Mentes Brilhantes

12 Outubro 2018120

Ansiedade, aprender, digital, futuro, humano, liberdade, máquinas, paixão, PinkFloyd, PlayStation, poesia, propósito, resiliência. São palavras-chave deste artigo “científico” sobre ensino e educação.

Em tempo de bye-bye summer, nada melhor do que reunir os amigos para uma tertúlia animada e inspiradora ao fim da tarde. Foi este o ambiente que encontrámos na “Conversa Solta” dedicada ao tema Mais Ensino, que teve lugar no auditório do Banco Santander, em Lisboa.

Guiado pela jornalista Laurinda Alves, o encontro juntou Daniel Traça, Diretor da Nova School of Business & Economics e do novo Campus de Carcavelos; José Pedro Cobra Ferreira, advogado na Teixeira Duarte, humorista e voluntário; Afonso Mendonça Reis, criador de Inspira o Teu Professor e responsável pelo Global Teacher Prize, em Portugal; e Marcos Soares Ribeiro, Coordenador do Santander Universidades.

Num registo simples e informal, os convidados envolveram a audiência no local, e online através das redes sociais, atraindo interpelações do público presente no evento sobre o futuro da educação –  que pode ver aqui -, enquadrado na iniciativa Mais Fortes a Observar.

Vantagem humana

Ensinar menos, aprender mais. A ideia resume a urgência na adoção de uma abordagem nova e diferente, apostando numa lógica mais centrada na aprendizagem do que no ensino, ponto de partida da reflexão de Daniel Traça, que defende uma mudança de paradigma na forma como os alunos aprendem.

O ensino é um tema que está sempre sob escrutínio, com análises muito focadas em quem está a ensinar, mas, de facto, “a primeira mudança tem de ser no aprender, porque nós vamos aprender de muitas formas diferentes no futuro,” referiu o diretor da Nova SBE.

Com o mundo a mudar a um ritmo cada vez mais veloz, vamos ter de adquirir competências novas para progredir num mundo em mudança. O professor elencou as grandes tendências que vamos ter de acompanhar, como a internacionalização. Aprender a estar num contexto internacional, tendo constantes experiências de interacção com pessoas de outras culturas. “É fundamental desenvolver nos jovens, desde tenra idade, a capacidade de perceber o que é a diferença de culturas.”

É necessário investir na consciência de si e do outro, percebendo desde cedo que existe uma relação causa/efeito nas relações interpessoais. Isto passa por “aprender a pensar na forma como aquilo que eu faço tem impacto na vida das pessoas à minha volta”. Trata-se de uma lógica de cidadania, de responsabilidade pelas escolhas que fazemos quando assumimos um determinado comportamento, em qualquer contexto: pessoal, social ou profissional.

Em suma, as competências em termos de cultura e de internacionalização, assim como a lógica de reconhecimento do impacto interpessoal, não podem ser ensinadas. Ambas dizem respeito ao domínio da experiência, e esta não se pode transmitir, apenas pode ser vivida.

"É fundamental desenvolver nos jovens, desde tenra idade, a capacidade de perceber o que é a diferença de culturas."
Daniel Traça, diretor da Nova School of Business & Economics e do novo Campus de Carcavelos

A maior de todas as disrupções é o processo de digitalização, e, neste sentido, torna-se essencial perceber o que é que não vai ser substituído por máquinas nos próximos 30 anos.  As nossas capacidades como seres humanos serão vantagens competitivas no mercado de trabalho, porque não poderão ser substituídas por máquinas. É o caso de competências como a compaixão e a capacidade de interagir com os outros.

O professor pegou no exemplo da medicina, que pode preparar profissionais para interagir com um sistema robotizado capaz de fazer cirurgias. Sendo este processo progressivamente automatizado, os médicos que vão ter um papel mais importante serão aqueles “habituados a lidar com os doentes, a sossegar os doentes, a gerir as emoções dos doentes. E isso é que não há máquina nenhuma que faça”.

“Saber quem somos como ser humano é a única forma de manter o rumo.” E, para isso, o professor aconselha “a esquecer o que os pais disseram, porque não há nada pior do que viver a vida segundo as expectativas que alguém criou para nós”.

Fundamentalmente, há uma necessidade urgente de rever a forma como as universidades e as escolas se organizam. “As nossas estruturas não foram desenhadas para o mundo que aí vem, foram desenhadas para o mundo que acabou,” conclui Daniel Traça.

Onde é que queres ir?

A arquitetura do pensamento e a fluência do discurso marcaram as intervenções de José Pedro Cobra Ferreira, que começou por descrever a formatação do ensino numa sequência de etapas, acompanhadas pelos pais até ao destino chamado universidade. Recorrendo à metáfora do GPS, explicou que não vale a pena usar satélites quando não sabemos para onde ir. “Perdemos a ligação ao fundamental, que só pode ser desenvolvida pelo ser humano, que é o propósito.”

