pena andarem com jogos políticos. Aqueles que estão muito interessados em promover questões nas próximas três semanas não vão encontrar uma resposta diferente desta”.
Os votos do PSD, assumiu, “dividiram-se”, ao contrário do que aconteceu no Chega e à esquerda; os portugueses sabem “distinguir” as diferentes eleições, nomeadamente separando presidenciais e legislativas; e o PSD “foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos”. “O PSD estará a governar Portugal, as regiões autónomas, a maioria das câmaras municipais, no decurso de uma escolha legítima, livre, democrática dos portugueses”, recordou, tentando assim pôr um ponto final ao assunto e evitar uma contaminação da AD com este resultado de Mendes.
Entre sociais democratas não há grandes dúvidas: Ventura vai aproveitar para “andar em cima do Governo”, que não tinha uma opção pacífica, entre escolher dar apoio a um dos seus rivais políticos (PS ou Chega) nestas eleições. Se em legislativas Ventura já conseguiu ultrapassar o PS em número de deputados, fazendo o sistema político tremer, não restam grandes dúvidas de que o próximo objetivo será conquistar uma vitória que o coloque como líder da direita, reduzindo também o PSD a mínimos.
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As explicações: dos ataques do almirante à falta de Tik Tok
Na sede eleitoral de Mendes encontraram-se vários nomes da AD — além dos sociais democratas já mencionadas, juntou-se o ministro Manuel Castro Almeida ou o democrata-cristão Paulo Núncio, além do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas. Durante a campanha, o PSD oficial também se foi mobilizando, mas não foi o suficiente para que esse esforço se traduzisse nas urnas: os ministros iam aparecendo, Mendes ia adaptando o tom para se colar à AD sem desculpar em demasiado erros como os da Saúde, mas no final nada feito.
Na análise que se faz agora dos motivos que levaram à hecatombe de Mendes, apontam-se vários fatores, sendo que parece consensual que o início da derrota de Mendes começou antes mesmo do arranque da campanha oficial, no dia em que se sentou à frente do almirante para o debate a dois. Os ataques que Gouveia e Melo atirou contra Mendes nesse dia, e nos quais insistiria durante vários dias, classificando-o como “lobista e facilitador de negócios”, colocaram o social democrata numa posição defensiva e aconteceram entre o período em que Mendes era colocado nas sondagens como o preferido para vencer a corrida e o período em que começou a descer brutalmente, podendo assim interpretar-se que foram responsáveis por parte desse grande rombo.
E os primeiros sinais foram transmitidos pela tracking poll diária da TVI/CNN, que se tornou protagonista da campanha e que também é indicada como um fator que influenciou, pelo menos, o estado anímico da equipa e potencialmente dos eleitores da AD. Desde o arranque do período oficial da campanha, Mendes foi sempre colocado em quinto lugar, muito abaixo de qualquer previsão anterior — e só uma das sondagens posteriores, com métodos tidos como mais fiáveis ou com amostras maiores, chegou a indicar uma possibilidade de que Mendes pudesse chegar à segunda volta.
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Depois, aconteceu o maior medo da linha oficial do PSD: a AD mostrou-se mesmo partida, com um candidato que não era consensual dentro do partido, tendo cultivado várias inimizades ao longo da sua vida política, e outros elementos do PSD espalhados por outras candidaturas (Rui Rio era o mandatário nacional de Gouveia e Melo) ou num silêncio ensurdecedor (caso de Pedro Passos Coelho, que optou sempre por não se pronunciar, enquanto Mendes dizia que no fundo seria “impossível” que apoiasse um dos seus adversários). Até o PS “engoliu” a candidatura de Seguro, arqui-inimigo de António Costa, por ver Belém no horizonte — mas na AD não houve cola política que funcionasse.
Também já surgem análises sobre a forma como a campanha decorreu: uma campanha “à antiga”, com um candidato que faz política à antiga também, convocando os históricos do partido para a campanha, enquanto concorria com rivais que se mostravam energicamente contra as ideias da “velha política” e iam conquistando jovens através do Tik Tok.
Ventura e Cotrim iam correndo numa pista diferente, enquanto Mendes tentava alcançar esse segmento — aquele em que faz menos sucesso — com almoços nas cantinas de várias faculdades e conversas com dezenas ou estudantes, uma dimensão bem diferente da que o algoritmo proporciona. Mendes acabou por ser o candidato cuja campanha teve menor tração digital.
Há ainda quem admita que afinal a teoria de que os portugueses não gostam de pôr os “ovos todos no mesmo cesto” (ou melhor, dar o poder ao mesmo partido em todos os níveis de governação e poder) sempre venceu: afinal, a exceção foi Jorge Sampaio, eleito já o socialista António Guterres era primeiro-ministro, mas o cenário não é habitual. A AD não conseguiu alcançar o pleno. Resta saber se conseguirá governar com facilidade e sem contaminações após a grande derrota do seu candidato.
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