Quatro dias depois do acidente que vitimou pelo menos 16 pessoas, Carlos Moedas sujeitou-se pela primeira vez este domingo às perguntas da comunicação social. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa aproveitou a entrevista à SIC para ensaiar a sua narrativa de defesa e para tentar sacudir a pressão política de que tem sido alvo ao longo dos últimos dias. “Nesta tragédia, não há nenhum erro que possa ser imputado a uma decisão do presidente da Câmara. Se alguém provar o contrário, demito-me no dia.”
Primeiro, o autarca usou a nota informativa publicada ontem, sábado, para tentar reforçar a ideia de que não houve qualquer decisão por ele tomada que tenha contribuído, direta ou indiretamente, para o acidente no Elevador da Glória. “Se alguém provar que Carlos Moedas não deu condições a essa empresa, que o orçamento da empresa diminuiu, se alguém provar que essa empresa diminuiu o nível de manutenção, então aí há responsabilidade política“, desafiou o social-democrata, falando sobre si na terceira pessoa.
O relatório do gabinete de investigação e prevenção de acidentes concluiu que o cabo não partiu, mas antes cedeu no ponto de fixação; que a fiscalização que foi feita no dia do acidente não tinha como detetar a possível anomalia que esteve na origem do acidente; que os planos de manutenção foram cumpridos; que os travões de emergência foram devidamente acionados; que o guarda-freios fez tudo ao seu alcance para impedir o acidente; e que o sistema de redundância, tal como estava desenhado, nunca seria capaz de travar o elevador.
Usando estes dados do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), o presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi repetindo várias vezes ao longo da entrevista que não há qualquer indício capaz de provar que decisões tomadas por ele ou pela atual administração da Carris (escolhida por Moedas) estão de facto relacionadas com o acidente.
De todo em todo, existe a dimensão da responsabilidade política — ainda este domingo, Marcelo Rebelo Sousa disse claramente que o presidente da Câmara é o responsável público e que será julgado nas urnas pelo que fez e pelo que não fez. Sem nunca responder diretamente a Marcelo, Moedas foi sucessivamente confrontado com o facto de, em 2021, ter pedido a demissão de Fernando Medina na sequência do “Russiagate”. Nessa altura, recorde-se, o então candidato do PSD à autarquia disse claramente que era “muito grave” o facto de Medina não assumir a “responsabilidade política” quando estavam em causa “vidas humanas“.
Já na quarta-feira, citando fontes próximas de Moedas, o Observador antecipava a principal linha argumentativa do autarca: o que esteve na origem do ‘Russiagate’, dizia-se no núcleo duro do social-democrata, tinha sido um procedimento errado seguido habitualmente pela Câmara de Medina; no caso do elevador da Glória, não foi possível (até ao momento) relacionar qualquer falha da administração da Carris (e, por arrasto, da Câmara de Lisboa) com o acidente.
Ora, foi isso mesmo que Moedas fez esta noite na SIC. “Não podemos comparar um caso com o outro. A responsabilidade política é minha, mas não posso interferir na gestão da empresa. Só posso dar condições para que essa empresa funcione. E foi isso que fizemos. Se alguém provar o contrário, obviamente demito-me. Na hora”, repetiu o social-democrata.
Depois, Moedas foi confrontado com o exemplo de Jorge Coelho, que, em 2001, deixou o governo liderado por António Guterres na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios. E também aí tentou traçar as diferenças entre os dois casos. O gabinete de Jorge Coelho, sublinhou Moedas, tinha recebido informações que apontavam para a fragilidade da estrutura ainda antes do acidente; ele, pelo contrário, não recebeu qualquer sinal nesse sentido. “Responsabilidade política é quando o político sabe e não atua. Alguma coisa chegou ao meu gabinete que dizia… Isso não aconteceu. E tenho muito pena. Podia ter tomado decisões”, insistiu.
Moedas lançou também dúvidas sobre a atuação da anterior administração da Carris e, por arrasto, sobre as decisões tomadas pela Câmara sob supervisão de Fernando Medina. O autarca recordou que em 2018 houve um acidente com o mesmo elevador e que, até ao momento, não foi possível encontrar qualquer relatório — nos últimos dias, o Observador tem pedido insistentemente à Carris o acesso a esse mesmo documento, mas sem sucesso. “Não consigo encontrar nenhum relatório desse acidente. Onde está? A administração da Carris diz-me que naquela altura aquele acidente não teve qualquer relatório”, notou.
O presidente da Câmara de Lisboa falou sobre o pedido de demissão de Pedro Bogas, presidente da Carris, e da disponibilidade manifestada por Filipe Anacoreta Correia, atual vice-presidente da Câmara, para sair. Mas recusou qualquer fuga para a frente. “Daqui ninguém sai. Ninguém se demite. É uma cobardia. Não vou deixar. Estamos aqui para enfrentar a realidade”, atirou o social-democrata. Mais à frente nessa entrevista, Carlos Moedas elogiou Pedro Bogas. “Tem uma enorme experiência. Não tenho como não confiar. Neste momento, não temos nada que se possa dizer que houve um erro. Seria uma irresponsabilidade.”
Por fim, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que terá de ir a votos no próximo dia 12 de outubro, lançou-se diretamente contra a sua principal adversária — que, sublinhe-se, até ao momento não pediu a demissão do autarca, resistindo às pressões de algumas figuras influentes do PS, com Pedro Nuno Santos à cabeça. Moedas não se deixou comover com a aparente moderação de Leitão e acusou a adversária de “cinismo“.
“Revolta-me muito ver que certo partidos políticos, de uma maneira direta ou dissimulada, politizem a tragédia. É o caso do PS/Lisboa. Tem uma candidata que não vem pedir a minha demissão, mas encarrega depois todos os seus sicários [de pedirem a minha demissão]. Foi muito cínico, dissimulado e isso revolta-me na política. Não quero ter um país de cinismo”, rematou Moedas.