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Mitos e respostas sobre a menopausa, a etapa que "não é o fim da linha" /premium

Afrontamentos, insónias e até ansiedade são algumas dificuldades associadas à menopausa que não precisam de ser vividas em silêncio. Os tratamentos existem e a conversa não deve ser um tabu.

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São precisos apenas 0,43 segundos para encontrar 8.080.000 resultados sobre a menopausa no motor de pesquisa Google, uma fase na vida das mulheres que, contrariamente ao que muitas possam pensar, “não é o fim da linha” e pode muito bem ser encarada com otimismo. O importante a reter, alertam diferentes especialistas ao Observador, é que a mulher comece a cuidar dela o quanto antes e procure ajuda sempre que necessário. A propósito do Dia Mundial da Menopausa, que se assinala este domingo, 18 de outubro, desfazemos mitos e respondemos a questões essenciais sobre o tema.

Um contexto geral: “Os afrontamentos são mais bem aceites do que a secura vaginal”

“A menopausa é um evento fisiológico que acontece na mulher como consequência da falência da função ovárica, da redução da produção de hormonas sexuais femininas e, como tal, tem consequências: há mulheres que têm sintomas e outras não”, sintetiza Fernanda Geraldes, Presidente da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG). De acordo com um inquérito nacional realizado em maio de 2018, que envolveu mulheres entre os 45 e os 60 anos, 80% das mulheres apresentam sintomatologia vasomotora (calores e afrontamentos), 66% têm alterações do sono, 24% dor nas relações sexuais e 23% redução do desejo sexual. A menopausa, segundo a SPG, ocorre habitualmente entre os 45 e os 55 anos, sendo que a chamada menopausa precoce acontece antes dos 45 e depois dos 40.

Sintomas da menopausa interferem na vida profissional de quase um quarto das mulheres

Calores, afrontamentos, insónias, irritabilidade, perda de memória, perturbações de humor, ansiedade, dores osteoarticulares e muitas vezes secura vaginal são algumas das dificuldades pelas quais as mulheres podem passar durante esta etapa, sintomatologia que atrapalha a vida profissional (em 5% das mulheres consultadas no inquérito já referido os sintomas provocam mesmo absentismo laboral), pessoal e até relacional. A secura vaginal, integrada na Síndrome Geniturinária da Menopausa, é o segundo sintoma mais associado à menopausa, mas também o menos falado ou esquecido. “A mulher tem vergonha. Socialmente é mais bem aceite os afrontamentos do que a secura vaginal”, continua Geraldes.

As três fases do ciclo da mulher:

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  • pré-menopausa – toda a vida sexual da mulher até aos primeiros sinais da menopausa;
  • peri-menopausa – entre os primeiros sintomas da menopausa e até 12 meses depois da última menstruação;
  • pós-menopausa – quando a mulher não tem período há pelo menos 12 meses.

Os mitos associados a esta fase da vida são muitos, com as mulheres a incorrerem no erro de pensar que a menopausa “é o fim da linha” uma vez que a capacidade reprodutora chega ao fim. O grande problema, refere Geraldes, é que “as mulheres desinvestem em si próprias” e “não procuram ajuda”. “As mulheres acreditam que é fim da linha e não é mesmo. A nossa esperança de vida aumentou quase para 83 anos. Um terço da nossa vida é passada na menopausa. Há soluções às quais podemos recorrer”, alerta.

A falta de hormonas vai despoletar o surgimento dos sintomas acima referidos, pelo que a Presidente da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia refere que a terapêutica mais eficaz é a hormonal, ainda que existam outras opções. Existe um grande leque de terapêuticas hormonais, como comprimidos, selos e sprays com dosagens diferentes, refere. “Nós podemos perfeitamente adaptar [estes tratamentos] a cada mulher.”

Menopausa: para que serve, como funciona e como se trata?

O tratamento hormonal sistémico não é para toda a vida, mas sim para os primeiros anos, com a sua aplicação a ser individualizada a cada mulher. Não trata só os calores e a secura vaginal, mas também previne a descalcificação dos ossos. Já a terapia hormonal vulvar e vaginal, que funciona à base de comprimidos vaginais, óvulos, cremes e até gel, pode ser para toda a vida (cada caso é sempre um caso). Mas porque nem todas as mulheres podem ou querem requerer a esta terapêutica, Fernanda Geraldes enfatiza que existem ainda tratamentos não hormonais: “Não são tão eficazes no tratamento dos sintomas, mas também temos de oferecer essa alternativa”.

