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Moda e sustentabilidade. Poderá Portugal ajudar a evitar a catástrofe do século XXI? /premium

A transição para uma economia circular está em marcha e o futuro do planeta depende dela. Na moda, numa altura em que consumo e produção têm de mudar, Portugal quer estar na linha da frente.

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Nunca o que vestimos e calçamos teve um impacto tão grande no equilíbrio do planeta. Nos primeiros 15 anos deste século, a produção de roupa duplicou, tal como a percentagem de peças que é descartada, sem nunca sequer chegar a ser vendida. A indústria ainda não parou de se massificar — porventura só mesmo a pandemia de Covid-19 terá refreado esta atividade global — com ramificações nos setores agrícola, pecuário, petrolífero e dos transportes — trazendo com ela a perda de postos de trabalho, ainda que o cenário verdadeiramente catastrófico venha mais à frente.

As vozes são, sobretudo, otimistas e apontam para um país capaz de ajudar a salvar o mundo. A transição para uma economia circular, que tão depressa soa a realidade inatingível como a inevitabilidade certa, já está em marcha e Portugal quer posicionar-se na linha da frente. Há quem, vendo de fora, fale num país “em vantagem” ao “aproximar produção e reciclagem” — opinião de Laura Balmond, da Fundação Ellen MacArthur, um fecho de ciclo necessário e atrás do qual estão anos de investigação, de inovação tecnológica, de desenvolvimento logístico, de tomadas de decisão e, claro, de investimentos milionários.

A norte, onde a indústria portuguesa se concentra, multiplicam-se os casos de boas práticas. Não é apenas uma questão ética para como ambiente e o planeta, é uma questão de competitividade de mercado, onde os intervenientes globais (marcas e consumidores) tendem a exigir uma resposta mais consciente e responsável às suas necessidades. A sul, o tema é posto em cima da mesa, numa conferência agendada para o final de outubro. Portugal, moda e sustentabilidade — como é que este trio, afinal, funciona?

Utopia ou futuro certo? O mundo a caminho da economia circular

Os prejuízos causados por uma economia linear avolumam-se — sobre-exploração dos solos, desflorestação, contaminação dos cursos de água, emissão de gases do efeito estufa, poluição dos mares e decréscimo da biodiversidade, só para referir alguns dos mais correntes dramas ambientais. A indústria da moda não é alheia a nenhum deles. Dos poderosos pesticidas e fertilizantes usados em culturas intensivas de algodão aos microplásticos libertados em cada casa, sempre que uma peça em fibras sintéticas vai à máquina, falamos, em 2020, de um indústria cujo o lugar na lista das mais poluentes do mundo não é certo.

Amontoado de desperdício têxtil em Savar, no Bangladesh

AFP via Getty Images

Públicos e mais ou menos rigorosos, os números falam por si: cerca de três quintos de toda a roupa produzida no mundo acaba incinerada ou em aterros, apenas no espaço de um ano, segundo dados revelados pela McKinsey; mais de 8% das emissões de gases do efeito estufa são produzidas pelas indústrias do vestuário e do calçado, de acordo com a mesma consultora; 20 a 25% de todos os compostos químicos produzidos no mundo são utilizados na indústria de acabamentos têxteis, isto segundo a Quantis.

Mais números? De acordo com a Fundação Ellen MacArthur, são necessários 342 milhões de barris de petróleo por ano para produzir a atual quantidade de roupa. E a água? Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, são necessários 7.500 litros de água para produzir um único par de calças de ganga, o equivalente ao que uma pessoa bebe em sete anos. Anualmente, a quantidade de água usada pela indústria corresponde ao suficiente para o consumo de cinco milhões de pessoas. O mesmo estudo, divulgado em 2019, concluiu que, todos os anos, são despejadas no mar 500 mil toneladas de microfibras, o mesmo que derramar diretamente três milhões de barris de petróleo.

