A vida pôs-lhe cedo o xaile sobre os ombros. Teresinha Landeiro (Azeitão, 1996) usa o termo “aberração” para descrever a menina de 12 anos com voz madura e afinada que colhia ternuras nas casas de fado lisboetas. “Era bastante elogiada, nem que fosse porque era pequenina.” Mas Teresinha, pese embora o diminutivo, sempre ambicionou outras alturas.
Arreigadamente fadista, reclamou o género como seu ao escrever as canções que lhe assentavam à medida onde os poemas não serviam. Aproximou-se do meio jazzístico, cresceu. “Há sempre uma leveza associada ao meu canto e à maneira como estou em palco”, diz ao Observador num dia de inverno, no fim da digressão de Para dançar e para chorar, um terceiro disco que denota maturidade na voz e outras inquietudes no pensamento: o receio de uma doença, o medo da solidão.
Aos 28 anos, percebeu também que o compromisso com o fado não saía beliscado se lhe juntasse outras vozes: Milhanas, Jorge Cruz, Maro, Beatriz Pessoa, Mário Laginha. Mais um exemplo dessa intenção de expandir horizontes e sonoridades: esta sexta-feira lança uma nova versão em dueto de Visita Inesperada, com o cantor e compositor brasileiro Jota.pê. O tema, que originalmente gravara para Para dançar e para chorar, antecipa a edição deluxe do mesmo disco, a 21 de fevereiro.
Em entrevista ao Observador, Teresinha Landeiro fala sobre a importância da palavra, o medo da solidão, a cultura do elogio, o machismo na indústria, e mudança no fado — e as possibilidades de inovação.
Partindo do título deste terceiro álbum – Para Dançar e Para Chorar (2024) — é mais fácil compor para a festa ou para a tristeza?
Tristeza. Ponto. É muito mais fácil falarmos sobre as coisas que nos magoam do que aquelas que nos fazem felizes. O feitio dos portugueses, no geral, é um bocadinho o de nos lamentarmos das coisas que correm mal. Raramente falamos das coisas que nos correm bem. Por isso é que as pessoas dizem que o fado é tão triste, porque o fado é sobre a vida e falamos das coisas que nos marcam na vida. Normalmente são sempre as tristezas: um amor que correu mal, um dia menos bom, um trabalho que não saiu como queríamos, os insucessos.
A felicidade não ajuda a criação artística?
Não quero dizer isso porque seria muito taxativo e muito triste também. Mas a verdade é que ando numa fase da vida em que tudo está muito estável e feliz e sinto que é muito mais difícil escrever do que quando estava numa relação em que tudo era complicado e destrutivo. Com a mágoa, parece que as canções te vêm mais facilmente. Quando escrevo para outras pessoas vêm-me pedir quase sempre dramas: “Escreve-me lá uma história de amor, mas daquelas!”. Quando me dizem “daquelas”, já sei que é daquelas de cortar os pulsos. Tem sido difícil cumprir às vezes esses requisitos porque não estou nessa fase, não me sinto assim. Ter que chegar a sentimentos que não se coadunam com o que sinto agora é mais difícil.
Havia uma certa leveza e jovialidade que lhe era apontada que agora contrasta com muitos dos temas deste disco. Penso na canção O que somos? (Fado da Memória), que alude à perda de memória. O que a levou a escrever temas como este?
Acho que mesmo quando canto coisas pesadas tenho sempre uma leveza associada a mim, nem que seja pela imagem que tenho, por ter um ar mais de miúda. Há sempre uma leveza associada ao meu canto e à maneira como estou em palco. No entanto, há uns assuntos um bocadinho mais sérios que me agarram e me prendem desde muito nova. Este é um deles. O Alzheimer é talvez das doenças que acho mais assustadoras.
