“Cinco da matina, já todos caminham pr’o mesmo enredo/Porque a vida nos subúrbios começa sempre mais cedo/É um povo escravizado nesta sociedade de extremos/Trabalham duas vezes mais e ganham duas vezes menos“. Foi um cenário em tudo semelhante ao que é descrito pelo rapper Valete no arranque da música Subúrbios (2009) que Mariana Mortágua quis mostrar ao país na madrugada desta terça-feira.
Se é possível discordar dos termos da análise que o rapper — que é de esquerda (embora apoiante da CDU) — faz da condição destes trabalhadores, no horário, pelo menos, Valete acertou. Foi pouco antes das cinco e meia da manhã que a líder do Bloco recebeu, na Damaia, um grupo de trabalhadoras domésticas para com elas realizar parte do percurso de autocarro até aos respetivos locais de trabalho. Numa ação de campanha direcionada a um grupo social que é um das grandes apostas do BE para estas legislativas — os trabalhadores por turnos —, Mortágua retratou a situação destas pessoas seguindo a linha traçada há mais de 15 anos por Valete, ele também com ligações à Damaia.
“Há todos os dias milhares de pessoas que se levantam de manhã para apanhar os transportes. São as pessoas que trabalham por turnos, são quem faz o trabalho doméstico. São normalmente as pessoas que têm as vidas mais difíceis e ganham os salários mais baixos e se reformam mais tarde.” Mesmo fazendo referência aos condutores dos autocarros e funcionários dos comboios, a coordenadora nacional do BE disse que estes trabalhadores “são maioritariamente mulheres”.
Duas dessas mulheres tiveram uma madrugada mais atribulada do que o normal. Adelina e Fernanda, residentes na Cova da Moura e membros do Grupo das Mulheres do Serviço Doméstico, falaram com os jornalistas à frente da Escola Dom João V antes de apanharem o autocarro 711 — a primeira de três carreiras que percorrem para chegar às casas e empresas, em Lisboa, nas quais prestam serviços de limpeza.
Adelina Fortes contou que acorda todos os dias às 4h30 e que, todos os dias, só volta à Cova da Moura, por volta das 22h. “Quando saio desta empresa de manhã, vou para a patroa. Quando saio da patroa, vou para outra firma, à noite”, explicou a trabalhadora doméstica que avisou aos jornalistas que às 6h, dali a trinta minutos, tinha de estar pronta para começar o seu primeiro serviço, na Ajuda. Pelo trabalho nessa empresa, Adelina conta que recebe “trezentos e tal euros ao fim do mês”. Ainda que complementados pela remuneração que recebe da “patroa” admite que continua a ser insuficiente para o seu sustento.
Fernanda dos Santos, de 48 anos, descreveu uma situação muito semelhante: num dia, três turnos de quatro horas, em diferentes moradas. “Nós domésticas somos a base do mundo. Sem nós, não há vocês, não há Assembleia, não há primeiro-ministro”. Enquanto a colega de profissão afirmava que a profissão lhe tira o tempo e que o salário não lhe permite momentos de lazer, Adelina ficava mais irrequieta. “Eu já vou, porque não vou apanhar o autocarro. Desculpem, mas…”, avisou, antes de começar a correr em direção à paragem de autocarro.
Apanhados de surpresa pelo passo acelerado da empregada doméstica, os elementos da equipa do Bloco de Esquerda seguiram rapidamente Adelina naquele trajeto de cerca de duzentos metros, correndo o risco de perder a sua ação de campanha, e os jornalistas acompanharam, correndo o risco de perder a notícia. Mesmo com um autocarro a chegar nesse preciso momento à paragem, apenas aqueles que não correram ficaram de fora do 711. As protagonistas estavam lá: Mariana e as trabalhadoras domésticas.
Ali dentro, encontrariam mais pessoas pessoas com destinos semelhantes. “É só mulheres e africanos”, indicou uma das passageiras do transporte a Mariana Mortágua. Feita uma rápida paragem, a comitiva entrou num segundo autocarro, desta feita o 758 com destino no Cais do Sodré. É então que a líder bloquista encontra uma passageira com vontade de falar de política: “Eles na Assembleia é só mentira. O meu voto é sempre PS, ninguém me engana mais”.
