“Nas páginas que se seguem, os leitores (…) poderão ter dificuldade em perceber como vivi (vivo) a minha vida. Muitas vezes, nem eu percebo. Deixei de tentar.”
O assombro com que Arundhati Roy olha para a própria história chega ao leitor que mergulha em Meu Abrigo, Minha Tempestade, o primeiro livro de memórias da autora de O Deus das Pequenas Coisas, recentemente publicado em Portugal pela ASA, numa data que coincidiu com o lançamento internacional. Originalmente intitulado Mother Mary Comes to Me, verso de uma canção dos Beatles (Let It Be), grupo musical de que Arundhati Roy parece gostar particularmente (nunca fala dos Beatles como sendo a sua banda favorita, mas cita várias canções do grupo inglês), o título é também uma referência à mãe da escritora, Mary Roy, fio condutor da sua história e desta que decidiu contar.
O título da edição portuguesa é uma citação retirada do primeiro capítulo, no qual Roy explica que foi a morte da mãe em 2022 que a motivou a escrever o livro: “Nestas páginas, a minha mãe, a minha gângster, viverá. Ela era o meu abrigo e a minha tempestade”. Esta relação ambígua, absorvente e dependente é o centro em torno do qual a narrativa se constrói. Ao relevar os pormenores mais perturbadores da sua relação com a mãe, uma figura maior do que a vida que viveu segundo as suas próprias regras, Arundhati Roy reflete sobre a pessoa que é, e o caminho que percorreu para lá chegar. Sem Mary não existiria Arundhati, e não apenas porque foi Mary que lhe deu a vida, mas porque foi a sua dureza que moldou e preparou a filha-guerreira para enfrentar o mundo.
A banalidade não tem lugar em Meu Abrigo, Minha Tempestade. A vida da sua autora é uma sucessão de eventos extraordinários, capazes de deixar boquiaberto qualquer comum dos mortais — a infância passada na casa de familiares rancorosos; a vida de dificuldades da mãe separada que fez dos seus dois filhos o bode-expiatório para as suas próprias frustrações; a pobreza em Deli, para onde se mudou para estudar Arquitetura; e a luta para sobreviver e viver da escrita, um sonho de criança.
▲ A capa de de "Meu Abrigo, Minha Tempestade", de Arundhati Roy, na edição portuguesa da Asa
Foi duro o caminho percorrido desde a infância na aldeia da família em Kerala até à publicação do primeiro romance, O Deus das Pequenas Coisas, em 1997 — um momento sem igual que lhe trouxe o reconhecimento nacional e internacional, a riqueza inesperada e o ódio. Roy fala de cada passo dado sem vergonha ou pudor, revelando como a decisão de vir a público falar sobre o que considera estar errado na Índia contemporânea, nomeadamente a política nacionalista hindu e o tratamento dos muçulmanos em Caxemira, lhe trouxe dissabores e o risco iminente da prisão, mas também um sentido para uma existência à deriva. Uma figura incómoda num país que tem ainda dificuldades em aceitar mulheres que não se conformam com as normas sociais estabelecidas, Roy seguiu o exemplo da mãe “gângster” — deixou de ir a casa e tornou-se independente.
Resistir e sobreviver
A vida de Arundhati Roy é marcada pela resistência. Desde criança que luta para sobreviver — ao contexto em que nasceu e cresceu, aos críticos que continuam a tentar fechá-la numa prisão e, sobretudo, à mãe. Essa mãe-coragem que foi também mãe-terror. A narrativa, brutal pela sua sinceridade, revela sem pudor o que Arundhati Roy sofreu às mãos da mãe, instável e narcisista, como isso a moldou e a transformou. No primeiro capítulo de Meu Abrigo, Minha Tempestade, “Gângster”, a autora explica que quis escrever um livro de memórias para tentar compreender “o fosso entre o legado de amor” que a mãe, Mary Roy, “deixou àqueles cujas vidas tocou” e os “espinhos” que lhe deixou a ela, a sua própria filha.
Ao fazê-lo, Roy construiu a imagem de uma mulher-monstro, egocêntrica, indiferente e desumana, cujas conquistas em nada justificam a forma como tratou e maltratou aqueles à sua volta. É de tal forma negro o retrato que a autora pinta da mãe que é impossível associá-la à lendária educadora de Kerala, que fundou uma escola onde meninos e meninas estudavam na mesma sala e que lutou pelos direitos das mulheres da região ao contestar uma lei, o Travancore Christian Succession Act, que impedia que as filhas tivessem acesso à herança paterna.