Andava de volta desse assunto porque tinha uma amiga da minha mãe que tinha uma mãe que estava a passar por essa situação. É ver toda uma história a definhar, toda uma pessoa a desaparecer aos poucos. Pensei que era um assunto interessante para refletir. Além disso, escrevi há tempos um tema sobre um quadro de um pintor que é o Alfredo Luz, A Lei da Recompensa, com o Salvador Sobral. O próprio Alfredo tem um quadro que se chama A Memória. Também esse quadro me levou a algumas questões e talvez me tenha levado a escrever este tema também. Foram coisas que foram acontecendo naturalmente.
Outro dos temas deste disco versa sobre o medo (“Se é o medo, deixa que seja”, canta em Visita Inesperada). Do que tem medo?
Tenho muito medo da solidão. Odeio estar sozinha. Não fui nada feita para estar sozinha. Quando era miúda os meus pais saiam de casa para ir jantar com os amigos e eu, que já tinha idade para ter juízo, odiava ficar sozinha, implorava ao meu irmão, que é mais velho que eu, para não ir sair com os amigos e para ficar comigo. Ou implorava às minhas amigas para ir para a casa delas. Depois, mais tarde, vim morar para Lisboa e vim sozinha. Foram tempos um bocadinho difíceis. Qualquer coisa que me acontecia em casa comentava para o lado e não estava lá ninguém, era uma tristeza gigante, um sentimento descontrolado. Naquela altura refugiava-me muito nos fados… A solidão é talvez a coisa que me dá mais medo, sim. E o futuro, o futuro também é uma coisa que me assusta bastante. Consumo-me muito a pensar no que é que vai acontecer. E se não conseguir fazer isto? E se alguma coisa corre mal? Acho que talvez seja isso: o incerto, o futuro, a solidão. Coisas que acho que, de alguma maneira, se entrelaçam umas com as outras.
▲ A jovem cantou pela primeira vez em público aos 12 anos na casa de fados Bacalhau de Molho, hoje Casa de Linhares. Desde os 16 anos canta na Mesa de Frades, casa de fados do músico Pedro de Castro
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Sobre esse refúgio no fado, disse em entrevistas que a aprendizagem nos fados foi “muito dura, muito rígida”, e que começou “muito nova numa ‘escola’ em que não há grande pudor em dizer aquilo que se pensa e em que ainda há muito pouco elogio”.
Totalmente verdade. Frequentei uma coletividade em Chelas e foi lá que comecei a tirar os tons e a aprender o que era fado e o que eram os fados tradicionais, mas só mais tarde, quando começo a ir às casas de fado, é que começo realmente a perceber como é que as coisas funcionam. É quando chego à Mesa de Frades [casa de fados em Alfama] que me cruzo realmente com fadistas e músicos de outra geração que aprenderam de forma dura e por isso ensinam de uma forma um bocadinho mais dura. Não é duro no sentido de ser uma coisa agressiva, mas é uma coisa exigente, põe à prova, faz questionar e de haver pouco elogio. Quando és nova precisas de um elogio para sentir que há uma aprovação. Às vezes faltava um bocadinho isso… Mas o público elogiava.
Mas não havia uma cultura do elogio entre pares.
Não havia essa cultura. Pelo menos naquele momento e com aquelas pessoas. Não quer dizer que outras pessoas não tenham tido uma experiência ligeiramente diferente. Mas quando havia um elogio tinha um impacto gigante e era extremamente motivador. Ou seja, acho que o elogio em excesso também pode ser prejudicial no sentido em que faz com que se trabalhe menos.
Pode deslumbrar um artista?