Moda, uma indústria catastrófica

A solução à vista passa por todos os elementos da cadeia e é ligeiramente mais arredondada. Fazer com que a indústria deixe de extrair matéria-prima e passe, maioritariamente, a reciclar os despojos do que já existe. A ideia não é nova — chama-se economia circular. “Ela funciona em três frentes: a redução do desperdício e da poluição, a continuidade dos produtos e materiais em uso e a regeneração dos sistemas naturais”, explica Laura Balmond, responsável pelo projeto Make Fashion Circular da Fundação Ellen MacArthur, organização criada em 2010 e que opera a partir do Reino Unido com a missão de acelerar a transição (global, não apenas na área da moda) para uma economia circular. Burberry, H&M e Inditex são algumas das empresas que já aderiram ao programa.

Laura tem mais números para lançar para a mesa, nomeadamente os de um estudo levado a cabo pela própria fundação em 2017. Na altura, apenas 1% dos materiais usados para produzir roupa estavam a ser reutilizados para produzir vestuário novamente. Enquanto isso, mais de 70% tinham como fim a incineração ou o depósito em aterro, ao passo que 12% era reaproveitado para produtos de baixo valor, como é o caso de estruturas de isolamento.

"Se olharmos para a evolução da moda, percebemos que estamos a usar cada vez mais recursos e a enviar uma grande parte deles para aterros e que, ainda assim, duplicámos a produção. O curso que esta indústria está a seguir é catastrófico"
Laura Balmond, diretora do programa Make Fashion Circular da Fundação Ellen MacArthur

Dúvidas houve sobre o ritmo a que a produção escala, a mesma pesquisa concluiu que, entre 2000 e 2015, a quantidade de roupa produzida no mundo inteiro duplicou. No mesmo período, diminuiu a percentagem de roupa produzida a ser, de facto, usada. Um decréscimo na ordem dos 40%. “Basicamente, se olharmos para a evolução da moda, percebemos que estamos a usar cada vez mais recursos e a enviar uma grande parte deles para aterros e que, ainda assim, duplicámos a produção. O curso que esta indústria está a seguir é catastrófico”, expõe Laura, em conversa com o Observador.

O adjetivo não é escolhido de ânimo leve. A catástrofe parece ser a última paragem de um comboio que segue à velocidade da sociedade de consumo do século XXI. “O que temos é o contrário de uma economia circular, é uma economia linear — exploramos os recursos, transformamo-los em produtos e esses produtos acabam no lixo. Mudar isto é um desafio enorme e não apenas por causa do volume de materiais que está a ser usado, mas mesmo a própria forma como a roupa é feita, é muito poluente”, continua.

Laura Balmond, diretora do programa Make Fashion Circular da Fundação Ellen MacArthur

Mas o otimismo viaja umas carruagens à frente. Para Balmond, que será uma das oradoras da conferência de dia 23 de outubro, não partimos do zero. Alguns dos agentes que podem ajudar a operar a transição para uma economia circular já existem e estão presentes no nosso dia-a-dia. Fala em novos e mais apurados modelos de comercialização de moda em segunda mão, de ferramentas de aluguer de peças e até dos conceitos estilizados de pre-owned ou pre-loved. Trata-se de manter os produtos em circulação e isso já começamos a ver na moda. Mas temos de atuar nas três frentes em simultâneo e para isso um produto tem de ser desenhado e posto no mercado já a pensar em como poderá ser mantido em circulação e, quando já não estiver a ser usado, em como os materiais poderão ser integrados num processo de reciclagem”, detalha, passando a bola a marcas, cadeias de retalho e equipas de design.