Apesar de tudo o que é dito e descrito, Mary Roy foi, à sua própria maneira, uma mulher única e extraordinária. Com uma vontade de ferro, ultrapassou a pobreza e a rejeição e tornou-se uma figura adorada e adulada, que vivia rodeada de criados-funcionários que atendiam todos os seus caprichos. Exigente, foram raras as vezes em que disse aos dois filhos que estava satisfeita com eles, muito menos orgulhosa. Para Mary Roy, muito era sempre pouco, e pouco era sempre sinal de mediocridade. O seu verdadeiro amor era o ensino, a que dedicou toda a sua vida adulta. Os filhos, um percalço no caminho. O marido, um erro crasso.
Mother Mary nasceu em 1933, na aldeia de Aymanam, no estado de Kerala, no sul da Índia, numa comunidade cristã. Era a mais nova de quatro irmãos. O pai era um entomologista (especialista em insetos) formado em Inglaterra, que trabalhava para o governo britânico em Deli. O ambiente em casa não era bom e foi sempre marcado pela violência do pai intransigente e controlador. Para fugir da situação, Mary casou com o primeiro homem que lhe propôs casamento. Rajib Michael Roy, o pai dos seus dois filhos, trabalhava numa isolada plantação de chá em Assam, no nordeste da Índia. Era alcoólico e Mary Roy rapidamente se arrependeu de ter casado com ele. Decidiu deixá-lo e mudar-se com os filhos, Lalith e Arundhati, para Ooty, “uma pequena estância de montanha no estado de Tamil Nadu”, onde o seu pai, já morto, tinha uma casa de férias.
Arundhati Roy admite que não tem memórias dos primeiros anos de vida com o pai. Já o irmão, um pouco mais velho do que ela, guardou sempre na memória esses tempos, o que o levou, muitos anos mais tarde, a encontrar Mickey (como Rajib Michael era conhecido entre os amigos e familiares), que continuava irremediavelmente alcoólico, um vício que acabaria por causar a sua morte algum tempo depois. Na perspetiva de Arundhati Roy, a vida começou em Ooty, onde a sua história e o seu livro começam. Mary Roy nunca mais viu Mickey depois de o abandonar na plantação de chá. Não consta que alguma vez tenha tido saudades. Quando a filha lhe contou que tinha morrido, limitou-se a dizer: “Coitado. Era mesmo um Homem-Vão”.
▲ A escritora indiana quando ganhou o Booker com o romance de estreia, "O Deus das Pequenas Coisas", em 1997
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Uma vez estabelecidos na casa do entomologista, Mary Roy arranjou trabalho como professora numa escola local. Pouco depois, a mãe e o irmão mais velho, G. Isaac, chegaram de Kerala para a expulsar. Segundo o Travancore Christian Succession Act, uma antiga lei que definia a distribuição de heranças nas comunidades cristãs do antigo estado de Travancore (atual Kerala), as filhas não tinham direito à propriedade do pai. Por essa razão, alegaram, Mary Roy tinha de deixar a casa imediatamente. Obstinada, Mary recusou-se a fazer o que lhe diziam. Contratou um advogado e conseguiu impedir a expulsão (a lei dizia apenas respeito a Kerala, de onde a família era originária, e não a Tamil Nadu, onde ficava a casa). Apesar de o incidente ter sido rapidamente resolvido, Mary nunca o ultrapassou — anos mais tarde, contestou o Travancore Christian Succession Act e exigiu receber a sua parte da herança do pai, o que lhe foi concedido. A vitória de Mary seria a derrota do irmão e o fim da fábrica de conservas da família.
Foi em Ooty que Mary começou a sofrer de asma, doença que a acompanhou ao longo de toda a vida. Ficou de tal forma incapacitada que teve de deixar de trabalhar. Os filhos, ao abandono, sobreviveram com a ajuda dos vizinhos. A situação chegou a um ponto tal que Mary não teve outro remédio senão engolir o orgulho, fazer as malas e mudar-se para casa da família na aldeia de Ayemenem, em Kerala. Não foi bem recebida, mas a asma melhorou, o que lhe possibilitou voltar a trabalhar.