Acho que sim. Ainda por cima era miúda, quando comecei com 12 anos toda a gente achava graça. Era uma miúda pequenina que cantava fado. A minha voz não batia muito certo com a minha imagem, parecia uma voz mais madura do que a idade que tinha. Era bastante elogiada naquela altura, nem que fosse porque era pequenina. Depois passei por uma fase em que já não parecia tão miúda e então a distância entre a minha imagem e a minha voz já não era tão grande, tão impactante. Foi frustrante porque estava à espera de causar sempre impacto e, de repente, houve uma altura em que não causava tanto. Portanto, até foi bom não ter tido tantos elogios. Ajudou-me a lidar com aquela fase em que já não era tão especial. Já não era tão diferente. Porque realmente é uma “aberração” uma miúda de 12 anos a cantar fado, que as pessoas consideravam que cantava bem, que soava afinada. Não ter tido tantos elogios ajudou a sarar algumas feridas e a colmatar algumas faltas que possam ter existido ao longo do meu percurso.
Esta geração de fadistas e cantores é diferente? Do que se observa através das redes sociais parece relativamente comum o elogio público entre artistas. Hoje há uma cultura de elogio maior entre pares?
Muito mais, muito mais. E começa a haver uma partilha muito maior entre estilos musicais. Ou seja, não só o fado existe dentro dele, mas também existe junto com a pop e com o jazz. Vamo-nos todos ligando uns com os outros. Há uma partilha importante e essencial para o crescimento. Perguntam-me muito se acho saudável a fusão e mistura e acho que sim. Mas acho muito importante também chamarmos as coisas pelos nomes para que nunca se perca a essência nem do que é fado nem do que é jazz. A pop acaba por ser mais abrangente e ter mais espaço para mais coisas, mas o fado é uma coisa que tem uma linguagem. Acho importante as junções e as fusões para crescermos, mas também acho importante sabermos às tantas dizer: OK, mas isto já não é fado, isto é uma coisa diferente que tenho vontade de fazer, sou livre e faço o que quiser, mas deixava bastante explícito isso.
Há uns meses, a cantora Mariza dava uma entrevista à Rádio Renascença em que rejeitava o título de fadista. Por oposição, a Teresinha faz questão de se assumir como tal. O que é, para si, ser fadista?
Primeiro, escolhi ser fadista, não quer dizer que não possa ser outras coisas, mas gosto mesmo de fado. Quando canto fado é quando me sinto mais concretizada. Adoro cantar outras coisas, mas quando chega ao momento do concerto em que vou cantar um fado tradicional e que ainda por cima aquela letra me diz alguma coisa muito específica, isso é muito impactante para mim. Quando chego a uma casa de fados ao fim de não sei quanto tempo da ausência e volto é como voltar a casa. É uma sensação de alívio, de respirar fundo e de sentir que pertenço ali. É muito bom pertencer a algum lado e saber que a nossa história passa por ali. Mas também é muito importante saber que há espaço para fazer outras coisas. Sinto sempre que tenho uma missão, acho que acontece com quase todos os fadistas… Já que gosto tanto do fado, quero tentar levá-lo na sua essência mais longe. Não quer dizer que às vezes não faça outras coisas, até porque o meu disco está cheio de coisas que não são fado…
E de convidados: Maro, Mário Laginha, Milhanas, Jorge Cruz, Beatriz Pessoa. E cruza outros géneros musicais…
E se calhar qualquer dia dar-me na cabeça fazer um disco de outra coisa qualquer! E chamar um grupo de mariachis e fazer um disco! Estou a brincar, mas não quer dizer que não vá fazer uma coisa um dia diferente. Mas sempre que for fado vou ter necessidade e vontade de dizer: isto é fado.
Este disco é fado?
Não é fado. Também é fado, mas não é só fado. Claro que uma pessoa que não esteja tão por dentro da linguagem ou que não seja do meio vai ouvir e vai dizer: está tonta, claro que isto é um disco de fado.
Até porque não deixa de ser um álbum feito com uma formação clássica de fado.
