No PS há urgências diferentes sobre o pedido de cabeças na sequência do acidente no elevador da Glória — algumas delas aceleradas pela entrevista de Carlos Moedas, no domingo na SIC, que muito enfureceu os socialistas. Mas a estratégia oficial é de contenção, para evitar a etiqueta de “radical” que Moedas tem procurado colar à coligação da esquerda liderada por Alexandra Leitão. Foi a própria candidata quem veio travar tentações esta segunda-feira: “Não peço a demissão de Carlos Moedas”.

Os últimos dias têm sido marcados por comentários — via redes sociais — do antigo líder socialista Pedro Nuno Santos que defende a assunção de “responsabilidade política” por Carlos Moedas. Veio inclusivamente atirar a “viciados nos elogios da direita”, ao escrever que “a direita, nos partidos e na comunicação social, elogia-nos quando somos ‘sóbrios’ e ‘moderados’ nas críticas (…) Há, infelizmente, quem na esquerda se tenha viciado tanto nos elogios da direita que já não consegue viver sem eles.” A tirada foi lida como crítica à estratégia de moderação do PS nesta fase.

Não é o único, dentro do partido, a considerar que só aquilo que Moedas proclamou em 2021 sobre Fernando Medina e o ‘Russiagate’ já é suficiente para exigir a sua saída. O próprio líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, disse que Moedas “sabe qual é a única decisão” a tomar “para manter a coerência política”, depois de, em 2021, ter pedido a demissão de Medina no tal caso.

E até Fernando Medina, que começou por ser contido na análise ao caso, confessou esta segunda-feira, na rádio Renascença, que não conseguia manter o silêncio depois da entrevista de Moedas, acabando por acusar o seu sucessor na CML: “Moedas mente para fugir do Moedas oportunista de 2021”. “Moedas de 2025 já está demitido por Moedas de 2021”, disse sobre o social-democrata que mostra que “não tem palavra, que não tem idoneidade para o lugar que ocupa.”

Também Francisco Assis escreveu nas redes sociais, esta noite, para elogiar a “excecional dignidade” de Leitão na resposta à situação, embora também tenha uma opinião clara sobre o caminho que Moedas deveria seguir. O eurodeputado socialista defende que o comportamento do autarca na gestão deste caso e os ataques que fez ao PS devem-se a “um dramático conflito interior porque ele sabe que não está a agir de acordo com os padrões que estabeleceu para outros. Isso deve ter um efeito psicológico devastador e tem como consequência a perda de condições para exercer com o mínimo de dignidade as funções de Presidente da Câmara de Lisboa”.

Outro alto quadro do partido diz ao Observador que está em causa a “preservação da imagem do Estado” e Moedas tem, já neste momento, “um problema de natureza ética e de credibilidade pessoal”. Vai mais longe ao dizer que “um candidato a presidente da Câmara devia dizer o que faria na mesma situação, para ganhar autoridade moral sobre Moedas”.

Sobre o caso concreto do acidente com o elevador da Glória, a mesma fonte defende mesmo que já existem dados, na nota do gabinete de investigação conhecida este sábado, que permitem a atribuição de responsabilidades, se não a Moedas diretamente, pelo menos ao presidente da Carris. Mais pedidos neste sentido poderão tomar forma entre socialistas nos próximos dias — embora a Moedas o que se aponte seja sobretudo a questão “ética” e de “coerência”.

Há ainda outros elementos do partido que notam, em tom de crítica interna, que o próprio Presidente da República já disse mais do que o PS sobre Moedas. Este domingo, Marcelo deu uma no cravo e outra na ferradura: ao mesmo tempo que disse que já houve casos mais graves, também veio assumir sem meias palavras que o presidente da CML tem “responsabilidade política”. Considerou importante a “responsabilidade objetiva não morrer solteira“, ainda que a empurre para depois de concluídos os relatórios e, no limite, que o “juízo político” acabe por ser feito pelos eleitores, a 12 de outubro.

Socialistas irritados com referência a Coelho. Leitão trava subida de tom

A expressão que foi usada por Marcelo nas suas declarações sobre o caso tem especial peso no PS porque remete para Jorge Coelho, o ministro socialista que se demitiu depois da queda da ponte de Entre-os-Rios, em 2001, por não querer deixar a “culpa morrer solteira”. Um episódio dado como exemplo de ética na política, entre socialistas, mas que Carlos Moedas tentou afastar da sua situação atual ao dizer, na tal entrevista à SIC, que o socialista se demitiu por ter informação, prévia ao acidente, sobre o estado da ponte em causa.