Tommy Hilfiger, Calvin Klein e Timberland. As três marcas ligadas à PVH Corp. não surgem na conversa por acaso. Nas últimas semanas, todas assumiram importantes compromissos rumo à circularidade. “É uma oportunidade para repensarem a forma como vão ao encontro das necessidades dos clientes. De um lado vamos sempre ter pessoas que adoram as suas calças de ganga e a sua t-shirt branca, que querem que elas durem e que estão dispostas a investir sabendo que não têm de voltar a uma loja tão depressa. Essas pessoas, à partida, vão gostar de serviços de reparação e de manutenção e é essa a forma que a empresa tem de fazer dinheiro com esses clientes”, sugere Laura Balmond, que antes de chegar à fundação passou pela Deloitte, na área da consultoria de gestão, já depois de um mestrado em Engenharia Ambiental.

Feita em Portugal, a coleção anual da Tommy Hilfiger a partir do reaproveitamento de tecidos antigos

“Do outro lado do espectro temos a geração Instagram, que quer um visual novo para cada fotografia e estar a par das tendências. Como é que se mantém a moda acessível a estas pessoas? Bem, talvez através de sistemas de aluguer. Mas essas roupas podem ser feitas para durar, porque vão ser usadas por muita gente. Temos de ganhar consciência de que é possível ter um produto mais durável com os mesmos recursos”, remata.

O passo seguinte? Chamar os legisladores à responsabilidade. “É como a história do ovo e da galinha. As empresas vão ter de chamar a atenção dos legisladores e estes vão ter de se inteirar do que está a acontecer para poderem apoiar”, continua. “Se tiver de comparar com outra indústrias, diria que a moda está a demorar um pouco mais a decifrar do que outros setores. Mas a moda foi gravemente atingida pela pandemia, houve vendas que simplesmente desapareceram de um dia para o outro. As pessoas tiveram oportunidade de olhar para o sistema linear atual e de perceber que tem de haver um caminho melhor, não apenas para o ambiente, mas mesmo a nível económico. Isso implica três coisas: a roupa tem de ser mais usada, tem de ser produzida de maneira a poder ser produzida novamente e isso tem de ser feito a partir de matérias-primas seguras e recicladas”.

Scoop, a renovação que veio do lixo

Reciclagem e upcycling são processos diferentes, ambos capazes de minimizar a pegada ambiental da indústria no que toca à gestão de sobras de produção, stocks parados e resíduos têxteis. Em traços gerais, enquanto o primeiro consiste em destruir os materiais para, neste caso, voltar a produzir fio e dar assim origem a novos têxteis, o segundo passa por pegar nas peças e usá-las para criar algo novo, através do design. “Sempre tivemos uma das indústrias mais poluentes do mundo e, durante muito tempo, pensámos que não havia solução para isso”, comenta Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop, unidade de confeção da Scorecode Têxteis, sediada em Vila Nova de Famalicão.

Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop

Samuel Machado

A solução estava dentro da própria fábrica e Mafalda encontrou-a há cerca de seis anos, quando decidiu pedir um levantamento de todos os resíduos têxteis. No final, deparou-se com 150 quilómetros de sobras e com 500 metros quadrados de tecido que não voltaria a ser usado. O que há uns anos encararia como lixo, podia ser afinal o maior ativo da empresa. “Propusemos a criação de uma coleção de loungewear à Tommy Hilfiger, nossos clientes há 20 anos, feita somente a partir do upcycling dos próprios tecidos deles”, recorda.

Em 2016, a primeira coleção cápsula da marca norte-americana chegou às lojas. Desde então, que a Tommy Hilfiger não abriu mão da sua linha anuel de pijamas e acessórios confortáveis que reaproveitam tecidos de coleções passadas. Depois deste, vieram outros casos de sucesso, tal como as atuais experiências feitas na produção de acessórios para uma conhecida marca de fatos de esqui, a partir das sobras de tecido. O luxo a que a norte-americana Cordova já habituou os seus clientes (com peças que andam entre os mil e os 2.400 dólares) começa aqui e eles sabem-nos — na etiqueta já se lê “Made with love in Portugal”.