Sim, a base é de fado: uma guitarra portuguesa, uma viola e um baixo. E a forma como canto transporta-nos naturalmente para o fado. Eu que sou do fado e que conheço a linguagem sei que não é uma linguagem fadista, mas também sei que o fado de hoje também caminha um bocadinho para isto: para novas letras, para novas temáticas, para novas sonoridades. Acho maravilhoso juntar-se uma bateria, um saxofone, um piano. Não quer dizer que não o faça, mas sempre que o fizer vou tentar salvaguardar e dizer: isto é outra coisa. Está tudo certo, é possível, mas fado-fado, não é isto. Acho isto importante porque é uma coisa que é muito nossa, que nos define, que é oral e não está escrito, não se aprende na escola. E que qualquer dia… pode desaparecer.
▲ Em 2018, Teresinha Landeiro estreou-se nos discos com “Namoro”. Em 2021, regressou com “Agora”. Em 2024 editou “Para Cantar e Chorar”
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O que pode uma fadista fazer para que o fado não desapareça?
Acho que é isto. Ser sincera, ser honesta consigo e com os outros. Não tem mal nenhum ter vontade de fazer outras coisas. Só não acho justo vender gato por lebre. Está tudo certo em fazer outras coisas. Tenho vontade de fazer outras coisas, irei fazer certamente. Não quero acreditar que ao longo de 30 anos de carreira não vá fazer. Agora, sei que aprendi com fadistas e que ouvi muitos fadistas falarem orgulhosamente daquilo que é fado. E aquilo que é fado hoje, para mim, se o dissesse a uma pessoa de há 50 anos não estávamos de acordo. Porque as coisas já mudaram.
Hoje os maiores fadistas não vivem nas casas de fado, têm um tipo de carreira que ambiciona os grandes palcos. O papel de um fadista em 2025 também é outro?
Completamente diferente. A popularidade do fado no mundo e em Portugal também é outra. O fado passou por momentos na história super negros. Houve uma altura em que não era ouvido e que era associado a coisas muito complicadas e muito más: a coisas políticas, a prostituição, a bares de alterne. Dizia-se que as fadistas alternavam. O fado foi associado a tudo isso. Hoje em dia não tem rigorosamente nada a ver com isso. O fado é uma música que representa muito bem Portugal cá e lá fora, e que tem uma procura gigante por parte estrangeiros e de pessoas que desejam conhecer o fado. E há uma coisa muito engraçada que é: quanto mais puro é o fado que se leva lá para fora mais impacto ele tem. Tem mais impacto quando é mais diferente daquilo que as outras pessoas estão à espera. Uma bateria o mundo inteiro conhece, uma guitarra portuguesa não. Quando levamos o fado da sua essência mais pura e mais crua é quando sinto que lá fora é mais aceite.
Há um lado nacionalista no fado?
Acho que sim. As pessoas às vezes dizem com algum desgosto e amargura que os fadistas são tradicionalistas. Não vejo isto com amargura, vejo isto com: há uma linguagem e uma identidade que se tenta preservar. Mas os fadistas são os primeiros a fazer outras coisas e misturarem-se com outras coisas. Agora, é claro que se ainda por cima é uma coisa que é património nacional imaterial da Humanidade tentamos preservá-la ao máximo para que se mantenha património e para que seja uma coisa específica daqui. Para que quando se ouça fado se saiba que é fado e não outra coisa. Como quando se ouve flamenco. É flamenco, ponto. E outros estilos musicais que também são património. Mas, como disse, fazer outras coisas é super válido. Não me torno menos fadista por isso. No dia em que cantar fados vou ser fadista, ponto final.
Em entrevistas anteriores fala da escrita como algo que surgiu como uma defesa porque a maior parte das letras de fados eram demasiado adultas para a idade que tinha quando começou a cantar, aos 12 anos. Agora que é adulta escreve porquê?
