1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mendes perdeu em toda a linha e AD falhou o pleno. Agora tenta descontaminação para evitar "tempos duros"

Mendes perdeu mais do que nas piores previsões e AD lembra que teve mais votos em legislativas. Agora é fugir de Ventura, enquanto se admite que campanha à antiga e ataques do almirante não ajudaram.

E o pleno ali tão perto. Governo em funções, maior partido no Parlamento, maioria das autarquias, liderança das regiões autónomas e agora, se tudo tivesse corrido como as sondagens pré-campanha indicavam, o PSD teria um Presidente em Belém. Luís Montenegro tinha chegado mesmo a avisar: com este cenário, se a AD não se mobilizasse em torno de Luís Marques Mendes isso seria “masoquismo político”. E, mesmo assim, o alerta não resultou. No final da noite eleitoral, Mendes saiu com um resultado pior do que as previsões mais dramáticas indicavam, a AD mostrou-se dividida e ficou um receio na cabeça dos sociais democratas: para o Governo, podem vir aí “tempos duros”.

A hora da derrota chegou rapidamente — pelas 20h, os sociais democratas já tinham percebido que a única dúvida que restava era verificar se Mendes ficava em quarto ou em quinto lugar, à frente ou atrás do almirante Gouveia e Melo — e sem deixar espaço a hesitações. Por isso, Mendes, que esperava pelos resultados numa sala do hotel lisboeta que se transformou em sede eleitoral, acompanhado pela família, não demorou a anunciar que faria uma declaração rápida e sem direito a perguntas dos jornalistas. Não havia muito mais para esperar ou analisar.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E nessa declaração tinha duas mensagens principais a deixar, a mais importante dirigida ao Governo que o apoiou: “Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro e responsabilidade por este resultado — é minha, toda minha e apenas minha”, disse sobre os 11,3% de votos que conquistou e que o colocaram em quinto lugar, bem longe da segunda volta que a candidatura começara por assumir como certa. “Os portugueses escolheram e não me escolheram a mim”, reconheceu, assegurando que não guardaria “mágoa ou rancor” por isso.

Afastada a leitura de derrota para o Governo e para Luís Montenegro, que apareceu duas vezes na campanha, Mendes quis fazer a mesma opção, quanto à segunda volta, que o primeiro-ministro e presidente do PSD também fez: deixar claro que não apoiará nenhum dos dois candidatos que passam à segunda volta. “Não sou dono dos votos em mim depositados. Cada um decidirá de acordo com a sua liberdade e a sua consciência”.

Apesar de pelas 19 horas ter chegado, já cabisbaixo, respondendo aos jornalistas que lhe perguntavam se esperava a presença de Montenegro que não esperaria “coisíssima nenhuma”, acabaria mesmo por contar com ela — Montenegro, seguido de Hugo Soares, António Leitão Amaro e Paulo Rangel, deslocou-se mesmo ao hotel para “dar um abraço” ao candidato derrotado. A mulher, Carla Montenegro, já tinha de resto estado ali para ouvir o discurso de Mendes e cumprimentá-lo também.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas a participação do PSD nestas presidenciais, anunciou Montenegro nas televisões, fica assim encerrada. Não faltam leituras nas fileiras sociais democratas sobre os efeitos da derrota do candidato que Montenegro e o Governo apoiaram, que contou com a ajuda do aparelho social-democrata e com mais de metade dos ministros em eventos de campanha: serão “tempos duros” para o Executivo, que terá agora um André Ventura ainda mais insuflado e a reclamar para si a “liderança da direita”, desafiando o Governo a todo o momento (e muito provavelmente desafiando-o a apoiar o candidato da direita contra o “socialismo”, nas semanas que se seguem).

Por isso, Montenegro quis reconhecer que o candidato que escolheu não teve a “adesão” esperada e tentar virar rapidamente a página: estas eleições passam a não ter nada a ver com o Governo e, oficialmente, com a AD — que valeu até ao momento pelo menos mais 1,3 milhões de votos nas legislativas do que Mendes nestas eleições. No Executivo aponta-se, de resto, para uma falta de adesão ao próprio candidato — sugerindo que Mendes não convenceu, e que a derrota não é um sintoma de fraqueza da AD como um todo.

Montenegro resumiu assim o novo cenário: Seguro, que representa o espaço à esquerda do PSD, e Ventura, que representa o espaço à direita, passam à segunda volta, pelo que o espaço do PSD “não estará representado”; logo, o PSD não se mete, não dá indicação de voto e, mais importante, passa imediatamente a focar-se na governação: “Aceito democraticamente não estar ativo e não participar nas três semanas de campanha eleitoral que vão agora decorrer.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O que não significa, como Montenegro sabe e admitiu, que o PSD não vá ser desafiado — muito provavelmente por Ventura — a pronunciar-se e a assumir uma posição. E o primeiro-ministro e líder do partido tentou desde já prevenir-se: “Não vale a pena andarem com jogos políticos. Aqueles que estão muito interessados em promover questões nas próximas três semanas não vão encontrar uma resposta diferente desta”.