O advogado considera estranho que estejamos “a viver numa sociedade construída para todos participarmos, mas na qual, como dizem os Pink Floyd, fomos ficando comfortably numb, isto é, confortavelmente entorpecidos”.

Tomando a liberdade como pano de fundo, o também humorista criticou o modelo que nos formata como dependentes, sempre à espera que nos digam o que temos de fazer. Basta entregar uma folha em branco aos alunos e pedir-lhes para escrever. A primeira questão será “sobre quê?”. E o pânico generaliza-se quando o professor lhes disser “sobre o que quiserem”.

“Estamos à espera que a vida nos diga o que é que temos de fazer. Falta-nos o propósito.” É necessário procurar a individualidade, saber de que forma cada um pode fazer a diferença na vida dos outros. Neste aspeto, recordou o livro Ouvir, Falar, Amar, de Laurinda Alves com o Pe. Alberto Brito, citando os 4P dos propósitos: poucos, pequenos, possíveis e progressivos. “O caminho faz-se caminhando” e é bom ter sempre presente que “nem todos vamos ser Ronaldos nem Mourinhos, mas todos podemos criar impacto naqueles que nos são mais próximos.”

A respeito do propósito, alertou para a angústia projetada pelos pais e educadores que estão sob stress permanente. “Temos todos muita pressa, mesmo sem saber para onde vamos.” José Pedro evocou a poesia de T.S. Elliot para ilustrar a noção presente de que temos tanta informação, mas perdemos conhecimento, perdemos sabedoria e perdemos vivências numa vida que vai sendo cada vez mais formatada.

"Nem todos vamos ser Ronaldos nem Mourinhos, mas todos podemos criar impacto naqueles que nos são mais próximos."

José Pedro Cobra Ferreira, advogado na Teixeira Duarte, humorista e voluntário

Laurinda Alves, a moderadora desta conversa, recorda, a propósito, as palavras de Sophia de Mello Breyner quando dizia que “sabemos mais do que percebemos”. Afinal, hoje temos tudo “à distância de um clique, mas não temos tempo para processar”.

José Pedro Cobra Ferreira destacou ainda o pensamento do israelita Yuval Harari (autor de Sapiens, Homo Deus e, mais recentemente, 21 lições para o século XXI), que sobre educação diz: “A única constante é a mudança”. E avançou a fórmula dos quatro C, presentes na criatividade, espírito crítico, colaboração e comunicação, como ferramentas humanas de excelência para lidar com a mudança.

O advogado e humorista criou um projeto de educação não convencional, com a filha e amigos, que o leva a dar aulas de História on site, isto é, em locais como o Convento de Cristo, em Tomar, ou o Paço Ducal de Vila Viçosa. É uma forma de estimular a sede de conhecimento dos mais pequenos, mas também é um convite à  descoberta da História, através de uma experiência pedagógica inovadora. Recordou ainda o pedagogo brasileiro Rubem Alves, quando diz que “professores e alunos, antes de entrar na escola, deviam entrar numa cozinha e perceber que a arte da sabedoria é como o paladar. É preciso querer. É uma arte do desejo”.

Médias altas. Só?

“Porque é que os alunos não podem servir almoços? Porque é que não podem limpar o chão? Porque é que não podem propor mudanças na escola?”, questionou o responsável pelo Global Teacher Prize, em Portugal, criticando o modelo de funcionamento dos estabelecimentos de ensino.

Afonso Mendonça Reis é ainda o fundador de Mentes Empreendedoras, uma empresa social de educação cujo objetivo é criar uma geração de cidadãos de impacto. A ideia passa por fazer os alunos sentirem-se donos da sua escola. É este tipo de envolvimento que o projeto procura criar para levar os estudantes a questionar aquilo que existe, a fazer propostas de melhoria e contribuir para a comunidade.

É difícil exigir aos alunos que sejam colaborativos e criativos, na universidade ou no mercado de trabalho, quando tais competências nunca foram estimuladas nem promovidas ao longo do percurso escolar. “Há sempre alguém a dizer ao aluno o que deve fazer. E quando ele sai da universidade, dizemos-lhe ‘tens de ter iniciativa, de ser motivado e colaborativo’, quando isso nunca foi avaliado.”

O que tem mais impacto no desempenho escolar dos alunos é a educação dos pais. “Em Portugal, cerca de 36% da população adulta, dos 26 aos 64 anos, tem o ensino secundário concluído. Ainda temos muito caminho para percorrer,” salientou Afonso Reis.