"A maior parte das marcas não sabem o que deixam para trás, algumas nem querem saber"
Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop

“A maior parte das marcas não sabem o que deixam para trás, algumas nem querem saber. O meu objetivo é ser parceira dos meus clientes e gerar negócio a partir do desperdício deles”, refere Mafalda, que acrescenta ainda que o upcycling representa atualmente 5% da faturação da empresa, que em 2019 foi na ordem dos 11 milhões de euros.

Hoje, são muitos os projetos em curso. A linha de merchandising têxtil oficial do Comité Olímpico Português para Tóquio também foi feita a partir de reaproveitamentos e há muito que está pronta. Gaya, a marca da casa, serve essencialmente de montra do que a Scoop (design, tecnologia e mão-de-obra) é capaz de fazer. Além do upcycling, as peças, cerca de 15 na primeira coleção, trazem com elas toda a informação sobre os materiais que as compõem e a sua proveniência. Está tudo à distância de um QR code, posto numa etiqueta.

Na cabeça de uma nova geração de designers

Recentemente, a fábrica portuguesa atraiu as atenções de jovens designers internacionais. Entre eles está Priya Ahluwalia, uma das vencedoras do Prémio LVMH para Jovens Designers, que este ano, excecionalmente, atribuído aos oito semifinalistas. “Os designers que saem agora das universidades já têm estas preocupações como parte integrante do trabalho”, afirma.

Desfile de Priya Ahluwalia

Getty Images

O futuro a curto prazo passará pela criação de uma rede de jovens criadores em busca de agentes permeáveis a experiências de upcycling. Têm muito com que se entreter, a começar por um stock de cachecóis de futebol, “outra praga” admite. A pergunta impõe-se: o que será feito de projetos ambiciosos como este quando já não houver resíduos nem desperdícios têxteis. Consciente da impossibilidade, Mafalda responde de chofre: “Quando acabar, vou ser a mulher mais feliz do mundo”.

A pandemia como oportunidade para Portugal

Enquanto indústria que move milhões, a moda, à semelhança de toda a cadeia de abastecimento, sofreu um rombo com a pandemia de Covid-19. Portugal não escapou à vaga de cancelamentos de encomendas e de atrasos na chegada de matérias-primas, ao mesmo tempo que o setor aderiu em peso ao esforço nacional de produção de equipamento de proteção.

No ano passado, têxteis e vestuário renderam 5.259 milhões de euros em exportações, número inferior ao de 2018, mas que ainda assim registou um aumento de 3,3% nas vendas para fora da União Europeia. A roupa representou a maior fatia — 60% do que o setor enviou para fora. No total, a indústria representou 12% de todas as exportações portuguesas. Segundo dados da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), a exportações de vestuário caíram 17% no primeiro semestre de 2020 face ao mesmo período do ano passado. O cenário não está distante do cenário comunitário.

Interior da fábrica da LMA Textiles

Samuel Machado

Em abril deste ano, no auge do confinamento na Europa, um inquérito da Deloitte questionou 31 empresas nacionais. A conclusão? Uma quebra no volume de negócios que poderia chegar aos 50% até ao final do trimestre e aos 25% no fim de 2020. No início de setembro, a seguradora Cosec apresentou um estudo que apontou para uma queda de 19% a indústria têxtil e de vestuário em Portugal, entre janeiro e maio. Uma percentagem perfeitamente alinhada com a quebra antecipada para 2020 na Zona Euro, onde o nosso país representa 7% do volume de negócios neste setor. A nível europeu, o estudo concluiu que cerca de 158 mil postos de trabalho e 13 mil empresas podem desaparecer até ao final de 2021. No caso específico de Portugal, a análise apontou para uma recuperação do crescimento a partir do próximo ano.