A versão desse momento irritou socialistas que rapidamente acusaram Moedas de “mentir” sobre o caso e de “cobardemente, ofender a memória de um homem digno”, como chegou a escrever o deputado Filipe Neto Brandão sobre Coelho. Medina também falou nesta parte da entrevista do seu sucessor na CML para dizer que “é completamente falso e profana a memória de Jorge Coelho. Todos os factos provam que o que Moedas diz é mentira. Houve um relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e comissões de inquérito.”

Alexandra Leitão não deixou de lamentar as mesmas declarações de Moedas sobre o antigo ministro socialista que morreu em 2021, mas na entrevista à SIC desta segunda-feira aproveitou também para sobrepor a sua a todas as vozes socialistas que reclamam por outro caminho.

Quando foi confrontada com as posições diferentes da sua manifestadas por alguns socialistas, como Pedro Nuno Santos, a candidata socialista à CML começou por dizer que respeita as opiniões. Ao mesmo tempo lembrou que conta a voz de quem está ao comando neste momento: “Não creio que o partido esteja a falar a mais do que uma só voz. Todos os partidos falam pelo secretário-geral e pela candidata à CML, que já falou.”

“Não peço a demissão de Carlos Moedas”, voltou a dizer sobre o assunto onde tem o respaldo do líder do partido, José Luís Carneiro. E também do presidente Carlos César que assinalou, nas redes sociais, que “fez muito bem a Alexandra Leitão em não responder na mesma moeda” ao presidente da CML que chamou “sicários” a alguns socialistas insinuando que pudessem estar concertados com a candidata e a pedir a cabeça de Moedas (caso de Pedro Nuno ou de Eurico Dias), permitindo que a própria se resguardasse.

Leitão recusa a existência de uma “combinação” nesse sentido e diz que o que disse é o que pensa e que daqui não pretende sair, pelo menos enquanto não tiver dados conclusivos na mão — o que também vai dizendo que não tem pressa que aconteça. “O relatório não pode ser apressado, tem de ter qualidade técnica (…) Não me ouvirão pedir coisas apressadas.”. O prazo de 45 dias para a existência de conclusões sobre o acidente parece não incomodar o PS que, dessa forma, manterá sobre a cabeça de Moedas um elemento de desgaste de peso.

Mas dentro do PS-Lisboa também se receiam os efeitos de uma campanha que acabe afunilada na questão do elevador. “É um erro crasso”, assume um socialista em conversa com o Observador, fazendo a comparação possível com o uso do caso Spinumviva na campanha das legislativas e o resultado que isso deu.

O caso, diz o mesmo socialista “até pode desmobilizar algum do eleitorado de direita”, mas “o PS só vai buscar esses votos se conseguir demonstrar que é mais credível para governar” e isso faz-se com a “apresentação de propostas”, aponta rejeitando que as questões do elevador acabem como tema único. “Para mobilizar a sua base de apoio, o PS tem de sinalizar que Moedas é um mau presidente e apresentar o seu projeto”, reforça outro socialista no mesmo sentido.

Leitão tem tentado pegar no tema pela falta de “respostas e de soluções” apresentadas por Moedas nos primeiros dias pós-acidente, tentando afirmar que foi o PS que, na CML, tomou a dianteira política da situação ao apresentar a proposta de um fundo para as vítimas e as suas famílias. Também já defendeu a necessidade de rever os protocolos de vistoria, modernizar a tecnologia dos elevadores e ainda de voltar a ter a Carris a fazer a manutenção destes equipamentos, em vez de empresas privadas contratadas para o efeito.

“Nós somos os moderados”, comenta um socialista em defesa da estratégia de contenção no uso político do acidente. “Do ponto de vista tático não precisamos de ser nós a pedir a demissão, outros irão fazê-lo por nós”, defende outro socialista na mesma linha. Mas também há quem, no partido, questione a resistência da candidata à tentação de avançar sobre Moedas: “Quanto tempo vai aguentar?”.