Não foi exatamente um início de campanha auspicioso para Carlos Moedas. É verdade que conseguiu posar, no mesmo dia, ao lado de Luís Montenegro e Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid. É verdade que conseguiu juntar uns quantos figurões nas filas da frente do Centro de Congressos de Lisboa. E é verdade que é sempre preciso dar um desconto ao trânsito — não é fácil organizar o que quer que seja às seis da tarde de um dia útil, muito menos um grande comício de arranque de campanha. Mas a sala a meio gás que recebeu o recandidato à Câmara Municipal de Lisboa é um primeiro aviso à navegação: a mobilização dos três partidos que compõem a coligação não está, para já, nos níveis que devia estar.
O risco da desmobilização nem sequer é um fator que a equipa do social-democrata desconhece — há muito que Moedas está a tentar dramatizar a campanha para impedir que os seus apoiantes partam para estas eleições com a ideia de que estão ganhas à partida. Na sondagem do ISCTE para o grupo Impresa, publicada ainda em julho, o eleitorado que se posicionava contra o atual autarca aparecia mais mobilizado, com 84% dos eleitores de Alexandra Leitão a darem a “certeza” de que iriam votar. À direita, a fasquia caía para a casa dos 77%, o que indicia que os eleitores potenciais de Moedas estão (ou estavam) menos empenhados na reeleição do autarca. Uma meia-sala no primeiro dia de campanha não é, objetivamente, um bom indicador.
Apesar de tudo, Moedas conseguiu, com as ajudas de Ayuso, uma assumida inspiração para o social-democrata, e de Luís Montenegro, deixar as três grandes mensagens com que quis arrancar esta corrida eleitoral: o centro-direita é o único que tem respostas na área da imigração; é o único que encara de frente o problema da insegurança; e o é o único que oferece a verdadeira liberdade contra o radicalismo de esquerda. Foi esse, aliás, o tom principal da intervenção de Ayuso, a grande convidada deste primeiro dia de campanha.
“Queremos o melhor para Lisboa. Queremos que avance e não recue. Queremos uma forma de vida ocidental, de de segurança, de defesa da lei e das classes médias”, atirou a presidente da Comunidade de Madrid, falando contra aqueles exploram a “ideologia sectária”, a “desesperança” dos mais jovens, que são contra o “êxito”, que põem homens contra mulheres, o público contra privado.
“Os políticos de esquerda pensam que têm uma superioridade moral. Assim têm controlado a Cultura, os meios de comunicação e a opinião pública. Não têm felicidade nenhuma. São uns tristes. Não aceitam o humor, não aceitam a crítica. Há que escolher: socialismo ou liberdade“, despediu-se a espanhola.
▲ A sala do Centro de Congressos de Lisboa esteve longe de estar preenchida
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Moedas ainda não pede a maioria. Mas ameaça
Embalado pela intervenção de Ayuso, Moedas voltou à estratégia que foi tentando impor ao longo de toda a pré-campanha eleitoral: a história desta eleição, insistiu o social-democrata, é o combate entre a moderação e o radicalismo do PS, ainda mais aditivado pela associação ao Bloco de Esquerda e ao Livre. “Lisboa tem hoje uma escolha entre o socialismo que se associou a uma extrema-esquerda radical ou escolher quem tem provas dadas que fez e sabe fazer”, começou por dizer o presidente da Câmara de Lisboa.
Sem nunca pedir a maioria absoluta — ainda que pareça inevitável que a campanha do social-democrata evolua para aí —, Moedas não deixou de sublinhar que estas não são ‘apenas’ mais umas autárquicas. “As eleições de 12 de outubro são o momento definidor de que Lisboa os lisboetas merecem. Tudo aquilo que fizemos em Lisboa nos últimos 4 anos, fizemo-lo em minoria e com bloqueios constantes.”