“Não há qualquer motivo para uma mulher ter a Síndrome Geniturinária da Menopausa”, alerta. “Também há abordagens que não são farmacológicas. A mulher aos 50 anos tem de fazer uma reflexão, alterar estilos de vida e praticar exercício físico, o que é fundamental. É muito importante que haja proatividade. Mas os médicos e os farmacêuticos também têm de ser sensibilizados para esta temática e assim poderem ajudar”, avisa Geraldes, sobretudo quando se percebe que a maioria das mulheres, perante a chegada da menopausa, recorre primeiro ao médico de família e só depois ao ginecologista, ao farmacêutico e à internet.

Relativamente ao risco cardiovascular na menopausa, este acresce em função dos fatores de risco cardiovasculares — hipertensão arterial, tabagismo, colesterol elevado, obesidade e diabetes. O risco cardiovascular deve por isso ser encarado como um continuum ao longo de toda a vida da mulher, refere Regina Ribeiras, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Ainda que as hormonas femininas possam ter um efeito positivo em alguns aspetos da doença cardiovascular, este é anulado se os fatores de risco estiverem presentes. “A prova disso é o acréscimo de cerca de 20% do risco cardiovascular em mulheres em idade fértil fumadoras e utilizadoras de hormonas contracetivas”, esclarece. A mensagem é a de prevenção tão cedo na vida quanto possível.

“Há essa ideia de que, com a chegada da menopausa, acaba toda a satisfação sexual”, diz Lisa Vicente, ginecologista-obstetra com especialização em Medicina Sexual

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Nutrição: “Parece que as mulheres só acordam para isto na menopausa”

A preocupação com a saúde óssea, e naturalmente com o peso, ocorre sobretudo na menopausa, mas a alteração hormonal não justifica muitos quilos a mais. O peso extra advém, ao invés, de um conjunto de circunstâncias: por outras palavras, é o resultado da acumulação de muitos anos de erros associados ao estilo de vida. Quem o diz é Conceição Calhau, professora catedrática na Nova Medical School e investigadora do CINTESIS, Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde. “O contexto importa. Estamos a falar de uma fase em que, por norma, as mulheres já têm os filhos adultos e o casamento desgastado, ou seja, há um conjunto de circunstâncias que pode fazer com que se descuidem muito. Tudo isso tem de ser avaliado em conjunto. A vontade de comer muitas vezes é a compensação de tudo o resto”, assegura ao Observador.

Apelando a um envelhecimento ativo e saudável, Conceição Calhau faz uma comparação: chegar à menopausa e aderir finalmente à preocupação do que é que se come é como ter um carro que só recebe peças novas no final de vida. “Culturalmente, as mulheres têm um papel pilar na família, importam-se com toda a gente menos com elas próprias e este é o reflexo”, continua. “É preciso que as mulheres ganhem consciência de que são o centro de atenção. A menopausa também significa isso, pausa para acordar”, diz, referindo-se à conferência “Mulheres Sem Pausa”, que se realizou a 8 de outubro e na qual participou (à semelhança de outras especialistas consultadas para este artigo).

Em contexto de consulta, a nutricionista Conceição Calhau começa por identificar os erros, ou seja, insiste na pergunta “Porque é que ganhou peso”, uma vez que não existe uma fórmula mágica para todas as pessoas. Tal consiste em fazer um levantamento do estilo de vida, perceber se a atividade física faz parte da rotina, qual a qualidade dos alimentos ingeridos, mas também a quantidade e a respetiva distribuição ao longo do dia, e ainda o sono. Em consulta procura identificar o que não está bem. “Primeiro vamos proceder à alteração do gosto alimentar, ou seja, identificar o que realmente levou a que aquela mulher ganhasse peso. Só assim podemos fazer substituições, porque é preciso que tenhamos uma alimentação prazerosa.” Ainda assim, “o desmame do doce é uma prioridade.”

Conceição Calhau insiste no tópico da distribuição da comida para explicar que passamos a maior parte do dia a comer pouco e, chegada a noite, ingerimos comida a mais. “Um erro muito frequente é o petiscar. As pessoas não fazem refeições, vão petiscando. Mas precisamos de ter oscilações. Parece que hoje em dia as pessoas têm medo de ter fome.” A ideia de comer de três em três horas, por exemplo, destinava-se a combater as refeições muito grandes — as pessoas chegavam à mesa com muita fome e comiam bastante. “Essa recomendação faz sentido mas é preciso contextualizar, as pessoas interpretaram isto em estar sempre a comer”, continua. Para Conceição Calhau, fazer uma refeição às 21h é completamente diferente de fazê-la às 18h30 ou às 19h. “Comer às 21h já é comer fora de horas. O jejum intermitente válido é aquele durante a noite, desde o anoitecer até amanhecer. Tem de haver tempo para a limpeza.”