A cabeça de lista do BE por Lisboa aceitou a provocação e aproximou-se para falar com esta mulher. Entretanto, Mortágua saiu de vez na paragem da Igreja de Benfica, enquanto as trabalhadoras domésticas continuavam o seu trajeto. Na despedida, a eleitora socialista concedeu: “A senhora fala bem, é um prazer. Se não fosse o PS, eu votava por si.” Ao que a bloquista respondeu: “Eu fico com esse consolo. Pode ser que o PS venha apanhar o autocarro às 5 da manhã”.
Governação à esquerda depende de acordo formal
Ao longo do dia, houve espaço para as eventuais tiradas contra o PS e a direita. Começou logo de manhã, com Mortágua a considerar “irónico” que Aníbal Cavaco Silva tenha atestado pela ética de Luís Montenegro. Lembrou o caso BPN — no qual Cavaco Silva foi criticado por ter lucrado 147 mil euros com a venda de ações do banco apenas dois anos após a compra — e o caso BES — referindo-se ao apelo do também antigo primeiro- ministro de confiança neste banco dias antes de ser anunciada uma intervenção estatal ao mesmo. Este último argumento foi, curiosamente, também utilizado por Pedro Nuno Santos.
À esquerda, Mortágua respondeu aos apelos vindos de Pedro Nuno Santos e de Rui Tavares para que a esquerda apresente uma solução de estabilidade. Sem fechar a porta a essa possibilidade, não acompanhou a jogada dos outros líderes, reiterando que os bloquistas estarão “sempre à altura das responsabilidades que os portugueses nos decidirem dar”.
Mariana Mortágua mostrou-se com mais vontade de discutir as medidas que o partido defende. “A estabilidade não é um termo vazio, tem de corresponder às condições de vida, caso contrário só há frustração.” Uma vez encontrado o consenso ao nível das políticas, haverá ainda uma condição à qual os socialistas terão de responder para contar com a coligação do BE: um acordo formal por escrito. “Não encontro outro acordo que não seja escrito, mas o mais importante é o que está lá escrito”.
Abordando o apelo que tem sido cada vez mais feito no arranque da campanha, denunciou a forma como “se chantageia as pessoas com uma falsa estabilidade”. Mortágua não considera que um voto a mais em Pedro Nuno Santos ou em Luís Montenegro seja o garante desse horizonte sem turbulência. Mencionando várias propostas para o aumento dos salários, nomeadamente dos trabalhadores por turnos com um complemento remuneratório de 30%, a coordenadora do BE garantiu que, antes de mais, a estabilidade é necessária na vida das pessoas. Essa quando se desequilibra causa a instabilidade política, defendeu.
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Na rua onde vivia Odair Moniz, Mortágua ouviu “queixas de abandono”
Passadas quase 12 horas, a campanha regressava à zona da Amadora para voltar a ouvir o “Portugal invisível” que tentou dar a ver de manhã. O Bloco de Esquerda marcou para a tarde desta terça uma conversa com os moradores do Bairro do Zambujal, realizada na sede da associação “A Partilha”. Justificando a concentração de duas ações de campanha nesta parte periférica de Lisboa, Mortágua disse: “Queremos que Portugal inteiro se sinta ouvido e que as pessoas sintam que a política é para elas”.
A coordenadora do Bloco de Esquerda partilhou com a imprensa que ouviu “queixas de abandono” ao falar com os habitantes daquele bairro. “Não podemos falar só dos bairros esquecidos como se falou depois do assassinato de Odair Moniz.” Mortágua assinalou que o homem cabo-verdiano assassinado por um agente da PSP vivia na rua onde decorria a ação de campanha. E acrescentou que depois da “atenção mediática” recebida por casos como este, ocorrido em outubro de 2024, ficam as “comunidades que o Estado abandona”.
Após uma visita a um ATL onde as crianças do bairro passam algum do seu tempo após o horário escolar, Mariana Mortágua apontou para o Zambujal como um exemplo de “uma comunidade que se organiza para prestar os serviços que o Estado não consegue prestar”. Com o intuito de reforçar a mensagem da campanha desta terça-feira, a líder partidária trouxe à discussão a notícia da distribuição de dividendos de mais de mil milhões de dividendos aos acionistas do Novo Banco. “O Estado investiu oito mil milhões naquele banco, limpou aquele banco, e agora o acionista privado, a quem o Governo doou aquele banco de mão beijada vai sacar mil milhões em dividendos”. E concluiu: “Por trás de cada bairro pobre há uma minoria que vive com o sacrifício deste país”.