“As compras não vão desaparecer, mas as marcas vão comprar menos”

Um otimismo relativo, tal como o que é partilhado por Alexandra Pinho, CEO da LMA Textiles e membro da direção da ATP. As preocupações com o emprego são sérias e reais — metade das empresas admitiam, em agosto, reduzir postos de trabalho, segundo dados recolhidos pela mesma associação –, mas a preparação do setor deve igualmente ser tido em conta. “Somos um setor bem desenrascado, habituado a passar por grandes crises. Estamos aqui há tantos anos que nos especializámos muito. As empresas maiores vão sofrer. As compras não vão desaparecer, mas as marcas vão comprar menos. As empresas vão ter de despedir gente — não há volta a dar, é uma questão de sobrevivência. Mas acredito que vamos recuperar até ao final do próximo ano”, admite em conversa com o Observador.

O argumento mais parece crença, mas traz na base o tópico de que tanto se fala. “O futuro é a sustentabilidade e Portugal oferece isso. As grandes marcas são, na maioria, europeias, vão querer produzir mais perto e nós estamos prontos para isso. Quando a vacina chegar, Portugal vai ter de estar muito aberto”, refere ainda. “Se o Governo tiver a capacidade de entender isto e de perceber que estes fundos podem ser canalizados para a indústria — e não falo apenas da têxtil –, em vez de pagar dívidas da máquina pública, poderíamos investir em formação e tornar-nos ainda mais especializados”, conclui.

"As compras não vão desaparecer, mas as marcas vão comprar menos. As empresas vão ter de despedir gente -- não há volta a dar, é uma questão de sobrevivência. Mas acredito que vamos recuperar até ao final do próximo ano"
Alexandra Pinho, CEO da LMA Textiles e membro da direção da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal

O país faz parte de uma espécie de quadro de excelência no que diz respeito a uma produção responsável. E Alexandra afirma-o não apenas como dirigente associativa, mas também como empresária, cujos clientes são sobretudo (80%) marcas de desporto. É um ramo de requisitos técnicos apertados e de constantes desenvolvimentos e apostas em novas fibras — mais leves, resistentes, transpiráveis ou térmicas. Há pouco algodão aqui, estamos no domínio do poliéster. Embora a maior parte das marcas esteja já a trabalhar com fio reciclado, nos metros e metros de tecido que saem daqui para as confeções, este ainda não representa metade da produção.

“Em Portugal, trabalhamos essencialmente para marcas globais, que também fabricam em Itália, na Polónia, na Lituânia, na Tailândia, na Coreia… E o que vende continua a ser o preço, não é a qualidade nem a sustentabilidade”. Fala numa eterna guerra entre custo final e preservação do ambiente, que muitas vezes se traduz num braço de ferro entre equipas de design e departamentos financeiros e nesse o vencedor é quase sempre o mesmo. Muitas marcas hesitam perante a fatura de ter um tecido mais sustentável. “É uma preocupação, da Primark à Kenzo. Claro que a decisão financeira nem sempre cobre isso”, remata.

Alexandra Pinho, CEO da LMA Textiles e membro da direção da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal

Samuel Machado

O progresso nesta área pode não estar a todo o vapor, mas mexe. O poliéster feito a partir de plástico retirado dos mares já não é novidade dentro da LMA. A utilização de algodão orgânico (sobretudo para reforçar materiais à base de fibras sintéticas recicladas) muito menos, apesar de continuar a ser uma matéria-prima natural com uma pegada considerável. Estamos mais à frente, na era dos polímeros biodegradáveis.

Outras soluções destinam-se à recuperação e reutilização de águas, à substituição de compostos químicos e, claro, ao aperfeiçoamento dos processos de reciclagem. A parceria ativa entre empresas e universidades — e outros polos tecnológicos como é o caso do Citeve (Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário) e do CeNTI (Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes), ambos sediados em Vila Nova de Famalicão — desempenha aqui um papel fulcral. Num mundo com novas exigências e necessidades, Portugal mune-se para dar resposta.