Escrevo porque foi uma paixão que descobri. Cantar é uma paixão muito grande e a escrita vem logo, logo a seguir. Acho que já não existe a Teresinha fadista sem a Teresinha que escreve. Isso já não é possível. Não há nada mais libertador do que cantar as minhas letras, no sentido em que escolhi especificamente aquela temática. Estou a cantar exatamente a temática que quero cantar, com as palavras que quero dizer da maneira que quero contar. Isso, para mim, é muito libertador. Interpretar é muito incrível, mas mais incrível ainda é interpretar a história exata que queremos. Claro que também é muito giro pegar numa letra de outra pessoa e dar-lhe vida, que foi o que aconteceu neste disco. É um desafio enorme. Até agora tinha escolhido sempre temas que me acompanhavam desde miúda, letras minhas, eram temáticas que escolhia. De repente, quando peço uma letra a outra pessoa e não especifico, digo que quero só um tema que seja para dançar ou para chorar, vem de lá qualquer coisa e vou ter que me identificar… ou não.
Isso aconteceu?
Sim, aconteceu não me identificar com algumas letras que recebi dos compositores e não ter gravado. São pessoas maravilhosas, mas se calhar aquela temática naquela altura não me dizia tanto. É um desafio muito grande ter que cantar aquilo que a outra pessoa achou que eu iria cantar. Portanto, a escrita para mim é muito libertadora nesse sentido, em que posso dizer exatamente aquilo que quero.
A liberdade em poder dizer “duas vezes mais de seguida no Instagram” por cima de uma guitarra portuguesa?
Totalmente. Mas acho que essa é que é a real maneira de inovar no que quer que seja.
Na linguagem?
Nas palavras. Porque a questão é: no fado estamos sempre a argumentar que a palavra é a coisa mais importante. Isto é uma coisa que é dita. Quando se entra no fado a primeira coisa que dizem é: a palavra é o que mais importa, muito mais do que uma melodia. Dizer bem as palavras, não acentuar mal as palavras, que acontece um bocadinho, às vezes, noutros estilos musicais, em que a palavra não é o mais importante e a melodia sobrepõe-se. Ter palavras mal partidas ou mal divididas no fado é impensável. Não se pode porque supostamente o poema é a coisa mais importante. Conclusão: se a palavra é o que é mais importante, o que é mais importante fazer? Se calhar atualizarem as palavras. Não vou andar a falar de varinas porque hoje em dia se falar com uma menina de 12 ou 13 anos nenhuma sabe o que é que é uma varina, ou um ardina.
Importa-lhe mais isso do que alguém erguer o sobrolho quando ouve a palavra Instagram numa canção?
Por acaso isso é uma coisa que me aflige mesmo muito pouco. Aflige-me muito mais outras coisas.
Como o quê?
Vender uma coisa que não é fado como fado e dizer: isto para mim agora é que é fado. Isso para mim é que já é uma ousadia. Agora, acredito piamente nisto: o que faz o fado não morrer é usar textos e palavras do dia-a-dia. Se estás a cantar uma coisa sobre ardinas e varinas ninguém vai entender a história porque isso já não é real.
E o fado é sobre a vida real, como diz.
Exatamente. Essa é a magia: ter uma melodia, uma música que tem 50 anos, com palavras de hoje. Conclusão: estamos a fazer perdurar no tempo uma melodia que foi feita por uma pessoa que ainda acreditava em ardinas e varinas e estamos a pôr uma letra que fala de Instagrams e de tuk tuk e outras coisas que fazem parte da vida.
Neste disco há algumas letras que podem ser lidas como evocando um certo empoderamento feminino, que foge de alguma forma como a mulher tem sido historicamente representada no fado mais tradicional: sofredora, cingida a determinados papéis. Urge repensar o lugar da mulher no fado?