Os votos do PSD, assumiu, “dividiram-se”, ao contrário do que aconteceu no Chega e à esquerda; os portugueses sabem “distinguir” as diferentes eleições, nomeadamente separando presidenciais e legislativas; e o PSD “foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos”. “O PSD estará a governar Portugal, as regiões autónomas, a maioria das câmaras municipais, no decurso de uma escolha legítima, livre, democrática dos portugueses”, recordou, tentando assim pôr um ponto final ao assunto e evitar uma contaminação da AD com este resultado de Mendes.

Entre sociais democratas não há grandes dúvidas: Ventura vai aproveitar para “andar em cima do Governo”, que não tinha uma opção pacífica, entre escolher dar apoio a um dos seus rivais políticos (PS ou Chega) nestas eleições. Se em legislativas Ventura já conseguiu ultrapassar o PS em número de deputados, fazendo o sistema político tremer, não restam grandes dúvidas de que o próximo objetivo será conquistar uma vitória que o coloque como líder da direita, reduzindo também o PSD a mínimos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As explicações: dos ataques do almirante à falta de Tik Tok

Na sede eleitoral de Mendes encontraram-se vários nomes da AD — além dos sociais democratas já mencionadas, juntou-se o ministro Manuel Castro Almeida ou o democrata-cristão Paulo Núncio, além do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas. Durante a campanha, o PSD oficial também se foi mobilizando, mas não foi o suficiente para que esse esforço se traduzisse nas urnas: os ministros iam aparecendo, Mendes ia adaptando o tom para se colar à AD sem desculpar em demasiado erros como os da Saúde, mas no final nada feito.

Na análise que se faz agora dos motivos que levaram à hecatombe de Mendes, apontam-se vários fatores, sendo que parece consensual que o início da derrota de Mendes começou antes mesmo do arranque da campanha oficial, no dia em que se sentou à frente do almirante para o debate a dois. Os ataques que Gouveia e Melo atirou contra Mendes nesse dia, e nos quais insistiria durante vários dias, classificando-o como “lobista e facilitador de negócios”, colocaram o social democrata numa posição defensiva e aconteceram entre o período em que Mendes era colocado nas sondagens como o preferido para vencer a corrida e o período em que começou a descer brutalmente, podendo assim interpretar-se que foram responsáveis por parte desse grande rombo.

E os primeiros sinais foram transmitidos pela tracking poll diária da TVI/CNN, que se tornou protagonista da campanha e que também é indicada como um fator que influenciou, pelo menos, o estado anímico da equipa e potencialmente dos eleitores da AD. Desde o arranque do período oficial da campanha, Mendes foi sempre colocado em quinto lugar, muito abaixo de qualquer previsão anterior — e só uma das sondagens posteriores, com métodos tidos como mais fiáveis ou com amostras maiores, chegou a indicar uma possibilidade de que Mendes pudesse chegar à segunda volta.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Depois, aconteceu o maior medo da linha oficial do PSD: a AD mostrou-se mesmo partida, com um candidato que não era consensual dentro do partido, tendo cultivado várias inimizades ao longo da sua vida política, e outros elementos do PSD espalhados por outras candidaturas (Rui Rio era o mandatário nacional de Gouveia e Melo) ou num silêncio ensurdecedor (caso de Pedro Passos Coelho, que optou sempre por não se pronunciar, enquanto Mendes dizia que no fundo seria “impossível” que apoiasse um dos seus adversários). Até o PS “engoliu” a candidatura de Seguro, arqui-inimigo de António Costa, por ver Belém no horizonte — mas na AD não houve cola política que funcionasse.

Também já surgem análises sobre a forma como a campanha decorreu: uma campanha “à antiga”, com um candidato que faz política à antiga também, convocando os históricos do partido para a campanha, enquanto concorria com rivais que se mostravam energicamente contra as ideias da “velha política” e iam conquistando jovens através do Tik Tok.

Ventura e Cotrim iam correndo numa pista diferente, enquanto Mendes tentava alcançar esse segmento — aquele em que faz menos sucesso — com almoços nas cantinas de várias faculdades e conversas com dezenas ou estudantes, uma dimensão bem diferente da que o algoritmo proporciona. Mendes acabou por ser o candidato cuja campanha teve menor tração digital.

Há ainda quem admita que afinal a teoria de que os portugueses não gostam de pôr os “ovos todos no mesmo cesto” (ou melhor, dar o poder ao mesmo partido em todos os níveis de governação e poder) sempre venceu: afinal, a exceção foi Jorge Sampaio, eleito já o socialista António Guterres era primeiro-ministro, mas o cenário não é habitual. A AD não conseguiu alcançar o pleno. Resta saber se conseguirá governar com facilidade e sem contaminações após a grande derrota do seu candidato.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.