Sustainable Fashion Business. Um conferência como sinal de partida

A conversa tem data marcada. A 23 de outubro, na Academia das Ciências de Lisboa, a conferência Sustainable Fashion Business inaugura oficialmente a troca de ideias e factos sobre um futuro mais sustentável para a moda, com um foco nos avanços e potencialidades da indústria têxtil, de vestuário, calçado e joalharia em Portugal.

Também para Catarina Santos Cunha, mentora do formato, a responsabilidade ambiental pode ser um passaporte para catapultar o setor nacional na Europa. O momento é de exceção — da atual crise gerada pela pandemia ao próprio Brexit, passando pelas condicionantes ainda ditadas pelo vírus e pela emergência climática –, as dificuldades são inegáveis, mas a oportunidade é, segundo a consultora, real. “Estamos perante um momento incrível para Portugal. Os consumidores estão a exigir transparência e prontos para ver onde é que as coisas estão a ser feitas. É certo que não podemos competir com a produção em massa, mas principalmente entre estas novas marcas independentes, já há quem olhe de forma diferente para o nosso país”, resume em conversa com o Observador.

Refere-se a um rol de nomes encabeçado por Marine Serre, a menina prodígio da moda francesa que, em 2017, conquistou o prémio LVMH e que, mais recentemente, chamou a atenção de Beyoncé, que vestiu uma das suas criações no videoclipe do tema “Already”, parte da obra “Black is King”. A mesma designer passou recentemente por Portugal, onde converteu quilos de calças de ganga descartadas nos Estados Unidos em peças da sua coleção primavera-verão 2020. A indústria têxtil portuguesa está no mapa, a adaptabilidade às novas necessidades de marcas e agentes criativos também.

As peças em ganga reaproveitadas num desfile de Marine Serre

AFP via Getty Images

Processos de reciclagem e de upcycling começam a ser uma realidade em Portugal. Parte do trabalho em torno deste novo posicionamento passa também pela criação de uma marca. “Somos, essencialmente, makers. Temos uma indústria feita de mão-de-obra. O nosso salário mínimo é de 635 euros, mais baixo do que em países como Espanha e França. Itália, por exemplo, conseguiu criar uma marca — o made in Italy –, um exemplo que Portugal pode seguir. Ao mesmo tempo, se tivermos uma imagem mais idêntica às marcas para quem produzimos, elas vão ter orgulho em nós”, continua.

“Não temos muita noção dos projetos que estamos a desenvolver”, afirma Catarina, que é também fundadora e CEO da Kind Purposes, empresa que presta serviço de consultoria a empresas e organismos públicos na área da moda sustentável. Através da conferência, apadrinhada por José Sá Fernandes, vereador da Câmara Municpal de Lisboa, no âmbito da Capital Verde Europeia, quer pôr os próprios portugueses a par dos últimos avanços do setor. O posicionamento além-fronteiras continua a ser trabalhado. “Diria que a pandemia veio ajudar um bocadinho. O mundo está mais preocupado com a pegada ambiental da moda e uma redução das quantidades deixa a produção muito mais à nossa escala. Neste âmbito, o que temos de fazer é atrair marcas europeias para uma produção praticamente local”, esclarece.

No último ano, Catarina esteve envolvida em projetos na área dos fardamentos, alguns deles para instituições públicas como a Câmara Municipal da Maia e a Águas de Gaia. Nessa frente, o vírus não foi um fator cooperante. O desenvolvimento de fardas a partir do reaproveitamento de velhos equipamentos ficou suspenso. Por outro lado, defende intervenção do Governo na promoção de uma indústria mais verde. Criar políticas de incentivo a quem não polui, por um lado, e educar os consumidores para as vantagens de uma economia circular no que à moda diz respeito são duas das propostas que já fez ouvir. “Da mesma forma que os maços de tabaco passaram a incluir imagens e mensagens chocantes, pode ser feita uma sensibilização para os malefícios da atual produção têxtil”, adiciona.