Acho que já está a ser repensada. Essas letras existiam porque muitas das fadistas não tinham autorização dos maridos para cantar, o fado via as mulheres assim. Era um sítio nada bem visto, os homens podiam tocar, mas as mulheres não podiam cantar. Isso é uma realidade em quase tudo aquilo que envolvia ambientes noturnos, bares e restaurantes que funcionassem depois da meia noite. Uma mulher não podia ir sozinha, tinham que ir acompanhadas de um homem. Imagina o que é que era uma mulher ir sem o marido e cantar para não sei quantos homens. Os donos das casas de fado tinham um bocadinho aquela coisa do alternar, do “vai lá entreter um bocadinho aquele cliente e vê se ele consome mais três ou quatro garrafas de whisky”. É uma coisa um bocadinho negra e triste na história do fado. Há histórias de várias fadistas que deixaram de cantar porque os maridos não permitiam. Enquanto eles estavam presentes era permitido, se eles não tivessem, não era permitido. Claro que acho que os tempos mudaram. O que seria um marido meu ou um namorado meu dizer “tu agora não cantas”. Era o que mais faltava! Se os meus pais me incentivaram a vida toda para que eu fosse aquilo que quisesse, o que seria alguém chegar e dizer que não. Naturalmente que a nova geração é uma geração que acha que aquelas letras não fazem qualquer sentido. Tanto que neste disco gravo, por exemplo, esta letra da Maré de Sorte, que para mim é uma emancipação de uma mulher que diz: estou muito melhor assim. Uma mulher ou um homem, porque isto serve para qualquer pessoa. Há um outro tema que acho maravilhoso, que se chama Vê lá São João e que curiosamente foi celebrizado por uma fadista que hoje em dia teria cento e poucos anos, a Celeste Rodrigues. Quando gravou podia ter tido pudor em dizer que não quer um homem que a engane, que o manda de volta. Não era uma coisa que fosse comum nos anos 60 ou 70. Acho giro pegar neste tema e lembro sempre nos meus concertos que foi celebrizado por uma fadista que hoje em dia teria cento e poucos anos. É muito impactante isto. Como é que ela teve a ousadia e a coragem de dizer isto porque na altura não era isso que se cantava. É dar força àquelas que naquele tempo já tinham essa ousadia e coragem.
Há cada vez mais mulheres — e não necessariamente fadistas — a escrever para o fado. É diferente para quem o canta? O género é uma questão?
Boa pergunta. Não sei. Tento que isso não seja uma realidade. Neste caso [deste disco] não foi. Nenhuma das minhas letras trata um tema que fosse fraturante… Quer dizer, mentira, por exemplo, o [tema] da Rita Dias, Eu Vou Dançar, tem várias críticas às coisas que se passam hoje em dia na nossa sociedade, várias dúvidas que os jovens, os artistas têm, questões das mulheres, como sobre um dia ser mãe… Mas gosto de acreditar que a arte não tem muito essa questão de ser homem ou mulher a fazê-la. Gostava de acreditar, talvez seja um bocadinho utópico, mas que na arte teríamos mais ou menos todas as mesmas oportunidades e condições. Hoje em dia fala-se que os festivais de música têm, por exemplo, cabeças de cartaz masculinos, mas no fado foi sempre ao contrário. No fado as mulheres é que cantavam e as mulheres é que chegaram sempre mais longe. O fado sempre foi muito mais associado às vozes femininas. Portanto, no nosso caso não há nada essa coisa de sentir que os homens têm mais sucesso que as mulheres. Não é uma realidade. Mas há uma coisa: as mulheres iam na frente, mas por trás havia sempre algum homem a tomar um bocadinho as rédeas. Os músicos são sempre homens, os produtores eram homens. Os poetas maioritariamente são homens.
A emancipação da fadista Ana Moura — que em 2022 largou management, editora e toda a equipa que vinha trabalhando consigo — também não aconteceu sem críticas…
Sim, de pegar ela as rédeas. Mas, se pensarmos bem, acho que isso está a acontecer com quase todas as fadistas, na verdade. Não me posso alongar muito esse tema porque não me diz muito respeito, mas acho que é importante. As fadistas não eram tão vistas enquanto artistas de sucesso, enquanto empresárias. Havia sempre alguém que comandava um bocadinho. Historicamente era assim. Havia sempre os produtores. Isso acontece em todos os estilos musicais, mas na pop vejo mais miúdas a emanciparem-se a tomarem as rédeas do seu trabalho. Começo a ver também no fado que isso agora começa a acontecer.