"Há sempre alguém a dizer ao aluno o que deve fazer e, quando ele sai da universidade, dizemos-lhe: tens de ter iniciativa, ser motivado e colaborativo."
Afonso Mendonça Reis, criador de “Inspira o Teu Professor” e responsável pelo Global Teacher Prize

“Enquanto sociedade, temos de pensar como é que vamos resolver os problemas,” desafiou o criador do programa Inspira o Teu Professor, que tem o objetivo de pôr os alunos a refletir sobre o impacto que os professores têm na sua vida e, ao mesmo tempo, produzir conteúdos inspiradores.

Também professor, certo dia, Afonso Reis resolveu perguntar aos alunos qual era o custo, para o Estado de um aluno quando chega ao 10.º ano. Perante a ausência de resposta, Afonso resolveu explicar esse valor, comparando-o com o número de consolas PlayStation que os alunos poderiam comprar, de acordo com os valores publicados pela OCDE. “Num país onde 84% do IRS é pago por 16% das famílias, existe uma fraca consciência do custo dos serviços públicos, como a saúde e a educação.”

Foi durante um encontro no Fórum Económico Mundial, em Davos, que Afonso Reis foi convidado a colaborar com a Fundação Varkey, na altura em que criaram o Global Teacher Prize. Constatando que o papel dos professores não é devidamente valorizado, o bilionário indiano Sunny Varkey decidiu criar uma espécie de Nobel da Educação. “A fundação dá um milhão de dólares ao melhor professor do mundo, com o objetivo de valorizar a educação e, depois, deixa-o a gerir o projeto ao longo de 5 anos, da forma que bem entender.”

Está a ser preparada a segunda edição do Global Teacher Prize que, mais do que o prémio, representa “a oportunidade de pôr os professores a partilhar boas práticas, de envolver famílias e empresas, numa forma diferente de chamar a atenção para a educação”.

Parcerias de sucesso

A experiência Santander na educação é algo apaixonante para Marcos Ribeiro, Coordenador do Santander Universidades, que sublinha o valor acrescentado de uma educação bem fundamentada. O serviço que dirige é responsável pelo cumprimento de uma estratégia de responsabilidade social junto das universidades, com as quais são estabelecidos protocolos de apoio. Todos os donativos da instituição são realizados com objetivos definidos, para conseguir fazer algo mensurável. São contratos de mecenato plurianuais, porque é a médio e longo prazo que se pretende trabalhar um projeto desde início, com uma visão, numa lógica de parceria construída sobre a estratégia da universidade. “Uma organização privada pode e deve fazer sempre o que estiver ao seu alcance para contribuir para uma sociedade melhor.”

Entre o propósito, o impacto e a vontade de aprender, Marcos Ribeiro chama a atenção para a necessidade de compreender porque razão falham os alunos. Atualmente, verificamos que as escolas não têm tempo, nem espaço, para refletir sobre a motivação e sobre o caminho que os alunos querem seguir. Este plano de desenvolvimento é primordial, uma vez que, a partir do momento em que os alunos sabem o que querem, o comportamento passa a ser dirigido aos objetivos. “Há uma ânsia de conhecimento que pode ser imparável”, refere o coordenador, acrescentando que “o professor tem de deixar de debitar conteúdos, porque vai ter uma concorrência cada vez maior dos meios digitais, para passar a ser um coach, um mentor, um performer capaz de entusiasmar os alunos”.

"Uma organização privada pode e deve fazer sempre o que estiver ao seu alcance para contribuir para uma sociedade melhor."
Marcos Soares Ribeiro, director do Santander Universidades

Em contexto de mudança contínua, as organizações devem contar com os seus próprios talentos para inovar e descobrir novas formas de trabalhar e resolver problemas. E as pessoas com um propósito ajudam muito na organização. Marcos Ribeiro não tem dúvidas de que é através da definição do propósito individual que os colaboradores se tornam também mais capazes de ajudar, “mais motivados para contribuir com novos modelos de adaptação e novos modelos de negócio para o futuro”.

É cada vez mais necessário chamar a atenção para aquilo que realmente interessa, eliminando desperdícios e distrações que desviam o foco da resolução de problemas. Valorizar aspetos comportamentais, como a vontade de olhar e compreender o mundo em mudança, “é fundamental para uma organização que deve contar com esse contributo para melhorar e acompanhar o ritmo da evolução”, conclui Marcos Ribeiro, elogiando as ideias desassombradas e esclarecidas dos convidados.

Mais Voluntariado é o tema da próxima conversa que terá lugar no dia 6 de novembro, pelas 18h00, no Auditório 2, Rua da Mesquita, nº 6, 1070-238 Lisboa.

Mais Fortes a Observar é uma iniciativa do Observador e do Santander

Conteúdo produzido pelo Observador Lab. Para saber mais, clique aqui.
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