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Tentando apelar ao orgulho dos tiffosi — “Conseguimos devolver Lisboa aos lisboetas. [Mas] os socialistas continuam a pensar que são os donos disto tudo”, chegou a dizer o social-democrata —, Carlos Moedas defendeu que Alexandra Leitão está refém da agenda da esquerda radical, incluindo daqueles que defendem a ocupação de casas devolutas.
“O programa deste bloco das esquerdas é simples: mais impostos, mais lixo, menos casas, mais ocupas e menos saúde. Os lisboetas não merecem voltar atrás. Dia 12 de outubro não podemos falhar aos lisboetas. Temos todos que ir votar. A escolha está aí: moderação ou socialismo radical? Crescimento ou retrocesso? Confio nas ‘ganas’ dos lisboetas”, despediu-se Moedas.
▲ Lei de Estrangeiros do Governo deu guião a vários autarcas do PSD. Moedas incluído
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
Lei de Estrangeiros dá guião para resto da campanha
A aprovação da nova Lei de Estrangeiros, numa votação que decorreu esta manhã, e a presença de Luís Montenegro num almoço que juntou os autarcas sociais-democratas do distrito de Lisboa acabaram por dar o pretexto perfeito a Carlos Moedas para reclamar para o PSD (e para si próprio, naturalmente) o foco na resposta aos desafios colocados pela imigração.
“A imigração não é um tema dos extremos. Não é um problema cujas soluções esteja nos extremos. Regular a imigração é resolver um problema concreto causado pela negligência e incompetência do PS. É isso que o PSD está a fazer guiado pela moderação assertiva que não ignora os problemas”, elogiou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, confirmando que a campanha em Lisboa não passará ao lado do tema — os sociais-democratas, na cidade e no Governo, estão convencidos que o voto contra do PS no Parlamento e o histórico recente dos socialistas será um handicap para o partido em vários pontos do país.
Perante o olhar atento de Montenegro, Moedas não deixou de voltar a pressionar o Governo a reforçar o número de agentes da PSP ao serviço da cidade. “A segurança é algo que preocupa as pessoas e nós temos de dar resposta a essa preocupação. Aqui em Lisboa isso passa por mais PSP, mais polícias municipais e mais guardas noturnos. Senhor primeiro-ministro, sei que não é fácil, mas quero trabalhar ainda mais consigo e com o Governo para podermos resolver este problema concreto. Não é por mim – é pelos lisboetas”, apelou Moedas.
Depois dele, e alargando a sua intervenção às realidades de muitos concelhos do distrito de Lisboa, Luís Montenegro falou dos três temas: habitação ilegal, insegurança e imigração. No primeiro caso, e com alguma ironia à mistura, o social-democrata responsabilizou as câmaras governadas pelo PS e pelo PCP, “os grandes defensores da dignidade daquelas pessoas”, por estarem a permitir, pela ação ou pela inação, o regresso dos “bairros de lata e das barracas“.
Ao mesmo tempo, e sem nunca responder diretamente aos apelos de Carlos Moedas, Montenegro deu razão ao autarca ao dizer que a questão da segurança é um dos elementos “mais fundamentais” para o bem-estar e prosperidade das cidades. Nesse sentido, o primeiro-ministro argumentou que os números sobre a segurança não contam a história toda. “Para além da análise quantitativa, há também uma análise qualitativa. [Precisamos] de mais polícia na rua, mais operações especiais. Não estamos a contribuir para o alarme social; estamos a contribuir para a tranquilidade”, argumentou o primeiro-ministro.
Sobre a questão da imigração e da Lei de Estrangeiros, que acabou por dominar a agenda mediática e política, Montenegro tentou colocar-se rigorosamente ao centro. “Nós aprovamos propostas dos dois maiores partidos da oposição, propostas de acerto, contributos que tenho de reconhecer que são positivos. É um sinal dos tempos: na anterior legislatura colaboraram entre eles contra o Governo, agora têm alguns pruridos de estar os dois a colaborar com o Governo a favor do país.” O guião serve para os autarcas do PSD por todo o país. E para Moedas também.