Para si é uma questão de tempo?
Acho que sim. Há assuntos que têm sido falados. Vamos lá ver, acho que é muito difícil uma pessoa com 28 anos falar sobre este assunto porque para mim nunca houve esta questão de não ter as mesmas oportunidades do que um homem. Não posso dizer que isso seja real ou que sinta isso porque se calhar venho de um meio que… Não é privilegiado, mas que é um meio onde não passei dificuldades, não passei por esse tipo de questões. Acho que isso se sente muitas das vezes em meios se calhar um bocadinho menos…
Favorecidos?
Favorecidos e também em gerações um bocadinho mais velhas. Na verdade, já sou de uma geração em que há muita mudança, onde já se fala muito abertamente que os ordenados têm que ser iguais, as mulheres têm que ter as mesmas oportunidades. Depois, cresci numa família em que a minha mãe sempre trabalhou, portanto isso não é uma questão. A minha avó também sempre trabalhou, casou-se com o meu avô já quase com 40 anos, foi mãe aos 42 anos. Portanto, é uma família não muito típica no que seria aquela era mais conservadora. A minha avó ficou viúva, já tinha uma filha com vinte e tal anos quando teve a segunda. Na minha casa sempre houve exemplos de mulheres guerreiras que trabalhavam e que não precisavam dos homens para as sustentar. A minha avó antes de conhecer o meu avô já vivia sozinha e tomava conta da filha dela. Geracionalmente eu já tinha bons exemplos. Na minha geração já não se sente tanto, ainda se sentem muitas coisas, mas não é gritante. Não é gritante como era há 50 anos. Sinto que o fado também já tem essa renovação.
Começou a cantar muito nova no circuito das casas de fado, à noite, em particular na Mesa de Frades, uma referência nas casas de fado lisboetas. Como é que foi crescer nesse ambiente?
A minha experiência foi muito boa até porque os meus pais não permitiram que não fosse boa. Os meus pais estiveram presentes em todas as noites. Não houve uma noite até aos 17 anos em que os meus pais não estivessem presentes. Vinham comigo de Azeitão, às sextas e aos sábados para ir aos fados. Ou seja, com os meus pais sempre por perto, as pessoas inibem-se muito mais de dizer alguma coisa, de ser desagradáveis, até de algum assédio que pudesse existir. Não que alguma vez tivesse visto ou presenciado, mas acho que os pais presentes fazem uma barreira. E essa barreira faz com que tu fiques numa bolha de proteção e que as pessoas tenham algum prurido em abordar. Passei por isto de uma forma muito protegida porque os meus pais não quiseram sequer correr o risco. É um ambiente em que tudo termina tarde, onde há copos, a malta bebe, de certeza que também haverá drogas, porque a noite está associada a este tipo de comportamentos… Os meus pais acharam que não era um ambiente para uma miúda de 15 anos estar sozinha. E é curioso porque os meus pais sempre me deixaram sair à noite. Mas a minha mãe dizia: uma coisa é saíres à noite com pessoas que pensam da mesma maneira que tu, que têm a mesma inocência que tu, que os erros que vão fazer são da dimensão dos que tu farias. Deixar-te com pessoas que têm mais 20 anos… A sabedoria tem mais 20 anos e os disparates têm mais 20 anos. A minha mãe dizia-me isto e fazia muito sentido. Sabia o que ela queria dizer e nem nunca fiz guerra em relação a isso.
Nunca se sentiu desconfortável numa casa de fados?
Nunca. Nunca na vida.