É de Ayemenem que Arundhati Roy guarda as melhores memórias da sua infância. Os dias passados ao ar livre, junto ao rio, inspiraram a paisagem de O Deus das Pequenas Coisas. Mas é também de Ayemenem que guardar algumas das piores recordações — a mãe, frustrada com a situação em que se encontrava, descarregava “o peso das discussões e a dose diária de indignação que tinha de suportar” em casa da família em cima dos filhos pequenos. “O seu temperamento, já de si mau, tornou-se irracional e incontrolável.” Tornou-se uma marca da sua personalidade.
Em 1967, a vida voltou a mudar — juntamente com Mrs. Mathews (que depois seria afastada das suas funções), uma das missionárias com quem Mary Roy travara amizade em Ooty, a filha mais nova do entomologista fundou uma escola em Kottayam, em Kerala. Arundhati tinha sete anos, Lalithoito e meio. As duas mulheres arrendaram duas pequenas salas que pertenciam ao Rotary Club de Kottayam, que só eram usadas à noite. Todas as manhãs, varriam as beatas e tiravam as chávenas e copos sujos deixados pelos membros do clube na noite anterior, instalavam uma mesa, alguns bancos e um quadro preto, montado num cavalete. Às três da tarde, desmontavam tudo e deixavam o espaço livre para as reuniões. Essa “escola retrátil” foi o início da Pallikoodam, a instituição de ensino que foi o grande amor de Mary Roy e pela qual ficou conhecida.
Quando abriu a escola, esta tinha apenas sete alunos, entre os quais Arundhati e o irmão. Apesar de serem filhos da diretora, as duas crianças não recebiam tratamento preferencial, antes pelo contrário — a mãe gostava de fazer deles um exemplo, disciplinando-os com especial empenho. A relação de mãe e filhos foi sempre marcada por uma “fúria abusiva e intimidatória”, que não tinha nada maternal. Arundhati Roy foi a principal vítima — era constantemente rebaixada e maltratada, física e psicologicamente. Mary chegou a chamar-lhe “cadela”, entre outras coisas igualmente desagradáveis. A forma como Mary Roy tratava as outras pessoas não era nem melhor nem mais empática — a professora exigia dedicação constante e cega, e não admitia ser questionada. Nunca dava o braço a torcer —tinha sempre razão.
A construção de um novo campus e a saída do Rotary Club, que se tinha tornado demasiado pequeno para o número de alunos, cada vez maior, marcou uma nova fase na vida de Mary Roy e também da sua filha que, após conhecer o arquiteto Laurie Baker, responsável pelo projeto, decidiu estudar arquitetura. “Baker era um génio não só por construir a baixo custo, mas por os seus edifícios não terem nada da tristeza ou repetição impiedosa e sem alma que se poderia esperar da arquitetura de baixo custo. Cada um dos seus edifícios era único e tinha alma, alegria e uma irreverência radical que fazia parte da sua personalidade. (…) E, no entanto, apesar da sua singularidade, os seus edifícios não tinham ego. Mal se viam, por se fundirem perfeitamente — de modo tão discreto —no ambiente”, escreveu Arundhati Roy, que, até ao encontro com aquele gigante da Arquitetura, achava que se tornaria escritora.
▲ Arundhati Roy fotografada em Cascais, quando esteve no Festival Internacional de Cultura
JÚLIO LOBO PIMENTEL/OBSERVADOR
E estava certo, mas antes disso acontecer, licenciou-se pela Faculdade de Planeamento e Arquitetura de Deli, uma cidade desconhecida que se tornou sua. Foi em Deli, ainda nos tempos de faculdade, que a autora conheceu o realizador Pradip Krishen, que a convidou para entrar num dos seus filmes, “Massey Sahib”. A colaboração de Roy no filme de 1985 marcou o início de uma colaboração de vários anos com Krishen, uma colaboração que era tanto profissional como pessoal. Arundhati Roy era já uma escritora consagrada quando os dois se casaram, mas o relacionamento não durou e Roy acabou por se afastar, incapaz como é de manter um relacionamento de longo termo (outra herança da mãe).