Catarina Santos Cunha, fundadora da Kind Purposes e mentora da conferência Sustainable Fashion Business

“O Governo tem de olhar para isto. Compreendo que esteja a tentar resolver os problemas do momento, mas o facto é que, se tivermos a capacidade que tivemos nos últimos anos, vamos adaptar-nos e recuperar. É preciso começar a olhar para o país de forma estratégica e a indústria têxtil e o calçado são muito importantes”, remata.

Este e outros tópicos estarão em cima da mesa dentro de semanas, na primeira edição da conferência Sustainable Fashion Business, que contará com a participação de oradores internacionais — Thomas Berry, diretor de sustentabilidade da Farfetch, e o designer de joias Alan Crocetti –, mas também João Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente e da Transição Energética, e o vereador Sá Fernandes, na qualidade de anfitrião. Um evento híbrido, no qual alguns convidados vão participar remotamente. Qualquer um pode assistir, basta efetuar um registo prévio na página da conferência. Existe a opção de assistir via live streaming ou no local. No segundo caso, as limitações na lotação obrigam a uma seleção das inscrições.

Valérius 360, uma fábrica construída para o futuro

Vinte milhões de euros depois, o mais recente projeto da Valérius está praticamente concluído e já começou a laborar. Falamos de uma fábrica inteiramente dedicada à reciclagem têxtil e que criou 80 novos postos de trabalho na região, concelho de Vila do Conde. No interior, o cenário difere muito de uma unidade têxtil convencional. Não há teares, mesas de corte, estações individuais de trabalho, mecanismos urdidores, máquinas de estampagem ou tingimento.

Aqui, os tecidos são separados, consoante cores e composições, as fibras cortadas e, após serem adicionadas novas fibras, nasce o novo fio. Escusado será dizer que a matéria-prima é, precisamente, o que já ninguém quer: restos de stock da própria fábrica, cuja confeção está sediada em Barcelos, e sobras recolhidas junto dos próprios clientes, entre eles a Pangaia, marca fenómeno da  influenciadora russa Miroslava Duma, que durante o confinamento transformou os fatos de treino sustentáveis numa espécie de farda.

Separados por cores, desperdícios têxteis aguardam pela sua vez de serem reciclados na Valérius 260

Samuel Machado

“Esta fábrica fecha o ciclo e somos os únicos na Europa a fazê-lo. A nossa atividade principal é de manufatura de roupa, mas as marcas têm muitas vezes stocks já inutilizados que agora podemos recolher, ou resíduos que podemos nós próprios reaproveitar”, explica Jorge Miguel Ribeiro, chief growth officer (responsável pela estratégia de expansão) da empresa. Se falarmos nos desperdícios das mesas de corte, a percentagem anda entre os 20 e os 25% da peça de tecido inicial. Além disso, a nova unidade do grupo também prevê que os clientes possam deixar aqui desperdícios seus de outras fábricas.

O objetivo está traçado: em 2025, a Valérius quer produzir metade da roupa a partir de matéria-prima reciclada. Além da Pangaia, a COS, do grupo Hennes & Mauritz (H&M), é outra das que toma a dianteira do processo. A relação já vem de trás e a marca foi uma das que deu o primeiro passo para estrear a nova fábrica. Também aqui estamos perante um processo com uma certa escala. A máquina de corte de fibras funciona com uma dose mínima de uma tonelada e não é possível misturar fibras no processo.