“Parece que as mulheres só acordam [para isto] na menopausa, como se a culpa fosse da menopausa. A diferença hormonal acontece mas não pode ser justificação para tudo e não é suficiente para ter alterações profundas em mecanismos de saciedade [regulação do apetite]. Muitas vezes a queixa das mulheres é que passaram a comer mais. O mesmo relativamente à acumulação de gordura — isto tem que ver com muitos outros fatores associados estilo de vida”, conclui.

Sexualidade: “As mulheres não devem aceitar o fim das relações sexuais como algo inevitável”

“Há essa ideia de que, com a chegada da menopausa, acaba toda a satisfação sexual”, começa por referir Lisa Vicente, ginecologista-obstetra com especialização em Medicina Sexual. A médica que também pertence à Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica dá exemplo de mulheres que, em contexto de consulta, não se questionam sobre o assunto por acharem que é normal ter menos desejo sexual. “Não procuram ajuda por achar que é uma questão inevitável da menopausa. É importante que as mulheres percebam que com a diminuição de estrogénio pode haver também diminuição de excitação e de lubrificação vaginal. Acontecem alterações cutâneas, nomeadamente na vulva, que podem diminuir a satisfação sexual e, com isso, o desejo. É possível reverter isto com terapêuticas hormonais e não hormonais. Algumas mulheres não procuram ajuda convencidas de que médicos escolhem sempre uma terapêutica hormonal”, comenta ao Observador.

Menopausa: “Vamos deixar de falar dela como uma fase horribilis para a mulher”

À semelhança da intervenção das outras especialistas consultadas, também Lisa Vicente refere que não são apenas as hormonas que interferem na sexualidade, mas também o cansaço, o estado da relação, problemas familiares e/ou até medicação capaz de interferir com o desejo. “Tudo isto pode acontecer noutras fases da vida”, lembra, para depois acrescentar que a menopausa não afeta apenas mulheres heterossexuais. Quer isto dizer que estas são realidades transversais a todas as mulheres, estejam elas numa relação heterossexual ou homossexual, estejam elas sozinhas.

Assim como temos cuidados com a pele do rosto, sobretudo quando começam a aparecer as primeiras rugas, esses sinais inevitáveis de envelhecimento, é preciso também hidratar a pele da vulva. “A vulva também é pele, também precisa de ser hidratada. É uma pele mais frágil, com a fricção pode ficar magoada, mais seca, e pode dificultar o prazer que a pessoa obtém em relações.” É por isso que Lisa Vicente fala em aplicar creme nessa zona tal como se fosse na cara, referindo que os tratamentos em causa não precisam de ser apenas hormonais. “Há muitas pessoas que não querem fazer terapêutica hormonal ou que não podem. Há opções não hormonais, como hidratação da vulva e da vagina.”

"Um terço da nossa vida é passada na menopausa. Há soluções às quais podemos recorrer", alerta Fernanda Geraldes

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Bem-estar emocional: “A menopausa não é um fim, mas sim uma nova fase no ciclo de vida feminino”

A fase da menopausa pode ser acompanhada por medo e tristeza, com o fim da capacidade reprodutora a suscitar também o sentimento de perda da feminilidade, lembra a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. “Considerando que o período de menstruação inerente à idade reprodutiva ou fertilidade acompanha cerca de metade da vida de uma mulher, a perda de fertilidade ou vida reprodutiva pode ser uma fonte de stress, especialmente em sociedades que premeiam a juventude”, refere ao Observador. Isto não significa que todas as mulheres apresentem alterações emocionais durante esta etapa mas há, de facto, condições que podem representar um risco acrescido, como a existência de uma história de depressão, elevados níveis de stress ou uma saúde debilitada.

Em causa está ainda a autoestima da mulher, até porque as alterações da menopausa são visíveis fisicamente e exemplo disso é a pele, dado o aumento de rugas, de uma maior flacidez e do surgimento de manchas. “Há mulheres que notam queda de cabelo e alterações de temperatura corporal súbitas. Muitas também experienciam inchaço e maior tendência para ganhar peso. Se adicionarmos ainda a presença de oscilações de humor, fadiga e diminuição de libido, então, tudo isto poderá fragilizar a autoconfiança da mulher”, continua. Exercício físico, alimentação cuidada e bons hábitos de sono são atividades que podem efetivamente ajudar a regular sentimentos mais negativos.

Se as mudanças da nossa vida deixarem de ser rotuladas de boas ou de más, e se abandonarmos um pouco esta ode à juventude eterna, então, conseguiremos relacionar-nos com a maturidade feminina de uma forma mais saudável. Uma mulher em menopausa pode continuar a ser uma mulher bonita e sensual, pode continuar com desejo sexual tal como manter sonhos e persistir objetivos. A menopausa não constitui um fim, mas sim uma nova fase no ciclo de vida feminino.”

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