Apesar de o casal ter seguido caminhos diferentes, profissionalmente, a sua colaboração foi fundamental para a construção da carreira de escritora de Arundhati Roy. A experiência que ganhou a escrever guiões para os filmes de Pradip Krishen (que acabaria por abandonar o cinema para se dedicar à sua verdadeira paixão, as árvores e a floresta) permitiu-lhe dedicar-se ao seu primeiro romance e ao trabalho literário que se seguiu. Meu Abrigo, Minha Tempestade descreve pormenorizadamente o nascimento de O Deus das Pequenas Coisas, — como este germinou na mente da autora, como foi recebido com entusiasmo, assombro e insultos quando foi publicado em 1997 na Índia, e como Arundhati Roy foi atirada para um pedestal depois de ganhar o Booker Prize nesse mesmo ano (“as pessoas ficaram orgulhosas e felizes por uma autora indiana ter ganhado um grande prémio internacional”) e removida do palanque quando se envolveu no ativismo e publicou o seu primeiro ensaio político, O Fim da Imaginação, em 1998, sobre “a Índia se ter declarado orgulhosamente, abertamente, uma potência nuclear”, o que parecia ter alterado a imaginação coletiva indiana e tê-la tornado “radioativa”.
Apesar dos insultos, a publicação de O Fim da Imaginação foi, para Roy, “um alívio”. “Libertou-me e pôs-me a caminho. Durante anos depois disso, vagueei por florestas e vales de rios, aldeias e cidades fronteiriças, para tentar compreender melhor o meu país. Enquanto viajava, escrevia. Foi o início da minha vida inquieta e indomável como escritora traidora e rebelde”, contou. “Mulher livre. Escrita livre. Como Mother Mary me ensinou.”
Adeus, mãe-tempestade
Mary Roy morreu a 1 de setembro de 2022. “As monções haviam recuado, deixando Kerala a brilhar como uma faixa de esmeraldas entre as montanhas e o mar.” O seu funeral, realizado na escola que fundou, foi um evento digno da figura que celebrava — enorme. Vieram pessoas de todos os lados para lhe prestar homenagem — amigos, conhecidos, admiradores e até inimigos. Foi como um romance que Arundhati Roy nunca pensou que teria imaginação para escrever, admitiu.
O desaparecimento de Mother Mary deixou um vazio. Físico, mas também emocional. Para a filha, marcou um momento de viragem. Arundhati Roy sempre viveu assombrada pela presença avassaladora da mãe. Ela era a sua principal inspiração. Sem ela, o que acontecerá à sua escrita? Ela não nos diz, mas de certeza que a pergunta já lhe passou pela cabeça.
Exercício de compreensão e de expiação, Meu Abrigo, Minha Tempestade é uma conversa íntima entre a autora e a sua mãe, que Arundhati Roy abre aos seus leitores, permitindo-lhes entrar na sua vida e conhecer os seus traumas. Um relato franco e direto, também ele parece um romance que poucos escritores teriam imaginação para escrever. Repleto de pormenores interessantes e pouco conhecidos relacionados com a sua vida pessoal, o livro revela o duro caminho da autora até à notoriedade, como surgiram os seus dois romances (O Deus das Pequenas Coisas e O Ministério da Felicidade Suprema), publicados com 20 anos de diferença, e se dedicou ao ativismo. Um caminho constantemente assombrado pela presença da mãe.
▲ Arundhati Roy rodeada de exemplares de "Meu Abrigo, Minha Tempestade" ("Mother Mary Comes to Me", no original)
Toronto Star via Getty Images
A descrição é, de maneira geral, pormenorizada, mas falta a Meu Abrigo, Minha Tempestade a elegância literária dos romances de Arundhati Roy e a agudeza dos seus ensaios políticos. A escrita é seca e a narrativa pobre em reflexões. Falta também contexto. As referências sociais, históricas e políticas nunca são explicadas, como se se partisse do princípio de que os leitores conhecem ao pormenor a história da Índia (ou todos os ensaios da autora?), o que adensa a sensação de que Meu Abrigo, Minha Tempestade é um livro escrito pela autora para si própria. É uma conversa entre ela e a mãe morta a que todos podem assistir.
Uma partilha generosa que chegará aos corações de muitos leitores, Meu Abrigo, Minha Tempestade é uma história interessante, mas que pouco tem para acrescentar ao panorama geral da literatura e, em especial, da não-ficção e do género das memórias. Felizmente, com ou sem livro de memórias, a vida de Arundhati Roy é, por si só, uma lição a ser lembrada.