"A pandemia veio ajudar um bocadinho. O mundo está mais preocupado com a pegada ambiental da moda e uma redução das quantidades deixa a produção muito mais à nossa escala. Temos de fazer é atrair marcas europeias para uma produção praticamente local"
Catarina Santos Cunha, fundadora da Kind Purposes e mentora da conferência Sustainable Fashion Business

Apesar da matéria-prima ser gratuita, afinal falamos de resíduos, o processo de reciclagem permanece encarecido face à produção de têxteis a partir de fibras novas — entre 20 e 30% apontam na nova Valérius 360. Uma fibra reciclada nunca é, por si só, suficiente para compor um novo fio. É sempre necessário adicionar uma percentagem de fibra convencional — algodão orgânico ou tencel na maioria dos casos. Ainda assim, no final, não sempre o resultado da transformação tem qualidade suficiente para regressarem à produção têxtil. Nesse caso, as fibras são direcionadas para a produção de papel. Por cada seis toneladas de tecido reciclado, a capacidade de produção diária desta fábrica quando estiver a funcionar em pleno), serão produzidas 20 de papel.

Tingimento com ADN, resposta rápida e relação pós-venda. O futuro da confeção têxtil

A reciclagem de fibras têxteis não é a única frente de inovação da empresa. Uma parceira recente com a Universidade de Cambridge permitiu implementar um processo de tingimento com base genética. “Conseguimos tingir vários materiais através de células de pigmentação retiradas da natureza. Por enquanto são apenas 12 cores, mas já há clientes interessados”, afirma Elsa Parente, CEO da RDD Textiles, unidade do grupo voltada para o design e desenvolvimento de novos produtos.

O processo é um pouco mais complexo (em nada tem a ver com as técnicas de tingimento natural já praticadas) e envolve a criação de bactérias em laboratório, as quais passam a ser portadoras das “células cromáticas”. Ao contactarem com a água, as bactérias morrem deixando o pigmento dos tecidos. “É um processo que nos vai permitir reduzir até 90% a utilização de água e componentes químicos e em 40% o consumo de energia. Os ácidos, os solventes e os alcalinos saem do processo de tingimento”, completa.

Elsa Parente, CEO da RDD Textiles

Samuel Machado

É este o campo de ação da RDD Textiles, local de trabalho estreito com uma equipa de mais de 20 designers. Acompanham-se de perto os avanços no que toca à biodegradabilidade dos materiais — dos novos biopolímeros que entusiasmam a indústria (malhas sintéticas biodegradáveis) ao algodão que já se tenta fazer crescer em laboratórios, quase sem água e sem pesticidas. E há fibras naturais, com pegada inferior, que ganham terreno na indústria. Exemplo da urtiga, mais forte do que o algodão e com um bom toque, e do cânhamo, que cultivado na mesma área, rende 250% mais fibras.

De Espanha chegam já corantes naturais produzidos a partir de desperdícios agrícolas. Em dezembro, a Valérius foi a primeira empresa portuguesa a implementar uma nova forma de mercerização do algodão, um acabamento poluente à base de soda caustica. Atualmente, os químicos usados já são reutilizados quase a 100%, garante Elsa Parente.

Mas a tecnologia não faz o trabalho todo. Ao projetar o futuro, Jorge Miguel Ribeiro avista um maior envolvimento da Valérius no ciclo de vida da roupa. “Queremos ser uma empresa de serviços, não apenas de manufatura”, introduz. A responsabilidade está agora do lado das marcas, porque a atual estrutura já possibilita que estas recolham junto dos clientes as peças em fim de vida, encaminhando-as diretamente para um processo de reciclagem. Um modelo que implica que uma marca assuma a responsabilidade pelo seu produto enuanto resíduo, mesmo depois de o vender.

A gestão de stocks é também um desafio. O trabalho recente com a Pangaia educou ambas as partes no sentido de reduzir ao máximo os excedentes de produção. Como? Produzindo apenas o que é vendido. “Funciona num esquema de pre-order. Quando as pessoas compram, as pessoas ainda não existem, nós é que temos já uma estrutura que nos permite produzir e entregar em quatro semanas. Evita-se imenso desperdício”, explica Jorge. “Recebemos a encomenda do que já foi vendido, não do que a marca espera vender. Aí, a nossa rapidez a responder vai ser decisiva”.

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