▲ "As pessoas às vezes dizem com algum desgosto e amargura que os fadistas são tradicionalistas. Não vejo isto com amargura. Há uma linguagem e uma identidade que se tenta preservar", diz a fadista
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Nos últimos meses o mundo do jazz foi tomado por denúncias de assédio. Sendo um meio que lhe é próximo, como observa estas denúncias? É um silêncio que tarda em quebrar-se ou foi surpreendida?
É um assunto essencial. Venho de uma geração em que há uma liberdade maior e igualdade em muitos pontos, mas ainda há muito trabalho que tem de ser feito e este é um deles. Falava disso há pouco com um amigo e dizia-lhe que se eu falar com um grupo de amigas, 10, oito receberam mensagens de rapazes a meter conversa e algumas mais chatas ou desagradáveis. Às vezes não tem mal nenhum, é só um rapaz a mandar o barro à parede a ver se acontece. Mas ele respondeu-me: sabes que isso a nós [rapazes] não acontece. E eu pergunto: porque é que nós temos de ser assediadas? Nem ter de ser assediadas, mas há sempre uma laracha, uma mensagem. Tem que haver uma forma de nos metermos com outra pessoa de uma forma respeitosa, percebendo qual é o limite da outra pessoa. Uma coisa é dizer “olá” e perceber qual é a recetividade. Outra coisa é chatear todos os dias aquela pessoa até ela responder. Isso já não é OK. E tem de se aprender o limite das coisas. Há coisas que são realmente graves e que não são aceitáveis, não podem acontecer. Seja a pessoa um artista, um advogado, não é possível as pessoas fazerem-se valer do poder que têm sobre outra pessoa. Agora, se isso acontece só na música? Não, acontece em qualquer emprego em que haja uma soberania de alguém sobre alguém. Só que é muito mais mediático falar disto na música porque estamos a falar de pessoas que são conhecidas e porque os artistas se unem mais para fazer as coisas andar para a frente. É por isso que vai ter uma repercussão muito maior. Acho essencial as mulheres unirem-se neste tipo de assuntos e temáticas.
O primeiro caso que veio a público pode ser um ponto de partida para uma discussão maior sobre assédio sistémico em alguns meios? A música é um meio propício ao assédio?
É propício porque ainda está muito associado… Tenho medo de ser injusta, mas os lugares de chefia na música ainda estão muito associados aos homens: os managers, nas editoras. Ainda há muitos homens a fazer parte de quem comanda ou quem ajuda a fazer acontecer. Não quer dizer com isso que são essas pessoas que vão fazer mal às artistas, mas é um meio que vive muito à noite, de um ambiente em que as vezes se podem perder os limites e confundir as coisas.
A tal caixa de Pandora que se abriu no jazz pode chegar ao fado?
Sim. Acho que vai chegar a todo o lado: ao jazz, ao fado, à pop. Vão começar a chegar várias acusações e a descobrir várias coisas que eram normalizadas. Vai acontecer em todos os estilos musicais. Acontece em todo o lado e não só na música, na indústria da televisão, noutras indústrias. Só que há dificuldade em falar porque se põem em causa pessoas que podem estar acima de nós. Há um machismo estrutural que ainda existe e que ainda tem muita força sobre as mulheres. Porque senão recebíamos todos o mesmo para desempenhar o mesmo papel e não é verdade. São reflexos de coisas que vão continuar a existir se não se falar. Ter aberto agora esta caixa de Pandora, como se diz, é essencial para mudar muita coisa. Quero acreditar que vai acontecer alguma coisa. Aliás, acho que isto é indício de que tem de mudar alguma coisa. Nem que seja termos a coragem de falar. Dei comigo a fazer uma retrospetiva e a pensar: será que em algum momento ao longo destes anos me senti mal com alguma coisa? Será que houve alguma coisa que pus debaixo do tapete?
E pôs?
Não. Cheguei à conclusão que tive sorte. Volto a dizer, talvez pela presença dos meus pais. Mas acredito que as coisas vão mudar, que muita coisa vai vir ao de cima. Estamos cá para ver.